**ÍNDICE**

**LIVRO I**

**CAP.** | **PÁG.**
I. Das coisas que estão em nosso poder e que não estão em nosso poder
II. Como um homem pode, em todas as ocasiões, manter seu caráter próprio
III. Como um homem deve proceder do princípio de que Deus é o Pai de todos os homens para o restante
IV. Do Progresso ou Melhoramento
V. Contra os Acadêmicos
VI. Da Providência
VII. Do uso dos argumentos sofísticos e hipotéticos, e semelhantes
VIII. Que as faculdades não são seguras para os não instruídos
IX. Como, do fato de sermos aparentados a Deus, um homem pode proceder às consequências
X. Contra aqueles que buscam avidamente preferência em Roma
XI. Da Afeição Natural
XII. Do Contentamento
XIII. Como tudo pode ser feito de modo aceitável aos deuses
XIV. Que a Divindade supervisiona todas as coisas
XV. O que a Filosofia promete
XVI. Da Providência
XVII. Que a Arte Lógica é necessária
XVIII. Que não devemos nos irar com os erros (faltas) dos outros
XIX. Como devemos nos comportar diante de tiranos
XX. Sobre a Razão e como ela contempla a si mesma
XXI. Contra aqueles que desejam ser admirados
XXII. Das Precognições
XXIII. Contra Epicuro
XXIV. Como devemos lutar com as circunstâncias
XXV. Sobre o mesmo assunto
XXVI. Qual é a Lei da Vida
XXVII. De quantas maneiras as aparências existem, e que auxílios devemos providenciar contra elas
XXVIII. Que não devemos nos irar com os homens; e quais são as coisas pequenas e as grandes entre os homens
XXIX. Sobre a Constância (ou Firmeza)
XXX. O que devemos ter pronto em circunstâncias difíceis

**LIVRO II**

I. Que a Confiança (Coragem) não é inconsistente com a Cautela
II. Da Tranquilidade (Liberdade de Perturbação)
III. Àqueles que recomendam pessoas aos filósofos
IV. Contra uma pessoa que fora uma vez surpreendida em adultério
V. Como a Magnanimidade é consistente com o Cuidado
VI. Da Indiferença
VII. Como devemos usar a Adivinhação
VIII. Qual é a Natureza (ousia) do Bem
IX. Que quando não podemos cumprir o que o caráter de um homem promete, assumimos o caráter de um filósofo
X. Como podemos descobrir os deveres da vida a partir dos nomes
XI. Qual é o Começo da Filosofia
XII. Da Disputa ou Discussão
XIII. Da Ansiedade (Solicitude)
XIV. A Naso
XV. A ou contra aqueles que obstinadamente persistem em

O QUE ELES DETERMINARAM ....

XVI.

Que não nos esforçamos para usar nossas Opiniões

SOBRE o Bem e o Mal

XVII.

Como devemos adaptar as Preconcepções aos casos

Particulares

XVIII.

Como devemos lutar contra as Aparências . 158
XIX.

Contra aqueles que abraçam Opiniões Filosóficas

apenas em Palavras

XX.

Contra os Epicureus e Acadêmicos . .

CONTEÚDO.

IX

CAPÍTULO

XXI.

Da Inconsistência .......

XXII.

Da Amizade

XXIII.

Sobre o Poder de Falar .....

XXIV.

A (ou contra) uma Pessoa que era uma daquelas

QUE não eram valorizadas (estimadas) por ele . .

XXV.

Que a Lógica é necessária

XXVI.

Qual é a Propriedade do Erro ...

LIVRO III.

I. Do Ornamento no Vestir

II. Em que um Homem deve ser exercitado que fez
Progresso; e que negligenciamos as Coisas
Principais .

III.

Qual é a Matéria na qual um Bom Homem deve
estar empregado, e em QUE DEVEMOS PRINCIPALMENTE
EMPREGAR-nos ......

IV. Contra uma Pessoa que mostrou seu Partidarismo de
MANEIRA indecente num Teatro . . . 207
V. Contra aqueles que por causa de Doença vão
PARA CASA

VI. Diversos

VII.

Ao ADMINISTRADOR das Cidades Livres que
ERA Epicureu

VIII.

Como devemos exercitar-nos contra as Aparências
{(pavracriai) .......

IX. A um certo Retórico que ia subindo a
ROMA NUM Processo . . . . . . .

X. De que Maneira devemos suportar a Doença . 222
XI. Certos Assuntos Diversos ....

XII.

Sobre o Exercício .......

XIII.

O que é a Solidão, e que Tipo de Pessoa um
Homem Solitário é

XIV.

Certos Assuntos Diversos .... 233
XV. Que devemos proceder com Circunspeção
EM TUDO

XVI.

Que devemos com Cautela entrar em
RELAÇÕES Familiares com os Homens . . .

XVII.

Da Providência

XVIII.

Que não devemos ser perturbados por qualquer
Notícia

XIX.

Qual é a Condição de um Homem Comum
E de um Filósofo

CONTEÚDO.

CAP.

PÁG.

XX. Que podemos derivar Vantagem de todas as Coisas
Externas

XXI.

Contra aqueles que prontamente vêm à Profissão
de Sofistas . .... 244
XXII.

Sobre o Cinismo

XXIII.

Àqueles que leem e discutem por causa da
Ostentação .......

XXIV.

Que não devemos ser movidos por um Desejo
daquelas Coisas que não estão em nosso Poder . 270
XXV.

Àqueles que desistem (abandonam) do seu
Propósito

XXVI.

Àqueles que temem a Pobreza

LIVRO IV.

I. Sobre a Liberdade ...,.

II. Da Intimidade Familiar

III.

Que Coisas devemos Trocar por outras
Coisas

IV. Àqueles que desejam passar a vida em
Tranquilidade

V. Contra os Briguentos e Ferozes . . . 333  
VI. Contra os que se Lamentam por Serem Compadecidos . . .

VII. Sobre a Liberdade do Medo

VIII. Contra os que se Apressam a Vestir a Roupagem Filosófica

IX. A uma Pessoa que se Transformara num Caráter de Desvergonha

X. Que Coisas Devemos Desprezar e que Coisas Devemos Valorizar . . . . 360  
XI. Sobre a Pureza (Limpeza) ....

XII. Sobre a Atenção

XIII. Contra ou para os que Prontamente Contam seus Próprios Assuntos

O Encheiridion ou Manual . . . .

Fragmentos

Esta suposição é a única que pode nos explicar como uma criança miserável, nascida tão pobre quanto Iro, recebeu uma boa educação, e como um rígido estoico foi escravo de Epafrodito, um dos oficiais da guarda imperial.

Pois não podemos suspeitar que fosse por predileção pela doutrina estoica e para seu próprio uso que o confidente e ministro das devassidões de Nero desejasse possuir tal escravo."

Alguns escritores supõem que Epicteto foi alforriado por seu senhor; mas não encontro evidência alguma para essa afirmação.

Epafrodito acompanhou Nero quando este fugiu de Roma diante de seus inimigos, e auxiliou o miserável tirano a matar-se.

Domiciano (Suetônio, Domit. 14) posteriormente executou Epafrodito por esse serviço a Nero.

Podemos concluir que Epicteto de alguma forma obteve sua liberdade e que começou a ensinar em Roma; mas após a expulsão dos filósofos de Roma por Domiciano, em 89 d.C., retirou-se para Nicópolis, no Épiro, cidade construída por Augusto para comemorar a vitória em Áccio. Epicteto abriu uma escola ou sala de aulas em Nicópolis, onde ensinou até a velhice. A época de sua morte é desconhecida.

Epicteto nunca se casou, como aprendemos com Luciano (Demonax, c. 55, Tom. ii, ed. Hemsterh., p. 393). Quando Epicteto repreendia Demonax e o aconselhava a tomar uma esposa e gerar filhos, pois isso também, como dizia Epicteto, era dever de um filósofo — para deixar em seu lugar outro no Universo —, Demonax refutou a doutrina respondendo: "Dá-me então, Epicteto, uma de tuas próprias filhas." Simplício diz (Comentário, c. 46, p. 432, ed. Schweigh.) que Epicteto viveu sozinho por muito tempo. Por fim, acolheu em sua casa uma mulher como ama de leite para uma criança que um dos amigos de Epicteto ia expor por causa de sua pobreza, mas Epicteto tomou a criança e a criou.

Epicteto nada escreveu; e tudo o que temos sob seu nome foi escrito por um afetuoso discípulo, Arriano, posteriormente o historiador de Alexandre, o Grande, que, como nos conta, registrou por escrito os discursos do filósofo (a Epístola de Arriano a Lúcio Gélio, p. 1). Esses discursos formavam oito livros, mas apenas quatro subsistem sob o título de 'Diatribes de Epicteto'.

Simplício, em seu comentário sobre o 'EyxctptStov ou Manual, afirma que esta obra também foi compilada por Arriano, que selecionou dos discursos de Epicteto o que considerava mais útil, mais necessário e mais adequado para mover os ânimos dos homens.

Simplício também diz que o conteúdo do Encheirídio é encontrado quase inteiramente e com as mesmas palavras em várias partes dos Discursos.

Arriano também escreveu uma obra sobre a vida e a morte de Epicteto.

Os acontecimentos da vida estudiosa do filósofo provavelmente não foram muitos nem notáveis; mas teríamos ficado contentes se esta obra tivesse sido preservada, que contava, como diz Simplício, que tipo de homem era Epicteto.

Fócio (Biblioth.

J menciona entre as obras de Arriano as Conversações com Epicteto, 'O/xtXtai 'ETriKTrp-ov em doze livros.

Upton pensa que esta obra é apenas outro nome para os Discursos, e que Fócio cometeu o erro de tomar as Conversações como uma obra diferente dos Discursos.

No entanto, Fócio enumerou oito livros dos Discursos e doze livros das Conversações.

Schweighaeuser observa que Fócio não tinha visto estas

XIV EPICTETO.

obras de Arriano sobre Epicteto, pois assim conclui a partir da breve notícia dessas obras por Fócio.

O fato é que Fócio não diz que leu esses livros, como geralmente faz quando fala dos livros que enumera em sua Biblioteca.

A conclusão é que não temos certeza de que existiu uma obra de Arriano intitulada as Conversações de Epicteto.

Os Discursos de Epicteto com o Encheirídio e os Fragmentos foram traduzidos para o inglês pela erudita senhora Sra.

Elizabeth Carter; que se diz ter vivido até a idade de oitenta e nove anos.

A quarta edição (1807) contém as últimas adições e alterações da tradutora.

Há uma Introdução a esta tradução que contém uma visão resumida da filosofia estoica com o propósito de explicar Epicteto; e também há notas à tradução.

O editor desta quarta edição diz que "a Introdução e as notas do tradutor cristão de Epicteto são, na estimativa da maioria dos leitores, não as partes menos valiosas da obra": e acrescenta "esta era também a opinião do falecido Arcebispo Secker, que, embora pensasse muito bem da filosofia de Epicteto, considerava a Introdução e as notas admiravelmente calculadas para prevenir qualquer engano a respeito dela, bem como para emendar e instruir o mundo." A Introdução é certamente útil, embora não esteja livre de erros.

Não penso que as notas sejam valiosas.

Usei algumas delas sem quaisquer observações; e usei outras e fiz algumas observações sobre elas onde pensei que a Sra. Carter estava enganada em sua opinião sobre o texto original, ou em outros assuntos.

A tradução da Sra. Carter é boa; e talvez nenhum inglês daquela época tivesse feito uma tradução melhor.

Eu pretendia a princípio revisar a tradução da Sra. Carter e corrigir quaisquer erros que pudesse descobrir.

Eu havia revisado cerca de metade dela, quando descobri que não estava satisfeito com meu trabalho; e fui aconselhado por um amigo erudito

EPICTETO.

XV

a traduzir tudo eu mesmo.

Isso foi um empreendimento bastante grande para um homem idoso, que agora passou dos setenta e seis anos.

No entanto, fiz o trabalho com grande cuidado e o melhor que pude.

Sempre comparei minha tradução com a versão latina e com a da Sra. Carter; e penso que esta é a melhor maneira de evitar erros como os que qualquer tradutor possa cometer.

Um homem que não tentou traduzir um autor grego ou latino não conhece a dificuldade do empreendimento.

Aquilo que pode parecer claro quando ele lê, muitas vezes se torna muito difícil quando ele tenta expressá-lo em outra língua.

É verdade que Epicteto é geralmente inteligível; mas o estilo ou maneira do autor, ou podemos dizer de Arriano, que tentou reproduzir o que ouviu, é às vezes tornado obscuro pelo uso contínuo de perguntas e respostas a elas, e por outras razões.

Upton observa em uma nota sobre o iii.

(p. 184 da Trad.), que "há muitas passagens nestas dissertações que são ambíguas ou antes confusas devido às pequenas questões, e porque a matéria não é expandida por abundância oratória, para não mencionar outras causas." Os discursos de Epicteto, supõe-se, foram proferidos de improviso, e assim uma coisa após outra viria aos pensamentos do orador (Wolf). Schweighaeuser também observa em uma nota (ii. 336 de sua edição) que a conexão do discurso é às vezes obscura pela omissão de algumas palavras necessárias para indicar a conexão dos pensamentos.

O leitor então descobrirá que nem sempre pode entender Epicteto, se não o ler com muito cuidado, e algumas passagens mais de uma vez.

Ele também deve pensar e refletir, ou perderá o sentido.

Não digo que o livro valha todo esse trabalho.

Cada homem deve julgar por si mesmo.

Mas eu não teria traduzido o livro, se não o tivesse considerado digno de estudo; e penso que todos os livros deste tipo exigem leitura cuidadosa, se é que valem a pena ser lidos.

O texto de Epicteto é às vezes corrompido, e essa corrupção causa algumas dificuldades.

Contudo, essas dificuldades não são numerosas o suficiente para causar ou admitir muita variedade ou diversidade nas traduções do texto.

Esta observação explicará por que muitas partes da minha tradução são iguais ou quase iguais às da Sra. Carter. Quando isso acontecia, não considerei necessário alterar minha tradução para que não fosse igual à dela.

Fiz minha tradução primeiro, e depois a comparei com a da Sra. Carter e com a versão latina.

Espero não ter cometido muitos erros.

Não suponho que não tenha cometido nenhum.

A última e melhor edição dos Discursos, do Encheirídio e dos fragmentos é a de J. Schweighaeuser em 6 vols. 8vo. Esta edição contém o comentário de Simplício sobre o Encheirídio, e dois volumes de notas úteis sobre os Discursos.

Estas notas são selecionadas das de Wolf, Upton, e algumas de outros comentadores; mas uma grande parte é do próprio Schweighaeuser, que foi um excelente estudioso e um homem muito sensato.

Li todas essas notas, e as utilizei.

Muitas das notas à tradução são minhas.

( xvii )

A FILOSOFIA DE EPICTETO.

FIZ um grande Índice para este livro; e qualquer pessoa que tenha a indústria necessária poderá encontrar nele quase todas as passagens dos Discursos em que as opiniões do filósofo são expostas; e assim poderá adquirir uma noção geral do sistema filosófico de Epicteto.

Mas poucos leitores terão tempo e inclinação para esse trabalho, e portanto tentarei fazer o trabalho por eles.

Encontrei duas exposições do sistema de Epicteto.

Uma é do Dr. Heinrich Ritter em sua *Geschichte der Philosophie alter Zeit*, Vierter Theil, 1839. A outra é do Professor Christian A. Brandis. Ambas as exposições são úteis; e eu as utilizei.

Não creio que nenhuma delas seja completa, nem a minha o será. Não farei minha exposição exatamente na mesma forma que qualquer uma delas; nem a começarei da mesma maneira.

Ritter prefixou um breve esboço de C. Musonius Rufus, um estoico romano, à sua exposição do sistema de Epicteto.

Rufus ensinou em Roma sob o imperador Nero, que o expulsou de Roma; mas Rufus retornou após a morte do tirano, e viveu até os tempos de Vespasiano e de seu filho Tito.

Ele adquiriu grande reputação como professor, mas não há evidência de que tenha escrito algo, e tudo o que sabemos de suas doutrinas provém de uma obra de Pólio, em

Artigo Epicteto no 'Dictionary of Greek and Roman Biography', etc.

editado pelo Doutor William Smith.

b

XVIII A FILOSOFIA DE EPICTETO.

grego, que foi escrita segundo o modelo dos *Memorabilia* de Xenofonte sobre Sócrates.

Desta obra existem muitos fragmentos.

Rufus ensinou uma filosofia prática, uma que fosse útil para os propósitos da vida, e para a vida de um filósofo que não fosse impedido de filosofar e de ajudar outros a filosofar por seguir as ocupações comuns da humanidade. Ele exortava especialmente os jovens ao estudo da filosofia, e até mesmo as mulheres, porque sem filosofia nenhuma pessoa pode ser virtuosa e cumprir seu dever.

Ele pergunta: o que impede o estudante de trabalhar com seu mestre e ao mesmo tempo aprender dele algo sobre moderação (sophrosyne) e justiça e resistência? Sua crença no poder da filosofia sobre as mentes dos homens era forte, e ele estava convencido de que era uma cura perfeita para a corrupção da humanidade.

Ele mostrou a firmeza dessa convicção em uma ocasião registrada por Tácito (Hist. iii.

81). Ele se esforçou para mediar entre os partidários de Vitélio que estavam em Roma e o exército de Vespasiano, que estava diante dos portões: mas fracassou em sua tentativa.

Seu comportamento era como o de um cristão moderno que tentasse impor as doutrinas cristãs de paz a homens que estão armados uns contra os outros.

Tal cristão seria chamado de fanático hoje; e Tácito, que era ele próprio um filósofo, dá ao comportamento de Rufo o termo suave de "intempestivam" ou "inoportuno". O julgamento de Tácito estava certo: o comportamento de Rufo foi inoportuno, como o resultado provou: mas a tentativa de Rufo foi o ato de um homem bom.

Rufo não valorizava a Dialética ou a Lógica tão altamente quanto os antigos estoicos; mas não a subestimava, e ensinava que um homem deveria aprender a lidar com argumentos sofísticos, como aprendemos com Epicteto (I. c. 7, no final).

Em seu ensino sobre os Deuses, ele segue a prática geral estoica de manter a religião popular.

Ele ensinava que nada era desconhecido dos Deuses: como Sócrates (Xenofonte, Mem. i. c. 1) ensinava que os Deuses sabiam tudo, o que era dito, o que era feito, e o que os homens pensavam.

Ele considerava as almas dos homens como aparentadas aos Deuses; mas como estavam misturadas com o corpo, a alma deve participar das impurezas do corpo.

O princípio inteligente (διάνοια) é livre de toda necessidade (compulsão) e autossuficiente (αὐτεξούσιος). Só podemos conjecturar que Rufo não se ocupava nem com a Dialética nem com a Física; pois ele dizia que filosofar não era nada além de uma investigação sobre o que é conveniente e conforme ao dever; uma investigação conduzida pela razão, e cujo resultado se exibe na prática.

Os antigos estoicos consideravam a virtude como propriedade apenas do sábio; e até duvidavam se tal homem poderia ser encontrado.

Mas Eufus disse que não era impossível que tal homem existisse, pois não podemos conceber tais virtudes como as que um homem sábio possui senão a partir dos exemplos da própria natureza humana e do encontro com homens como aqueles que são chamados divinos e semelhantes aos deuses.

A doutrina estoica de que o homem deve viver segundo a natureza não é defendida por Eufus com tanta rigidez quanto por alguns estoicos, e ele considera uma vida conforme à natureza como não muito difícil; mas admite que aqueles que se dedicam à filosofia foram treinados desde a juventude em grande corrupção e preenchidos de maldade, e assim, quando buscam a virtude, necessitam de mais disciplina ou prática.

Acerca da Filosofia de Epicteto.

Consequentemente, ele vê a filosofia como uma medicina espiritual e dá mais peso à prática ou exercício da virtude do que os estoicos mais antigos davam.

O conhecimento e o ensino do que é bom, diz ele, deveriam vir primeiro; mas Eufus não acreditava que o conhecimento do Bem fosse suficientemente forte sem a prática (disciplina) para conduzir à conduta moral e, consequentemente, acreditava que a prática tem maior eficácia do que o ensino. Ele distingue dois tipos de exercício: primeiro, o exercício da alma no pensar, no refletir e no gravar na mente regras sólidas de vida; e segundo, na resistência a labores ou dores corporais, nos quais ato de resistência a alma e o corpo agem juntos.

"A soma de suas várias regras de vida", diz Ritter, "pode ser assim brevemente expressa: em sua opinião, uma vida segundo a Natureza resulta em um estado de espírito social, filantrópico e contente, unido à mais simples satisfação de nossas necessidades necessárias."

Vemos sua disposição social e filantrópica nisto: que ele se opõe a todo egoísmo (selbstsucht),

■ Segui aqui a exposição de Ritter.

Talvez uma tradução literal do grego seja ainda melhor: "A razão que ensina como devemos agir coopera com a prática, e a razão (ou ensino) vem em ordem antes do costume (hábito) ou prática: pois não é possível habituar-se a algo bom se a pessoa não é habituada pela razão (pelo ensino); em poder, de fato, o hábito (prática) tem a vantagem sobre o ensino, pois o hábito (prática) é mais eficaz em levar o homem a agir (propriamente) do que a razão é." Dei o significado do grego tão precisamente quanto pude.

Em nossa educação moderna, começamos com o ensino de regras gerais, ou princípios, ou crenças; e aí paramos.

O resultado é o que se poderia esperar.

A prática ou o hábito

de fazer o que devemos é negligenciada.

Os professores são mestres

de palavras e nada mais.

São os homens que Epicteto (iii.

21,

nota 6) descreve: "Aprendestes de cor as palavras apenas, e

dizeis: Sagradas são as palavras por si mesmas." Ver p. 245, nota 3.

É um dos maiores méritos de Rufo ter estabelecido o princípio que é exposto acima; e é o maior demérito do nosso sistema de ensino que o princípio seja geralmente negligenciado: e mais particularmente por aqueles professores que proclamam ostensivamente que ministram uma educação religiosa.


Xxi

que ele vê o casamento não apenas como o único direito e satisfação natural dos sentimentos sexuais, mas também como o fundamento da família, de um Estado e da continuação da raça humana; e, por conseguinte, declara-se contra a exposição de crianças como uma prática antinatural; e frequentemente recomenda a beneficência."

Epicteto foi discípulo desse nobre mestre romano, cujo nome ocorre várias vezes nos Discursos.

Ritter conjetura que Epicteto também ouviu Eufrates, a quem ele muito elogia.

Foi dito com justiça que, embora Epicteto seja chamado de estoico, e que seus princípios sejam estoicos, ele não é puramente estoico.

Ele aprendeu de outros mestres além do estoico.

Ele cita continuamente o ensino e o exemplo de Sócrates, e o exemplo de Diógenes, o cínico, ambos os quais ele menciona com mais frequência do que Zenão, o fundador da filosofia estoica.

Ele também valorizava Platão, que aceitou de Sócrates muitos de seus princípios, e os desenvolveu e expandiu.

Assim, Epicteto aprendeu que o começo da filosofia é o conhecimento que o homem tem de si mesmo (γνῶθι σεαυτόν), e o reconhecimento de sua própria ignorância e fraqueza.

Ele ensina (i. c. 17; ii. c. 14; ii. c. 10) que o exame dos nomes, a compreensão da noção, da concepção de uma coisa, é o começo da educação: ele ensina consistentemente que devemos ter compaixão daqueles que erram, pois eles erram por ignorância (i. c. 18; ii. c. 22, p. 181); e, como diz Platão, toda mente é privada da verdade contra a sua vontade.

Epicteto opõe-se fortemente às doutrinas de Epicuro, dos Acadêmicos mais recentes e de Pirro, o grande líder da escola Cética (i. c. 5, c. 23; ii. c. 20).

Ele não tem apreço pelas discussões sutis desses homens.

Ele diz (p. 81): "Que venham os seguidores de Pirro e os Acadêmicos fazer suas objeções.

Pois eu, quanto a mim, não tenho lazer para essas disputas, nem sou capaz de empreender a defesa do consentimento comum (opinião)."

XXII A FILOSOFIA DE EPICTETO.

"Como de fato a percepção é efetuada, se através de todo o corpo ou de alguma parte, talvez eu não possa explicar; pois ambas as opiniões me perplexam. Mas que você e eu não somos o mesmo, sei com perfeita certeza.

Como você sabe disso? Quando pretendo engolir algo, nunca o levo à sua boca, mas à minha.

E vocês mesmos (os pirrônicos), que removem a evidência dos sentidos, agem de outra forma? Quem entre vocês, quando pretendia entrar em um banho, alguma vez entrou em um moinho?" Ele também diz (ii, c. 20) que "as proposições que são verdadeiras e evidentes são necessariamente usadas até mesmo por aqueles que as contradizem; e um homem poderia talvez considerar ser a maior prova de uma coisa ser evidente o fato de que ela se mostra necessária até mesmo para aquele que a nega fazer uso dela ao mesmo tempo.

Por exemplo, se um homem negasse que algo é universalmente verdadeiro, é claro que ele deve fazer a negação contraditória, de que nada é universalmente verdadeiro."

Epicteto não subestimava a Dialética ou a Lógica, e a solução dos chamados argumentos sofísticos e hipotéticos (i, c. 7); mas considerava o manejo de todos esses argumentos como uma coisa relativa aos deveres da vida, e como um meio para a Ética, ou a prática da moral.

Rufo disse: "para um homem usar as aparências que lhe são apresentadas de maneira precipitada, tola e descuidada, e não entender argumento, nem demonstração, nem sofisma, nem, em uma palavra, ver no perguntar e responder o que é consistente com aquilo que concedemos ou não é consistente: não há erro nisso?" Consequentemente, a Dialética não é o objeto de nossa vida, mas é um meio para distinguir entre aparências verdadeiras e falsas, e para verificar a validade da evidência, e nos dá segurança em nossos julgamentos.

É a aplicação dessas coisas aos propósitos da vida que é a primeira e necessária parte da filosofia.

Assim ele diz no Encheirídio

A FILOSOFIA DE EPICTETO. XXIII

(LI.): 'O primeiro e mais necessário lugar na filosofia é o uso de teoremas (preceitos), por exemplo, que não devemos mentir: o segundo é o da demonstração, por exemplo, como se prova que não devemos mentir: o terceiro é o que é confirmatório destes dois e explicativo, por exemplo.

Como é isto uma demonstração? A filosofia de Epicteto é, de fato, apenas o modo de viver como um homem deve viver, segundo a sua natureza.

Epicteto, consequentemente, considera aquela parte do ensinamento estoico, denominada Física ou a Natureza das coisas, também como subordinada à sua filosofia, que é puramente Ética.

Devemos viver segundo a Natureza, e portanto devemos inquirir qual é a Lei da Natureza. A contemplação da ordem das coisas é o dever do homem, e observar este admirável sistema do qual o homem é parte; mas o propósito da contemplação e da observação é que possamos viver uma vida tal como devemos viver.

Ele diz (Frag., CLXXV., "O que me importa se todas as coisas são compostas de átomos ou de partes semelhantes, ou de fogo e terra? Pois não é suficiente conhecer a natureza do bem e do mal, e as medidas dos desejos e aversões, e também os movimentos em direção às coisas e afastando-se delas; e usando estas como regras para administrar os assuntos da vida, mas não nos preocuparmos com as coisas acima de nós? Pois estas coisas são talvez incompreensíveis à mente humana: e se algum homem as supusesse mesmo no mais alto grau compreensíveis, qual é então o proveito delas, se forem compreendidas? E não devemos dizer que aqueles homens têm trabalho desnecessário que atribuem estas coisas como necessárias ao discurso de um filósofo?" Epicteto então não valorizava as investigações dos filósofos Físicos, ou não tinha gosto por elas.

Sua Filosofia era Ética, e sua investigação era: Qual é a regra da vida?

"Com respeito aos deuses," diz Epicteto (i. c. 12), "há alguns que dizem que um ser divino não existe; outros

XXIV A FILOSOFIA DE EPICTETO.

dizem que existe, mas é inativo e descuidado, e não toma nenhuma providência sobre coisa alguma; uma terceira classe diz que tal ser existe e exerce providência, mas apenas sobre grandes coisas e coisas celestiais, e sobre nada na terra; uma quarta classe diz que um ser divino exerce providência tanto sobre as coisas na terra quanto sobre as celestiais, mas apenas de modo geral, e não sobre as coisas individualmente.

Há uma quinta classe, à qual pertencem Ulisses e Sócrates, que dizem: "Não me movo sem o teu conhecimento" (Ilíada, X. 278). Após algumas observações, Epicteto conclui: "O homem sábio e bom, então, depois de considerar todas essas coisas, submete sua própria mente àquele que administra o todo, como os bons cidadãos fazem com a lei do Estado."

O fundamento da Ética de Epicteto é a doutrina que o estoico Cleantes proclamou em seu hino a Zeus (Deus): "De ti vem a nossa raça." Epicteto fala dos deuses, que devemos venerar e a quem devemos fazer oferendas; e de Deus, de quem todos nós descendemos de maneira especial.

"Deus é o pai tanto dos homens quanto dos deuses." Essa grande descendência deveria nos ensinar a não ter pensamentos ignóbeis ou mesquinhos sobre nós mesmos.

Ele diz: "Visto que estas duas coisas estão misturadas na geração do homem — o corpo, em comum com os animais, e a razão e a inteligência, em comum com os deuses —, muitos se inclinam para esse parentesco, que é miserável e mortal; e alguns poucos para aquele que é divino e feliz" (i. c. 3). Em um capítulo sobre a Providência (i. c. 6), ele tenta provar a existência de Deus e seu governo do mundo por meio de tudo o que é ou acontece; mas, para compreender essas provas, um homem, diz ele, deve ter a faculdade de ver o que pertence e acontece a "todas as pessoas e coisas, e uma disposição grata" (também, i. c. 16). Ele argumenta a partir da própria estrutura das coisas que atingiram sua completude que estamos acostumados a mostrar que uma obra é certamente o ato XXV


de algum artifice, e que não foi construída sem um propósito.

"Será que cada uma dessas coisas demonstra o artífice, e as coisas visíveis, e a faculdade de ver, e a luz não o demonstram?" Ele então considera a constituição do entendimento humano e suas operações; e pergunta: se isso não é suficiente para nos convencer, que as pessoas "nos expliquem o que é que faz cada coisa particular, ou como é possível que coisas tão maravilhosas e semelhantes aos artifícios da arte existam por acaso e por seu próprio movimento apropriado"?

Basta aos animais fazer o que sua natureza os leva a fazer, sem compreender por que o fazem. Mas não nos basta a nós, a quem Deus também concedeu a faculdade intelectual; pois, a menos que ajamos conforme a natureza e a constituição de cada coisa, jamais alcançaremos nosso verdadeiro fim. Deus introduziu o homem no mundo para ser espectador de Deus e de suas obras; e não apenas espectador delas, mas intérprete.

Por essa razão, ele diz: "é vergonhoso para o homem começar e terminar onde os animais irracionais terminam; mas antes ele deve começar onde eles começam, e terminar onde a natureza termina em nós; e a natureza termina na contemplação e no entendimento, e num modo de vida conforme à natureza" (p. 21). Ele examina em outro capítulo (i. c. 9), Como, do fato de sermos aparentados a Deus, um homem pode proceder às consequências.

Aqui ele mostra que um homem que observou com inteligência a administração do mundo, e aprendeu que a maior comunidade é aquela composta de homens e Deus, e que de Deus vieram todos os seres que são produzidos na terra, e particularmente os seres racionais que pela razão estão a Ele unidos — "por que não chamaria tal homem a si mesmo de cidadão do mundo, por que não filho de Deus, e por que haveria ele de temer qualquer coisa que aconteça entre os homens? — quando tens a Deus como teu criador, e pai, e guardião, não nos libertará isso de dores e temores?"

XXVI A FILOSOFIA DE EPICTETO.

Neste capítulo há também um suposto discurso de Epicteto àquelas pessoas que, por causa dos laços do corpo e das tribulações desta vida, pretendem desvencilhar-se deles, "e partir para junto de seus parentes". Epicteto diz: "Amigos, esperai por Deus: quando Ele der o sinal e vos libertar deste serviço, então ide a Ele; mas por ora suportai habitar neste lugar onde Ele vos colocou — esperai, pois, não partais sem uma razão." Ele dá o exemplo de Sócrates, que disse que se Deus nos colocou em algum lugar, não devemos desertar dele. Creio que Epicteto não recomendava o suicídio em caso algum, embora admitisse que havia casos em que não o condenaria; mas um homem deveria ter boas razões para abandonar seu posto.

O ensinamento de Epicteto, expresso brevemente, é que o homem deve ser grato a Deus por todas as coisas e estar sempre contente com o que acontece, pois o que Deus escolhe é melhor do que o que o homem pode escolher (iv. c. 7). É o que o Bispo Butler diz: "Nossa resignação à vontade de Deus pode ser dita perfeita quando nossa vontade se perde e se resolve na dele; quando descansamos em sua vontade como nosso fim, por ser ela mesma justíssima, reta e boa." (Sermão sobre o Amor de Deus.)

Não descobri nenhuma passagem em que Epicteto expresse qualquer opinião sobre o modo de existência de Deus.

Ele distingue Deus, o criador e governador do universo, do próprio universo.

Sua crença na existência desse grande poder é tão forte quanto a de qualquer cristão poderia ser; e muito mais forte do que a crença de muitos que se chamam cristãos e que solene e publicamente declaram "Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra". Epicteto nos ensina qual é o nosso dever para com Deus; e não há dúvida de que ele praticou o que ensinou, como um homem sincero e honesto deve fazer, ou ao menos tentar fazer com todas as suas forças.

Devemos supor que um homem de seu temperamento de espírito e de suas grandes habilidades XXVll


fez o que ele recomenda (Fragmentos, cxviii., cxix.): "Que a tua conversa sobre Deus seja renovada todos os dias, mais do que o teu alimento"; e "Pensa em Deus com mais frequência do que respiras." Não vejo outra conclusão a que tal homem pudesse chegar senão esta: que Deus existe sem dúvida, e que Ele é incompreensível para criaturas tão frágeis como o homem, que vive em um corpo tão frágil.

Ver p. 21, nota 5.

Devemos agora ver que meios Deus deu aos Seus filhos para cumprir o seu dever.

Epicteto começa mostrando quais coisas Deus colocou em nosso poder e quais não colocou (i. c. 1; Encheirídio, 1). "Aquilo que é o melhor de tudo e supremo sobre tudo é a única coisa que os deuses colocaram em nosso poder: o uso correto das aparências; mas todas as outras coisas eles não colocaram em nosso poder"; e a razão dessa limitação do poder do homem é: "que, como existimos na terra e estamos ligados a tal corpo e a tais companheiros, como seria possível não sermos impedidos quanto a essas coisas por fatores externos?" Ele diz novamente (Encheirídio, 1): "Das coisas, umas estão em nosso poder, e outras não."

Em nosso poder estão a opinião, o movimento em direção a uma coisa, o desejo, a aversão (afastar-se de uma coisa); e, em uma palavra, tudo o que são nossos próprios atos: não estão em nosso poder o corpo, a propriedade, a reputação, os cargos (poder magistral); e, em uma palavra, tudo o que não são nossos próprios atos.

E as coisas que estão em nosso poder são por natureza livres, não sujeitas a restrição nem a impedimento: mas as coisas que não estão em nosso poder são fracas, servis, sujeitas a restrição, no poder de outros." Esta é a sua noção da liberdade do homem.

Sobre esta noção repousa todo o seu sistema.

Ele diz (i. c. 17): "se Deus tivesse feito aquela parte de si mesmo, que ele tomou de si mesmo e nos deu, de tal natureza que pudesse ser impedida ou compelida, seja por ele mesmo ou por outro, ele não seria então Deus, nem estaria cuidando de nós como deveria."

Ele diz (i. c. 1; iii. c. 3; e em outros lugares) que o uso correto

XXVIII A FILOSOFIA DE EPICTETO.

das aparências é a única coisa que os deuses colocaram em nosso poder; e "que é tarefa do homem sábio e bom usar as aparências conforme a natureza." Para esse fim, o homem tem o que Epicteto nomeia de faculdade dominante (to hegemonikon), da qual ele dá uma definição ou descrição (iv. c. 7). É aquela faculdade "que usa todas as outras faculdades e as examina, e seleciona e rejeita"; uma faculdade pela qual refletimos, julgamos e determinamos, uma faculdade que nenhum outro animal possui, uma faculdade que, como diz o Bispo Butler, "claramente traz em si marcas de autoridade sobre todas as demais, e reivindica a direção absoluta de todas elas, para permitir ou proibir sua gratificação" (Prefácio aos Sermões).

Essas aparências são nomeadas phantasiai por Epicteto; e a palavra é traduzida como "Visa animi" por Gélio (Frag. clxxx.). Essa Fantasia (phantasia) não é apenas a coisa que é percebida pelos olhos, mas a impressão que é feita nos olhos; e geralmente significa qualquer impressão recebida pelos sentidos; e também é o poder da mente de representar coisas como se estivessem presentes, embora estejam apenas presentes na mente e estejam realmente ausentes.

Esse poder da Fantasia existe também nos animais em vários graus, segundo suas respectivas capacidades: os animais fazem uso das aparências, mas somente o homem compreende o uso das aparências (i. c. 6). Se um homem não pode ou não faz o uso correto das aparências, ele se aproxima da natureza de um animal irracional; e ele não é o que Deus o tornou capaz de ser.

A natureza do Bem está no uso das aparências, e a natureza do Mal igualmente; e as coisas independentes da vontade não admitem nem a natureza do mal nem a do bem (ii. 0. 1). O bem e o mal estão na vontade do homem, e em nada externo.

O poder racional, portanto, leva-nos a reconhecer como bom somente aquilo que é conforme à razão, e a reconhecer como mau aquilo que não é conforme à razão. A matéria sobre a qual o homem bom trabalha é a sua faculdade racional (to iSiov 7iye[xoviK6v): esse é o ofício do filósofo (iii. c. 3). Um homem que deseja ser o que é por natureza, por sua constituição, adaptado para tornar-se, deve "lutar contra as aparências" (ii. 0. 18). Isso não é coisa fácil, mas é o único caminho para obter a verdadeira liberdade, a tranquilidade de espírito e o domínio sobre os movimentos da alma, em uma palavra, a felicidade, que é o verdadeiro fim e propósito da existência do homem na terra.

Todo homem carrega em si o seu próprio inimigo, ao qual deve vigiar cuidadosamente (Ench. xlviii.). Há perigo de que as aparências, que resistem poderosamente à razão, vos arrastem: se fores vencido duas vezes ou mesmo uma, há perigo de que se forme um hábito de ceder a elas.

"Geralmente, então, se quiseres tornar algo um hábito, faze-o; se não quiseres torná-lo um hábito, não o faças; mas acostuma-te a fazer outra coisa em seu lugar" (ii. c. 18). Quanto ao prazer, Epicteto diz (Ench. xxxiv.): "Se recebeste a impressão (avTacrtav) de algum prazer, guarda-te de seres arrastado por ela; mas deixa a coisa esperar por ti, e permite a ti mesmo uma certa demora de tua parte.

Então pensa em ambos os tempos: no tempo em que desfrutarás do prazer, e no tempo após o desfrute do prazer, quando te arrependerás e te reprovarás.

E coloca contra essas coisas o quanto te alegrarás se tiveres te abstido do prazer, e o quanto te elogiarás.

Mas se te parecer oportuno empreender (fazer) a coisa, cuida para que o seu encanto, e a

XXX A FILOSOFIA DE EPICTETO.

prazer, e a atração dele não vos conquistará: e ponde de outro lado a consideração de quanto melhor é ter consciência de que alcançastes esta vitória."

Daí a regra de que o homem deve ser cuidadoso e cauteloso em tudo o que está no poder da vontade; mas, ao contrário, com respeito às coisas externas que não estão no poder do homem, ele deve ser ousado.

"A confiança (coragem), portanto, deve ser empregada contra a morte, e a cautela contra o medo da morte: mas agora fazemos o contrário, e empregamos contra a morte a tentativa de escapar; e à nossa opinião sobre ela empregamos descuido, temeridade e indiferença" (ii. o. 1). Para a purificação da alma e para habilitá-la a empregar seus poderes, o homem deve arrancar de si duas coisas: a arrogância (orgulho, oíησις) e a desconfiança.

"A arrogância é a opinião de que nada vos falta (não sois deficientes em nada); mas a desconfiança é a opinião de que não podeis ser felizes quando tantas circunstâncias vos cercam."

A noção de Bem e Mal deve estar firmemente fixada na mente do homem.

Não há, na opinião de Epicteto, diferença entre os homens quanto a esta matéria.

Ele diz (ii. ell) sobre o começo da Filosofia: Quanto ao bem e ao mal, e ao que devemos fazer e ao que não devemos fazer, e coisas semelhantes, "quem veio ao mundo sem ter uma ideia (πάντες φυσικῶς) delas?" Estas noções gerais ele nomeia προλήψεις, preconcepções, ou pré-cognições (ii. c. 2); e precisamos de disciplina "a fim de aprender como adaptar a preconcepção do racional e do irracional às várias coisas conforme a natureza." Por que então os homens diferem em suas opiniões sobre coisas particulares? As diferenças surgem na adaptação das pré-cognições aos casos particulares.

Ele diz (iv. c. 1): "Esta é a

« Eitter, p. 227, tem uma leitura errada em sua citação desta passagem, e ele a entendeu mal.


XXXI

causa de todos os males dos homens: a incapacidade de adaptar as preconcepções gerais às várias coisas." É assim em tudo.

Princípios gerais são frequentemente muito simples e inteligíveis; mas quando chegamos à aplicação dos princípios, surge dificuldade e diferença de opiniões.

"A educação é o aprendizado de como adaptar as pré-cognições naturais às coisas particulares, conforme à natureza; e então distinguir que, das coisas, algumas estão em nosso poder, mas outras não." A Grande Lei da Vida (i. c. 26) é que devemos agir conforme à natureza.

"Em teoria, nada há que nos afaste de seguir o que é ensinado; mas nos assuntos da vida, muitas são as coisas que nos distraem." Um homem, então, não deve começar pelos assuntos da vida real, pois não é fácil começar pelas coisas mais difíceis.

"Este é, então, o começo da filosofia: a percepção de um homem sobre o estado de sua faculdade diretora; pois quando um homem sabe que ela é fraca, então não a empregará nas coisas de maior dificuldade"; e novamente (ii. 11), "o começo da filosofia é a consciência de um homem sobre sua própria fraqueza e incapacidade quanto às coisas necessárias": e ainda, "este é o começo da filosofia: uma percepção do desacordo dos homens entre si, e uma investigação sobre a causa do desacordo, e uma condenação e desconfiança daquilo que apenas 'parece', e uma certa investigação daquilo que 'parece', se 'parece' corretamente, e a descoberta de alguma regra, assim como descobrimos uma balança na determinação dos pesos, e um esquadro de carpinteiro no caso das coisas retas e tortas.

Este é o começo da filosofia."

Epicteto insiste no fato de um homem assentir ou não assentir a uma coisa como prova de que o homem possui algo que é naturalmente livre.

Ele diz (p. 253): "Quem é capaz de compelir-te a assentir àquilo que parece falso? Ninguém.

E quem pode compelir-te a não assentir àquilo que parece verdadeiro? Ninguém.

Por isso, então, vês que há algo em ti naturalmente livre.

Mas desejar ou ter aversão a, ou mover-se em direção a um objeto ou afastar-se dele, ou preparar-te, ou propor fazer qualquer coisa, qual de vós pode fazer isso, a menos que tenha recebido uma impressão da aparência daquilo que é proveitoso ou um dever? Ninguém.

Tens, então, também nestas coisas algo que não é impedido e é livre.

Homens miseráveis, trabalhai isto, cuidai disto, buscai o bem aqui." (Comparar iv, c. 1 p. 303, e nota 20.)

Aqui o filósofo ensina que a opinião ou a crença de um homem não pode ser compelida por outro, embora possamos concluir pelo que vemos, ouvimos e se faz no mundo, que grande parte da humanidade não conhece esse fato.

Um homem não pode sequer pensar ou crer como ele mesmo escolhe: se uma coisa é capaz de demonstração, e se ele entende a demonstração, ele deve crer no que é demonstrado.

Se a coisa é uma questão de evidência provável, ele seguirá o que parecer mais provável, se tiver alguma capacidade de pensar.

Digo "qualquer capacidade" de pensar, porque o poder intelectual nas mentes de grande número de pessoas é muito fraco; e em todos nós, muitas vezes, muito fraco comparado com o poder das necessidades de nossa natureza, de nossos desejos, de nossas paixões, na verdade de tudo o que há nesta criatura maravilhosa que é o homem, que não é razão pura ou entendimento puro, ou qualquer nome que demos aos poderes chamados intelectuais.

A segunda parte desta última citação de Epicteto refere-se à Vontade, pela qual quero dizer, e suponho que ele queira dizer, o desejo, a intenção e a tentativa de fazer algo particular, ou de abster-se de fazer algo particular.

Muito se tem escrito sobre a Vontade do homem.

Algumas pessoas pensam que ele não a tem; que ele se move como é movido, e não pode evitar.

Epicteto não tem ensaio ou dissertação sobre esse assunto; e teria XXXIII


sido contrário ao seu método de ensino fazer uma discussão formal da Vontade, à maneira dos filósofos modernos.

Ele não toca na questão da vontade do homem como dependente da vontade de Deus, ou como agindo em oposição a ela. Deus fez o homem tão livre quanto ele poderia ser em tal corpo, no qual ele deve viver na terra.

Este corpo não é do homem, mas é argila finamente temperada; e Deus também deu ao homem uma pequena porção de si mesmo, em uma palavra, a faculdade de usar as aparências das coisas, da qual faculdade Epicteto diz: "se você cuidar dessa faculdade e considerá-la sua única posse, você nunca será impedido, nunca encontrará obstáculos, não lamentará, não culpará, não lisonjeará ninguém" (i. c. 1). Ele diz (iv. c. 12) que Deus "colocou-me comigo mesmo, e pôs minha vontade em obediência somente a mim, e deu-me regras para o uso correto dela."

A palavra de Epicteto que sempre traduzi por Vontade é Προαίρεσις, que significa literalmente uma "preferência", uma escolha de uma coisa antes de outra, ou antes de qualquer outra coisa; uma descrição que é suficientemente inteligível.

H. Stephanus, em seu Léxico Grego (s. v. Αἱρέω), tem uma longa discussão sobre a palavra προαίρεσις, que não é satisfatória. Ele objeta à tradução pelos antigos estudiosos de προαίρεσις por "Electio", escolha, porque προαίρεσις, diz ele, não é "Electio", mas é aquilo que se segue da própria escolha. "Pois," acrescenta, "Electio é o ato de 'escolher, de selecionar', e Electio só pode estar na mente, quando escolhemos isto ou aquilo." Essa distinção é trivial. Quando ele diz que "προαίρεσις se aplica àquele que, dentre várias coisas, seleciona uma após deliberação e a prefere às outras", ele diz corretamente, e isso é suficiente. Ele então discute se προαίρεσις deveria ser traduzida, quando Aristóteles a usa estritamente, por "Propositum" ou "Consilium", e decide a favor de "Propositum". No início da Ética de Aristóteles, ele traduz πᾶσα προαίρεσις por "Propositum omne", ou "Consilium omne"; mas prefere "Propositum". Ele objeta à tradução latina de προαίρεσις por "Voluntas" nos casos em que Aristóteles usa a palavra estritamente, pois Aristóteles faz uma distinção entre προαίρεσις e Βούλησις. Uma distinção entre προαίρεσις e Βούλησις é certa, e é clara. Mas Stephanos não parece saber que

XXXIV A FILOSOFIA DE EPICTETO.

Embora Epicteto sustente que o homem tem poder sobre sua vontade, ele bem sabia quão fraca esse poder às vezes é. Uma aparência, diz ele (p. 86), é apresentada, e imediatamente ajo de acordo com ela; e, qual é o nome daqueles que seguem toda aparência? Eles são chamados de loucos. — Tais são uma grande parte da humanidade; e é verdade que muitas pessoas não têm Vontade alguma. Elas são enganadas pelas aparências, perplexas, agitadas como um navio que perdeu o leme: não têm propósito firme, fixo e racional. Sua perseverança ou obstinação muitas vezes não é nada mais do que uma perseverança em um propósito irracional.

É muitas vezes tão forte e tão constante que o próprio homem e outros também podem vê-la como uma vontade forte; e é uma vontade forte, se assim o desejais, mas é uma vontade em direção errada. A natureza do Bem é uma certa Vontade; a natureza do Mal é um certo tipo de "Vontade" (i. c. 29).

Aqueles que foram afortunados em seus pais e em sua educação, que adquiriram bons hábitos e não são grandemente perturbados pelos afetos e pelas paixões, podem

a palavra latina 'voluntas,' especialmente nos escritores de direito, representa de fato um propósito deliberado ou vontade, como quando um homem intenta, planeja e usa os meios necessários, por exemplo, para matar outro, caso em que os romanos corretamente consideravam a vontade como equivalente ao ato.

Cícero (Tuscul.

iv. 6) diz: "Quamobrem simul objecta species cujuspiam est, quod bonum videatur, ad id adipiscendum impellit ipsa natura.

Id quum constanter prudenterque fit, ejusmodi appetitionem Stoici βούλησιν appellant, nos appellamus Voluntatem.

Eam illi putant in solo esse sapiente, quam sic definiunt: Voluntas est quae quid cum ratione desiderat.

Quae autem ratione adversa incitata est vehementius, ea libido est, vel cupiditas effrenata, quae in omnibus stultis invenitur."

Na p. 183, Schweighaeuser tem uma nota sobre a προαιρετική δύναμις e προαίρεσις, que são geralmente, diz ele, traduzidas por Voluntas; mas, acrescenta, tem um significado mais amplo do que o geralmente dado à palavra latina, e compreende o intelecto com a vontade, e todas as potências ativas da mente que às vezes designamos pelo nome geral de Razão.


XXXV

passar pela vida calmamente e com pouco perigo, mesmo quando os poderes da vontade são muito fracos e quase nunca exercitados.

A vida, para eles, é felizmente uma série de hábitos, geralmente bons, ou pelo menos não maus.

Esta é a condição de muitos homens e mulheres.

Eles são bons ou parecem ser bons, porque não são provados acima de sua força; mas se uma tentação os surpreender subitamente quando não estiverem preparados para ela, são conquistados e caem.

Mesmo um homem que se tenha treinado no exercício de suas faculdades racionais e tenha por muito tempo passado uma vida irrepreensível, pode, num momento em que sua vigilância esteja relaxada, quando estiver fora de sua guarda, ser derrotado pelo inimigo que sempre carrega consigo.

A diferença entre um homem que possui em si os princípios da razão e aquele que não os possui aparece a partir de uma história contada por Gellius (xix. 1): — Estávamos navegando, diz ele, de Cassiopa para Brundísio, quando uma violenta tempestade se abateu. No navio havia um filósofo estoico, um homem de boa reputação. Aquele que contou a história diz que manteve os olhos no filósofo para ver como ele se comportava sob as circunstâncias. O filósofo não chorou nem se lamentou como os demais, mas sua tez e perturbação aparente não diferiam muito das dos outros passageiros. Quando o perigo passou, um grego rico da Ásia aproximou-se do estoico e, de maneira insultuosa, disse: "Como é isso, filósofo? Quando estávamos em perigo, você teve medo e empalideceu; mas eu não tive medo nem empalideci." O filósofo, após uma pequena hesitação, disse: "Se eu pareci estar um pouco amedrontado em tempestade tão violenta, você não é digno de ouvir a razão disso." No entanto, contou ao homem uma história sobre Aristipo, que em ocasião semelhante foi questionado por um homem como este grego; e assim o filósofo se livrou do sujeito impertinente. [Ou um seguidor de Aristipo. O texto não é certo.] Quando chegaram a Brundísio, o narrador pediu ao filósofo uma explicação de seu medo, que o filósofo prontamente deu. Ele tirou de sua bolsa uma obra de Epicteto, o quinto livro de seus discursos, no qual estava a seguinte passagem (Frag. clxxx.): Os afetos da mente (visa animi), que os filósofos denominam avrao-tai, pelos quais a mente de um homem é atingida pela primeira aparência de uma coisa que se aproxima, não são coisas que pertencem à vontade nem estão em nosso poder, mas por uma força peculiar se intrometem nos homens. Mas os assentimentos, que eles denominam ovy/caraccrcts (os assentimentos do juízo), pelos quais os mesmos afetos (visa animi) são conhecidos e determinados, são da vontade e estão no poder dos homens de fazer. Por essa razão, quando algum som aterrador nos céus ou de uma queda, ou alguma notícia súbita de perigo chega, ou qualquer coisa do mesmo tipo acontece, é inevitável que até a mente do sábio seja um pouco movida e confundida, e que ele empalideça, não por uma opinião que ele tenha concebido primeiro de algum perigo (ou mal), mas por certas emoções rápidas e inconsideradas que antecipam (impedem) o exercício da mente e da razão.

Em pouco tempo, porém, o sábio não permite que essas emoções (visa animi) permaneçam, mas as rejeita, e não vê nelas nada de terrível.

Mas esta é a diferença entre o tolo e o sábio: o tolo, assim como as coisas lhe pareceram perigosas no primeiro impulso, assim as considera; mas o sábio, quando foi movido por um breve tempo, recupera o estado anterior e o vigor de sua mente, que sempre teve com relação a tais aparências, de que elas não são objetos de medo, mas apenas aterrorizam por uma falsa aparência.'

Esta explicação pode ser aplicada a todos os eventos, a todos os pensamentos e a todas as emoções que perturbam a mente.

Este é o sentido geral da passagem.

A tradução não é fácil.


XXXVII

e a razão, qualquer que seja sua causa ou natureza.

Se a mente de um homem esteve por muito tempo sob disciplina adequada, após a reflexão ele é capaz de se recuperar dessa desordem e retomar seu estado anterior.

Se ele não esteve sob disciplina adequada, quando seus poderes de razão são assim assaltados, ele pode fazer qualquer coisa, por mais tola ou má que seja.

Um exercício sadio da faculdade da Vontade requer, portanto, disciplina, a fim de que seja corrigida e mantida.

Um homem deve exercitar sua vontade e aprimorá-la pelo trabalho, de modo a torná-la conforme à natureza e livre.

Este exercício da vontade e o seu aprimoramento são um trabalho que nunca termina.

Um homem deve começar tão cedo quanto puder.

Se a pergunta é feita sobre como um homem deve começar, que nunca foi treinado por um pai ou mestre a observar cuidadosamente sua própria conduta, a refletir, a decidir e então a agir, não posso dizer.

Talvez um mero acidente, alguma trivialidade que muitas pessoas não notariam, possa ser o começo de uma mudança total na vida de um homem, como no caso de Polemon, que era um jovem dissoluto, e quando por acaso passava pela sala de aula de Xenócrates, ele e seus companheiros bêbados irromperam na sala.

Polemon foi tão afetado pelas palavras do excelente mestre, que saiu um homem diferente, e por fim sucedeu Xenócrates na escola da Academia (iii. c. 1). A tolice e os maus hábitos podem, portanto, pela reflexão, ser transformados em sabedoria e em um bom curso de vida.

Se tal coisa acontece, e sem dúvida já aconteceu, pode-se dizer que a origem da mudança não está na vontade do homem, mas em algo externo.

Concedido: uma coisa externa apresentou uma aparência a um homem, mas o efeito da aparência não seria o mesmo em todos os homens, pois presumimos que não foi o mesmo, como conta a história, em Polemon e seus companheiros.

Um homem, neste caso, tinha um temperamento ou disposição e uma capacidade de usar seu poder mental e de aproveitar as palavras de Xenócrates.

Pode-se dizer que

XXXVlll A FILOSOFIA DE EPICTETO.

esse temperamento ou disposição e capacidade não estão no poder da Vontade de um homem; e isso é verdade.

Mas essa questão nada nos importa. Os homens têm várias capacidades e, como Epicteto diria, elas são o dom de Deus, que as distribui como lhe apraz.

Um homem tem o poder de usar uma aparência de uma maneira que é boa para si mesmo, e outro não tem.

Não podemos dizer mais nada.

De qualquer forma, então, que um homem tenha sido levado a exercer sua vontade em direção a um bom fim, ele deve praticar o exercício de sua vontade para tal fim; ele deve criar um hábito disso, hábito que adquirirá força; e ele pode então ter uma esperança razoável de que não falhará frequentemente em seu bom propósito.

Esta, creio eu, é a intenção de Epicteto, como podemos depreender das inúmeras passagens em que ele fala da vontade.

Espero que nenhum leitor pense que proponho o que disse como uma explicação suficiente de uma questão difícil.

Apenas disse o que considero suficiente para explicar Epicteto; e disse o que me parece ser verdade.

Epicuro ensinou que não deveríamos nos casar, nem gerar filhos, nem nos envolver em assuntos públicos, porque essas coisas perturbam nossa tranquilidade.

Epicteto e os estoicos ensinaram que um homem deveria se casar, gerar filhos e cumprir todos os deveres de um cidadão.

Em um de seus melhores discursos (iii.

0. 22; Sobre o Cinismo), no qual descreve que tipo de pessoa um Cínico (seu filósofo ideal) deveria ser, ele diz que ele é um mensageiro de Deus (Zeus) aos homens sobre coisas boas e más, para mostrar-lhes que eles se desviaram e estão buscando a substância do bem e do mal onde ela não está; mas onde ela está, nunca pensam.

Supõe-se que o Cínico diga: Como é possível que um homem como ele, que não tem casa e nada possui, possa viver feliz? A resposta é: Vede, Deus vos enviou um homem para vos mostrar que é possível.

O homem não tem cidade, nem casa, nada tem; não tem esposa, nem filhos; e, no entanto, nada lhe falta.

Em resposta a uma pergunta sobre se um XXXlS.


O cínico deveria casar e procriar filhos, responde Epicteto: "Se me concederes uma comunidade de sábios, talvez ninguém se aplique prontamente à prática cínica." No entanto, diz ele, se o fizer, nada o impedirá de casar e gerar filhos, pois sua esposa será outra como ele.

"Mas", acrescenta, "no estado atual das coisas, que é semelhante ao de um exército em ordem de batalha, não convém que o cínico, sem qualquer distração, se ocupe apenas do ministério de Deus, podendo circular entre os homens, sem estar amarrado aos deveres comuns da humanidade, nem enredado nas relações ordinárias da vida, as quais, se negligenciar, não manterá o caráter de homem honrado e bom? E se as observar, perderá o caráter de mensageiro, espião e arauto de Deus." A conclusão é que é melhor para um ministro de Deus não casar.

Epicteto distingue a alma do corpo no capítulo (iv, c. 11) sobre a pureza (limpeza); mas sabiamente não tenta definir a alma.

Ele diz: "Supomos que há algo superior no homem e que o recebemos primeiramente dos Deuses: pois, como os Deuses por sua natureza são puros e livres de corrupção, na medida em que os homens se aproximam deles pela razão, nessa medida se apegam à pureza e ao amor (hábito) da pureza." É, porém, impossível que a natureza humana seja totalmente pura; mas a razão se esforça para fazer a natureza humana amar a pureza.

"A primeira e mais elevada pureza, então, é a que está na alma; e o mesmo dizemos da impureza.

Mas não poderias descobrir a impureza da alma como poderias descobrir

¹ O Dr. Farrar diz em seus 'Seekers after God' (Epicteto, p. 213): "Que Epicteto aprova o celibato como um 'conselho de perfeição', e de fato suas opiniões têm uma estreita e notável semelhança com as de São Paulo." Não compreendo a primeira parte desta frase, e o leitor de Epicteto verá que a segunda parte não é verdadeira.

Há uma nota sobre o assunto (pp. 258, 316).

XI A FILOSOFIA DE EPICTETO,

a do corpo: mas quanto à alma, que mais poderias encontrar nela senão aquilo que a torna imunda em relação aos atos que lhe são próprios? Ora, os atos da alma são movimento em direção a um objeto ou afastamento dele, desejo, aversão, preparação, desígnio (propósito), assentimento.

Que é, então, que nesses atos torna a alma imunda e impura? Nada mais do que seus próprios juízos errôneos (KpiaTo). Consequentemente, a impureza da alma são as más opiniões da alma; e a purificação da alma é o plantar nela opiniões próprias; e a alma é pura a que tem opiniões próprias, pois só a alma, em seus próprios atos, está livre de perturbação e poluição."

Epicteto diz (iv. c. 7) que o homem não é "carne, nem ossos, nem nervos (vevpa), mas é aquilo que faz uso dessas partes do corpo e as governa e segue (compreende) as aparências das coisas." Essa opinião parece ser a mesma, ou quase a mesma, que a do Bispo Butler (iv. c. 7, nota 10). Se, então, Epicteto tinha alguma noção distinta da alma — e ele é um homem cujas noções são geralmente distintas — creio que sua opinião sobre o corpo do homem e sobre a alma do homem é que o corpo do homem não é o homem, mas o corpo é aquele "barro finamente temperado" no qual o homem habita, e sem o corpo ele não poderia viver esta vida terrena; e sua noção da alma é a que foi exposta acima (iv. c. 11 e c. 7). Quanto ao modo e à natureza dessa conexão entre o corpo e a alma, só posso supor que ele teria rejeitado todo conhecimento disso, como faz quanto à natureza da percepção (p. 82); e não suponho que qualquer filósofo ou teólogo ousaria dizer o que é essa conexão da alma e do corpo. Na vida, então, que o homem vive na terra, creio que as opiniões de Epicteto são as mesmas, ou quase as mesmas, que as de Swedenborg; mas após o evento, que sobrevém a todos os homens, e que chamamos Morte, as opiniões são muito diferentes.


xli

E o que é a Morte? (p. 230 no capítulo sobre a Solidão). É um ir "ao lugar de onde vieste, aos teus amigos e parentes, aos elementos: o que havia em ti de fogo vai ao fogo, de terra à terra; de ar (espírito) ao ar; de água à água: nenhum Hades, nem Aqueronte, nem Cócito, nem Piriflegetonte, mas tudo está cheio de Deuses e Demônios." Ele diz (p. 282): "a morte é uma mudança maior, não do estado que agora é para o que não é, mas para o que não é agora."

Então não existirei mais? Você não existirá, mas será algo diferente, do qual o mundo agora necessita: pois você também veio à existência não quando escolheu, mas quando o mundo precisou de você." A morte é a resolução da matéria do corpo nas coisas das quais ele é composto (p. 347). Isso é distinto e inteligível.

Da alma, que, como vimos, ele considera ser de alguma forma diferente do corpo durante a vida, ele não fala tão distintamente.

Penso que ele quer dizer, se quer dizer alguma coisa, algo como o que eu disse na p. 347, nota 4.

O filósofo, que parece não ter crença em uma existência futura, como geralmente é entendida, ensina que devemos viver tal vida em todos os nossos pensamentos e em todos os nossos atos como um cristão ensinaria.

Ele diz (p. 285): "Então, no lugar de todos os outros prazeres, substitui este: o de ter consciência de que estás obedecendo a Deus, que não em palavra, mas em ação, estás realizando os atos de um homem sábio e bom." Ele não busca recompensa por fazer o que deve fazer. O homem virtuoso tem sua recompensa em seus próprios atos.

Se ele vive conforme a natureza, fará o que é melhor nesta curta vida e obterá toda a felicidade que não pode obter de outra forma.

Ele diz (p. 310): "Quem és tu e com que propósito vieste ao mundo? Não te introduziu Deus aqui, não te mostrou a luz, não te deu companheiros de trabalho, e percepção e razão? E como quem te introduziu aqui? Não te introduziu como sujeito à morte, e como alguém que deve viver na terra com um pouco de carne, e observar a sua administração e unir-te a ele no espetáculo e na festa por um curto tempo? Não irás então, enquanto te foi permitido, depois de ver o espetáculo e a solenidade, quando ele te conduzir para fora, partir com adoração a ele e gratidão pelo que ouviste e viste"?

Talvez possamos dizer que a conclusão de Epicteto sobre a alma após a separação do corpo equivale a uma declaração de que ele nada sabia sobre isso; como ele às vezes rejeita o conhecimento de outras coisas.

Não podemos supor que nos livros que se perderam ele tenha expressado quaisquer opiniões que sejam inconsistentes com aquelas contidas nos livros que existem.

Ele deve ter conhecido a opinião de Sócrates sobre a imortalidade da alma, ou a opinião atribuída a Sócrates; mas não disse que a ela adere, nem expressa discordância dela. O Bispo Butler, em sua Analogia da Religião Natural e Revelada (Parte I. Da Religião Natural, Cap. I. De uma Vida Futura), examinou a questão de uma Vida Futura com sua habitual modéstia, bom senso e sagacidade. A investigação é muito difícil.

Ele diz no final do capítulo: "A credibilidade de uma vida futura, na qual aqui se insistiu, por pouco que satisfaça nossa curiosidade, parece responder a todos os propósitos da religião, da mesma maneira que uma prova demonstrativa o faria. Na verdade, uma prova, mesmo demonstrativa, de uma vida futura não seria uma prova da religião. Pois, que havemos de viver no porvir é tão conciliável com o esquema do ateísmo, e tão bem explicável por ele, quanto o é o fato de estarmos agora vivos; e, portanto, nada pode ser mais absurdo do que argumentar a partir desse esquema que não pode haver um estado futuro. Mas, como a religião implica um estado futuro, qualquer presunção contra tal estado é uma presunção contra a religião." xliii


Concluo que Epicteto, que era um homem religioso e que acreditava na existência de Deus e na sua administração de todas as coisas, não negava uma vida futura; nem diz que nela acredita. Concluo que ele não a compreendia; que estava além de sua concepção, como também estava a natureza de Deus.

Seu grande mérito como mestre é que ele "tentou mostrar que há na natureza do homem e na constituição das coisas razão suficiente para se viver uma vida virtuosa." Ele sabia bem o que é a natureza do homem e se esforçou para nos ensinar como podemos assegurar a felicidade nesta vida, na medida em que somos capazes de alcançá-la.

Mais poderia ser dito; mas isto é suficiente. Acrescentarei apenas que os estoicos foram acusados de arrogância; e a acusação é justa. O próprio Epicteto foi censurado por isso, mesmo por teólogos modernos, que nem sempre estão livres dessa falta eles mesmos. Se há alguma arrogância ou aparente arrogância em Epicteto, ele não a ensinou, pois nos advertiu especialmente contra essa falta, como o leitor verá em várias passagens.

Não estou certo de ter compreendido corretamente o Apóstolo Paulo quando escrevi a nota 22 na p. 283. As palavras "Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos" são ditas como uma citação de um escritor grego.

As palavras podem então ser tomadas não como de Paulo, mas como a conclusão de pessoas insensatas.

Um amigo que, conforme entendo suas observações, é dessa opinião, acrescenta também que, como Paulo era um homem erudito e conhecia algo sobre os filósofos gregos, certamente lhes daria crédito por opiniões melhores e mais racionais.

Este pode ser o verdadeiro significado das palavras.

Paulo nem sempre é fácil de entender, mesmo para aqueles que fazem um estudo especial de suas Epístolas.

DISCURSOS DE EPICTETO POR ARRIANO.

Arriano a Lúcio Gélio, com votos de felicidade.

NÃO escrevi estes Discursos de Epicteto da maneira como um homem poderia escrever tais coisas; nem os tornei públicos eu mesmo, pois declaro que nem sequer os escrevi.

Mas tudo o que o ouvi dizer, o mesmo tentei registrar em suas próprias palavras, o mais fielmente possível, com o propósito de preservá-los como memórias para mim mesmo, posteriormente, dos pensamentos e da liberdade de expressão de Epicteto.

Assim, os Discursos são naturalmente tais como um homem dirigiria sem preparação a outro, não tais como um homem escreveria.

A. Gélio (i. 2 e xvii. 19) fala dos Discursos de Epicteto organizados por Arriano; e Gélio (xix. 1) menciona um quinto livro desses Discursos, mas apenas quatro existem e alguns fragmentos.

O número total de livros era oito, como diz Fócio (Cod. 58).

Existe também um Enquirídio ou Manual, consistindo de pequenas peças selecionadas dos Discursos de Epicteto; e há o valioso comentário sobre o Enquirídio escrito por Simplício no século VI d.C., durante o reinado de Justiniano.

Arriano explica de certa forma o que quer dizer ao afirmar que não escreveu estes Discursos de Epicteto; mas não explica seu significado quando diz que não os tornou públicos.

Ele nos conta que tentou registrar nas palavras de Epicteto o que o filósofo dizia; mas como aconteceu que foram publicados pela primeira vez, sem seu conhecimento ou consentimento, Arriano não diz.

Parece, contudo, que ele viu os Discursos quando foram publicados; e, como observa Schweighaeuser, ele naturalmente corrigiria quaisquer erros que detectasse, e assim haveria uma edição revisada por ele mesmo.

Schweighaeuser tem uma nota (i. cap. 26, 13) sobre as dificuldades que agora encontramos nos Discursos.

B

EPICTETO.

com a intenção de que outros os lessem.

Agora, sendo tais, não sei como caíram nas mãos do público, sem o meu consentimento ou conhecimento.

Mas pouco me importa se eu for considerado incompetente para escrever; e não importa nada a Epicteto se algum homem desprezar suas palavras; pois no momento em que as proferiu, era evidente que não tinha outro propósito senão mover as mentes de seus ouvintes para as melhores coisas.

Se, de fato, estes Discursos produzirem esse efeito, terão, creio eu, o resultado que as palavras dos filósofos deveriam ter.

Mas se não o produzirem, saibam aqueles que os leem que, quando Epicteto os proferiu, o ouvinte não podia deixar de ser afetado da maneira que Epicteto desejava que fosse. Mas se os próprios Discursos, tal como estão escritos, não efetuarem esse resultado, pode ser que a culpa seja minha, ou pode ser que a coisa seja inevitável.

Adeus.

LIVRO I.

CAPÍTULO I.

DAS COISAS QUE ESTÃO EM NOSSO PODER, E DAS QUE NÃO ESTÃO EM NOSSO PODER.

De todas as faculdades (exceto aquela que em breve mencionarei), não encontrarás uma que seja capaz de contemplar a si mesma e, consequentemente, não capaz de aprovar ou desaprovar. Até onde a arte gramatical possui o poder de contemplação? Até formar um juízo sobre o que está escrito e falado.

E até onde a música? Até julgar sobre a melodia.

Acaso alguma delas contempla a si mesma? De modo algum.

Mas quando precisas escrever algo a teu amigo, a gramática te dirá que palavras deves escrever; mas se deves escrever ou não, a gramática não te dirá.

E assim é com a música quanto aos sons musicais; mas se deves cantar no momento presente e tocar lira, ou não fazer nenhuma das duas coisas, a música não te dirá.

Que faculdade, então, te dirá? Aquela que contempla a si mesma e todas as outras coisas.

E qual é essa faculdade? A faculdade racional; pois esta é a única faculdade que nós

* "Esta faculdade moral de aprovar e desaprovar" é a tradução do Bispo Butler do *δοκιμαστική* e *ἀποδοκιμαστική* de Epicteto (i. 1, 1) em sua dissertação.

Sobre a Natureza da Virtude.

Ver sua nota.

A faculdade racional é o ἡγεμονικόν de Epicteto e Antonino, do qual Antonino diz (xi. 1): "Estas são as propriedades da alma racional: ela se vê a si mesma, analisa-se a si mesma e faz-se tal como escolhe; o fruto que produz, ela mesma o desfruta."

B

EPICTETO.

recebeu que examina a si mesma, o que é, e que poder tem, e qual é o valor deste dom, e examina todas as outras faculdades: pois que mais há que nos diga que as coisas douradas são belas, pois elas mesmas não o dizem? Evidentemente, é a faculdade que é capaz de julgar as representações. O que mais julga a música, a gramática e as outras faculdades, prova seus usos e aponta as ocasiões para usá-las? Nada mais.

Assim, como era conveniente que fosse, aquilo que é o melhor de tudo e supremo sobre tudo é a única coisa que os deuses colocaram em nosso poder: o uso correto das representações; mas todas as outras coisas eles não colocaram em nosso poder.

Foi porque não quiseram? Eu, de fato, penso que, se tivessem sido capazes, teriam colocado também essas outras coisas em nosso poder, mas certamente não puderam. Pois, como existimos na terra e estamos ligados a tal corpo e a tais companheiros, como nos seria possível não sermos impedidos quanto a essas coisas por fatores externos?

Mas o que diz Zeus? Epicteto, se fosse possível, eu teria tornado tanto o teu pequeno corpo quanto a tua pequena propriedade livres e não expostos a impedimentos.

Mas agora não ignores isto: este corpo não é teu, mas é argila finamente temperada.

E, uma vez que não pude fazer por ti

Isto é o que ele acabou de nomear como faculdade racional.

Os estoicos davam o nome de representações (φαντασίαι) a todas as impressões recebidas pelos sentidos e a todas as emoções causadas por coisas externas.

Crisipo disse: φαντασία ἐστὶ πάθος ἐν τῇ ψυχῇ γινόμενον, ἐνδεικνύμενον αὐτό τε καὶ τὸ πεποιηκός (Plutarco, iv. c. 12, De Placitis Philosophorum).

Compare com Antonino, ii. 3. Epicteto não pretende limitar o poder dos deuses, mas quer dizer que, sendo a constituição das coisas o que é, eles não podem fazer coisas contraditórias.

Eles constituíram as coisas de tal modo que o homem é impedido por fatores externos.

Como poderiam então dar ao homem o poder de não ser impedido por fatores externos? Sêneca (De Providentia, c. 6) diz: "Mas pode-se dizer que muitas coisas acontecem que causam tristeza, medo e são difíceis de suportar."

Porque (diz Deus) não pude salvar-vos deles, armei vossas mentes contra tudo." Esta é a resposta àqueles que imaginam ter refutado a afirmação comum da onipotência de Deus, quando perguntam se Ele pode combinar contradições inerentes, se pode fazer com que dois e dois sejam cinco.

Esta é, de fato, uma maneira muito absurda de falar.

EPICTETO.

o que mencionei, dei-vos uma pequena porção de nós, esta faculdade de perseguir um objeto e evitá-lo, e a faculdade de desejo e aversão, e, numa palavra, a faculdade de usar as aparências das coisas; e se cuidardes desta faculdade e a considerardes vossa única possessão, nunca sereis impedidos, nunca encontrareis obstáculos; não vos lamentareis, não culpareis, não lisonjeareis pessoa alguma.

Ora, parecem-vos estas coisas pequenas? Espero que não.

Contentai-vos então com elas e orai aos deuses.

Mas agora, quando está em nosso poder cuidar de uma coisa, e a ela nos apegarmos, preferimos cuidar de muitas coisas, e estar ligados a muitas coisas, ao corpo e à propriedade, e ao irmão e ao amigo, e ao filho e ao escravo.

Visto que estamos ligados a muitas coisas, somos por elas oprimidos e arrastados para baixo.

Por esta razão, quando o tempo não é propício para navegar, sentamo-nos e nos atormentamos, e continuamente olhamos para ver que vento sopra.

É norte.

Que nos importa isso? Quando soprará o vento oeste? Quando ele escolher, meu bom homem, ou quando agradar a Éolo; pois Deus não vos fez o administrador dos ventos, mas Éolo.® Que então? Devemos fazer o melhor uso que pudermos das coisas que estão em nosso poder, e usar o restante segundo sua natureza.

Qual é então sua natureza? Como Deus aprouver.

Devo então eu sozinho ter minha cabeça cortada? O quê, quereríeis que todos os homens perdessem suas cabeças para que vós pudésseis ser—

 Schweighaeuser observa que estas faculdades de perseguição e evitação, e de desejo e aversão, e até mesmo a faculdade de usar as aparências, pertencem aos animais tanto quanto ao homem; mas os animais, ao usarem as aparências, são movidos apenas pela paixão, e não compreendem o que fazem, enquanto no homem estas paixões estão sob seu controle.

Salmasius propôs mudar /ufVepoi' para t'lfifrepov, para remover a dificuldade sobre estas paixões animais serem chamadas de "uma pequena porção de nós (os deuses)". Schweighaeuser, no entanto, embora veja a dificuldade, não aceita a emenda.

Periiaps Aninn representou aqui imperfeitamente o que seu mestre disse, e talvez não o tenha feito.

[Grego: iCf7voy yap rafxirju avfJ/Luv iroirfffe Kpoviup.]

EPICTETUS.

Tolo? Você não esticará seu pescoço como Lateranus fez em Roma quando Nero ordenou que ele fosse decapitado? Pois quando ele esticou o pescoço e recebeu um golpe fraco, que o fez recolhê-lo por um momento, ele o esticou novamente. E um pouco antes, quando foi visitado por Epaphroditus, liberto de Nero, que lhe perguntou sobre a causa da ofensa que ele havia dado, ele disse: "Se eu escolher contar algo, contarei ao seu mestre."

O que então um homem deve ter em prontidão em tais circunstâncias? O que mais senão isto? O que é meu e o que não é meu; e o que me é permitido e o que não me é permitido. Devo morrer. Devo então morrer lamentando? Devo ser acorrentado. Devo então também lamentar? Devo ir para o exílio. Algum homem então me impede de ir com sorrisos e alegria e contentamento? Conte-me o segredo que você possui. Não contarei, pois isso está em meu poder. Mas eu o colocarei em correntes. Homem, do que você está falando? Eu em correntes? Você pode acorrentar minha perna, mas minha vontade nem mesmo Zeus pode dominar. Eu o jogarei na prisão. Meu pobre corpo, você quer dizer. Eu cortarei sua cabeça. Quando então eu lhe disse que minha cabeça sozinha não pode ser cortada? Estas são as coisas que os filósofos devem meditar, que devem escrever diariamente, nas quais devem se exercitar.

Thrasea costumava dizer: Prefiro ser morto hoje

Notas de rodapé:

1. Plautius Lateranus, cônsul eleito, foi acusado de estar envolvido na conspiração de Piso contra Nero. Ele foi apressado para a execução sem poder ver seus filhos; e embora o tribuno que o executou estivesse ciente do complô, Lateranus nada disse. (Tácito, Anais, xv. 49, 60.)

2. Epaphroditus era um liberto de Nero e uma vez mestre de Epicteto. Ele era secretário de Nero. Um bom ato é registrado dele: ele ajudou Nero a se matar, e por esse ato foi morto por Domiciano (Suetônio, Domiciano, c. 14).

3. Isto é uma imitação de uma passagem nas Bacantes de Eurípides (v. 492, etc.), que também é imitada por Horácio (Epístolas, i. 16).

4. 7] vpoaipeffii. É às vezes traduzido pelo latim propositum ou por voluntas, a vontade.

5. Thrasea Paetus, um filósofo estoico, que foi ordenado no tempo de Nero a se matar (Tácito, Anais.

xvi.

21-35). Ele era o marido de Arria, cuja mãe Arria, esposa de Caecina Paetus,

EPICTETO.

do que banido amanhã.

Que disse então Rufus a ele? Se escolhes a morte como a mais pesada das desgraças, quão grande é a loucura da tua escolha? Mas se, como a mais leve, quem te deu a escolha? Não estudarás contentar-te com o que te foi dado?

Que disse então Agrippinus? Ele disse: "Não sou um obstáculo para mim mesmo." Quando lhe foi comunicado que seu julgamento ocorria no Senado, ele disse: "Espero que saia bem; mas é a quinta hora do dia" — este era o momento em que costumava exercitar-se e depois tomar o banho frio — "vamos fazer nosso exercício." Após ter feito seu exercício, alguém vem e lhe diz.

Foste condenado.

Ao exílio, responde ele, ou à morte? Ao exílio.

E quanto à minha propriedade? Não te é tirada.

Vamos a Aricia então, disse ele, e jantemos.

Isto é ter estudado o que um homem deve estudar; ter tornado o desejo e a aversão livres de impedimento, e livres de tudo o que um homem evitaria.

Devo morrer.

Se agora, estou pronto para morrer.

Se, após um curto tempo, agora janto porque é a hora do jantar; depois disso, então morrerei.

Como? Como um homem que devolve o que pertence a outro.

no tempo do Imperador Cláudio, heroicamente mostrou a seu marido o caminho para morrer (Plínio, Cartas, iii.

16.) Marcial imortalizou a Arria mais velha em um famoso epigrama (i. 14): —

"Quando Arria a seu Paetus deu a espada,

Que sua própria mão de seu casto seio tirou,

'Este ferimento,' disse ela, 'acredita, não causa dor,

Mas aquilo causará dor que tua mão fará.'"

"C. Musonius Rufus, um toscano de nascimento, de posição equestre, um filósofo e estoico (Tácito.

Hist.

iii.

81).

' Paconius Agrippinus foi condenado no tempo de Nero.

A acusação contra ele era que herdara o ódio de seu pai ao chefe do estado romano (Tácito.

Ann.

xvi.

28). O pai de Agrippinus fora executado sob Tibério (Suetônio, Tib.

e. 61).

' Aricia, cerca de vinte milhas romanas de Roma, na Via Ápia (Horácio, Sat.

i. 5, 1): —

"Egressum magna me excepit Aricia Roma."

"Epicteto, Encheiridion, c. 11: "Nunca digas na ocasião de qualquer coisa, 'Eu perdi isso,' mas digas, 'Eu devolvi isso.'"

EPICTETO.

CAPÍTULO II.

COMO UM HOMEM EM TODA OCASIÃO PODE MANTER SEU PRÓPRIO CARÁTER.

Para o animal racional, somente o irracional é intolerável; mas aquilo que é racional é tolerável.

Os golpes não são naturalmente intoleráveis.

Como assim? Veja como os Lacedemônios suportam o açoite, quando aprenderam que o açoite é compatível com a razão.

Enforcar-se não é intolerável.

Quando então tens a opinião de que é racional, vais e te enforcas.

Em suma, se observarmos, descobriremos que o homem animal não é afligido por nada tanto quanto pelo que é irracional; e, ao contrário, não é atraído por nada tanto quanto pelo que é racional.

Mas o racional e o irracional aparecem como tais de maneira diferente para pessoas diferentes, assim como o bom e o mau, o proveitoso e o improveitoso.

Por essa razão, particularmente, precisamos de disciplina, para aprender a adaptar a preconcepção do racional e do irracional às várias coisas conforme a natureza.

Mas para determinar o racional e o irracional, usamos não apenas as estimativas das coisas externas, mas também consideramos o que é apropriado a cada pessoa.

Os meninos espartanos costumavam ser açoitados no altar de Ártemis Orthia até o sangue fluir abundantemente, e às vezes até a morte; mas nunca emitiam um gemido sequer (Cicero, Tuscul. ii. 14; v. 27).

A preconcepção (πρόληψις) é assim definida pelos estoicos: ἔστι δὲ ἡ πρόληψις ἔννοια φυσικὴ τῶν καθ' ὅλου (Diógenes Laércio, vii.). "Nomeamos Antecipação todo conhecimento pelo qual posso conhecer e determinar a priori aquilo que pertence ao conhecimento empírico, e sem dúvida este é o sentido em que Epicuro usou sua expressão πρόληψις" (Kant, Kritik der reinen Vernunft, p. 152, 7ª ed.). Ele acrescenta: "Mas, uma vez que há algo nas aparências que nunca pode ser conhecido a priori, e que consequentemente constitui a diferença entre o conhecimento empírico e o conhecimento a priori, isto é, a sensação (como matéria da observação), segue-se que essa sensação é especialmente aquilo que não pode ser antecipado (não pode ser uma πρόληψις). Por outro lado, poderíamos nomear as determinações puras no espaço e no tempo, tanto em relação à forma quanto à magnitude, antecipações das aparências, porque essas determinações representam a priori tudo o que pode ser apresentado a nós a posteriori na experiência." Veja também p. 8, etc.

EPICTETO.

Pois para um homem é razoável segurar um penico para outro, e atentar somente para isto: que, se não o segurar, receberá açoites e não receberá sua comida; mas, se o segurar, não sofrerá nada de duro ou desagradável.

Mas para outro homem, não apenas o segurar um penico lhe parece intolerável para si mesmo, mas também intolerável permitir que outro faça esse ofício por ele.

Se então me perguntais se deveis segurar o penico ou não, dir-vos-ei que o receber comida vale mais do que o não recebê-la, e o ser açoitado é uma indignidade maior do que não ser açoitado; de modo que, se medirdes vossos interesses por essas coisas, ide e segurai o penico.

"Mas isto", dizeis, "não seria digno de mim." Pois bem, então sois vós quem deveis introduzir essa consideração na indagação, não eu; pois sois vós quem vos conheceis, quanto valeis para vós mesmos, e por que preço vos vendéis; pois os homens se vendem a preços variados.

Por essa razão, quando Floro deliberava se deveria descer aos espetáculos de Nero e também neles atuar, Agrippino lhe disse: Desce; e quando Floro perguntou a Agrippino: Por que não desces tu? Agrippino respondeu: Porque eu nem sequer delibero sobre o assunto.

Pois quem uma vez se trouxe a deliberar sobre tais questões e a calcular o valor das coisas externas aproxima-se muito daqueles que se esqueceram de seu próprio caráter.

Pois por que me fazeis a pergunta: se a morte é preferível ou a vida? Eu digo: a vida.

Dor ou prazer? Eu digo: prazer.

Mas se eu não participar da representação trágica, terei minha cabeça cortada.

Ide então e participai, mas eu não participarei.

Por quê? Porque vos considerais apenas um fio daqueles que estão na túnica.

Pois bem, então era conveniente que cuidásseis de como seríeis como o resto dos homens, assim como o fio não tem desígnio de ser nada superior aos outros fios.

Mas eu quero ser a púrpura, aquela pequena parte que é brilhante e faz todo o resto parecer gracioso e belo.

¹ Nero era apaixonadamente afeiçoado a representações cênicas e costumava induzir os descendentes de famílias nobres, cuja pobreza os fazia consentir, a aparecer no palco (Tácito, Anais, xiv, 14; Suetônio, Nero, c. 21).

EPICTETO.

Por que então me dizes para me tornar como a multidão? E se eu o fizer, como ainda serei púrpura?

Prisco Helvídio também viu isso e agiu de conformidade.

Pois quando Vespasiano enviou e ordenou-lhe que não entrasse no senado, ele respondeu: "Está em teu poder não me permitir ser membro do senado, mas enquanto eu o for, devo entrar." Pois bem, entra então, disse o imperador, mas não digas nada.

Não peças minha opinião, e ficarei em silêncio.

Mas devo pedir tua opinião.

E devo dizer o que penso ser certo.

Mas se o fizeres, mandar-te-ei matar.

Quando então te disse que sou imortal? Tu farás a tua parte, e eu farei a minha: é tua parte matar; é minha morrer, mas sem temor: tua parte é banir-me; minha é partir sem tristeza.

Que bem então fez Prisco, que era apenas uma única pessoa? E que bem faz a púrpura para a toga? Ora, que outra coisa senão que ela é conspícua na toga como púrpura, e é também exibida como um belo exemplo para todas as outras coisas? Mas em tais circunstâncias, outro teria respondido a César, que lhe proibia entrar no senado: "Agradeço-te por me poupares." Mas a tal homem Vespasiano nem sequer teria proibido entrar no senado, pois sabia que ele ou ficaria ali sentado como um vaso de barro, ou, se falasse, diria o que César desejasse, e acrescentaria ainda mais.

A "púrpura" é a larga borda púrpura na toga chamada toga pretexta, usada por certos magistrados romanos e alguns outros, e pelos senadores, diz-se, em certos dias (Cic. Fil. ii. 43).

Helvídio Prisco, um senador romano e filósofo, é elogiado por Tácito (Hist. iv. 4, 5) como um homem honesto: "Ele seguia os filósofos que consideravam somente aquelas coisas boas que são virtuosas, e somente aquelas más que são torpes; e considerava o poder, a posição e todas as outras coisas externas à mente como nem boas nem más." Vespasiano, provavelmente num acesso de paixão, provocado por Helvídio, ordenou que fosse morto, e depois revogou a ordem quando já era tarde demais (Suetônio, Vespasiano, 0.15).

EPICTETO.

H

Dessa maneira também agiu um atleta que estava em perigo de morrer a menos que seus órgãos genitais fossem amputados.

Seu irmão veio ao atleta, que era filósofo, e disse:

Vem, irmão, o que vais fazer? Devemos amputar este membro e voltar ao ginásio?

Mas o atleta persistiu em sua resolução e morreu.

Quando alguém perguntou a Epicteto como ele fazia isso, como atleta ou como filósofo? "Como homem", respondeu Epicteto, "e um homem que fora proclamado entre os atletas nos jogos olímpicos e neles contendera, um homem que estivera familiarizado com tal lugar, e não apenas ungido na escola de Baton." Outro teria permitido até que lhe cortassem a cabeça, se pudesse viver sem ela. Tal é essa consideração pelo caráter, tão forte naqueles que se acostumaram a introduzi-la por si mesmos e, conjuntamente com outras coisas, em suas deliberações.

Vem então, Epicteto, "raspa-te".

Se sou filósofo, respondo, não me rasparei.

Mas tirarei tua cabeça? Se isso te fizer algum bem, tira-a.

Alguém perguntou: como então cada um de nós perceberá o que é adequado ao seu caráter? Como, respondeu ele, o touro sozinho, quando o leão ataca, descobre suas próprias forças e se adianta em defesa de todo o rebanho? É evidente que, com as forças, a percepção de tê-las está imediatamente conjunta; e, portanto, quem de nós tem tais forças não as ignorará.

Ora, um touro não se torna subitamente, nem um homem corajoso; mas devemos nos disciplinar no inverno para a campanha de verão, e não correr precipitadamente para aquilo que não nos concerne.

Apenas considera por que preço vendes tua própria vontade: se não por outra razão, ao menos por esta, que não a vendas por uma soma pequena.

Mas aquilo que é grande e superior talvez pertença a Sócrates e a tais como ele.

Por que então, se somos naturalmente tais, não é um grande número de nós como ele? É verdade então que todos os cavalos se tornam velozes, que todos os cães são hábeis em rastrear pegadas? Que então, já que sou naturalmente obtuso, por essa razão não me esforçarei? Espero que não.

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Notas:

¹ Baton foi eleito por dois anos ginasiarca ou superintendente de um ginásio na época de Marco Aurélio Antonino. Ver a nota de Schweighaeuser.

² Supõe-se, como diz Casaubon, que isso se refira à ordem de Domitiano aos filósofos para irem ao exílio; e alguns deles, a fim de ocultar sua profissão de filosofia, raspavam as barbas. Epicteto não tiraria a barba.

Epicteto não é superior a Sócrates; mas se não é inferior, isso me basta; pois nunca serei um Milo¹, e contudo não descuido do meu corpo; nem serei um Creso, e contudo não descuido da minha propriedade; nem, em uma palavra, deixamos de cuidar de qualquer coisa porque desesperamos de alcançar o grau mais elevado.

CAPÍTULO III.

COMO O HOMEM DEVE PROCEDER DO PRINCÍPIO DE QUE DEUS É O PAI DE TODOS OS HOMENS PARA O RESTO.

Se um homem pudesse assentir a esta doutrina como convém, que todos nós descendemos de Deus de maneira especial, e que Deus é o pai tanto dos homens quanto dos deuses, suponho que ele nunca teria pensamentos ignóbeis ou mesquinhos sobre si mesmo.

Mas se César (o imperador) te adotasse, ninguém poderia suportar tua arrogância; e se sabes que és filho de Zeus, não te exaltarias? Contudo, não fazemos assim; mas, uma vez que estas duas coisas estão misturadas na geração do homem, o corpo em comum com os animais, e a razão e a inteligência em comum com os deuses, muitos se inclinam para este parentesco, que é miserável e mortal; e poucos para aquele que é divino e feliz.

Visto que, então, é necessário que todo homem use tudo conforme a opinião que tem sobre isso, aqueles, os poucos, que pensam que foram formados para a fidelidade e a modéstia e para um uso seguro das aparências, não têm pensamentos mesquinhos ou ignóbeis sobre si mesmos; mas com a maioria é exatamente o contrário.

Pois eles dizem: "O que sou eu? Um pobre, miserável homem, com meu miserável pedaço de carne." Miserável, de fato; mas possuis algo melhor do que teu pedaço de carne.

Por que então negligenciais o que é melhor, e por que vos apegais a isto?

Por esta afinidade com a carne, alguns de nós, inclinando-se a ela, tornam-se como lobos, infiéis, traiçoeiros e perniciosos; alguns tornam-se como leões, selvagens, bestiais e indomados; mas a maior parte de nós torna-se raposas e outros animais piores.

Pois o que mais é um difamador e um homem maligno senão uma raposa, ou algum outro animal mais miserável e vil? Vede, então, e cuidai para que não vos torneis alguma dessas coisas miseráveis.

CAPÍTULO IV.

DO PROGRESSO OU MELHORAMENTO.

Aquele que está progredindo, tendo aprendido dos filósofos que o desejo significa o desejo das coisas boas, e a aversão significa a aversão às coisas más; tendo aprendido também que a felicidade e a tranquilidade não são alcançáveis pelo homem senão não deixando de obter o que deseja, e não caindo naquilo que evitaria; tal homem remove de si todo desejo e o adia, mas emprega sua aversão somente nas coisas que dependem de sua vontade.

Pois se ele tenta evitar qualquer coisa independente de sua vontade, sabe que às vezes cairá em algo que deseja evitar, e será infeliz.

Ora, se a virtude promete boa fortuna, tranquilidade e felicidade, certamente também o progresso rumo à virtude é progresso rumo a cada uma dessas coisas.

Pois é sempre verdade que, para qualquer ponto a que o aperfeiçoamento de algo nos conduz, o progresso é uma aproximação a esse ponto.

Como então admitimos que a virtude é tal como eu disse, e ainda assim buscamos progresso em outras coisas e fazemos dele uma exibição? Qual é o produto da virtude? A tranquilidade.

Quem então progride? É aquele que leu muitos livros de Crisipo? Mas a virtude consiste em ter compreendido Crisipo? Se assim é, o progresso é claramente nada mais do que conhecer muito de Crisipo.

Mas agora admitimos que a virtude produz uma coisa, e declaramos que aproximar-se dela é outra coisa, a saber, progresso ou melhoramento.

Tal pessoa, diz um, já é capaz de ler Crisipo por si mesmo.

De fato, senhor, você está fazendo grande progresso.

Que tipo de progresso? Mas por que você zomba do homem? Por que você o afasta da percepção de seus próprios infortúnios? Não lhe mostrará o efeito da virtude, para que ele aprenda onde procurar a melhora?

 rh iipow or 7] eijpoia é traduzido como "felicidade". A noção é a de "fluir facilmente", como Sêneca (Epp. 120) explica: "beata vita, secundo defluens cursu."

 irn-epredeiTat.

A tradução latina é: "in futiirum tempiis rejicit". Wolf diz: "Signlficat id, quod in Enchiridio dictum est: philosophiae tironem non nimium tribuere sibi, sed quasi addubitantem expeotare dum conflrmetur judicium."

 Diógenes Laércio (Crisipo, lib. vii.) afirma que Crisipo escreveu setecentos e cinco livros, ou tratados, ou o que quer que a palavra ru77po)UjuoTa signifique.

Ele nasceu em Sóli, na Cilícia, ou em Tarso, em 280 a.C., como se calcula, e ao ir para Atenas tornou-se aluno do estoico Cleantes.

EPICTETO.

Procure lá, miserável, onde está o seu trabalho.

E onde está o seu trabalho? No desejo e na aversão, para que não se decepcione em seu desejo e não caia naquilo que evitaria; na sua busca e evitação, para que não cometa erro; no assentimento e na suspensão do assentimento, para que não seja enganado.

As primeiras coisas, e as mais necessárias, são aquelas que nomeei. Mas se com tremor e lamentação você procura não cair naquilo que evita, diga-me como está melhorando.

Então você me mostra sua melhora nessas coisas? Se eu estivesse falando com um atleta, eu diria: Mostre-me seus ombros; e então ele poderia dizer: Aqui estão meus halteres.

Você e seus halteres cuidem disso.

Eu responderia: Quero ver o efeito dos halteres.

Então, quando você diz: Pegue o tratado sobre as forças ativas (opfiiy), e veja como eu o estudei. Eu respondo.

Escravo, não estou perguntando sobre isso, mas como você exerce a busca e a evitação, o desejo e a aversão, como você planeja, intenciona e se prepara, se de acordo com a natureza ou não.

Se de acordo, dê-me evidência disso, e eu direi que você está progredindo; mas se não, vá embora, e não apenas exponha seus livros, mas escreva tais livros você mesmo; e

 Compare iii. c. 2. A palavra é tJitoj.

 Halteres são instrumentos ginásticos (Galeno, i. De Sanitate tuenda; Marcial, xiv.)

; Juvenal, vi. 420, e o Escoliasta.

Upton). *Halteres* é uma palavra grega, literalmente "saltadores". Diz-se que eram massas de chumbo, usadas para exercício e na realização de saltos.

O efeito de tais pesos ao dar um salto é bem conhecido dos meninos que os usaram.

Um par de tijolos servirá ao propósito, diz Martifil (xiv.

49): —

"Quid pereunt stulto fortes haltere lacerti? Exercet melius vlnea fossa viros."

Juvenal (vi. 421) escreve sobre uma mulher que usa halteres até suar, e então é esfregada até secar por um homem,

"Quum lassata gravi ceciderunt brachia massa."

(Macleane's Juvenal.)

Quanto à expressão, "0/ei ah, Kal oi drrjpes, ver a nota de Upton.

É também uma forma latina: "Epicurus hoc viderit," Cícero, Acad.

ii. c. 7; "haec fortuna viderit," Ad Attic, vi. 4. Ocorre em M. Antonino, viii.

41, V. 25; e em Acta Apostol.

xviii.

15.

IG EPICTETO.

o que ganhareis com isso? Não sabeis que o livro inteiro custa apenas cinco denários? Parece então o expositor valer mais do que cinco denários? Nunca, pois, busqueis a matéria em si em um lugar, e o progresso em direção a ela em outro.

Onde está então o progresso? Se algum de vós, afastando-se das coisas externas, volta-se para a sua própria vontade (Trpoatpcoris) para exercitá-la e aperfeiçoá-la pelo trabalho, de modo a torná-la conforme à natureza, elevada, livre, desimpedida, sem obstáculos, fiel, modesta; e se aprendeu que aquele que deseja ou evita as coisas que não estão em seu poder não pode ser nem fiel nem livre, mas necessariamente deve mudar com elas e ser agitado por elas como em uma tempestade,® e necessariamente deve sujeitar-se a outros que têm o poder de proporcionar ou impedir o que ele deseja ou evitaria; finalmente, quando se levanta de manhã, se observa e guarda estas regras, banha-se como homem de fidelidade, come como homem modesto; da mesma maneira, se em toda matéria que ocorre ele trabalha seus princípios principais (to. irporiyoviJieva) como o corredor faz com referência à corrida, e o treinador da voz com referência à voz — este é o homem que verdadeiramente progride, e este é o homem que não viajou em vão.

Mas se ele tem esforçado suas energias na prática da leitura de livros, e trabalha somente nisso, e viajou para isso, digo-lhe que volte imediatamente para casa, e não negligencie seus afazeres lá; pois isto para o que ele viajou não é nada.

Mas a outra coisa é algo: estudar como um homem pode livrar sua vida de lamentação e gemidos, e de dizer: "Ai de mim", e "miserável que sou", e livrá-la também de infortúnio e decepção, e aprender o que é a morte, e o exílio, e a prisão, e o veneno, para que possa dizer quando estiver em grilhões:

"Querido Críton, se é a vontade dos deuses que assim seja, que assim seja"; e não dizer: "Miserável sou eu, um velho; foi para isto que conservei minhas cãs?" Quem é que fala assim? Pensais que hei de nomear algum homem de má reputação e baixa condição? Não diz Priamo isso? Não diz Édipo isso? Sim, todos os reis o dizem! Pois o que é a tragédia senão as perturbações (πάθη) de homens que valorizam os externos, exibidas nesse tipo de poesia? Mas se um homem deve aprender pela ficção que nenhuma coisa externa que independe da vontade nos concerne, por minha parte eu desejaria essa ficção, por meio da qual eu viveria feliz e imperturbado.

Mas deveis considerar por vós mesmos o que desejais.

Que nos ensina então Crisipo? A resposta é: saber que estas coisas não são falsas, das quais a felicidade vem e a tranquilidade surge. Tomai os meus livros, e aprendereis quão verdadeiras e conformes à natureza são as coisas que me tornam livre de perturbações.

Ó grande boa fortuna! Ó grande benfeitor que aponta o caminho! A Triptólemo todos os homens erigiram templos e altares, porque ele nos deu alimento pela agricultura; mas àquele que descobriu a verdade e a trouxe à luz e a comunicou a todos, não a verdade que nos mostra como viver, mas como viver bem, qual de vós por essa razão ergueu um altar, ou um templo, ou dedicou uma estátua, ou quem adora a Deus por isso? Porque os deuses deram a videira, ou o trigo, sacrificamos a eles; mas porque produziram na mente humana esse fruto pelo qual designaram nos mostrar a verdade que se relaciona com a felicidade, não agradeceremos a Deus por isso?

CAPÍTULO V.

CONTRA OS ACADÊMICOS.

Se um homem, disse Epicteto, opõe-se a verdades evidentes, não é fácil encontrar argumentos pelos quais o faremos mudar de opinião.

Mas isso não surge nem da

¹ ὑποπτερῇσθαι. Compare Tiago, Ep. i. 6: ὁ γὰρ διακρινόμενος ἔοικε κλύδωνι ἐολάσσῃς ἀνεμιζομένῃ καὶ ῥιποῦμεν.

² Isto é dito no Críton de Platão, 1; mas não exatamente da mesma maneira.

EPICTETO.

¹ Assim falam os reis e tais personagens nas tragédias gregas.

Compare o que M. Antoninus (xi. 6) diz sobre a Tragédia.

» kviffTaKaaiv.

Veja a nota de Schweig.

sobre o uso desta forma do verbo.

Veja a Lição V, A Nova Academia, Lições Introdutórias de Levin aos Escritos Filosóficos de Cícero, Cambridge, 1871.

C

EPICTETO.

a força do homem ou a fraqueza do mestre; pois quando o homem, embora tenha sido refutado, está endurecido como uma pedra, como poderemos então lidar com ele por meio de argumentos?

Agora há dois tipos de endurecimento: um do entendimento, outro do senso de vergonha, quando um homem está resolvido a não assentir ao que é manifesto nem a desistir de contradições.

A maioria de nós tem medo da mortificação do corpo e inventaria todos os meios para evitar tal coisa, mas não nos importamos com a mortificação da alma.

E, de fato, com relação à alma, se um homem está em tal estado que não apreende nada, ou não entende nada, pensamos que ele está em má condição; mas se o senso de vergonha e modéstia estão mortos, a isso chamamos até mesmo poder (ou força).

Você compreende que está acordado? Não, responde o homem, pois não compreendo nem mesmo quando, em meu sono, imagino que estou acordado.

Então essa aparência não difere da outra? De modo algum, ele responde.

Ainda argumentarei com este homem? E que fogo ou que ferro aplicarei a ele para fazê-lo sentir que está morto? Ele percebe, mas finge que não percebe.

Ele é ainda pior que um homem morto.

Ele não vê a contradição: está em má condição.

Outro a vê, mas não se comove e não faz nenhuma melhora: está em condição ainda pior.

Sua modéstia é extirpada, e seu senso de vergonha; e a faculdade racional não foi cortada dele, mas foi brutalizada.

Chamarei isso de força de espírito? Certamente não, a menos que também a chamemos assim em catamitas, através da qual eles fazem e dizem em público tudo o que lhes vem à cabeça.

liiraxOeis.

Veja a nota na edição de Schweig.

Compare Cicero, Academ. Prior, ii. 6.

EPICTETO.

CAPÍTULO VI.

DA PROVIDÊNCIA.

De tudo o que é ou acontece no mundo, é fácil louvar a Providência, se um homem possui estas duas qualidades: a faculdade de ver o que pertence e acontece a todas as pessoas e coisas, e uma disposição grata.

Se ele não possuir essas duas qualidades, um homem não verá a utilidade das coisas que são e que acontecem; outro não será grato por elas, mesmo que as conheça.

Se Deus tivesse feito as cores, mas não tivesse feito a faculdade de vê-las, qual teria sido a sua utilidade? Nenhuma.

Por outro lado, se Ele tivesse feito a faculdade da visão, mas não tivesse feito os objetos de modo a caírem sob a faculdade, qual teria sido, nesse caso também, a sua utilidade? Nenhuma.

Bem, suponha que Ele tivesse feito ambos, mas não tivesse feito a luz? Nesse caso, também, eles não teriam serventia alguma.

Quem é, então, que ajustou isto àquilo e aquilo a isto? E quem é que ajustou a faca à bainha e a bainha à faca? É ninguém? E, de fato, pela própria estrutura das coisas que atingiram a sua completude, estamos acostumados a mostrar que a obra é certamente o ato de algum artífice, e que não foi construída sem um propósito.

Acaso cada uma dessas coisas demonstra o artífice, e as coisas visíveis, a faculdade de ver e a luz não O demonstram? E a existência do macho e da fêmea, e o desejo de cada um pela união, e o poder de usar as partes que são construídas, nem mesmo essas coisas declaram o artífice? Se não o fazem, consideremos a constituição do nosso entendimento,

segundo a qual, quando nos deparamos com objetos sensíveis, não simplesmente recebemos impressões deles, mas também selecionamos algo deles, e subtraímos algo.

e acrescentar, e compor por meio delas estas coisas ou aquelas, e, de fato, passar de umas a outras coisas que, de certo modo, se lhes assemelham: não é isto mesmo suficiente para mover alguns homens e induzi-los a não se esquecerem do artífice? Se não, que nos expliquem o que é que faz cada coisa em particular, ou como é possível que coisas tão admiráveis e semelhantes aos artifícios da arte existam por acaso e por seu próprio movimento? "Que, então, estas coisas se fazem somente em nós? Muitas, na verdade, somente em nós, das quais o animal racional tinha peculiarmente necessidade; mas encontrarás muitas comuns a nós e aos animais irracionais.

Compreendem eles, então, o que se faz? De modo algum.

Pois uso é uma coisa, e entendimento é outra: Deus teve necessidade dos animais irracionais para fazer uso das aparências, mas de nós para entender o uso das aparências. Basta-lhes, portanto, comer e beber, e dormir e copular, e fazer todas as outras coisas que cada um deles faz. Mas para nós, a quem Ele deu também a faculdade intelectual, estas coisas não são suficientes; pois, a menos que ajamos de maneira própria e ordenada, e conforme à natureza e constituição de cada coisa, jamais alcançaremos nosso verdadeiro fim.

Pois onde as constituições dos seres vivos são diferentes, aí também os atos e os fins são diferentes.

Naqueles animais, então, cuja constituição é adaptada somente ao uso, o uso apenas é suficiente; mas num animal (o homem), que tem também o poder de entender o uso, a menos que haja o devido exercício do entendimento, jamais alcançará seu fim próprio.

"Pois bem, Deus constitui cada animal, um para ser comido, outro para servir à agricultura, outro para fornecer queijo, e outro para algum uso semelhante; para os quais fins, que necessidade há de entender as aparências e poder distingui-las? Mas Deus introduziu o homem para ser espectador de Deus e de Suas

" Cícero, De Off.

i. c. 4, sobre a diferença entre o homem e a besta.

 Ver nota de Schweig.'f, tom.

ii. p. 84.

' O original é auroD, que refiro a Deus; mas pode ser ambíguo.

Schweighaeuser o refere ao homem, e o explica como significando

EPICTETO.

obras; e não somente espectador delas, mas intérprete.

Por esta razão, é vergonhoso para o homem começar e terminar onde os animais irracionais o fazem; mas antes ele deve começar onde eles começam, e terminar onde a natureza termina em nós; e a natureza termina na contemplação e no entendimento, e num modo de vida conforme à natureza.

Cuida então de não morreres sem teres sido espectador destas coisas.

Mas tu fazes uma viagem a Olímpia para ver a obra de Fídias, e todos vós considerais uma desgraça morrer sem ter visto tais coisas.

Mas quando não há necessidade de viajar, e onde um homem está, ali tem as obras (de Deus) diante de si, não desejarás vê-las e compreendê-las? Não perceberás nem 'o que és, nem para que nasceste, nem para que fim recebeste a faculdade da visão? Mas podes dizer: há algumas coisas desagradáveis e penosas na vida.

E não há nenhumas em Olímpia? Não és queimado pelo sol? Não és comprimido pela multidão? Não ficas sem meios confortáveis de banho? Não te molhas quando chove? Não tens abundância de ruído, clamor e outras coisas desagradáveis? Mas suponho que, compensando todas essas coisas com a magnificência do espetáculo, tu as suportas e toleras.

Pois bem, e não é próprio

que o homem seja espectador de si mesmo, segundo a máxima, γνῶθι σεαυτόν. É verdade que o homem pode, de certa maneira, contemplar a si mesmo e às suas faculdades, bem como aos objetos externos; e assim como todo homem pode ser um objeto para todo outro homem, também um homem pode ser um objeto para si mesmo, quando examina as suas faculdades e reflete sobre os seus próprios atos.

Schweighaeuser pergunta como pode um homem ser espectador de Deus, exceto na medida em que é espectador das obras de Deus? Não basta, diz ele, responder que Deus e o universo, que o homem contempla, são a mesma coisa para os estoicos; pois Epicteto distingue sempre Deus, o criador e governador do universo, do próprio universo.

Mas aqui reside a dificuldade.

O universo é um termo que tudo abrange: é tudo o que podemos de qualquer modo perceber e conceber como existente; e pode, portanto, compreender Deus, não como algo distinto do universo, mas como sendo o próprio universo.

Esta forma de expressão é um reconhecimento da fraqueza das faculdades humanas, e contém a afirmação implícita de Locke de que a noção de Deus está além do entendimento do homem (Ensaio, etc. ii. c. 17).

Esta obra era a colossal estátua criselefantina de Zeus (Júpiter) por Fídias, que ficava em Olímpia.

Esta obra maravilhosa é descrita por Pausânias (Eliaca, A, 11).

' Compare Persius, Sat. iii. G6 —

" Di«ciie, io, miiieri et causas cuoscite remm, Quid !ju.iiU:i uut quidium victui i gignimur.

EPICTETO.

Não recebestes faculdades pelas quais sereis capazes de suportar tudo o que acontece? Não recebestes grandeza de alma? Não recebestes virilidade? Não recebestes resistência? E por que me preocupo com qualquer coisa que possa acontecer se possuo grandeza de alma? O que há de perturbar minha mente ou agitar-me, ou parecer doloroso? Não usarei o poder para os propósitos para os quais o recebi, e hei de afligir-me e lamentar sobre o que acontece?

Sim, mas meu nariz escorre. Para que propósito então, escravo, tendes mãos? Não é para que possais enxugar o nariz? — É então consistente com a razão que haja corrimentos de nariz no mundo? — Não, quanto melhor é enxugar o nariz do que achar defeitos.

O que pensais que Hércules teria sido se não houvesse tal leão, e hidra, e cervo, e javali, e certos homens injustos e bestiais, que Hércules costumava expulsar e eliminar? E o que ele estaria fazendo se não houvesse nada do tipo? Não é evidente que ele se teria enrolado e dormido? Em primeiro lugar, então, ele não teria sido um Hércules, se passasse toda a sua vida sonhando em tal luxo e comodidade; e mesmo se o tivesse sido, qual teria sido a utilidade dele? E qual a utilidade de seus braços, e da força das outras partes de seu corpo, e sua resistência e nobre espírito, se tais circunstâncias e ocasiões não o tivessem despertado e exercitado? Bem, então deve um homem providenciar para si mesmo tais meios de exercício, e procurar introduzir um leão de algum lugar em seu país, e um javali, e uma hidra? Isso seria loucura e insensatez: mas como eles existiam, e foram encontrados, foram úteis para mostrar o que Hércules era e para exercitá-lo.

Vinde, então, também vós, tendo observado estas coisas, olhai para as faculdades que tendes, e quando as tiverdes olhado, dizei: Traze agora, ó Zeus, qualquer dificuldade que te aprouver, pois tenho meios dados a mim por ti e poderes

 Compare Antoninus, viii. 50, e Epictetus, ii. 16, 13.

 acpopfias.

Esta palavra nesta passagem tem um significado diferente daquele que tem quando é oposta a δόξα. Ver Gataker, *Antoninus*, ix. 1 (Upton). Epicteto diz que os poderes que o homem possui foram dados por Deus; Antoninus diz, pela natureza. Eles querem dizer a mesma coisa.

Ver a nota de Schweighaeuser.

EPICTETO.

...para honrar a mim mesmo através das coisas que acontecem.

Você não faz assim: mas fica sentado, tremendo de medo de que algumas coisas aconteçam, e chorando, e lamentando, e gemendo pelo que acontece: e então culpa os deuses.

Pois qual é a consequência de tal mesquinhez de espírito senão a impiedade? E, no entanto, Deus não apenas nos deu estas faculdades; pelas quais seremos capazes de suportar tudo o que acontece sem sermos deprimidos ou quebrantados por isso; mas, como um bom rei e um verdadeiro pai, Ele nos deu estas faculdades livres de impedimento, sujeitas a nenhuma compulsão, desimpedidas, e as colocou inteiramente em nosso próprio poder, sem mesmo ter reservado para Si mesmo qualquer poder de impedir ou obstruir.

Você, que recebeu estes poderes livres e como seus, não os usa: você nem mesmo vê o que recebeu, e de quem; alguns de vocês estando cegos para o doador, e nem mesmo reconhecendo seu benfeitor, e outros, por mesquinhez de espírito, entregando-se a críticas e acusações contra Deus.

Contudo, eu vos mostrarei que tendes poderes e meios para a grandeza de alma e a virilidade: mas que poderes tendes para achar falhas e fazer acusações, mostrai-me vós.

CAPÍTULO VII.

DO USO DE ARGUMENTOS SOFÍSTICOS E HIPOTÉTICOS E SEMELHANTES.

O tratamento de argumentos sofísticos e hipotéticos, e daqueles que derivam suas conclusões de questionamentos, e, em uma palavra, o tratamento de todos tais argumentos,

¹ Compare *Antoninus*, ix. 1.

² O título é περὶ τῆς χρήσεως τῶν μεταπιπτόντων λόγων καὶ ὑποθετικῶν καὶ τῶν ὁμοίων.

Schweighaeuser tem uma longa nota sobre μεταπιπτόντων λόγοι, que ele coletou de vários críticos.

A Sra. Carter traduziu o título como "Do Uso de Proposições Conversíveis e Hipotéticas e semelhantes". Mas "conversível" poderia ser entendido no sentido lógico comum, que não é o significado de Epicteto. Schweighaeuser explica μεταπιπτόντων λόγοι como argumentos sofísticos nos quais o significado de proposições ou de termos, que deveria permanecer o mesmo, é habilmente alterado e pervertido para outro significado.

EPICTETO.

relaciona-se aos deveres da vida, embora muitos não conheçam essa verdade.

Pois em toda matéria indagamos como o homem sábio e bom descobrirá o caminho adequado e o método adequado de lidar com a questão.

Digam então as pessoas, ou que o homem sério não descerá ao embate de perguntas e respostas, ou que, se descer ao embate, não se preocupará em não se conduzir de maneira precipitada ou descuidada ao perguntar e responder.

Mas se não admitirem nem uma nem outra dessas coisas, devem reconhecer que alguma investigação deve ser feita sobre esses tópicos (tottcuv) nos quais particularmente se empregam perguntas e respostas.

Pois qual é o fim proposto no raciocínio? Estabelecer proposições verdadeiras, remover as falsas, reter o assentimento àquelas que não são claras.

Basta então ter aprendido apenas isso? É suficiente, pode alguém responder.

É suficiente também, para quem não deseja errar no uso de moeda cunhada, ter ouvido este preceito: que deve receber as dracmas genuínas e rejeitar as espúrias? Não é suficiente.

O que então deve ser acrescentado a este preceito? O que mais senão a faculdade que prova e distingue as dracmas genuínas das espúrias? Consequentemente, também no raciocínio o que foi dito não é suficiente; mas é necessário que o homem adquira a faculdade de examinar e distinguir o verdadeiro e o falso, e aquilo que não é claro? É necessário.

Além disso, o que se propõe no raciocínio? Que aceites o que se segue daquilo que concedeste adequadamente.

Ora, é suficiente também neste caso apenas saber isso? Não é suficiente; mas o homem deve aprender como uma coisa é consequência de outras coisas, e quando uma coisa se segue de uma coisa, e quando se segue de várias em conjunto.

Considera então se não é necessário que esse poder também seja adquirido por aquele que pretende conduzir-se habilmente no raciocínio, o poder de demonstrar ele mesmo as várias coisas que propôs, e o poder de compreender as demonstrações de outros, e de não ser enganado por sofistas, como se estivessem demonstrando.

Portanto, surgiu entre nós a prática e o exercício de argumentos conclusivos e figuras, e mostrou-se que é necessária.

 Veja a nota de Schweig. sobre airoSeieiv (Kacrra iiroSoVra.

EPICTETO.

Mas, na verdade, em alguns casos, concedemos adequadamente as premissas ou suposições, e delas resulta algo; e, embora não seja verdadeiro, nem por isso deixa de resultar.

Que devo fazer então? Devo admitir a falsidade? E como é isso possível? Bem, devo dizer que não concedi adequadamente aquilo que acordamos? Mas não te é permitido nem mesmo isso.

Direi então que a consequência não surge através do que foi concedido? Mas também isso não é permitido.

Que se deve fazer então neste caso? Considera se não é isto: assim como ter emprestado não é suficiente para que um homem continue devedor, mas é preciso acrescentar o fato de que ele ainda deve o dinheiro e que a dívida não foi paga, do mesmo modo não basta para te obrigar a admitir a inferência que concedeste as premissas (τὰ πράγματα), mas deves manter-te fiel ao que concedeste.

De fato, se as premissas permanecem até o fim tais como eram quando foram concedidas, é absolutamente necessário que nos mantenhamos fiéis ao que concedemos, e devemos aceitar suas consequências; mas se as premissas não permanecem tais como eram quando foram

Estes são silogismos e figuras, modos (τρόποι) pelos quais o silogismo tem sua conclusão própria.

Comparar Aristóteles, Tópicos, viii. 1, 22 (ed. J. Pac. 758). Posteriormente, Epicteto usa τὰ ὁμολογήματα como equivalente a πράγματα (premissas ou suposições).

"A inferência," τὸ ἐπιφερόμενον.

"'Ἐπιφορά é 'illatio' quae assumptionem sequitur" (Upton).

"Este, então, é um caso de ἐκπίπτοντες λόγοι (cap. vii. 1), onde houve uma mudança sofística ou desonesta nas premissas ou em algum termo, em virtude da qual mudança parece haver uma conclusão justa, que, no entanto, é falsa; e não é uma conclusão derivada das premissas às quais assentimos.

Um exemplo ridículo é dado por Sêneca, Ep. 48: "Mus syllaba est: mus autem caseum rodit: syllaba ergo caseum rodit." Sêneca ri dessa absurdidade, e diz que talvez o seguinte silogismo (collectio) possa ser um melhor exemplo de agudeza: "Mus syllaba est: syllaba autem caseum non rodit: mus ergo caseum non rodit." Um é tão bom quanto o outro. Sabemos que nenhuma conclusão é verdadeira, e vemos onde está o erro. Menage diz que, embora os estoicos cultivassem particularmente a lógica, alguns deles a desprezavam, e ele menciona Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio.

Upton, no entanto, observa que Epicteto e Marco Antonino não desprezavam a lógica (ele nada diz sobre Sêneca), mas a empregavam para seus próprios propósitos.

Foi observado que, se um homem é perguntado se, quando todo A é

EPICTETO.

fosse concedido, é absolutamente necessário que também nos retiremos do que concedemos, e de aceitar o que não se segue das palavras nas quais nossas concessões foram feitas.

Pois a inferência agora não é nossa inferência, nem resulta com nosso assentimento, uma vez que nos retiramos das premissas que concedemos.

Devemos então examinar tais tipos de premissas, e tal mudança e variação delas (de um significado para outro, pela qual, no curso do questionamento ou da resposta, ou ao fazer a conclusão silogística, ou em qualquer outra forma semelhante, as premissas sofrem variações, e dão ocasião aos tolos de se confundirem, se não veem quais conclusões (consequências) são.

Por que razão devemos examinar? Para que não sejamos, neste assunto, empregados de maneira imprópria nem de forma confusa.

E o mesmo em hipóteses e argumentos hipotéticos; pois é necessário às vezes exigir a concessão de alguma hipótese como uma espécie de passagem para o argumento que se segue.

Devemos então permitir toda hipótese que é proposta, ou não permitir toda? E se não toda, qual devemos permitir? E se um homem permitiu uma hipótese, deve ele em todo caso permanecer na permissão dela? Ou deve às vezes retirar-se dela, mas admitir as consequências e não admitir contradições? Sim; mas suponha que um homem diga:

Se você admite a hipótese de uma possibilidade, eu o levarei a uma impossibilidade.

Com tal pessoa, um homem sensato recusará entrar em uma disputa, e evitará discussão e conversa com ela? Mas que outro homem, senão o homem sensato, pode usar a argumentação e é hábil em questionar e responder, e

B, todo B é também A, ele poderia responder que sim. Mas se você colocar a conversão nesta forma material: "Todo ganso é um animal", ele imediatamente percebe que não pode dizer: "Todo animal é um ganso". O que isso mostra? Mostra que a compreensão do homem da proposição, todo A é B, não era verdadeira, e que ele a tomou como significando algo diferente do que a pessoa que fez a pergunta pretendia.

Ele entendeu que A e B eram coextensivos.

Se chamamos isso de raciocínio ou outra coisa, não importa.

Um homem cujo entendimento é são não pode, pela natureza das coisas, raciocinar errado; mas seu entendimento sobre a matéria sobre a qual raciocina pode estar errado em algum ponto, e ele pode não ser capaz de descobrir onde.

Um homem que foi treinado na arte lógica pode mostrar-lhe que sua conclusão está de acordo com seu entendimento dos termos e das proposições empregadas, mas ainda assim não é verdadeira.

EPICTETO.

incapaz de ser obstado e enganado por raciocínio falso? E entrará na contenda, e ainda assim não cuidará se deve envolver-se em argumentação não temerariamente e não descuidadamente? E se não cuida, como pode ser tal homem como o concebemos? Mas sem algum tal exercício e preparação, pode ele manter uma argumentação contínua e consistente? Que o mostrem; e todas essas especulações (θεωρήματα) tornam-se supérfluas, e são absurdas e inconsistentes com nossa noção de um homem bom e sério.

Por que ainda somos indolentes e negligentes e lentos, e por que buscamos pretextos para não labutar e não vigiar no cultivo de nossa razão? Se então eu cometer um erro nestas matérias, não terei matado meu pai? Escravo, onde havia um pai nesta matéria que pudesses matar? O que então fizeste? A única falta que era possível aqui é a falta que cometeste.

Esta é exatamente a observação que fiz a Rufo quando ele me censurou por não ter descoberto a única coisa omitida em certo silogismo: Suponho, disse eu, que queimei o Capitólio.

Escravo, replicou ele, era a coisa omitida aqui o Capitólio? Ou são estes os únicos crimes, queimar o Capitólio e matar teu pai? Mas que um homem use as aparências que se lhe apresentam temerária e tola e descuidadamente, e não entenda argumento, nem demonstração, nem sofisma, nem, em uma palavra, veja no perguntar e responder o que é consistente com aquilo que concedemos ou não é consistente; não há erro nisto?

' Rufo é Musônio Rufo (i. 1). Matar um pai e queimar o Capitólio romano são mencionados como exemplos dos maiores crimes.

Comp. Horácio, Épodo, iii.

; Cícero, De Amicitia.

c. 11 ; Plutarco, Ti. Graco, c. 20.

EPICTETO.

CAPÍTULO VIII.

QUE AS FACULDADES NÃO SÃO SEGURAS PARA OS NÃO INSTRUÍDOS.

De quantas maneiras podemos mudar coisas que são equivalentes entre si, de tantas maneiras podemos mudar as formas dos argumentos (ἐπιχειρήματα) e entimemas (ἐνθυμήματα) na argumentação.

Isto é um exemplo: se tomaste emprestado e não pagaste, deves-me o dinheiro; não tomaste emprestado e não pagaste; então não me deves o dinheiro.

Fazer isto com habilidade convém a ninguém mais do que ao filósofo; pois se o entimema é um silogismo imperfeito, é evidente que aquele que foi exercitado no silogismo perfeito deve ser igualmente perito no imperfeito também.

Por que então não nos exercitamos a nós mesmos e uns aos outros desta maneira? Porque, respondo, atualmente, embora não estejamos exercitados nestas coisas e não sejamos distraídos do estudo da moralidade, pelo menos por mim, ainda assim não fazemos progresso na virtude.

Que devemos esperar, então, se acrescentássemos esta ocupação? E particularmente porque esta não seria apenas uma ocupação que nos afastaria de coisas mais necessárias, mas também seria uma causa de presunção e arrogância, e não pequena causa.

Pois grande é o poder de argumentar e a faculdade de persuasão, e particularmente se fosse muito exercitada, e também recebesse ornamento adicional da linguagem; e assim, universalmente, toda faculdade adquirida pelos não instruídos e fracos traz consigo o perigo de essas pessoas serem envaidecidas.

As faculdades, como diz Wolf, são as faculdades de falar e argumentar, que, como ele também diz, tornam os homens arrogantes e descuidados que não têm conhecimento sólido, segundo a máxima de Bíon, ἡ γὰρ οἴησις ἐγκοπὴ τῆς προκοπῆς ἐστιν, "a arrogância (presunção) é um obstáculo ao aperfeiçoamento." Ver viii. 8.

Coisas significam "proposições" e "termos." Ver Aristót. Analít. Poster. 1. 39, ἔτι δὲ καὶ μεταλαμβάνειν, &c. Ἐπιχειρήματα são argumentos de qualquer tipo com os quais atacamos (ἐπιφέρω) um adversário.

O Entimema é definido por Aristóteles: ἐνθύμημα μὲν οὖν ἐστὶ συλλογισμὸς ἐξ εἰκότων ἢ σημείων (Anal. Poster. ii. c. 27). Ele explicou, na primeira parte deste capítulo, o que quer dizer com εἰκός e σημεῖον. Ver também Formal Logic de De Morgan, p. 237; e P. C. Organon, p. 6, nota.

EPICTETO.

e inflado por ela. Pois por que meios se poderia persuadir um jovem que se destaca nessas questões de que não deveria tornar-se um apêndice delas, mas fazê-las um apêndice de si mesmo? Não pisoteia ele todas essas razões e se pavoneia diante de nós, elado e inflado, não suportando que alguém o repreenda e o lembre do que negligenciou e para o que se desviou?

O que então? Não era Platão um filósofo? Respondo: e não era Hipócrates um médico? Mas vês como Hipócrates fala.

Fala então Hipócrates assim no que diz respeito a ser médico? Por que misturas coisas que estão acidentalmente unidas nos mesmos homens? E se Platão era belo e forte, devo eu também pôr-me a trabalhar e esforçar-me para tornar-me belo ou forte, como se isso fosse necessário para a filosofia, porque um certo filósofo era ao mesmo tempo belo e filósofo? Não queres ver e distinguir em relação a quê os homens se tornam filósofos, e o que lhes pertence em outros aspectos? E se eu fosse filósofo, deverias tu também ser feito coxo? O que então? Tiro eu essas faculdades que possuis? De modo algum; pois também não tiro a faculdade de ver.

Mas se me perguntas qual é o bem do homem, não posso mencionar-te nada além de que é uma certa disposição da vontade com respeito às aparências.

Um homem, como Wolf explica, não deve fazer da oratória, ou da arte de falar, sua excelência principal.

Deve usá-la para realçar algo que é superior.

Platão era eloquente, e o adversário pergunta se isso é uma razão para não permitir que ele seja um filósofo.

Ao que se replica que Hipócrates era um médico, e também eloquente, mas não como médico.

Epicteto era coxo.

' Em i. 20, 15, Epicteto define o ser (ousia) ou natureza do bem como sendo um uso apropriado das aparências; e também diz, i. 29, 1, que a natureza do bem é uma espécie de vontade (proairesis poia), e a natureza do mal é uma espécie de vontade.

Mas Schweighaeuser não consegue entender como o "bem do homem" pode ser "uma certa vontade com relação às aparências"; e sugere que Arriano possa ter escrito, "uma certa vontade que faz uso das aparências."

EPICTETO.

CAPÍTULO IX.

COMO, DO FATO DE QUE SOMOS APARENTADOS COM DEUS, UM HOMEM PODE PROCEDER ÀS CONSEQUÊNCIAS.

Se são verdadeiras as coisas que os filósofos dizem sobre o parentesco entre Deus e o homem, que mais resta aos homens fazer senão o que Sócrates fez? Nunca, em resposta à pergunta de a que país pertences, digas que és ateniense ou coríntio, mas que és um cidadão do mundo (κοσμοπολίτης).' Pois por que dizes que és ateniense, e por que não dizes que pertences apenas ao pequeno canto em que teu pobre corpo foi lançado ao nascer? Não é evidente que te chamas ateniense ou coríntio pelo lugar que tem maior autoridade e que compreende não apenas aquele pequeno canto em si e toda a tua família, mas até o país inteiro de onde deriva a linhagem de teus progenitores até ti? Aquele, então, que observou com inteligência a administração do mundo, e aprendeu que a maior e suprema e mais abrangente comunidade é aquela que é composta de homens e Deus, e que de Deus desceram as sementes não apenas para meu pai e avô, mas para todos os seres que são gerados na terra e são produzidos, e particularmente para os seres racionais — pois somente estes são por sua natureza formados para ter comunhão com Deus, sendo por meio da razão unidos a ele — por que

Cícero, Tuscul. v. 37, tem o mesmo: "Sócrates, quando perguntado de que país dizia ser, respondeu: 'Do mundo'. Pois considerava-se habitante e cidadão do mundo inteiro." (Upton.)

É a posse da razão, diz ele, pela qual o homem tem comunhão com Deus; não é por meios externos, ou cerimonial religioso.

Um expositor moderno de Epicteto diz: "Através da razão, nossas almas estão tão intimamente conectadas e misturadas com a divindade como se fossem parte dela" (Epictet. i. 14, 6; ii. 8, 11, 17, 33). Na Epístola atribuída a Pedro (ii. 1, 4) está escrito: "Pelas quais nos são dadas grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas (ver v. 3) vos torneis participantes da natureza divina (γένησθε θείας κοινωνοὶ φύσεως), tendo escapado da corrupção que há no mundo pela concupiscência." A Sra. Carter, Introdução, 81, tem algumas observações sobre esta doutrina estoica, que não são uma verdadeira explicação dos princípios de Epicteto e Antonino.

EPICTETO.

Não deveria tal homem chamar-se cidadão do mundo, por que não um filho de Deus, e por que deveria ele temer qualquer coisa que aconteça entre os homens? É o parentesco com César (o imperador) ou com qualquer outro dos poderosos em Roma suficiente para nos permitir viver em segurança, e acima do desprezo e sem qualquer medo? E ter a Deus como seu criador (ποιητήν), e pai e guardião, não nos libertará isto de tristezas e medos?

Mas um homem pode dizer: De onde tirarei pão para comer quando não tiver nada?

E como os escravos e fugitivos, em que confiam quando deixam seus senhores? Confiam em suas terras ou escravos, ou em seus vasos de prata? Não confiam em nada além de si mesmos; e o alimento não lhes falta. E será necessário que um de nós que é filósofo viaje para terras estrangeiras, e confie e dependa de outros, e não cuide de si mesmo, e será ele inferior aos animais irracionais e mais covarde, cada um dos quais, sendo autossuficiente, não deixa de obter seu alimento adequado, nem de encontrar um modo de vida adequado, e um conforme à natureza?

¹ Assim disse Jesus: "Pai nosso que estás no céu." Cleantes, em seu hino a Zeus, escreve, ἐκ σοῦ γὰρ γένος ἐσμέν. Compare Atos dos Apóstolos, xvii. 28, onde Paulo cita estas palavras.

Não é verdade, então, que a "concepção de uma divindade paternal", como foi afirmado, era desconhecida antes do ensinamento de Jesus, e, depois do tempo de Jesus, desconhecida para aqueles gregos que não estavam familiarizados com Seu ensinamento.

² Em nossa sociedade atual há milhares que se levantam de manhã e não sabem como encontrarão algo para comer.

Alguns encontram seu alimento por fraude e roubo, alguns o recebem como presente de outros, e alguns procuram por qualquer trabalho que possam encontrar e obtêm sua migalha por trabalho honesto.

Você pode ver tais homens em toda parte, se mantiver os olhos abertos.

Tais homens, que vivem do trabalho diário, vivem uma vida heroica, que envergonha o filósofo bem alimentado e o cristão abastado.

³ Epicteto fez uma grande afirmação incorreta sobre os animais irracionais.

Milhões morrem anualmente por falta de alimento suficiente; e muitos seres humanos perecem da mesma maneira.

Dificilmente podemos supor que ele não conhecia esses fatos.

⁴ Compare a passagem em Mateus (vi. 25-34). Diz-se, v. 26: "Olhai para as aves do céu: que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta."

Não somos nós muito melhores do que eles?" Podem ser consultados os expositores desta passagem.

EPICTETO

Na verdade, penso que o velho¹ deveria estar sentado aqui, não para planejar como vocês possam ter pensamentos mesquinhos nem conversa baixa e ignóbil sobre vocês mesmos, mas para cuidar de que não haja entre nós jovens de tal disposição que, tendo reconhecido seu parentesco com Deus, e que estamos acorrentados por estes laços — quero dizer, o corpo, e suas posses, e tudo o mais que, por causa deles, nos é necessário para a economia e o comércio da vida —, pretendam lançar fora essas coisas como se fossem fardos dolorosos e intoleráveis, e partir para junto de seus parentes.

Mas este é o trabalho ao qual vosso mestre e instrutor deveria se dedicar, se ele realmente fosse o que deveria ser. Vocês deveriam vir a ele e dizer: "Epicteto, não podemos mais suportar estar ligados a este pobre corpo, e alimentá-lo, e dar-lhe bebida, e descanso, e limpá-lo, e, por causa do corpo, ceder aos desejos destes e daqueles.² Não são estas coisas indiferentes e nada para nós? E não é a morte um mal? E não somos nós, de certo modo, parentes de Deus, e não viemos dele? Permite-nos partir para o lugar de onde viemos; permite-nos ser finalmente libertados destes laços pelos quais estamos amarrados e oprimidos. Aqui há ladrões e salteadores e tribunais de justiça, e aqueles que são chamados tiranos, e que pensam ter algum poder sobre nós por meio do corpo e de suas posses. Permite-nos mostrar-lhes que eles não têm poder sobre homem algum." E eu, por minha parte, diria: "Amigos, esperai por Deus: quando Ele der o sinal³ e vos libertar deste serviço, então ide a Ele; mas por agora suportai habitar neste lugar onde Ele vos colocou: curto é, na verdade, este tempo de vossa morada aqui, e fácil de suportar para aqueles que assim estão dispostos; pois que tirano, ou que ladrão, ou

¹ O velho é Epicteto.

² Ele quer dizer, como diz Wolf, "por causa das necessidades do corpo, buscando o favor dos mais poderosos por meio de complacências desagradáveis".

³ Upton refere-se a Cícero, Tuscul. i. 30; Cato Major, c. 20; Somnium Scipionis, c. 3 (De Republica, iv. 15); o propósito dessas passagens é que não devemos partir da vida sem a ordem de Deus. Ver Marco Aurélio, ii. 17; iii. 5; v. 33. Mas como saberá um homem o sinal para a partida, do qual fala Epicteto?

EPICTETO.

Que tribunais de justiça são formidáveis para aqueles que assim consideraram como coisas sem valor o corpo e as posses do corpo? Espera então, não partas sem uma razão."

Algo assim deveria ser dito pelo mestre aos jovens ingênuos.

Mas agora, o que acontece? O mestre é um corpo sem vida, e vós sois corpos sem vida.

Quando fostes bem saciados hoje, sentais e lamentais sobre o amanhã, como conseguireis algo para comer.

Miserável, se o tens, tê-lo-ás; se não o tens, partirás da vida.

A porta está aberta. Por que te afliges? Onde resta lugar para lágrimas? E onde há ocasião para lisonja? Por que um homem invejará outro? Por que um homem admiraria o rico ou o poderoso, mesmo que ambos sejam muito fortes e de temperamento violento? Pois o que nos farão? Não nos importaremos com aquilo que podem fazer; e o que nos importa, isso eles não podem fazer. Como Sócrates se comportou com respeito a essas questões? Ora, de que outro modo senão como um homem deveria agir, que estava convencido de que era um parente dos deuses? "Se me disserdes agora," disse Sócrates aos seus juízes, "nós te absolveremos com a condição de que não mais discorras da maneira como tens discorrido até agora, nem perturbes os nossos jovens ou os nossos velhos, eu responderei: vós vos tornais ridículos ao pensar que, se um dos nossos comandantes me designou para um certo posto, é meu dever mantê-lo e preservá-lo, e resolver morrer mil vezes antes que desertar dele; mas se Deus nos colocou em algum lugar e modo de vida, nós deveríamos desertar dele." Sócrates fala como um homem que é verdadeiramente um parente dos deuses.

Upton referiu-se às passagens de Epicteto em que esta expressão é usada, 1. 24, 20; i. 25, 18; ii. 1, 19, e outras; a Sêneca, De Provid. c. 6, Ep. 91; a Cícero, De Fin. iii. 18, onde há esta conclusão: "e quo apparet et sapientis esse aliquando officium excedere e vita, quum beatus sit; et stulti manere in vita quum sit miser."

Compare Mateus vi. 31: "Portanto, não vos preocupeis, dizendo: Que comeremos? ou: Que beberemos? ou: Com que nos vestiremos? (Pois após todas essas coisas buscam os gentios:) porque vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas essas coisas," &c.

"Esta passagem é fundada e é em substância a mesma que a da Apologia de Platão, c. 17.

EPICTETO.

mat.

quem é verdadeiramente um parente dos deuses.

Mas pensamos em nós mesmos como se fôssemos apenas estômagos, intestinos e partes vergonhosas; tememos, desejamos; lisonjeamos aqueles que podem nos ajudar nessas questões, e também os tememos.

Um homem pediu-me que escrevesse a Roma sobre ele, um homem que, como a maioria das pessoas pensava, havia sido infeliz, pois outrora fora um homem de posição e rico, mas fora despojado de tudo e vivia aqui.

Escrevi em seu favor de maneira submissa; mas quando ele leu a carta, devolveu-ma e disse: "Eu desejava a tua ajuda, não a tua piedade: nenhum mal me aconteceu."

Assim também Musônio Rufo, para me pôr à prova, costumava dizer: Isto e aquilo te acontecerá por parte do teu senhor; e quando eu respondia que essas eram coisas que acontecem no curso ordinário dos assuntos humanos.

Por que então, disse ele, deveria eu pedir-lhe algo quando posso obtê-lo de ti? Pois, de fato, o que um homem tem de si mesmo, é supérfluo e tolo receber de outro? "Devo então eu, que sou capaz de receber de mim mesmo grandeza de alma e um espírito generoso, receber de ti terra e dinheiro ou um cargo de magistrado? Espero que não: não serei tão ignorante acerca das minhas próprias posses."

Mas quando um homem é covarde e mesquinho, que mais se deve fazer por ele senão escrever cartas como escreverias acerca de um cadáver? Por favor, concede-nos o corpo de certa pessoa e um sextário de sangue pobre.

Pois tal pessoa é, de fato, uma carcaça e um sextário (uma certa quantidade) de sangue, e nada mais.

Mas se fosse algo mais, saberia que um homem não é miserável por meio de outro.

' Schweighaeuser tem uma longa nota sobre esta passagem, a respeito de "receber de Outro." Penso que não há dificuldade quanto ao significado; e o leitor atento não encontrará nenhuma.

Epicteto foi uma vez escravo.

" O significado é obscuro.

Schweighaeuser pensa que a alusão é a um inimigo derrotado pedindo permissão ao conquistador para enterrar os mortos.

Epicteto considera um homem como mera carcaça aquele que coloca sua felicidade em coisas externas e no favor dos outros.

EPICTETO.

CAPÍTULO X.

CONTRA AQUELES QUE BUSCAM ANSIOSAMENTE PROMOÇÃO EM ROMA.

Se nos aplicássemos tão diligentemente ao nosso próprio trabalho como os velhos em Roma se aplicam àqueles assuntos com os quais estão ocupados, talvez também nós pudéssemos realizar algo.

Conheço um homem mais velho do que eu, que agora é superintendente do abastecimento de grãos em Roma, e lembro-me da época em que ele veio aqui a caminho do exílio, e o que disse ao relatar os acontecimentos de sua vida anterior, e como declarou que, quanto ao futuro, depois de seu retorno, não cuidaria de nada além de passar o resto da vida em quietude e tranquilidade.

Pois quão pouco de vida, disse ele, me resta. Respondi: você não fará isso, mas assim que sentir o cheiro de Roma, esquecerá tudo o que disse; e se a admissão for permitida até mesmo no palácio imperial, ele se lançará de bom grado para dentro e agradecerá a Deus.

Se me encontrares, Epicteto, respondeu ele, pondo sequer um pé dentro do palácio, pensa o que quiseres.

Bem, o que ele fez então? Antes de entrar na cidade, foi recebido por cartas de César, e assim que as recebeu, esqueceu tudo, e desde então acrescentou um negócio a outro.

Quem dera eu estivesse agora ao seu lado para lembrá-lo do que disse quando passava por aqui, e para lhe dizer quanto melhor vidente sou do que ele.

Então, digo eu que o homem é um animal feito para não fazer nada? Certamente não.

Mas por que não somos ativos? (Somos ativos.) Por exemplo, quanto a mim mesmo, assim que o dia chega, em poucas palavras lembro a mim mesmo do que devo ler para meus alunos; então, imediatamente, digo a mim mesmo: Mas o que me importa como certa pessoa lerá? O primeiro para mim é dormir.

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¹ Um "Praefectus Annonae", ou superintendente do abastecimento de grãos em Roma, é mencionado pela primeira vez por Lívio (iv. 12) como nomeado durante uma escassez.

Em uma época posterior, esse cargo foi conferido a Cneu Pompeu por cinco anos.

Mecenas (Dion. 52, c. 24) aconselhou Augusto a nomear um Praefectus Annonae, ou um oficial permanente sobre o mercado de grãos e todos os outros mercados. Ele teria assim o cargo anteriormente exercido pelos edis.

² Não posso explicar por que a terceira pessoa é usada aqui em vez da segunda. Veja a nota de Schweig.

³ Os estoicos ensinavam que o homem é adaptado por sua natureza para a ação. Ele não deveria, portanto, retirar-se dos assuntos humanos e entregar-se a uma vida ociosa, nem mesmo a uma vida de contemplação e observâncias religiosas apenas. Upton refere-se a Antonino, v. 1, viii. 19, e Cícero, De Fin. V. 20.

E, de fato, que semelhança há entre o que outras pessoas fazem e o que nós fazemos? Se observares o que elas fazem, compreenderás.

E o que mais fazem o dia inteiro senão ajustar contas, indagar entre si, dar e receber conselhos sobre uma pequena quantidade de grão, um pedaço de terra e lucros dessa espécie? É, então, a mesma coisa receber uma petição e ler nela: "Suplico que me permitais exportar uma pequena quantidade de trigo"; e uma com este efeito: "Suplico que aprendais de Crisipo o que é a administração do mundo, e que lugar ocupa nela o animal racional; considerai também quem sois vós, e qual é a natureza do vosso bem e do vosso mal."

São estas coisas semelhantes àquelas outras, exigem elas igual cuidado, e é igualmente vergonhoso negligenciar estas e aquelas? Pois bem, somos nós os únicos que somos preguiçosos e amamos o sono? Não; mas muito antes sois vós, jovens.

Pois nós, os velhos, quando vemos os jovens a divertir-se, estamos ansiosos por brincar com eles; e se eu vos visse ativos e zelosos, muito mais estaria eu ansioso por me juntar a vós nas vossas ocupações sérias."

Schweighaeuser propõe uma pequena alteração no texto grego, mas não a considero necessária.

Quando Epicteto diz: "Por que não somos ativos?" Ele quer dizer: Por que alguns dizem que não somos ativos? E ele pretende dizer que somos ativos, mas não da maneira como algumas pessoas são ativas.

Portanto, acrescentei entre ( ) o que é necessário para tornar o texto inteligível.

Esta passagem é bastante obscura.

A palavra ἐπαναγινώσκειν significa, segundo se diz, ler em voz alta com o propósito de explicar, como um professor pode fazer. O aluno também leria algo ao professor com o propósito de mostrar se o compreendia. Assim, Epicteto também diz: "Mas o que me importa a mim," &c.

Uma clara alusão às restrições impostas à exportação de grãos.

EPICTETO.

CAPÍTULO XL

DA AFEIÇÃO NATURAL.

Quando foi visitado por um dos magistrados, Epicteto indagou dele sobre vários particulares, e perguntou se tinha filhos e esposa.

O homem respondeu que sim; e Epicteto perguntou ainda como se sentia sob tais circunstâncias.

Miserável, disse o homem.

Então Epicteto perguntou:

Em que aspecto? Pois os homens não se casam e geram filhos para serem infelizes, mas antes para serem felizes.

— Mas eu, respondeu o homem, estou tão angustiado por meus filhos que, recentemente, quando minha filhinha estava doente e supostamente em perigo, não pude suportar ficar com ela; deixei a casa até que alguém me mandasse notícias de que ela havia se recuperado.

— Então, disse Epicteto, você acha que agiu corretamente? — Ajo naturalmente, respondeu o homem. — Mas convença-me de que você agiu naturalmente, e eu o convencerei de que tudo o que acontece segundo a natureza acontece corretamente.

— É o caso, disse o homem, de todos, ou pelo menos da maioria dos pais.

— Não nego isso; mas a questão sobre a qual estamos indagando é se tal comportamento é correto; pois a respeito dessa matéria devemos dizer que também os tumores vêm para o bem do corpo, porque vêm; e, de modo geral, devemos dizer que errar é natural, porque quase todos, ou pelo menos a maioria de nós, erramos. Mostre-me então como o seu comportamento é natural.

— Não posso, disse ele; mas mostre-me antes como ele não é segundo a natureza e não é feito corretamente.

— Bem, disse Epicteto, se estivéssemos indagando sobre branco e preto, que critério empregaríamos para distingui-los? — A vista, disse ele.

— E se fosse sobre quente e frio, e duro e mole, que critério? — O tato.

— Pois bem, já que estamos indagando sobre as coisas que são segundo a natureza e as que são feitas corretamente ou não corretamente, que tipo de critério você acha que deveríamos empregar? — Não sei, disse ele.

— E, no entanto, não conhecer o critério das cores e dos odores, e também dos sabores, talvez não seja grande dano; mas se um homem não conhece o critério do bem e do mal, e das coisas segundo a natureza e contrárias à natureza, isso lhe parece um pequeno dano? — O maior dano (creio eu). — Vamos, dize-me: todas as coisas que parecem a algumas pessoas serem boas e convenientes parecem-lhes corretamente tais? E, no presente, quanto a judeus, sírios, egípcios e romanos, é possível que as opiniões de todos eles a respeito dos alimentos estejam corretas? — Como é possível? disse ele.

— Bem, suponho que seja absolutamente necessário que, se as opiniões dos egípcios estão corretas, as opiniões dos demais estejam erradas; se as opiniões dos judeus estão corretas, as dos demais não podem estar corretas.

— Certamente.

— Mas onde há ignorância, aí também há falta de aprendizado e de treinamento nas coisas que são necessárias. — Ele assentiu a isso.

Então, disse Epicteto, já que sabes isso, doravante não te ocuparás seriamente de mais nada, e não aplicarás tua mente a nada além de aprender o critério das coisas que estão conforme a natureza, e, usando-o, também determinar cada coisa em particular.

Mas, no presente assunto, tenho isto para te auxiliar no que desejas.

A afeição aos teus familiares parece-te estar conforme a natureza e ser boa? Certamente.

Bem, essa afeição é natural e boa, e uma coisa coerente com a razão não é boa? De modo algum.

Então, o que é coerente com a razão está em contradição com a afeição? Creio que não.

Tens razão, pois, se fosse o contrário, seria necessário que, sendo uma das contradições conforme a natureza, a outra fosse contrária à natureza.

Não é assim? É, disse ele.

Portanto, tudo o que descobrirmos ser ao mesmo tempo afetuoso e também coerente com a razão, isso declaramos com confiança ser correto e bom.

Concordo.

Bem, então deixar teu filho doente e partir não é razoável, e suponho que não dirás que é; mas resta-nos investigar se é coerente com a afeição.

Sim, consideremos.

Então, já que tinhas uma disposição afetuosa para com tua filha, fizeste bem quando fugiste e a deixaste; e a mãe não tem afeição pela criança? Certamente, tem.

Então, a mãe também deveria tê-la deixado, ou não? Não deveria.

E a ama, ela a ama? Ama.

Então, ela também deveria tê-la deixado? De modo algum.

E o pedagogo, não a ama? Ele a ama.

Então, ele também deveria tê-la abandonado? E assim a criança deveria ter ficado sozinha e sem ajuda por causa da grande afeição de vós, os pais, e dos que estavam ao redor dela, ou deveria ela ter morrido nas mãos daqueles que não a amavam nem cuidavam dela? Certamente não.

Ora, isso é injusto e irrazoável, não permitir que aqueles que têm igual afeição à tua façam o que pensas ser próprio para ti fazer, porque tens afeição.

É absurdo.

Vamos, então, se estivesses doente, desejarias que teus parentes fossem tão afetuosos, e todos os demais, filhos e esposa, a ponto de te deixarem sozinho e abandonado? De modo algum.

E desejarias ser tão amado pelos teus que, por seu excesso de afeição, ficasses sempre sozinho na doença? Ou, por essa razão, preferirias antes rezar, se fosse possível, para ser amado por teus inimigos e por eles abandonado? Mas, se assim é, resulta que tua conduta não foi de modo algum um ato de afeição.

Pois bem, não foi nada que te moveu e te induziu a abandonar teu filho? E como é isso possível? Mas poderia ser algo do tipo que moveu um homem em Roma a cobrir a cabeça enquanto corria um cavalo que ele favorecia; e quando, contra a expectativa, o cavalo venceu, ele precisou de esponjas para se recuperar do desmaio.

"O que é, então, a coisa que move? A discussão exata disso talvez não pertença à ocasião presente; mas basta estar convencido disto, se o que os filósofos dizem é verdadeiro, que não devemos procurá-la em parte alguma fora de nós, mas em todos os casos é uma e a mesma coisa que é a causa de fazermos ou não fazermos algo, de dizermos ou não dizermos algo, de nos exaltarmos ou nos deprimirmos, de evitarmos qualquer coisa ou a perseguirmos: a própria coisa que agora é a causa para mim e para ti, para ti de vires até mim e te sentares e ouvires, e para mim de dizer o que digo.

E o que é isto? É algo outro senão nossa vontade de assim fazer? Nenhum outro.

Mas

[Nota: "Quando somos crianças, nossos pais nos colocam nas mãos de um pedagogo para que ele cuide, em todas as ocasiões, de que não soframos dano." — Epicteto, Frag.]

97.

EPICTETO.

se tivéssemos desejado de outro modo, que outra coisa estaríamos fazendo senão aquilo que desejamos fazer? Esta foi então a causa do lamento de Aquiles, não a morte de Pátroclo; pois outro homem não se comporta assim pela morte de seu companheiro; mas foi porque ele escolheu fazê-lo. E para ti esta foi a própria causa de tua fuga naquela ocasião, que escolheste fazê-lo; "e, por outro lado, se (daqui em diante) ficares com ela, a razão será a mesma.

E agora vais a Roma porque escolhes; e se mudares de ideia, não irás para lá.

E, em uma palavra, nem a morte, nem o exílio, nem a dor, nem nada do tipo é a causa de fazermos ou não fazermos algo; mas nossas próprias opiniões e nossas vontades (δόγματα).

Convenço-te disto ou não? Tu me convences. Tais como são as causas em cada caso, tais também são os efeitos.

"Quando então estivermos fazendo algo não corretamente, desde este dia não o atribuiremos a nada mais senão à vontade (Boyfia ou opinião) a partir da qual o fizemos: e é isso que nos esforçaremos por remover e extirpar mais do que os tumores e abscessos do corpo.

E da mesma maneira daremos a mesma explicação da causa das coisas que fazemos corretamente; e não mais alegaremos como causas de qualquer mal para nós, seja escravo, vizinho, esposa ou filhos, estando persuadidos de que, se não pensarmos que as coisas são o que pensamos que são, não praticamos os atos que se seguem de tais opiniões; e quanto a pensar ou não pensar, isso está em nosso poder e não nas coisas externas.

Assim é, disse ele.

Desde este dia então não investigaremos nem examinaremos nada mais, qual seja a sua qualidade, ou o seu estado, nem terra, nem escravos, nem cavalos, nem cães, nada mais senão opiniões. Assim espero. Vês então que deves tornar-te um Escolástico, um animal de quem todos zombam, se realmente pretendes fazer um exame das tuas próprias opiniões: e que isto não é obra de uma hora ou de um dia, tu mesmo sabes.

CAPÍTULO XII.

DA CONTENTAMENTO."

No que diz respeito aos deuses, há alguns que dizem que um ser divino não existe; outros dizem que existe, mas é inativo e descuidado, e não toma providência alguma sobre coisa nenhuma; uma terceira classe diz que tal ser existe e exerce providência, mas apenas sobre as coisas grandes e celestiais, e sobre nada na terra; uma quarta classe diz que um ser divino exerce providência tanto sobre as coisas da terra quanto sobre as celestiais, mas apenas de modo geral, e não sobre as coisas em particular.

Há uma quinta classe, à qual pertencem Ulisses e Isócrates, que dizem: "Não me movo sem o teu conhecimento" (Ilíada, x. 278).

Ele usa a palavra *οἶδα*, que contém o mesmo elemento ou raiz que *δοκέω*, *ἔδοξα*.

Um *escolástico* é aquele que frequenta as escolas; uma pessoa estudiosa e literária, que não se ocupa dos negócios da vida ativa.

¹ O verso é da oração de Ulisses a Atena: "Ouve-me, filha de Zeus, tu que sempre me assistes em todos os perigos, nem mesmo me movo sem o teu conhecimento." Sócrates dizia que os deuses sabem tudo, o que é dito, feito e pensado (Xenofonte, *Mem.* i. 1, 19). Compare Cícero, *De Nat. Deorum*, i. 1, 2; e a *Dissertação sobre a Providência* do Dr. Price, seção i. Epicteto enumera as várias opiniões sobre os deuses nos tempos antigos. O leitor pode consultar as notas da edição de Schweighaeuser. As opiniões sobre Deus entre as nações modernas, que são chamadas civilizadas, e o são mais ou menos, não parecem ser tão variadas quanto nos tempos antigos; mas os contrastes nas opiniões modernas são notáveis. Essas opiniões modernas variam entre a negação de um Deus, embora o número dos que negam seja talvez não grande, e as noções supersticiosas sobre Deus e sua administração do mundo, que são ensinadas por mestres, eruditos e ignorantes, e exercem grande poder sobre as mentes daqueles que são incapazes ou não ousam exercer a faculdade da razão.

EPICTETO.

Antes de todas as outras coisas, então, é necessário investigar acerca de cada uma dessas opiniões, se é afirmada verdadeiramente ou não verdadeiramente.

Pois se não há deuses, como é nosso fim próprio segui-los? E se existem, mas não cuidam de nada, também neste caso como será correto segui-los? Mas se de fato existem e cuidam das coisas, ainda assim, se nada é comunicado deles aos homens, nem de fato a mim mesmo, como mesmo assim é correto (segui-los)? O homem sábio e bom, então, após considerar todas estas coisas, submete sua própria mente àquele que administra o todo, como os bons cidadãos fazem com a lei do Estado.

Aquele que está recebendo instrução deve vir a ser instruído com esta intenção: Como seguirei os deuses em todas as coisas, como me contentarei com a administração divina, e como posso tornar-me livre? Pois é livre aquele para quem tudo acontece segundo a sua vontade, e a quem nenhum homem pode impedir.

O que é então a liberdade? Loucura? Certamente não: pois loucura e liberdade não andam juntas.

Mas, dizes tu, eu quereria que tudo resultasse exatamente como me agrada, e de qualquer maneira que me agrade.

Estás louco, estás fora de ti.

Não sabes que a liberdade é uma coisa nobre e valiosa? Mas para mim, desejar inconsideradamente que as coisas aconteçam como eu inconsideradamente gosto, isto parece não ser apenas não nobre, mas até mesmo muito vil.

Pois como procedemos na questão da escrita? Quero eu escrever o nome de Díon como escolho? Não, mas sou ensinado a escolher escrevê-lo como deve ser escrito.

E quanto à música? Da mesma maneira.

E o que universalmente em toda arte ou ciência? Exatamente o mesmo.

Se não fosse assim, não valeria a pena saber nada, se o conhecimento fosse adaptado ao capricho de cada homem.

É então somente nisto, nisto que é o maior e o principal, quero dizer a liberdade, que me é permitido querer inconsideradamente? De modo algum; mas ser instruído é isto: aprender a desejar que cada coisa aconteça como acontece.

* "Seguir a Deus" é uma expressão estoica. Antonino, x. 11.

Isto significa que devemos aprender a nos satisfazer com tudo o que acontece, de fato com a vontade de Deus.

Isto é uma parte da educação, segundo Epicteto.

Mas não aparece em nossos sistemas de educação tão claramente como aparece aqui.

Antonino (iv. 23): "Tudo harmoniza comigo, ó universo, o que é harmonioso contigo. Nada para mim é cedo demais nem tarde demais, o que é a teu tempo."

EPICTETO.

E como acontecem as coisas? Assim como o dispositor as dispôs? E ele designou o verão e o inverno, e a abundância e a escassez, e a virtude e o vício, e todos os opostos para a harmonia do todo; e a cada um de nós ele deu um corpo, e partes do corpo, e posses, e companheiros.

Lembrando, então, dessa disposição das coisas, devemos buscar instrução, não para que mudemos a constituição das coisas — pois não temos o poder de fazê-lo, nem é melhor que o tenhamos —, mas para que, assim como as coisas ao nosso redor são o que são e existem por natureza, mantenhamos nossas mentes em harmonia com os acontecimentos.

Pois podemos escapar dos homens? E como é possível? E se nos associamos a eles, podemos mudá-los? Quem nos dá esse poder? O que resta, então, ou que método se descobre para lidar com eles? Existe algum método pelo qual eles façam o que lhes parece conveniente, e nós, não obstante, permaneçamos em um estado de espírito conforme à natureza? Mas você não quer suportar e está descontente; e se está sozinho, chama isso de solidão; e se está com homens, chama-os de velhacos e ladrões; e critica seus próprios pais e filhos, e irmãos e vizinhos.

Mas você deveria, quando estiver sozinho, chamar essa condição de tranquilidade e liberdade.

Upton reuniu as passagens nas quais essa doutrina é mencionada.

Uma passagem está em Gellius (vi. 1), do quarto livro de Crisipo sobre a Providência, que diz: "nada é mais tolo do que as opiniões daqueles que pensam que o bem poderia ter existido sem o mal." Schweighaeuser deseja que Epicteto tivesse discutido mais plenamente a questão sobre a natureza e a origem do Mal.

Ele remete ao comentário de Simplício sobre o Encheiridion de Epicteto, c. 13 (8) e 34 (27), para o tratamento desse assunto.

Epicteto (Encheiridion, c. 27) diz que "assim como um alvo não é colocado com o propósito de errá-lo, tampouco a natureza do mal existe no universo." Simplício observa (p. 278, ed. Schweig.): "O Bem é aquilo que está de acordo com a natureza de cada coisa, no qual cada coisa tem sua perfeição; mas o Mal é a disposição contrária à natureza da coisa que contém o mal, disposição pela qual ela é privada daquilo que está de acordo com a natureza, a saber, o bem."

Pois se o Mal, assim como o Bem, fosse uma disposição e perfeição da forma (εἶδος) na qual está, o próprio mal seria também bom e não seria então chamado de Mal."

A palavra é ὑπόστασις.

É explicado pelo que se segue.

EPICTETO.

e pensar-te semelhante aos deuses; e quando estiveres com muitos, não deves chamar isso de multidão, nem perturbação, nem inquietação, mas festa e assembleia, e assim aceitar tudo com contentamento.

Qual é então a punição daqueles que não aceitam? É serem o que são.

Alguém está insatisfeito por estar só? Que fique só.

Um homem está insatisfeito com seus pais? Que seja um mau filho e lamente.

Está insatisfeito com seus filhos? Que seja um mau pai.

Lancem-no na prisão.

Que prisão? Onde ele já está, pois está lá contra sua vontade; e onde um homem está contra sua vontade, aí está em prisão.

Assim, Sócrates não estava na prisão, pois estava lá voluntariamente — Deve então minha perna ser aleijada? Infeliz, então por causa de uma pobre perna você culpa o mundo? Não a entregarás voluntariamente pelo todo? Não te afastarás dela? Não a cederás de bom grado àquele que a deu? E ficarás irritado e descontente com as coisas estabelecidas por Zeus, que ele com as Moiras (fados) que estavam presentes e tecendo o fio da tua geração, definiu e ordenou? Não sabes quão pequena parte és comparado ao todo. Quero dizer com respeito ao corpo, pois quanto à inteligência não és inferior aos deuses nem menor; pois a magnitude da inteligência não é medida por comprimento nem por altura, mas por pensamentos.

Não escolherás então colocar o teu bem naquilo em que és igual aos deuses? — Infeliz que sou por ter tal pai e mãe.

— O que então, foi-te permitido sair e escolher e dizer: Que tal homem neste momento se una com tal mulher para que eu seja produzido? Não foi permitido, mas foi um

¹ "Et quota pars homo sit terrai totius unus." Lucrécio, vi. 652, e Antonino, ii. 4.

² O original é δόγμασι, que os tradutores latinos traduzem como "decretis", e a Sra. Carter como "princípios". Não entendo nenhum dos dois. Traduzi a palavra por 'pensamentos', que é vago, mas não posso fazer melhor.

³ Era a doutrina estoica que a inteligência humana é uma partícula do divino.

Carter denomina isso "uma das extravagâncias estoicas, decorrentes da noção de que as almas humanas eram literalmente partes da Divindade." Mas esta dificilmente é uma representação correta da doutrina estoica.

EPICTETO.

necessidade de que seus pais existissem primeiro, e então que você fosse gerado.

De que tipo de pais? De tais como eles eram.

Pois bem, já que eles são como são, não há remédio dado a você? Ora, se você não soubesse para que propósito possui a faculdade da visão, seria infeliz e miserável se fechasse os olhos quando cores fossem trazidas diante deles; mas, já que você possui grandeza de alma e nobreza de espírito para todo evento que possa acontecer, e não sabe que as possui, não é mais infeliz e miserável? As coisas são trazidas para perto de você que são proporcionais ao poder que você possui, mas você desvia esse poder justamente no momento em que deveria mantê-lo aberto e discernente.

Não agradece antes aos deuses por terem permitido que você esteja acima dessas coisas que não colocaram em seu poder, e por terem feito você responsável apenas por aquelas que estão em seu poder? Quanto a seus pais, os deuses o deixaram livre de responsabilidade; e assim também com respeito a seus irmãos, e seu corpo, e posses, e morte e vida.

Por que então eles o tornaram responsável? Por aquilo que somente está em seu poder: o uso adequado das aparências.

Por que então você atrai para si as coisas pelas quais não é responsável? É, deveras, um dar trabalho a si mesmo.

CAPÍTULO XIII.

COMO TUDO PODE SER FEITO DE MODO ACEITÁVEL AOS DEUSES.

Quando alguém perguntou como pode um homem comer de modo aceitável aos deuses, ele respondeu: Se ele pode comer com justiça e contentamento, e com equanimidade, e temperança e ordem, não será também aceitável aos deuses? Mas quando você pediu água morna e o escravo não ouviu, ou se ouviu trouxe apenas água tépida, ou nem mesmo se encontra em casa, então não se irritar nem estourar

EPICTETO.

com paixão, não é isto aceitável aos deuses? — Como então um homem suportaria pessoas como este escravo? Escravo você mesmo, não suportará seu próprio irmão, que tem Zeus por progenitor, e é como um filho das mesmas sementes e da mesma descendência do alto? Mas se você foi colocado em algum lugar mais elevado, imediatamente se fará um tirano? Não se lembrará de quem você é, e de quem você governa? que eles são parentes, que são irmãos por natureza, que são descendência de Zeus? — Mas eu os comprei, e eles não me compraram. Você vê em que direção está olhando, que é para a terra, para o abismo, que é para essas leis miseráveis de homens mortos? ' mas para as leis dos deuses você não está olhando.

CAPÍTULO XIV.

QUE A DIVINDADE SUPERVISIONA TODAS AS COISAS.

Quando alguém lhe perguntou como um homem poderia estar convencido de que todas as suas ações estão sob a inspeção de Deus, ele respondeu.

Você não acha que todas as coisas estão unidas em uma? Eu acho, respondeu a pessoa. Bem, você não acha [nota: A Sra. Carter compara Jó xxxi: "Não foi ele que me fez no ventre e fez a ele (meu servo)? E não foi um que nos formou no ventre?" Suponho que ele quer dizer leis humanas, que fizeram um homem escravo de outro; e quando ele diz "homens mortos", pode significar homens mortais, em contraste com os deuses ou Deus, que fez todos os homens irmãos.] As coisas parecem separadas, mas há um vínculo pelo qual estão unidas. [nota: "Tudo isso que você vê, onde coisas divinas e humanas estão contidas, é Um: somos membros de um grande corpo" (Sêneca, Ep. 95). "O universo é ou uma confusão, uma mútua involução de coisas e uma dispersão; ou é unidade e ordem e providência" (Antonino, vi. 10): também vii. 9, "todas as coisas estão implicadas umas com as outras, e o vínculo é santo; e dificilmente há algo desconectado de qualquer outra coisa." Veja também Cícero, De Nat. Deorum, ii 7; e De Oratore, iii. 5.]

EPICTETUS.

que as coisas terrenas têm uma concordância e união naturais com as coisas celestes? Creio que sim. E como, senão regularmente, como que por ordem de Deus, quando Ele ordena que as plantas floresçam, elas florescem? Quando Ele ordena que lancem brotos, elas brotam? Quando Ele ordena que produzam fruto, como mais produzem fruto? Quando Ele ordena que o fruto amadureça, ele amadurece? Quando novamente Ele lhes ordena que deixem cair os frutos, como mais os deixam cair? E quando que percam as folhas, elas perdem as folhas? E quando Ele lhes ordena que se recolham e permaneçam quietas e em repouso, como mais permanecem quietas e em repouso? E como mais, no crescimento e no minguar da lua, e na aproximação e no afastamento do sol, se vê tão grande alteração e mudança contrária nas coisas terrenas? Mas estão as plantas e os nossos corpos tão ligados e unidos com o todo, e não estão muito mais os nossos pulsos? E as nossas almas tão ligadas e em contato com Deus como partes d'Ele e porções d'Ele; e não percebe Deus todo movimento dessas partes como sendo movimento próprio, inato consigo mesmo? Ora, sois capaz de pensar na administração divina, e acerca de todas as coisas divinas, e ao mesmo tempo também acerca dos assuntos humanos, e de ser movido por dez mil coisas ao mesmo tempo nos vossos sentidos e no vosso entendimento, e de assentir a algumas, e de dissentir de outras, e novamente quanto a algumas coisas de suspender o vosso juízo; e retendes na vossa alma tantas impressões de tantas e tão variadas coisas, e, sendo movido por elas, incidis em noções semelhantes àquelas primeiramente impressas, e retendes numerosas artes e as memórias de dez mil coisas; e não é Deus capaz de superintender todas as coisas, e de estar presente a todas, e de receber de todas uma certa comunicação? E é o sol capaz de iluminar tão grande parte do Todo, e de deixar tão pouco não iluminado, somente aquela parte que é ocupada pela sombra da terra; e Aquele que fez o próprio sol e o faz girar, sendo uma pequena parte de si mesmo comparado com o todo, não pode Ele perceber todas as coisas?

Mas eu não posso, poderá o homem replicar, compreender todas estas coisas ao mesmo tempo.

EPICTETO.

Mas quem vos diz que tendes igual poder com Zeus? No entanto, ele colocou junto a cada homem um guardião, o Daemon de cada um, a quem confiou o cuidado do homem, um guardião que nunca dorme, nunca é enganado.

Pois a que guardião melhor e mais cuidadoso poderia Ele ter confiado cada um de nós? Quando, então, fechares as portas e fizeres escuridão dentro, lembra-te de nunca dizer que estás só, pois não estás; mas Deus está dentro, e o teu Daemon está dentro, e que necessidade têm eles de luz para ver o que fazes? A este Deus deves jurar um juramento, assim como os soldados juram por César. Mas aqueles que são contratados por soldo juram considerar a segurança de César acima de todas as coisas; e tu, que recebeste tantos e tão grandes favores, não jurarás, ou, tendo jurado, não permanecerás fiel ao teu juramento? E que jurarás? Nunca ser desobediente, nunca fazer acusações, nunca achar defeito em coisa alguma que ele tenha dado, e nunca sofrer ou fazer, contra a vontade, qualquer coisa que seja necessária.

É este juramento como o juramento do soldado? Os soldados juram não preferir nenhum homem a César; neste juramento os homens juram honrar a si mesmos acima de tudo.

Antonino, v. 27: "Vive com os deuses."

E ele vive com os deuses quem constantemente lhes mostra que a sua própria alma está satisfeita com aquilo que lhe é atribuído, e que ela faz tudo o que o Daemon deseja, o qual Zeus deu a cada homem como seu guardião e guia, uma porção de si mesmo.

E isto é o entendimento e a razão de cada homem." Antonino (iii.

5) nomeia este Daemon "o deus que está em ti." São Paulo (1 Cor.

i. 3, 16) diz: "Não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?" Até os poetas usam esta forma de expressão —

"Est Deus in nobis, agitante calescimus illo [ipso]:

Impetus hic sacrae semina mentis habet." — Ovídio, 'Fasti', vi. C.

Ver nota de Schweig. sobre ἐπαναστῆναι.

Ver nota de Schweig.

EPICTETO.

CAPÍTULO XV.

O QUE A FILOSOFIA PROMETE.

Quando um homem o consultava sobre como persuadir seu irmão a deixar de estar irado com ele, Epicteto respondeu: A filosofia não se propõe a assegurar para um homem qualquer coisa externa.

Se o fizesse (ou, se não fosse como digo), a filosofia estaria permitindo algo que não está dentro de sua alçada.

Pois assim como a matéria do carpinteiro é a madeira, e a do estatuário é o cobre, assim a matéria da arte de viver é a vida de cada homem.

— O que é então o do meu irmão? — Isso novamente pertence à sua própria arte; mas com respeito à sua, é uma das coisas externas, como um pedaço de terra, como a saúde, como a reputação.

Mas a Filosofia não promete nenhuma dessas coisas.

Em toda circunstância eu manterei, ela diz, a parte governante conforme à natureza.

Cuja parte governante? Dele em quem eu estou, ela diz.

Como então meu irmão deixará de estar zangado comigo? Traga-o a mim e eu lhe direi.

Mas não tenho nada a dizer a você sobre a raiva dele.

Quando o homem, que o consultava, disse: Busco saber isto.

Como, mesmo que meu irmão não seja reconciliado comigo, eu me manterei em um estado conforme à natureza? Nada grande, disse Epicteto, é produzido subitamente, pois nem mesmo a uva ou o figo o são. Se você me disser agora que quer um figo, eu lhe responderei que isso requer tempo: deixe-o florescer primeiro, depois produzir fruto, e então amadurecer.

É então o fruto de uma figueira não aperfeiçoado subitamente e em uma hora, e você possuiria o fruto da mente de um homem em tão curto tempo e tão facilmente? Não espere isso, mesmo que eu lhe diga.

¹ 'Isto é o riyefioviKoy, uma palavra frequentemente usada por Antoninus, ii. 2; vi. 8.

² "O filósofo havia esquecido que as figueiras não florescem" (Sra. Carter). As flores de um figo estão dentro do receptáculo carnudo que se torna o fruto.

³ Schweig. imprime /xtj S' ti.v, iyti ffoi Keyoi, irpo(rS6Ka: e em sua versão latina ele imprime: "Id vero, ego tibi dice, ne expectes." Eu não entendo nem sua pontuação, nem sua versão.

⁴ Wolf traduz isso, "Etsi ego tibi dixero (virtutem brevi parari posse), noli credere": o que é uma luz que Wolf faz &y ir com Ae'yw.

I

EPICTETO.

CAPÍTULO XVI.

DA PROVIDÊNCIA.

Não se admire se para outros animais além do homem todas as coisas são providas para o corpo, não apenas comida e bebida, mas também camas, e eles não precisam de sapatos nem de materiais de cama, nem de roupas; mas nós exigimos todas essas coisas adicionais.

Pois os animais não sendo feitos para si mesmos, mas para serviço, não era adequado que fossem feitos de modo a precisar de outras coisas.

Pois considere o que seria para nós cuidar não apenas de nós mesmos, mas também do gado e dos asnos, como deveriam ser vestidos, e como calçados, e como deveriam comer e beber.

Agora, assim como os soldados estão prontos para seu comandante, calçados, vestidos e armados: mas seria difícil para o quiliarca (tribuno) percorrer e calçar ou vestir seus mil homens: assim também a natureza formou os animais que são feitos para o serviço, todos prontos, preparados e sem necessidade de cuidados adicionais.

Assim, um menino pequeno com apenas uma vara conduz o gado.

Mas nós, em vez de sermos gratos por não precisarmos ter o mesmo cuidado com os animais como conosco, queixamo-nos de Deus por nossa própria causa; e ainda, em nome de Zeus e dos deuses, qualquer uma das coisas que existem seria suficiente para fazer um homem perceber a providência de Deus, pelo menos um homem que seja modesto e grato.

E não me fale agora das grandes coisas, mas apenas disto: que o leite é produzido da grama, e o queijo do leite, e a lã das peles.

Quem fez essas coisas ou as concebeu? Ninguém, você diz.

Ó incrível descaramento e estupidez!

Bem, deixemos de lado as obras da natureza e contemplemos seus atos menores (subordinados, Trdpcya).

Há algo menos útil do que o cabelo no queixo? Então, a natureza não usou também esse cabelo da maneira mais adequada possível? Não distinguiu por ele o macho e a fêmea? A natureza de todo homem não proclama imediatamente à distância: eu sou um homem; como tal aproxima-te de mim, como tal fala comigo; não procures outra coisa; vê os sinais? Novamente, no caso das mulheres, como ela misturou

EPICTETUS.

algo mais suave na voz, assim também as privou do cabelo (no queixo). Você diz, não é assim: o animal humano deveria ter sido deixado sem marcas de distinção, e cada um de nós deveria ser obrigado a proclamar: eu sou um homem.

Mas como não é o sinal belo e adequado e venerável? Quanto mais (belo do que a crista do galo, quanto mais adequado do que a juba do leão? Por essa razão devemos preservar os sinais que Deus deu, não devemos jogá-los fora, nem confundir, tanto quanto pudermos, as distinções dos sexos.

Serão estas as únicas obras da providência em nós? E que palavras bastariam para louvá-las e expô-las conforme o seu valor? Pois, se tivéssemos entendimento, não deveríamos fazer outra coisa, tanto em conjunto quanto individualmente, senão cantar hinos e bendizer a divindade, e narrar os seus benefícios? Não deveríamos, ao cavar, ao arar e ao comer, cantar este hino a Deus? "Grande é Deus, que nos deu tais instrumentos com os quais cultivaremos a terra: grande é Deus, que nos deu as mãos, o poder de engolir, o estômago, o crescimento imperceptível e o poder de respirar enquanto dormimos." Isto é o que deveríamos cantar em toda ocasião, e cantar o maior e mais divino hino por nos ter dado a faculdade de compreender estas coisas e usar o caminho adequado. Pois bem, já que a maioria de vós se tornou cega, não deveria haver alguém para preencher este ofício e, em nome de todos, cantar o hino a Deus? Pois que mais posso eu fazer, um velho coxo, senão cantar hinos a Deus? Se eu fosse um rouxinol, faria a parte de um rouxinol; se fosse um cisne, faria como um cisne.

Mas agora sou uma criatura racional, e devo louvar a Deus; este é o meu trabalho; eu o faço, nem desertarei deste posto, enquanto me for permitido mantê-lo; e exorto-vos a vos unirdes a este mesmo canto.

' Antoninus, v. 33.

 Ver a nota de Upton sobre 6S.

 Sovra é a provável emenda de Schweighaeuser.

m

EPICTETO.

CAPÍTULO XVII.

QUE A ARTE LÓGICA É NECESSÁRIA.

Visto que a razão é a faculdade que analisa e aperfeiçoa as demais, e ela própria não deve ficar sem análise, por que meio deveria ser analisada? Pois é evidente que isso deve ser feito ou por si mesma ou por outra coisa.

Ou então essa outra coisa também é razão, ou algo superior à razão; o que é impossível.

Mas se é razão, quem analisará essa razão? Pois se essa razão faz isso por si mesma, a nossa razão também pode fazê-lo. Mas se exigirmos outra coisa, a questão prosseguirá ao infinito e não terá fim. A razão, portanto, é analisada por si mesma.

Sim; mas é mais urgente curar (as nossas opiniões) e coisas semelhantes.

Quereis então ouvir sobre essas coisas? Ouvi.

Mas se você disser: "Não sei se argumentas verdadeira ou falsamente", e se eu me expressar de alguma forma ambígua, e você me disser: "Distingue", não te suportarei por mais tempo, e te direi: "É mais urgente." Esta é a razão, suponho, pela qual eles (os mestres estoicos) colocam a arte lógica em primeiro lugar, como na medição do trigo colocamos primeiro o exame da medida.

Mas se não determinarmos primeiro o que é um

' A6yos iffrlv 6 BiapOpivv.

AiapOpovv significa "dividir uma coisa em suas partes ou membros." A palavra "analisar" parece ser o equivalente mais próximo.

Ver a nota de Schweig. sobre virh rlvos StapOpuBij ;

' Isto é obscuro.

A conclusão, "A razão, portanto, é analisada por si mesma" não está em Epicteto; mas está implícita, como diz Schweighaeuser (p. 197, notas). Assim, Antonino, xi. 1, escreve: "Estas são as propriedades da alma racional; ela se vê a si mesma, analisa-se a si mesma." Se a razão, nossa razão, requer outra razão para analisá-la, essa outra razão requererá outra razão para analisar essa outra razão; e assim até o infinito.

Se a razão então, nossa razão, pode ser analisada, ela deve ser analisada por si mesma.

As notas sobre a primeira parte deste capítulo na edição de Schweighaeuser podem ser lidas por aqueles que estiverem inclinados.

' "Nossas opiniões." Há algum defeito no texto, como observa Wolf.

"O oponente", diz ele, "deprecia a Lógica (Dialética) como uma coisa que não é necessária para tornar os homens bons, e ele prefere o ensino moral à Lógica: mas Epicteto o informa que um homem que não é dialético não terá uma percepção suficiente do ensino moral."

Ele repete as palavras do suposto oponente; e quer dizer que a dificuldade de seu adversário mostra a necessidade da Dialética.

EPICTETO.

módio, e o que é uma balança, como poderemos medir ou pesar qualquer coisa?

Neste caso, então, se não aprendemos plenamente e examinamos com precisão o critério de todas as outras coisas, pelo qual as outras coisas são aprendidas, poderemos examinar com precisão e aprender plenamente qualquer outra coisa? Como é isso possível? Sim; mas o módio é apenas madeira, e uma coisa que não produz fruto.

— Mas é uma coisa que pode medir trigo.

— A Lógica também não produz fruto.

— Quanto a isso, na verdade veremos: mas, mesmo que um homem conceda isso, basta que a lógica tenha o poder de distinguir e examinar outras coisas e, por assim dizer, de medi-las e pesá-las.

Quem diz isso? É apenas Crisipo, Zenão e Cleantes? E não diz Antístenes* também? E quem é que escreveu que o exame dos nomes é o começo da educação? E não diz Sócrates isso? E de quem escreve Xenofonte*, que começou pelo exame dos nomes, o que cada nome significava? É então essa a grande e admirável coisa: entender ou interpretar Crisipo? Quem diz isso? — Qual é então a coisa admirável? — Entender a vontade da natureza.

Bem, então você a apreende por seu próprio poder? E de que mais precisa? Pois se é verdade que todos os homens erram involuntariamente, e você aprendeu a verdade, por necessidade você deve agir corretamente. — Mas, na verdade, não apreendo a vontade da natureza. Quem então nos diz o que ela é? — Dizem que é Crisipo. — Prossigo e pergunto o que diz esse intérprete da natureza. Começo a não entender o que ele diz: procuro um intérprete de Crisipo. — Bem, considere como isso é dito, como se fosse dito em língua romana. — O que é então essa arrogância do intérprete? Não há arrogância que possa ser justamente atribuída nem mesmo a Crisipo, se ele apenas interpreta a vontade da natureza, mas não a segue ele mesmo; e muito mais isso se aplica ao seu intérprete. Pois não precisamos de Crisipo por causa dele mesmo, mas para que possamos entender a natureza.

* Antístenes, que professava a filosofia cínica, rejeitava a Lógica e a Física (nota de Schweig. p. 201).

* Xenofonte, Mem. iv. 5, 12, e iv. 6, 7. Epicteto sabia o que a educação deveria ser. Aprendemos a língua, e devemos aprender o que ela significa. Quando as crianças aprendem palavras, devem aprender o que é a coisa que é significada pela palavra. No caso das crianças, isso só pode ser feito imperfeitamente quanto a algumas palavras, mas pode ser feito mesmo assim em algum grau; e deve ser feito, ou a palavra não significa nada, ou, o que é igualmente ruim, a palavra é mal compreendida. Todos nós passamos nossas vidas na ignorância de muitas palavras que usamos; alguns de nós em maior ignorância do que outros, mas todos nós em ignorância em algum grau. EPICTETO.

Tampouco precisamos de um adivinho (sacrificador) por causa dele mesmo, mas porque pensamos que através dele conheceremos o futuro e compreenderemos os sinais dados pelos deuses; nem precisamos das vísceras dos animais por causa delas mesmas, mas porque através delas são dados sinais; nem olhamos com admiração para o corvo ou o corvo-marinho, mas para Deus, que através deles dá sinais?

Vou então ao intérprete dessas coisas e ao sacrificador, e digo:

Inspeciona as vísceras por mim e dize-me que sinais elas dão.

O homem pega as vísceras, abre-as e interpreta: Homem, diz ele, tu tens uma vontade livre por natureza de impedimento e corrupção; isto está escrito aqui nas vísceras.

Mostrar-te-ei isto primeiro na questão do assentimento.

Pode algum homem impedir-te de assentir à verdade? Nenhum homem pode.

Pode algum homem compelir-te a receber o que é falso? Nenhum homem pode.

Vês que nesta matéria tens a faculdade da vontade livre de impedimento, livre de compulsão, desimpedida.

Bem então, na questão do desejo e da busca de um objeto, é diferente? E o que pode vencer a busca senão outra busca? E o que pode vencer o desejo e a aversão senão outro desejo e outra aversão? Mas, objetas: "Se me colocas diante o medo da morte, tu me compelirias." Não, não é o que é colocado diante de ti que compele, mas a tua opinião de que é melhor fazer isto ou aquilo do que morrer.

Nesta matéria então, foi a tua opinião que te compeliu: isto é, a vontade compeliu a vontade. Pois se Deus tivesse feito aquela parte de si mesmo,

O suposto intérprete diz isto.

Quando Epicteto diz "a língua romana", talvez queira dizer que o suposto oponente é um romano e não conhece bem o grego.

Encheiridion, c. 49. "Quando um homem se envaidece porque pode compreender e expor Crisipo, dize a ti mesmo: Se Crisipo não tivesse escrito obscuramente, este homem não teria do que se orgulhar." Ver o restante.

» Comparar Xenofonte, Mem. i. 1, 3.

" Isto é verdadeiro.

Se colocas diante de um homem o medo da morte, ameaças-lhe com o medo da morte.

O homem pode ceder ao

EPICTETO.

que ele tomou de si mesmo e nos deu, de tal natureza que pudesse ser impedido ou compelido ou por ele mesmo ou por outro, então ele não seria Deus nem estaria cuidando de nós como deveria.

Isto, diz o adivinho, encontro nas vítimas: estas são as coisas que te são significadas.

Se quiseres, és livre; se quiseres, não culparás ninguém; não acusarás ninguém.

Tudo será ao mesmo tempo conforme a tua mente e a mente de Deus.

Por causa desta adivinhação, vou a este adivinho e ao filósofo, não admirando-o por esta interpretação, mas admirando as coisas que ele interpreta.

CAPÍTULO XVIII.

Que não devemos nos irar com os erros (faltas) dos outros.

Se o que os filósofos dizem é verdade, que todos os homens têm um único princípio, como no caso do assentimento a persuasão de que uma coisa é assim, e no caso da dissensão a persuasão de que uma coisa não é assim, e no caso da suspensão do juízo a persuasão de que uma coisa é incerta, assim também no caso de um movimento em direção a qualquer coisa, a persuasão de que uma coisa é vantajosa para o homem, e é impossível pensar que uma coisa é vantajosa e desejar outra, e julgar que uma coisa é adequada e mover-se em direção a outra — por que então nos irarmos com a maioria?

ameaça e fazer o que a ameaça tem por objetivo fazê-lo fazer; ou pode resistir àquele que tenta impor a ameaça; ou pode recusar-se a ceder e, assim, sofrer as consequências de sua recusa.

Se um homem cede à ameaça, ele o faz pela razão que Epicteto dá, e a liberdade de escolha, e consequentemente a liberdade de vontade, realmente existe neste caso.

O direito romano não permitia que contratos ou acordos feitos sob influência de ameaças fossem válidos; e a razão para declará-los inválidos não era a falta de livre vontade naquele que cedia à ameaça, mas o fato de que ameaças são diretamente contrárias ao propósito de toda lei, cujo propósito é assegurar a ação independente de toda pessoa em todas as coisas permitidas pela lei.

Esta questão é discutida por Savigny, Das heutige Römische Recht, iii. 114. Ver o título 'Quod metus causa', no Digesto, 4, 2. Comparar também Epicteto, iv. 1, 68, etc.

■ 'IrafleTj/ Sti, etc.

: Schweighaeuser tem uma nota sobre a distinção entre τò ὀρέγεσθαι e τò ὁρμᾶν. Comparar Epicteto, iii. 2, 1; iii. 3, 2; iii. 22, 43; e i. 4, 11. Schweig. diz que ὀρέγεσθαι refere-se ao ἀγαθόν e τυχηρόν, e ὁρμᾶν ao καθῆκον, e conclui que há um defeito no texto, que ele se esforça por suprir.

EPICTETO.

caso de um movimento em direção a qualquer coisa, a persuasão de que uma coisa é vantajosa para o homem, e é impossível pensar que uma coisa é vantajosa e desejar outra, e julgar que uma coisa é adequada e mover-se em direção a outra — por que então nos irarmos com a maioria?

Carter diz: "As pessoas mais ignorantes frequentemente praticam o que sabem ser mau: e aqueles que voluntariamente sofrem, como muitos o fazem, que suas inclinações ceguem seu julgamento, não são justificados por segui-lo. (Talvez ela queira dizer 'eles', 'suas inclinações'.) A doutrina de Epicteto, portanto, aqui e em outros lugares, sobre este assunto, contradiz a voz da razão e da consciência: nem é menos perniciosa do que mal fundamentada.

Ela destrói toda culpa e mérito, todo castigo e recompensa, toda censura a nós mesmos ou a outros, todo senso de mau comportamento para com nossos semelhantes, ou para com nosso Criador.

Não é de admirar que tais filósofos não ensinassem o arrependimento para com Deus."

A Sra.

Carter não compreendeu Epicteto; e sua censura é descabida.

É verdade que "as pessoas mais ignorantes frequentemente praticam o que sabem ser mau", como ela verdadeiramente diz.

Mas ela poderia ter dito mais.

Também é verdade que pessoas, que não são ignorantes, frequentemente fazem o que sabem ser mau, e até mesmo o que condenariam em outro, pelo menos antes de terem caído no mesmo mal elas mesmas; pois quando fizeram o que sabem ser errado, têm um sentimento de solidariedade com outros que são tão maus quanto elas mesmas.

Nem ele diz, como a Sra.

Carter parece implicar que ele diz, pois suas palavras são ambíguas, que aqueles que voluntariamente sofrem que suas inclinações ceguem seu julgamento são justificados por segui-las.

Ele diz que os homens farão como fazem, enquanto pensarem como pensam.

Ele apenas rastreia até sua origem os maus atos que os homens maus praticam; e ele diz que devemos ter pena deles e tentar corrigi-los.

Agora, o melhor homem do mundo, se vê a origem e a causa direta dos maus atos nos homens, pode ter pena deles por sua maldade, e fará o que é certo.

Ele terá pena, e ainda assim punirá severamente, se os interesses da sociedade exigirem que o culpado seja punido: mas não punirá com raiva.

Epicteto nada diz sobre penalidades legais; e presumo que ele não diria que as penalidades são sempre injustas, se compreendo seus princípios.

Seu discurso é neste sentido, como o título nos diz, que não devemos nos irar com os erros dos outros: a matéria do discurso é o sentimento e a disposição que devemos ter para com aqueles que fazem o mal, "porque estão enganados sobre o bem e o mal."

Ele não discute a questão da origem do erro desses homens além disto: os homens pensam que uma coisa ou ação é vantajosa; e é impossível para eles pensar que uma coisa é vantajosa e desejar outra coisa.

O erro deles está em sua opinião.

Então ele nos diz para lhes mostrar o erro, e eles desistirão de seus erros.

Ele não está aqui examinando a maneira de lhes mostrar o erro; pelo que suponho que ele queira dizer convencê-los de seu erro.

Ele parece admitir que pode não ser possível convencer

EPICTETO.

São ladrões e salteadores, você pode dizer.

O que você quer dizer com ladrões e salteadores? Eles estão enganados acerca do bem e do mal.

Devemos então nos irar com eles, ou ter piedade deles? Mas mostre-lhes o erro deles, e você verá como eles desistem de seus erros.

Se eles não veem seus erros, não têm nada superior à sua opinião presente.

Não deveria então este salteador e este adúltero ser destruídos? De modo algum diga isso, mas fale antes desta maneira: Este homem que foi enganado e iludido acerca das coisas mais importantes, e cegado, não na faculdade da visão que distingue o branco e o preto, mas na faculdade que distingue o bem e o mal, não deveríamos destruí-lo? Se você falar assim, verá quão desumano é o que você diz, e que é como se você dissesse.

Não deveríamos destruir este homem cego e surdo? Mas se o maior dano é a privação das maiores coisas, e a maior coisa em todo homem é a vontade ou escolha tal como deve ser, e um homem é privado dessa vontade, por que você também se ira com ele? Homem, você não deve ser afetado contra a natureza pelos males de outro. Antes, tenha piedade dele: abandone essa prontidão para se ofender e para odiar, e essas palavras que muitos proferem: "esses sujeitos malditos e odiosos." Como você se tornou tão sábio de uma vez? E como você é tão rabugento? Por que então nos iramos? É porque valorizamos tanto as coisas das quais esses homens nos roubam? Não admire suas roupas, e então você não se irará com o ladrão.

Não admire a beleza de sua esposa, e você não se irará com o adúltero.

Aprenda que um ladrão e um adúltero não têm lugar nas coisas que são suas, mas naquelas que pertencem a outros e que não estão em seu poder.

Se você desconsidera essas coisas e as considera como nada, com quem ainda está irado? Mas enquanto você valoriza essas coisas, irrite-se consigo mesmo, e não com o ladrão e o adúltero.

— deles seus erros; pois ele diz: "se eles não veem seus erros, não têm nada superior à sua opinião atual."

Este é o significado claro e certo de Epicteto, que a Sra. Carter, em seu zelo, não viu.

Aqui o texto, 9, 10, 11, é defeituoso.

Veja a nota de Schweighaeuser.

EPICTETO.

Considere a questão assim: você tem roupas finas; seu vizinho não as tem: você tem uma janela; deseja arejar as roupas.

O ladrão não sabe em que consiste o bem do homem, mas pensa que consiste em ter roupas finas, exatamente a mesma coisa que você também pensa.

Não deve ele então vir e levá-las? Quando você mostra um bolo a pessoas gananciosas e o engole todo você mesmo, espera que elas não o arranquem de você? Não as provoque: não tenha janela: não areje suas roupas.

Eu também, recentemente, tinha uma lâmpada de ferro colocada ao lado de meus deuses domésticos: ouvindo um barulho na porta, desci correndo e descobri que a lâmpada havia sido levada.

Refleti que aquele que levara a lâmpada não fizera nada de estranho.

E então? Amanhã, disse eu, você encontrará uma lâmpada de barro: pois um homem só perde aquilo que tem.

Perdi minha vestimenta.

A razão é que você tinha uma vestimenta.

Tenho dor na cabeça.

Você tem alguma dor nos chifres? Por que então você está perturbado? Pois só perdemos aquelas coisas, só temos dores acerca daquelas coisas que possuímos.

Mas o tirano acorrentará — o quê? a perna.

Ele tomará — o quê? o pescoço.

O que então ele não acorrentará e não tomará? a vontade.

É por isso que os antigos ensinaram a máxima.

Conhece-te a ti mesmo. Portanto, devemos nos exercitar nas coisas pequenas e, começando por elas, prosseguir para as maiores.

Tenho dor na cabeça.

Não diga: ai de mim! Tenho dor no ouvido.

Não diga: ai de mim! E não digo que não lhe seja permitido gemer, mas não gema interiormente; e se seu escravo for lento em trazer uma atadura, não grite e se atormente, e diga: "Todos me odeiam": pois quem não odiaria tal homem? Pois a

A conclusão explica o que precede.

Um homem não pode ter dor nos chifres, porque não os tem.

Um homem não pode afligir-se pela perda de uma coisa se não a possui. Upton diz que Epicteto alude ao sofisma tolo: "Se não perdeste uma coisa, tu a tens; mas não perdeste chifres; logo, tens chifres" (Sêneca, Ep. 45). Epicteto diz: "Não perdes uma coisa quando não a tens." Veja a nota de Schweighaeuser.

Compare o que é dito em Xenofonte, Mem. iv. 2, 24, sobre a expressão "Conhece-te a ti mesmo".

"Este deveria ser o método no ensino das crianças."

EPICTETO.

futuro, confiando nessas opiniões, andai eretos, livres; não confiando no tamanho do vosso corpo, como um atleta, pois um homem não deve ser invencível da maneira que um asno o é. Quem é, então, o invencível? É aquele a quem nenhuma das coisas que são independentes da vontade perturba.

Então, examinando uma circunstância após outra, observo, como no caso de um atleta: ele saiu vitorioso no primeiro combate; bem, e quanto ao segundo? E se houver grande calor? E se for em Olímpia? E o mesmo digo neste caso: se lançares dinheiro em seu caminho, ele o desprezará. Bem, suponhamos que ponhas uma jovem em seu caminho, que então? E se for na escuridão? E se for uma pequena reputação, ou injúria; e se for elogio; e se for a morte? Ele é capaz de vencer tudo.

Que então, se for no calor, e se for na chuva, e se estiver num humor melancólico (louco), e se estiver dormindo? Ele ainda conquistará.

Este é o meu atleta invencível.

'Isto é, obstinado, como este animal geralmente é; e às vezes muito obstinado.

O significado então é, como diz Schweighaeuser: "um homem deve ser invencível, não com um tipo de obstinação estúpida ou preguiça e lentidão em mover-se como um asno, mas deve ser invencível através da razão, reflexão, meditação, estudo e diligência."

" Dos rústicos veio o velho provérbio, pois quando elogiam a fidelidade e bondade de um homem, dizem que ele é um homem com quem se pode jogar o jogo com os dedos na escuridão." Cícero, De Officiis, iii. 19. Veja Forcellini, Micare.

Os manuscritos têm νοφέυος ou οἰδέυος. Schweighaeuser aceitou a emenda de Upton de οἰνφέυος, mas eu não.

O "sono" refere-se aos sonhos.

Aristóteles, Ética, i. 13, diz: "melhores são as visões (sonhos) dos bons do que as dos comuns"; e Zenão ensinou que "um homem poderia, por seus sonhos, julgar o progresso que estava fazendo, se observasse que, durante o sono, não se comprazia com nada de mau, nem desejava ou fazia algo irracional ou injusto." Plutarco, in πι προκοπής, ed. Wyttenbach, vol. i. c. 12.

EPICTETO.

CAPÍTULO XIX.

COMO DEVEMOS NOS COMPORTAR DIANTE DOS TIRANOS.

Se um homem possui alguma superioridade, ou pensa que a possui, quando não a tem, tal homem, se não for instruído, necessariamente se envaidecerá por causa dela. Por exemplo, o tirano diz: "Sou senhor de todos?" E o que podes fazer por mim? Podes dar-me um desejo que não encontre obstáculo? Como podes? Tens o poder infalível de evitar o que queres evitar? Tens o poder de avançar em direção a um objeto sem erro? E como possuis esse poder? Vamos, quando estás num navio, confias em ti mesmo ou no timoneiro? E quando estás numa carruagem, em quem confias senão no cocheiro? E como é em todas as outras artes? Da mesma maneira.

Em que reside então o teu poder? Todos os homens me respeitam. Pois bem, eu também respeito o meu prato, e o lavo e o seco; e por causa do meu frasco de óleo, cravo um prego na parede.

Ora, são essas coisas superiores a mim? Não, mas elas suprem algumas das minhas necessidades, e por essa razão cuido delas.

Bem, não cuido do meu asno? Não lavo os seus pés? Não o limpo? Não sabes que todo homem tem consideração por si mesmo, e por ti exatamente da mesma forma que tem consideração pelo seu asno? Pois quem tem consideração por ti como homem? Mostra-me. Quem deseja tornar-se como tu? Quem te imita, como imita Sócrates? — Mas posso cortar-te a cabeça.

— Dizes bem.

Eu havia esquecido que devo ter consideração por ti, como teria por uma febre e pela bile, e erguer-te um altar, como há em Roma um altar para a febre.

O que é então que perturba e aterroriza a multidão? É o tirano e os seus guardas? [De modo algum.] Espero que não seja assim. Não é possível que o que é por natureza livre seja perturbado por qualquer outra coisa, ou

' θεραπεύουσιν.

Epicteto continua a usar a mesma palavra.

' Febris, febre, era uma deusa em Roma.

Upton refere-se a uma inscrição em Gruter 97, que começa com "Febri Divae." Compare Lactâncio, De falsa religione, c. 20.

EPICTETO.

impedido por qualquer outra coisa senão por si mesmo.

Mas são as próprias opiniões de um homem que o perturbam: pois quando o tirano diz a um homem: "Acorrentarei tua perna", aquele que valoriza sua perna diz: "Não faças isso; tem piedade": mas aquele que valoriza sua própria vontade diz: "Se te parece mais vantajoso, acorrenta-a." Não te importas? Não me importo.

Mostrar-te-ei que sou senhor.

Não podes fazer isso.

Zeus me libertou: pensas que ele pretendia permitir que seu próprio filho fosse escravizado? Mas tu és senhor do meu cadáver: toma-o. — Assim, quando te aproximas de mim, não tens consideração por mim? Não, mas tenho consideração por mim mesmo; e se queres que eu diga que também tenho consideração por ti, digo-te que tenho a mesma consideração por ti que tenho pelo meu pote.

Isto não é um amor-próprio perverso, pois o animal é constituído de modo a fazer todas as coisas por si mesmo.

Pois até o sol faz todas as coisas por si mesmo; e até o próprio Zeus.

Mas quando ele escolhe ser o Doador de chuva e o Doador de frutos, e o Pai de deuses e homens, vês que ele não pode obter essas funções e esses nomes, se não for útil ao homem; e, universalmente, ele fez a natureza do animal racional de tal modo que ele não pode obter qualquer um de seus próprios interesses adequados, se não contribuir com algo para o interesse comum. Dessa maneira e sentido, não é insociável para um homem fazer tudo em prol de si mesmo.

Pois o que esperas? que um homem negligencie a si mesmo e seu próprio interesse? E como, nesse caso, pode haver um mesmo e único princípio em todos os animais, o princípio do apego (consideração) a si mesmos?

Que então? quando noções absurdas sobre as coisas independentes...

independentes da nossa vontade, como se fossem boas e (ou) más, Ele no fundo, das nossas opiniões, devemos necessariamente prestar atenção aos tiranos; pois eu desejaria que os homens prestassem atenção apenas aos tiranos, e não também aos homens de câmara.' Como é que o homem se torna de repente sábio, quando César o fez superintendente da cadeira de câmara? Como é que dizemos imediatamente: "Felicíon falou sensatamente comigo." Eu desejaria que ele fosse expulso da câmara, para que ele novamente parecesse a você um tolo.

Epafrodito tinha um sapateiro que vendeu porque não servia para nada. Esse sujeito, por alguma sorte, foi comprado por um dos homens de César e se tornou sapateiro de César. Você deveria ter visto o respeito que Epafrodito lhe prestava: "Como vai o bom Felicíon, eu pergunto?" Então, se algum de nós perguntasse: "O que o mestre (Epafrodito) está fazendo?", a resposta era: "Ele está consultando algo com Felicíon." Não foi ele que vendeu o homem como inútil? Quem então o tornou sábio de repente? Isso é um exemplo de valorizar algo além das coisas que dependem da vontade.

Foi um homem exaltado ao tribunato? Todos que o encontram oferecem suas congratulações: um beija seus olhos, outro o pescoço, e os escravos beijam suas mãos. Ele vai para sua casa, encontra tochas acesas. Ele sobe ao Capitólio: oferece um sacrifício na ocasião. Agora, quem já sacrificou por ter tido bons desejos? Por ter agido conforme a natureza? Pois, de fato, agradecemos aos deuses por aquelas coisas nas quais colocamos nosso bem.

Tal homem era chamado em grego KoiruviTris; em latim "cubicularius", um senhor do quarto de dormir, como poderíamos dizer. Sêneca, De Constantia Sapientis, c. 14, fala "do orgulho do nomenclador (o anunciador do nome), da arrogância do homem de câmara." Até o escrivão da cadeira de câmara era uma pessoa importante. Escravos costumavam carregar esse útil vaso doméstico em uma viagem. Horácio, Sátiras, i. 6, 109 (Upton). "Uma vez o mestre de Epicteto (i. 1, 20). Beijar as mãos era naqueles tempos de tirania o dever de um escravo, não de um homem livre. Essa prática servil ainda existe entre homens chamados livres. Schweighaeuser diz que introduziu no texto a emenda de Lord Shaftesbury, Sirou. A emenda oirov é boa, mas Schweighaeuser não a colocou em seu texto: ele tem of t6 ayaObu ri0e- /ucOo.

Mateus vi. 21: "Pois onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração." Assim, essas pessoas mostram, ao agradecer a Deus, por aquilo que são gratas.

EPICTETO.

Uma pessoa falava comigo hoje sobre o sacerdócio de Augusto. Digo-lhe: "Homem, deixa isso de lado: gastarás muito sem propósito." Mas ele responde: "Aqueles que redigem os contratos escreverão o meu nome." Então, tu te colocas ao lado daqueles que os leem e dizes a tais pessoas: "Sou eu cujo nome está escrito ali"? E se agora podes estar presente em todas essas ocasiões, que farás quando estiveres morto? O meu nome permanecerá.

— Escreve-o numa pedra, e ele permanecerá.

Mas, vamos, que lembrança de ti haverá para além de Nicópolis? — Mas usarei uma coroa de ouro.

— Se desejas uma coroa de todo, pega uma coroa de rosas e coloca-a, pois será mais elegante na aparência.

CAPÍTULO XX.

SOBRE KEASOX, COMO ELA CONTEMPLA A SI MESMA.

Toda arte e faculdade contempla certas coisas especialmente. Quando, então, ela é da mesma natureza que os objetos que contempla, necessariamente deve contemplar a si mesma também; mas quando é de natureza dessemelhante, não pode contemplar a si mesma.

Por exemplo, a arte do sapateiro é empregada sobre peles, mas ela mesma é inteiramente distinta da matéria das peles: por essa razão, não contempla a si mesma.

Novamente, a arte do gramático é empregada sobre o discurso articulado; é então a arte também discurso articulado? De modo algum.

Por essa razão, ela não é capaz de contemplar a si mesma.

¹ Casaubon, em uma nota erudita sobre Suetônio, Augusto, cap. 18, informa-nos que honras divinas foram prestadas a Augusto em Nicópolis, cidade que ele fundou após a vitória em Ácio.

O sacerdócio de Augusto em Nicópolis era um alto cargo, e o sacerdote dava seu nome ao ano; isto é, quando se pretendia, em qualquer escrito, fixar o ano, seja em qualquer escrito relativo a assuntos públicos, seja em instrumentos usados em assuntos privados, o nome do sacerdote de Augusto era usado, e essa era também a prática na maioria das cidades gregas.

Para estabelecer o sentido desta passagem, Casaubon mudou o texto de τᾶς φαίνδας para τὸ ἀνάθημα, emenda que Schweighaeuser admitiu em seu texto.

Uma comparação com o livro i, cap. 1, ajudará a explicar este capítulo.

Compare também o livro i, cap. 17.

² Wolf sugere que devemos ler προηγουμένως em vez de προηγουμένων.

EPICTETO.

Agora, a razão, para que propósito foi dada pela natureza? Para o uso correto das aparências.

O que é ela então em si mesma? Um sistema (combinação) de certas aparências.

Assim, por sua natureza, ela tem também a faculdade de contemplar a si mesma.

Novamente, o bom senso, para a contemplação de que coisas nos pertence? Do bem e do mal, e das coisas que não são nem um nem outro.

O que é então ele mesmo? Bem. E a falta de senso, o que é? Mal.

Vês então que o bom senso necessariamente contempla tanto a si mesmo quanto o oposto? Por essa razão, é a principal e primeira obra do filósofo examinar as aparências, distingui-las e não admitir nenhuma sem exame.

Vês que mesmo na questão da moeda, em que nosso interesse parece estar de certo modo envolvido, como inventamos uma arte, e quantos meios o ensaiador usa para provar o valor da moeda: a vista, o tato, o olfato e, por último, a audição.

Ele atira a moeda (denário) ao chão e observa o som, e não se contenta com um único som, mas, por sua grande atenção, torna-se um músico.

De igual modo, onde pensamos que estar enganado e não estar enganado fazem uma grande diferença, aí aplicamos grande atenção para descobrir as coisas que podem enganar.

Mas, no que diz respeito à nossa miserável faculdade diretriz, bocejando e dormindo, admitimos descuidadamente toda aparência, pois o dano não é notado.

Quando então quiseres saber quão descuidado és com respeito ao bem e ao mal, e quão ativo com respeito às coisas indiferentes (nem boas nem más), observa como te sentes com respeito a ser privado da vista dos olhos, e como com respeito a ser enganado, e descobrirás que estás longe de sentir como deverias em relação ao bem e ao mal.

Mas isto é uma questão que requer muita preparação, e muito trabalho e estudo.

Bem, então esperas

 Ver a nota de Schweighaeuser.

 "Contamos a morte entre as coisas indiferentes (indifferentia), que os gregos chamam de ἀδιάφορα.

Mas chamo de 'indiferente' as coisas que não são nem boas nem más, como doença, dor, pobreza, exílio, morte." — Sêneca, Ep. 82.

EPICTETO.

adquirir as maiores artes com pouco trabalho? E, no entanto, a principal doutrina dos filósofos é muito breve.

Se queres saber, lê os escritos de Zenão e verás com quão poucas palavras se diz que o fim (ou objetivo) do homem é seguir os deuses, e que a natureza do bem é o uso correto das aparências.

Mas se disseres: "O que é Deus, o que é aparência, e o que é a natureza particular e o que é a universal?" — então, de fato, muitas palavras são necessárias.

Se então Epicuro viesse e dissesse que o bem deve estar no corpo; nesse caso também muitas palavras se tornam necessárias, e devemos ser ensinados sobre o que é o princípio dominante em nós, e o fundamental e o substancial; e assim como não é provável que o bem de um caracol esteja na concha, é provável que o bem de um homem esteja no corpo? Mas tu mesmo, Epicuro, possuis algo melhor do que isso.

O que é aquilo em ti que delibera, o que é aquilo que examina tudo, o que é aquilo que forma um juízo sobre o próprio corpo, de que ele é a parte principal? E por que acendes a tua lâmpada e trabalhas por nós, e escreves tantos livros? É para que não sejamos ignorantes da verdade, quem somos e o que somos em relação a ti? Assim, a discussão exige muitas palavras.

¹ Zenão, natural de Cítio, na ilha de Chipre, diz-se que veio quando jovem para Atenas, onde passou o resto de uma longa vida no estudo e ensino da Filosofia.

Foi o fundador da seita estoica, e um homem respeitado por sua habilidade e alto caráter.

Escreveu muitas obras filosóficas.

Zenão foi sucedido em sua escola por Cleantes.

² "Seguir".

Ver i. 12, 5.

³ "Agora tenho o que a natureza universal quer que eu tenha, e faço o que minha natureza agora quer que eu faça." M. Antonino, v. 25, e xi. 5.

Epicteto nunca tenta dizer o que Deus é. Ele era sábio demais para tentar fazer o que o homem não pode fazer. Mas o homem tenta fazê-lo, e só mostra a tolice de suas tentativas, e, penso eu, também sua presunção.

⁴ Diz-se que Epicuro escreveu mais do que qualquer outra pessoa, tantos quanto trezentos volumes (κύλινδροι, rolos). Crisipo foi seu rival nesse aspecto.

Pois se Epicuro escrevia algo, Crisipo rivalizava com ele escrevendo tanto; e por essa razão ele frequentemente se repetia, porque não relia o que havia escrito, e deixava seus escritos sem correção em consequência de sua pressa.

Diógenes Laércio, x, — Upton.

Ver i. 4.

EPICTETO.

CAPÍTULO XXI.

CONTRA OS QUE DESEJAM SER ADMIRADOS.

Quando um homem ocupa a posição que lhe é própria na vida, não almeja coisas que estão além dela. Homem, o que desejas que te aconteça? Estou satisfeito se desejo e evito conforme a natureza, se emprego movimentos em direção a um objeto e para longe dele como fui formado pela natureza para fazer, e se proponho, desenho e consinto.

Por que então te pavoneias diante de nós como se tivesses engolido um espeto? Meu desejo sempre foi que aqueles que me encontrassem me admirassem, e que aqueles que me seguissem exclamassem: Ó, o grande filósofo.

Quem são aqueles por quem desejas ser admirado? Não são aqueles de quem costumas dizer que são loucos? Então desejas ser admirado por loucos?

CAPÍTULO XXII.

SOBRE AS PRAECOGNIÇÕES.

As praecognições são comuns a todos os homens, e a praecognição não é contraditória à praecognição.

Pois qual de nós não assume que o Bem é útil e elegível, e que em todas as circunstâncias devemos segui-lo e persegui-lo? E

 Praecognições (προλήψεις), traduzidas como Praecognita por John Smith, Select Discourses, p. 4. Cícero diz (Topica, 7): "Chamo de noção o que os gregos chamam ora de ἔννοιαν, ora de πρόληψιν.

É um conhecimento inato e previamente percebido de cada forma, que necessita de elucidação." Na obra De Natura Deorum (i. 16) ele diz: "Pois qual nação ou qual tipo de homem não tem, sem instrução, uma certa antecipação dos deuses, que Epicuro chama de πρόληψιν? Isto é, uma certa informação previamente concebida na mente, sem a qual nada pode ser entendido, investigado ou discutido." Epicuro, como Cícero diz no capítulo seguinte (17), foi o primeiro a usar πρόληψις nesse sentido, que Cícero aplica ao que chama de cognições enxertadas ou antes inatas da existência dos deuses, e essas cognições ele supõe serem universais; mas se isso é assim ou não, não sei.

Ver i a 2; Tuscul. i. 24; De Fin.

iii.

6, e πρόληψις em iv. 8. 6.

EPICTETO.

qual de nós não assume que a Justiça é bela e conveniente? Quando então surge a contradição? Ela surge na adaptação das praecognições aos casos particulares.

Quando um homem diz: "Ele agiu bem: é um homem corajoso", e outro diz: "Não é assim; mas ele agiu tolamente"; então surgem as disputas entre os homens.

Esta é a disputa entre os judeus e os sírios e os egípcios e os romanos; não se a santidade deve ser preferida a todas as coisas e em todos os casos deve ser perseguida, mas se é santo comer carne de porco ou não é santo.

Você encontrará esta disputa também entre Agamemnon e Aquiles; pois convoca-os.

Que dizes, Agamemnon? Não deveria ser feito aquilo que é próprio e justo? Certamente.

Bem, que dizes tu, Aquiles? Não admites que o que é bom deve ser feito? Certamente que sim.

Adapta então as tuas prenoções ao assunto presente.

Aqui começa a disputa.

Agamemnon diz: Não devo entregar Criseida a seu pai.

Aquiles diz:

Tu deves.

É certo que um dos dois faz uma adaptação errada da prenoção de "dever" ou "obrigação". Além disso, Agamemnon diz:

Então, se devo restituir Criseida, é justo que eu tome a sua recompensa de algum de vós.

Aquiles responde: "Querias então tomar aquela que eu amo?" Sim, aquela que amas.

Devo então ser o único homem que fica sem recompensa? E devo ser o único homem que não tem prêmio? Assim começa a disputa.

O que é então a educação? Educação é aprender como adaptar as prenoções naturais às coisas particulares, conforme a natureza; e então distinguir que, das coisas, algumas estão em nosso poder, mas outras não: em nosso poder estão a vontade e todos os atos que dependem da vontade; coisas que não estão em nosso poder são o corpo, as partes do corpo, a posse, os pais, os irmãos, os filhos, a pátria e, geralmente, todos com quem convivemos em sociedade.

Em que então devemos colocar o bem? A que tipo de coisas devemos adaptá-lo? Às coisas que estão em nosso poder? Não é então a saúde uma coisa boa, e a integridade dos membros, e a vida? E não são os filhos, os pais e a pátria? Quem te tolerará se negares isto?

Transfiramos então a noção de bem para essas coisas.

É possível então que, quando um homem sofre dano e não obtém coisas boas, ele possa ser feliz? Não é possível.

E pode ele manter para com a sociedade um comportamento adequado? Não pode.

Pois sou naturalmente formado para cuidar do meu próprio interesse.

Se é do meu interesse ter uma propriedade de terras, é do meu interesse também tomá-la do meu vizinho.

Se é do meu interesse ter uma vestimenta, é do meu interesse também roubá-la do banho. Esta é a origem das guerras, comoções civis, tiranias, conspirações.

E como poderei ainda manter meu dever para com Zeus? Pois se sofro dano e sou infeliz, ele não cuida de mim; e o que é ele para mim se não pode me ajudar; e além disso, o que é ele para mim se me permite estar na condição em que estou? Agora começo a odiá-lo.

Por que então construímos templos, por que erguemos estátuas a Zeus, assim como a demônios malignos, como à Febre; e como é Zeus o Salvador, e como o doador de chuva, e o doador de frutos? E em verdade, se colocarmos a natureza do Bem em tais coisas, tudo isto se segue.

O que devemos fazer então? Esta é a investigação do verdadeiro filósofo que está em trabalho de parto. Agora não vejo

O banho era um lugar de comum afluência, onde um ladrão tinha a oportunidade de levar as roupas de quem se banhava.

Dos desejos dos homens de ter o que não têm, e não escolhem trabalhar para obter, surgem os distúrbios da sociedade, como se diz na epístola de Tiago, cap. IV, v. 1, à qual a Sra. Carter se refere.

Ver i. 19. 6, nota 2.

Upton refere-se a uma passagem do Teeteto (p. 150, Steph.), onde Sócrates professa que é sua arte descobrir se a mente de um jovem está dando à luz a um ídolo (uma irrealidade) e uma falsidade, ou a algo produtivo e verdadeiro; e ele diz (p. 151) que aqueles que se associam com ele são como mulheres em trabalho de parto, pois estão em trabalho de parto e cheios de aflição noites e dias muito mais do que as mulheres, e sua

EPICTETO.

CD

o que é o Bem, nem o Mal.

Não estou louco? Sim.

Mas suponha que eu coloque o bem em algum lugar entre as coisas que dependem da vontade: todos rirão de mim. Virá algum velho de cabelos grisalhos usando muitos anéis de ouro nos dedos, e ele balançará a cabeça e dirá: Ouve, meu filho.

É justo que filosofes; mas deves ter também algum bom senso: tudo isto que estás fazendo é tolice.

Aprendes o silogismo com os filósofos; mas sabes agir melhor do que os filósofos. — Homem, por que então me culpas, se eu sei? O que direi a este escravo? Se eu ficar em silêncio, ele explodirá.

Devo falar desta maneira: Perdoai-me, como perdoaríeis aos amantes: não sou senhor de mim mesmo: estou louco.

CAPÍTULO XXIII.

CONTRA EPICURO.

Mesmo Epicuro percebe que somos por natureza sociais, mas, tendo uma vez colocado o nosso bem na casca, não é mais capaz de dizer qualquer outra coisa.

Pois, por outro lado, ele sustenta fortemente isto: que não devemos admirar nem aceitar qualquer coisa que esteja separada da natureza do bem; e ele tem razão em sustentar isto.

Como então somos [suspiciosos], se não temos afeição natural pelos nossos filhos? Por que aconselhas o sábio a não criar filhos? Por que temes que ele possa assim cair em

A arte tem o poder de despertar e aquietar este trabalho de parto.

A conclusão do capítulo não é clara.

Supõe-se que o estudante seja abordado por algum velho rico, que realmente não sabe o que dizer; e a melhor maneira de se livrar dele e de sua conversa ociosa é despedindo-o com uma piada.

Ver a nota de Schweighaeuser.

Isto é, no corpo; ver i. 20, 17. Comparar ii. 20, no início do capítulo.

A palavra virovoriTiKoi não é inteligível. Schweighaeuser sugere que deveria ser irpovorjTiKoi, "como temos algum cuidado pelos outros?" Epicuro ensinava que não deveríamos casar nem gerar filhos nem nos envolver em assuntos públicos, porque essas coisas perturbam nossa tranquilidade.

EPICTETO.

problemas? Pois ele cai em problemas por causa do rato que é criado na casa? O que ele se importa se um ratinho na casa faz lamentação para ele? Mas Epicuro sabe que, uma vez que uma criança nasce, não está mais em nosso poder não amá-la nem cuidar dela. Por esta razão, Epicuro diz que um homem que tem algum senso também não se envolve em assuntos políticos; pois ele sabe o que um homem deve fazer que está envolvido em tais coisas; pois, na verdade, se pretendes te comportar entre os homens como te comportarias entre um enxame de moscas, o que te impede? Mas Epicuro, que sabe isto, ousa dizer que não devemos criar filhos.

Mas uma ovelha não abandona a sua própria prole, nem tampouco um lobo; e abandonará um homem o seu filho? O que queres dizer? Que devemos ser tão tolos quanto as ovelhas? mas nem mesmo elas abandonam a sua prole: ou tão selvagens quanto os lobos, mas nem mesmo os lobos abandonam os seus filhotes.

Bem, quem seguiria o seu conselho, se visse o próprio filho chorando após cair no chão? Quanto a mim, penso que, mesmo que sua mãe e seu pai tivessem sido informados por um oráculo de que você diria o que disse, eles não o teriam rejeitado.

CAPÍTULO XXIV.

COMO DEVEMOS LUTAR CONTRA AS CIRCUNSTÂNCIAS.

São as circunstâncias (dificuldades) que mostram o que os homens são. Portanto, quando uma dificuldade recai sobre você, lembre-se de que Deus, como um treinador de lutadores, o colocou diante de um jovem adversário rude.

Para que propósito? — você pode dizer.

Para que você se torne um vencedor olímpico; mas isso não se conquista sem suor.

Em minha opinião, nenhum homem teve uma dificuldade mais proveitosa do que a que você teve, se você escolher usá-la como um atleta lidaria com um jovem antagonista.

Estamos agora enviando um batedor a Roma; mas ninguém envia um batedor covarde, que, se apenas ouvir um ruído e vir uma sombra em qualquer lugar, volta correndo em pânico e relata que o inimigo está próximo.

Portanto, se você vier e nos disser: "Terrível é o estado das coisas em Roma, terrível é a morte, terrível é o exílio; terrível é a calúnia; terrível é a pobreza; fugi, meus amigos; o inimigo está próximo" — responderemos: "Vai-te, profetiza para ti mesmo; cometemos apenas uma falta, a de enviar tal batedor."

Diógenes, que foi enviado como batedor antes de você, fez um relato diferente para nós. Ele diz que a morte não é um mal, pois também não é algo vergonhoso; ele diz que a fama (reputação) é o ruído dos loucos.

E o que esse espião disse sobre a dor, sobre o prazer e sobre a pobreza? Ele diz que estar nu é melhor do que qualquer manto púrpura, e dormir no chão nu é o leito mais macio; e dá como prova de cada coisa que afirma a sua própria coragem, a sua tranquilidade, a sua liberdade e a aparência saudável e a compostura do seu corpo.

"Não há inimigo próximo", diz ele; "tudo é paz."

Como assim, Diógenes? — Veja, ele responde, se fui atingido, se fui ferido, se fugi de algum homem.

Isso é o que um batedor deveria ser. Mas você vem até nós e nos conta uma coisa após outra.

Não voltará você atrás, e verá mais claramente quando tiver deixado de lado o medo?

"Que farei então? O que fazes quando deixas um navio? Levas contigo o leme ou os remos? O que então levas? Levas o que é teu, tua botija e tua bolsa; e agora, se pensas no que é teu, nunca reivindicarás o que pertence a outros.

O imperador (Domiciano) diz:

Depõe tua clava. Vê, visto a angusticlava.

Depõe também esta.

Vê, tenho apenas minha toga.

Depõe tua toga.

Vê, estou agora nu.

Mas ainda assim despertas minha inveja.

Toma então todo o meu pobre corpo; quando, à ordem de um homem, posso lançar fora meu pobre corpo, ainda o temo?

Mas certa pessoa não me deixará a sucessão de sua propriedade.

Que então? Não me esquecera de que nenhuma dessas coisas era minha?

Como então as chamamos minhas? Assim como chamamos de nossa a cama na estalagem.

Se então o estalajadeiro, ao morrer, te deixar as camas, tudo bem; mas se as deixar a outro, ele as terá, e tu procurarás outra cama.

Se então não encontrares uma, dormirás no chão: apenas dorme com boa vontade e ronca, e lembra-te de que as tragédias têm seu lugar entre os ricos e reis e tiranos, mas nenhum homem pobre representa um papel numa tragédia, exceto como um do Coro.

Os reis, de fato, começam com prosperidade: "ornai o palácio com grinaldas": então, por volta do terceiro ou quarto ato, clamam: "Ó Citerão, por que me recebeste?" Escravo, onde estão as coroas, onde o diadema? Os guardas não te ajudam em nada."

Quando então te aproximas de qualquer dessas pessoas, lembra-te disto: que te aproximas de um tragediógrafo, não do ator, mas do próprio Édipo.

Mas tu dizes: tal homem é feliz; pois ele anda acompanhado de muitos, e eu também me coloco com muitos e ando acompanhado de muitos.

Em suma, lembra-te disto: a porta está aberta; não sejas mais tímido do que as criancinhas, mas, como elas dizem, quando a coisa não lhes agrada, "não quero mais brincar", assim também tu, quando as coisas te parecerem de tal natureza, dize: não quero mais brincar, e vai-te embora; mas se ficares, não te queixes.

A veste com a faixa larga, o laticlávio, era a insígnia de um senador; a veste com a faixa estreita, o angusticlávio, era o traje de um homem da ordem equestre.

» A exclamação de Édipo no Édipo Rei de Sófocles, v. 1390.

Isto significa "podes morrer quando quiseres". Comp. i. c. 9. O poder de morrer quando se quer é nomeado por Plínio (N. H. ii. c. 7) a melhor coisa que Deus concedeu ao homem em meio a todos os sofrimentos da vida.

Horácio, Epp. ii. 2. 213,—

"Se não sabes viver retamente, cede lugar aos peritos; brincaste o bastante, comeste o bastante e bebeste o bastante; é tempo de partir."

EPICTETO.

CAPÍTULO XXV.

SOBRE O MESMO ASSUNTO.

Se estas coisas são verdadeiras, e se não somos tolos, e não estamos agindo hipocritamente quando dizemos que o bem do homem está na vontade, e o mal também, e que tudo o mais não nos concerne, por que ainda estamos perturbados, por que ainda temos medo? As coisas com as quais temos nos ocupado não estão no poder de ninguém; e as coisas que estão no poder dos outros, não nos importamos com elas.

Que tipo de problema ainda temos?

Mas dá-me direções.

Por que deveria eu te dar direções? Não te deu Zeus direções? Não te deu ele o que é teu, livre de impedimentos e livre de obstáculos, e o que não é teu, sujeito a impedimentos e obstáculos? Que direções então, que tipo de ordens trouxeste quando vieste dele? Guarda por todos os meios o que é teu; não desejes o que pertence aos outros.

A fidelidade (integridade) é tua, o pudor virtuoso é teu; quem então pode tirar-te estas coisas? Quem mais, senão tu mesmo, te impedirá de usá-las? Mas como ages? Quando buscas o que não é teu, perdes o que é teu.

Tendo tais impulsos e comandos de Zeus, que tipo ainda me pedes? Sou eu mais poderoso do que ele, sou eu mais digno de confiança? Mas se observas estes, queres outros além? Bem, mas ele não deu estas ordens, dirás.

Produze as tuas precognições, produze as provas dos filósofos, produze o que ouviste com frequência, e produze o que tu mesmo disseste, produze o que leste, produze o que meditaste; e então verás que todas estas coisas são de Deus. Por quanto tempo então é conveniente observar estes preceitos de Deus, e não interromper o jogo? Enquanto o jogo for continuado com propriedade.

Na Saturnália, um rei é escolhido por sorteio, pois tem sido o costume jogar este jogo. O rei comanda: Bebe. Mistura o vinho, Canta. Vai. Vem. Obedeço para que o jogo não seja interrompido por mim. — Mas se ele diz: pensa que estás em má situação: eu respondo, não penso assim; e quem me compelirá a pensar assim? Além disso, concordamos em interpretar Agamemnon e Aquiles. Aquele que é designado para interpretar Agamemnon me diz: Vai até Aquiles e arranca dele Briseis. Eu vou. Ele diz: Vem, e eu venho.

Pois assim como nos comportamos em relação a argumentos hipotéticos, assim devemos fazer na vida. Suponha que seja noite. Eu suponho que é noite. Bem então; é dia? Não, pois admiti a hipótese de que era noite. Suponha que tu penses que é noite? Suponha que eu pense. Mas também pensa que é noite. Isso não é consistente com a hipótese. Assim também neste caso: Suponha que sejas infeliz. Bem, suponha. Estás então infeliz? Sim. Bem então, estás perturbado com um...¹

¹ A conclusão "e então verás" não está no texto, mas é o que Epicteto quer dizer. O argumento está completo. Se admitimos a existência de Deus, e que ele é nosso pai, como Epicteto ensina, temos dele os poderes intelectuais que possuímos; e aqueles homens nos quais esses poderes foram despertados para a atividade, e são exercitados, não requerem outro instrutor. É verdade que em grande parte da humanidade esses poderes estão inativos e não são exercitados, ou se são exercitados, é de maneira muito imperfeita.

Mas aqueles que contemplam o aperfeiçoamento da raça humana esperam que todos os homens, ou se não todos os homens, um grande número seja despertado para o exercício dos poderes que possuem, e que a vida humana se torne mais conforme à Natureza, isto é, que o homem use os poderes que possui, e não necessite de conselhos e direção de outros homens, que, professando serem sábios e capazes de ensinar, provam por seu ensino e frequentemente por seu exemplo que não são sábios, e são incapazes de ensinar.

Isto é igualmente verdadeiro para aqueles que possam negar ou duvidar da existência de Deus.

Eles não podem negar que o homem possui os poderes intelectuais que de fato possui; e certamente não são eles que proclamarão sua própria falta desses poderes.

Se o homem os possui e pode exercê-los, o fato é suficiente; e não precisamos disputar sobre a fonte desses poderes que estão no homem Naturalmente, isto é, de acordo com a constituição de sua Natureza.

Ver o final do capítulo precedente.

Upton compara o "Incidere ludum" de Horácio (Epp.

i. 14, 36). Compare também Epicteto, ii. 16, 37.

' Um festival em Roma em dezembro, uma estação de alegria e licença (Lívio, xxii.

1). Compare a passagem em Tácito, Ann.

xiii.

15, na qual Nero é escolhido por sorteio para ser rei: e Sêneca, De Constant.

Sapient, c. 12, "Illi (pueri) inter ipsos magistratus gerunt, et praetextam fascesque ac tribunal imitantur."

EPICTETO.

O daimon favorável (fortuna)? Sim.

Mas pense também que você está em miséria.

Isso não é consistente com a hipótese; e outro (Zeus) me proíbe de pensar assim.

Quanto tempo então devemos obedecer a tais ordens? Enquanto for proveitoso; e isso significa enquanto eu mantiver aquilo que é decoroso e consistente.

Além disso, alguns homens são azedos e de mau temperamento, e dizem: "Não posso cear com este homem para ser obrigado a ouvi-lo contando diariamente como lutou na Mísia": "Eu lhe disse, irmão, como subi a colina: então comecei a ser sitiado novamente." Mas outro diz: "Prefiro cear e ouvi-lo falar o quanto quiser." E você compara essas estimativas (julgamentos): apenas não faça nada num estado de espírito deprimido, nem como alguém aflito, nem pensando que está em miséria, pois ninguém o obriga a isso.

— A câmara fumegou? Se a fumaça é moderada, ficarei; se é excessiva, saio: pois você deve sempre lembrar disto e manter firme, que a porta está aberta.

— Bem, mas você me diz: Não more em Nicópolis.

Não morarei lá.

— Nem em Atenas.

— Não morarei em Atenas.

— Nem em Roma.

— Não morarei em Roma.

— More em Gyarus. — Morarei em Gyarus, mas parece uma grande fumaça morar em Gyarus; e parto para o lugar onde ninguém me impedirá de viver, pois aquela morada está aberta a todos; e quanto à última vestimenta, que é o pobre corpo, ninguém tem poder algum sobre mim além disso.

Foi por isso que Demétrio¹ disse a Nero: "Tu me ameaças com a morte, mas a natureza te ameaça a ti." Se eu depositar minha admiração no pobre corpo, entreguei-me como escravo; se nas minhas pequenas posses, também me faço escravo; pois imediatamente torno evidente com o que posso ser capturado; como a serpente que recolhe a cabeça, digo-te que golpeies aquela parte que ela protege; e fica certo de que qualquer parte que escolheres guardar, essa parte teu senhor atacará.

Lembrando disso, a quem ainda lisonjearás ou temerás?

Mas eu gostaria de sentar onde os senadores se sentam² — Vês que estás te colocando em apertos, estás te espremendo.

— Como então verei bem de outra maneira no anfiteatro? Homem, não sejas espectador de modo algum; e não serás espremido.

Por que te dás ao trabalho? Ou espera um pouco, e quando o espetáculo terminar, senta-te no lugar reservado aos senadores e toma sol.

Pois lembra-te desta verdade geral: somos nós que nos esprememos, que nos colocamos em apertos; isto é, são as nossas opiniões que nos espremem e nos colocam em apertos.

¹ Gyarus ou Gyara, uma ilha miserável no mar Egeu, para onde criminosos eram enviados sob o império em Roma. Juvenal, Sát. i. 73. Ver nota de Schweighaeuser.

² Demétrio era um filósofo cínico, de quem Sêneca (De Benef. vii. 1) diz: "Ele era, em minha opinião, um grande homem, mesmo se comparado com os maiores." Um de seus ditados era: "Ganhas mais possuindo poucos preceitos de filosofia, se os tens prontos e os usas, do que aprendendo muitos, se não os tens à mão." Sêneca menciona Demétrio com frequência. O dito no texto também é atribuído a Anaxágoras (Vida por Diógenes Laércio) e a Sócrates por Xenofonte (Apologia, 27).

Pois o que é ser injuriado? Fica ao lado de uma pedra e injuria-a; e o que ganharás? Se então um homem ouve como uma pedra, que proveito há para o injuriador? Mas se o injuriador tem como degrau (ou escada) a fraqueza daquele que é injuriado, então ele realiza algo.

— Despe-o.

— O que queres dizer com ele? — Agarra a sua veste, arranca-a.

Eu te insultei.

Muito bem te faça.

Esta era a prática de Sócrates: esta era a razão pela qual ele sempre tinha um só semblante.

Mas nós escolhemos praticar e estudar qualquer coisa antes que os meios pelos quais seremos desimpedidos e livres.

Tu dizes: os filósofos falam paradoxos. Mas não há paradoxos nas outras artes? E o que é mais paradoxal do que perfurar o olho de um homem para que ele possa ver? Se alguém dissesse isso a um homem ignorante da arte cirúrgica, não zombaria do falante? Onde está a maravilha, então, se também na filosofia muitas coisas que são verdadeiras parecem paradoxais aos inexperientes?

Em Roma, e provavelmente em outras cidades, havia assentos reservados para as diferentes classes de homens nos espetáculos públicos.

Ver a nota de Schweighaeuser.

Paradoxos (Παράδοξα), "coisas contrárias à opinião", são contrastados com paralogias (παράλογα), "coisas contrárias à razão" (iv. 1. 173). Cícero diz (Proêmio aos seus Paradoxos), que paradoxos são "algo que causa surpresa e contradiz a opinião comum"; e em outro lugar ele diz que os romanos deram o nome de "admiráveis" aos paradoxos estoicos.

— A punção do olho é a operação para catarata.

EPICTETO.

CAPÍTULO XXVI.

QUAL É A LEI DA VIDA.

Quando uma pessoa lia argumentos hipotéticos, Epicteto disse: Esta também é uma lei hipotética, que devemos aceitar o que se segue da hipótese.

Mas muito antes desta lei está a lei da vida, que devemos agir conforme a natureza.

Pois se em toda matéria e circunstância desejamos observar o que é natural, é evidente que em tudo devemos fazer nosso objetivo que nem aquilo que é consequente nos escape, e que não admitamos o contraditório.

Primeiro, então, os filósofos nos exercitam na teoria (contemplação das coisas), o que é mais fácil; e em seguida nos conduzem às coisas mais difíceis; pois na teoria não há nada que nos afaste de seguir o que é ensinado; mas nas questões da vida, muitas são as coisas que nos distraem. É ridículo, então, aquele que diz que deseja começar pelas questões da vida real, pois não é fácil começar pelas coisas mais difíceis; e devemos empregar esse fato como um argumento para aqueles pais que se irritam com seus filhos aprendendo filosofia: Estou errado então

"Compreender o que é verdadeiro e reto, é primeiro e mais fácil.

Mas executar e observar isso, é posterior e mais difícil." —Wolf.

Esta é uma observação profunda e útil de Epicteto.

Os princípios gerais são mais facilmente compreendidos e aceitos.

A dificuldade está na aplicação deles.

O que é mais fácil, por exemplo, do que compreender os princípios gerais do direito que são verdadeiros e bons? Mas na prática, apresentam-se casos que, como diz Bacon, estão "imersos na matéria"; e é essa matéria que cria a dificuldade de aplicar os princípios, e exige a habilidade e o estudo de um homem experiente.

É fácil, e é certo, ensinar aos jovens os princípios gerais das regras de vida; mas a dificuldade de aplicá-los é aquela em que os jovens e os velhos, com demasiada frequência, falham.

Então, se você pergunta se a virtude pode ser ensinada, a resposta é que as regras para uma vida virtuosa podem ser transmitidas; mas a aplicação das regras é a dificuldade, como os professores de religião e moral sabem bem, se são aptos a ensinar.

Se não conhecem essa verdade, não são aptos nem a ensinar as regras, nem a liderar o caminho para a prática delas pelo único método que é possível; e esse método é pelo seu próprio exemplo, auxiliado pelo exemplo daqueles que dirigem a educação da juventude, e daqueles com quem os jovens convivem.

EPICTETO.

meu pai", e não sei eu o que é adequado a mim e "conveniente? Se, de fato, isso não pode ser nem aprendido nem ensinado, por que me censuras? Mas se pode ser ensinado, ensina-me; e se não podes, permite-me aprender com aqueles que dizem que sabem ensinar.

Pois o que pensas? Supões que eu caio voluntariamente no mal e perco o bem? Espero que não seja assim. Qual é, então, a causa de eu fazer o errado? Ignorância.

Não escolhes então que eu me livre da minha ignorância? Quem foi alguma vez ensinado pela raiva na arte de piloto ou de música? Pensas então que por meio da tua raiva aprenderei a arte da vida? Só é permitido falar desta maneira àquele que mostrou tal intenção. Mas se um homem, tendo apenas a intenção de fazer exibição num banquete e de mostrar que é versado em argumentos hipotéticos, lê essas obras e frequenta os filósofos, que outro objetivo tem senão que algum homem de posição senatoriana que se senta ao seu lado o admire? Pois lá (em Roma) estão os verdadeiramente grandes materiais (oportunidades), e as riquezas aqui (em Nicópolis) parecem bagatelas lá.

Esta é a razão pela qual é difícil para um homem ser senhor das aparências, onde as coisas que perturbam o julgamento são grandes. Conheço certa pessoa que se queixou, ao abraçar os joelhos de Epafrodito, de que lhe restavam apenas cento e cinquenta vezes dez mil denários. Que fez então Epafrodito? Riu-se dele, como nós, escravos de Epafrodito, rimos? Não, mas exclamou com espanto: "Pobre homem, como então guardaste silêncio, como suportaste isso?"

Quando Epicteto havia repreendido (chamado) a pessoa que

"Tal intenção" parece significar "a intenção de aprender". "Somente o filho pode dizer isto ao pai, quando o filho estuda filosofia com o propósito de viver uma boa vida, e não com o propósito de exibição." — Wolf.

¹ Segui a explicação de Schweighaeuser para esta passagem difícil, e aceitei sua emenda ἐκπλείοντα, no lugar da leitura do manuscrito καὶ αὐτὰ.

² Esta era uma grande soma. Ele fala de dracmas, ou dos equivalentes romanos, denários. Em linguagem romana, o montante seria brevemente expresso por "sexagies centena millia H.S.", ou simplesmente por "sexagies".

³ Ver a nota de Schweighaeuser; e todas as suas notas sobre este capítulo, que é bastante difícil.

EPICTETO,

estava lendo os argumentos hipotéticos, e o professor que havia sugerido a leitura ria do leitor, Epicteto disse ao professor: "Você está rindo de si mesmo: você não preparou o jovem nem verificou se ele era capaz de entender esses assuntos; mas talvez você esteja apenas empregando-o como leitor." Então disse Epicteto: se um homem não tem capacidade suficiente para entender um silogismo complexo, confiamos nele para dar elogios, confiamos nele para dar censuras, permitimos que ele seja capaz de formar um julgamento sobre o bem ou o mal? E se tal homem censura alguém, esse alguém se importa com a censura? E se ele elogia alguém, esse alguém fica exaltado, quando em assuntos tão pequenos como um silogismo hipotético aquele que elogia não consegue ver o que é consequente da hipótese?

Este é então o começo da filosofia: a percepção do homem do estado de sua faculdade diretriz; pois quando um homem sabe que ela é fraca, então ele não a empregará em coisas da maior dificuldade.

Mas atualmente, se os homens não conseguem engolir nem um bocado, compram volumes inteiros e tentam devorá-los; e é por isso que os vomitam ou sofrem indigestão: e então vêm cólicas, defluxos e febres." Tais homens deveriam considerar qual é a sua capacidade. Na teoria, é fácil convencer uma pessoa ignorante; mas nos assuntos da vida real, ninguém se oferece para ser convencido, e odiamos o homem que nos convenceu. Mas Sócrates nos aconselhou a não viver uma vida que não esteja sujeita a exame.

Ver ii. c 11.

Sêneca, De Tranquillitate animi, c. 9, diz: "Qual é a utilidade de inúmeros livros e bibliotecas, quando o dono mal lê em toda a sua vida os sumários? O número apenas confunde o aprendiz, não o instrui. É muito melhor entregar-se a poucos autores do que vagar por muitos."

Ver a Apologia de Platão, o. 28; e Antonino, iii. 5.

EPICTETO.

CAPÍTULO XXVII.

DE QUANTAS MANEIRAS AS APARÊNCIAS EXISTEM, E QUE AUXÍLIOS DEVEMOS PROVIDENCIAR CONTRA ELAS.

As aparências se apresentam a nós de quatro maneiras: pois ou as coisas aparecem como são; ou não são, e nem mesmo parecem ser; ou são, e não parecem ser; ou não são, e ainda assim parecem ser. Além disso, em todos esses casos, formar um julgamento correto (acertar o alvo) é a função de um homem educado.

Mas seja o que for que nos incomoda (perturba), a isso devemos aplicar um remédio. Se os sofismas de Pirro e dos Acadêmicos são o que nos incomoda (perturba), devemos aplicar o remédio a eles.

Se é a persuasão das aparências, pela qual algumas coisas parecem ser boas, quando não são boas, busquemos um remédio para isso.

Se é o hábito que nos incomoda, devemos tentar buscar auxílio contra o hábito.

Que auxílio, então, podemos encontrar contra o hábito? O hábito contrário.

Ouves o ignorante dizer: "Aquele infeliz morreu; seu pai e sua mãe estão prostrados de dor; ele foi ceifado por uma morte prematura e em terra estrangeira." Ouve a maneira contrária de falar: Afasta-te dessas expressões; opõe a um hábito o hábito contrário; à sofismática opõe a razão, e o exercício e a disciplina da razão; contra a aparência persuasiva (enganosa), devemos ter praecognições manifestas (προλήψεις), purificadas de todas as impurezas e prontas para uso.

Quando a morte parece um mal, devemos ter esta regra em prontidão: que é adequado evitar as coisas más, e que a morte é uma coisa necessária.

Pois o que farei, e para onde fugirei dela? Suponhamos que eu não seja Sarpedon, filho de Zeus, nem capaz de falar desta maneira nobre: irei e estou resolvido, ou a comportar-me bravamente eu mesmo, ou a dar a outro a oportunidade de fazê-lo; se não puder realizar nada eu mesmo, não invejarei a outro a realização de algo nobre.

— Suponhamos que esteja acima do nosso poder agir assim; não está em nosso poder raciocinar assim? Dize-me onde posso escapar da morte: descobre-me o país, mostra-me os homens a quem devo ir, a quem a morte não visita.

Descobre-me um encanto contra a morte.

Se não tenho um, o que queres que eu faça? Não posso escapar da morte.

Não escaparei eu do medo da morte, mas morrerei lamentando e tremendo? Pois a origem da perturbação é esta: desejar algo, e que isso não aconteça.

Portanto, se posso mudar as coisas externas conforme meu desejo, eu as mudo; mas, se não posso, estou pronto a arrancar os olhos de quem me impede. Pois a natureza do homem não é suportar ser privado do bem, nem suportar cair no mal.

Então, por fim, quando não posso mudar as circunstâncias nem arrancar os olhos de quem me impede, sento-me e gemo, e amaldiçoo quem posso, Zeus e os demais deuses. Pois, se eles não cuidam de mim, o que são eles para mim? — Sim, mas serás um homem ímpio.

— Em que aspecto, então, será pior para mim do que é agora? — Em suma, lembra-te disto: a menos que a piedade e o teu interesse estejam na mesma coisa, a piedade não pode ser mantida em homem algum.

Não parecem estas coisas necessárias (verdadeiras)?

Venham os seguidores de Pirro e os acadêmicos e façam suas objeções.

Pois eu, da minha parte, não tenho lazer para essas disputas, nem posso empreender a defesa do consentimento comum (opinião). Se eu tivesse uma causa mesmo sobre um pedaço de terra, chamaria outro para defender meus interesses.

Com que evidência, então, estou satisfeito? Com aquela que pertence à questão em mãos. Como, de fato, a percepção é efetuada, se através do corpo inteiro ou de alguma parte, talvez eu não possa explicar: pois ambas as opiniões me perplexionam. Mas que tu e eu não somos o mesmo, sei com perfeita certeza.

Como sabes isso? Quando pretendo engolir algo, nunca o levo à tua boca, mas à minha própria.

Quando pretendo pegar pão, nunca apanho uma vassoura, mas sempre vou ao pão como a um alvo. E vós mesmos (os pirrônicos), que removeis a evidência dos sentidos, agis de outro modo? Quem entre vós, quando pretendia entrar num banho, alguma vez foi a um moinho?

Que então? Não devemos, com todas as nossas forças, ater-nos também a isto — a manutenção da opinião geral — e fortificar-nos contra os argumentos que se lhe opõem? Quem nega que devemos fazer isso? Pois bem, deve fazê-lo aquele que é capaz, que tem lazer para isso; mas quanto àquele que treme, que está perturbado e interiormente quebrantado no coração (espírito), deve empregar seu tempo melhor em outra coisa.

» "A questão principal que se debatia entre os Pirrônicos e os Acadêmicos, de um lado, e os Estoicos, de outro, era esta: se existe um critério de verdade; e, em primeiro lugar, a questão trata da evidência dos sentidos, ou da certeza da verdade naquelas coisas que são percebidas pelos sentidos." — Schweighaeuser.

A força do sistema estoico residia em que "fornece um fundamento de senso comum e da crença universal da humanidade, sobre o qual se pode estabelecer certeza suficiente para as exigências da vida; por outro lado, a verdadeira questão do conhecimento, no sentido filosófico da palavra, era abandonada." Levin's Six Lectures, p. 70.

« πρὸς φαντασίαν, emenda de Schweighaeuser em lugar de πρὸς κριτήριον.

Para a palavra ἀξίωσιν, que ocorre no s. 20, Schweighaeuser sugere ἀλήθειαν aqui, e a traduz por "Veritas". Veja suas notas sobre este capítulo, s. 15 e s. 20.

EPICTETO.

CAPÍTULO XXVIII.

QUE NÃO DEVEMOS NOS IRAR COM OS HOMENS; E QUAIS SÃO AS COISAS PEQUENAS E AS GRANDES ENTRE OS HOMENS.

Qual é a causa de assentir a qualquer coisa? O fato de que ela parece ser verdadeira.

Não é possível, então, assentir àquilo que não parece ser verdadeiro.

Por quê? Porque esta é a natureza do entendimento: inclinar-se para o verdadeiro, descontentar-se com o falso e, em questões incertas, reter o assentimento.

Qual é a prova disso? Imagina (persuade-te), se puderes, que agora é noite.

Não é possível.

Remove tua persuasão de que é dia.

Não é possível.

Persuade-te ou remove tua persuasão de que as estrelas são em número par. É impossível.

Quando, então, algum homem assente àquilo que é falso, fica certo de que ele não pretendia assentir a isso como falso, pois toda alma é privada da verdade contra sua vontade, como diz Platão; mas a falsidade pareceu-lhe ser verdadeira.

Bem, nas ações, o que temos de semelhante à verdade e à falsidade? Temos o adequado e o inadequado (dever e não dever), o proveitoso e o não proveitoso, aquilo que é conveniente a uma pessoa e aquilo que não é, e tudo o que é semelhante a isso.

Pode então um homem pensar que uma coisa é útil para ele e não escolhê-la? Não pode.

Como diz Medeia? —

"Sei, é verdade, que mal hei de fazer,
Mas a paixão vence o melhor conselho."

Ela pensou que satisfazer sua paixão e vingar-se do marido era mais proveitoso do que poupar os filhos.

Assim era; mas ela se enganou.

Mostra-lhe claramente que ela está enganada, e ela não o fará; mas enquanto não lhe mostrares, o que pode ela seguir senão aquilo que lhe parece (sua opinião)? Nada mais.

Por que então te iras com a infeliz mulher, porque ela se extraviou acerca das coisas mais importantes e se tornou uma víbora em vez de uma criatura humana? E por que não, se possível, antes ter piedade, como piedade temos dos cegos e dos coxos, assim também daqueles que são cegados e mutilados nas faculdades que são supremas?

Quem então lembra claramente disto, que para o homem a medida de todo ato é a aparência (a opinião) — se a coisa parece boa ou má: se boa, ele está livre de culpa; se má, ele mesmo sofre a pena, pois é impossível que aquele que é enganado seja uma pessoa, e aquele que sofre seja outra — quem lembra isto não se irará com homem algum, não se vexará com homem algum, não injuriará nem culpará homem algum, nem odiará nem contenderá com homem algum.

Então, todas essas grandes e terríveis ações têm esta origem, na aparência (opinião)? Sim, esta origem e nenhuma outra.

A Ilíada nada mais é do que aparência e o uso das aparências.

Pareceu a Alexandre levar a esposa de Menelau; pareceu a Helena segui-lo.

Se então tivesse parecido a Menelau que era uma vantagem ser privado de tal esposa, o que teria acontecido? Não apenas a Ilíada teria sido perdida, mas também a Odisseia.

De um assunto tão pequeno dependiam então coisas tão grandes? Mas o que queres dizer com coisas tão grandes? Guerras e comoções civis, e a destruição de muitos homens e cidades.

E que grande coisa é isso? É nada? — Mas que grande coisa é a morte de muitos bois, e muitas ovelhas, e muitos ninhos de andorinhas ou cegonhas sendo queimados ou destruídos? São então essas coisas semelhantes àquelas? Muito semelhantes.

Corpos de homens são destruídos, e os corpos de bois e ovelhas; as moradas dos homens são queimadas, e os ninhos das cegonhas.

O que há nisso de grande ou terrível? Ou mostra-me qual é a diferença entre a casa de um homem e o ninho de uma cegonha, até onde

Esta é a versão literal.

Não significa "que parecia certo", como a Sra. Carter traduz. Alexandre nunca pensou se era certo ou errado.

Tudo o que lhe parecia era a posse de Helena, e ele usou os meios para obtê-la, como um caçador que espreita e persegue algum animal selvagem.

EPICTETO.

cada um é uma morada; exceto que o homem constrói suas pequenas casas de vigas e telhas e tijolos, e a cegonha as constrói de gravetos e barro.

São então uma cegonha e um homem coisas semelhantes? Que dizes? — No corpo são muito semelhantes.

Diferencia-se então o homem em nada de uma cegonha? Não suponhas que eu diga isso; mas não há diferença nestas questões (que mencionei). Em que então está a diferença? Busca e encontrarás que há uma diferença em outra questão.

Vê se não está no homem o entendimento do que faz, vê se não está na comunidade social, na fidelidade, na modéstia, na firmeza, na inteligência.

Onde está então o grande bem e o grande mal nos homens? Está onde está a diferença. Se a diferença é preservada e permanece cercada, e nem a modéstia é destruída, nem a fidelidade, nem a inteligência, então o homem também é preservado; mas se alguma dessas coisas é destruída e tomada de assalto como uma cidade, então o homem também perece; e nisso consistem as grandes coisas.

Alexandre, dizes tu, sofreu grande dano então quando os Helenos invadiram e quando devastaram Troia, e quando seus irmãos pereceram.

De modo algum; pois nenhum homem é prejudicado por uma ação que não é sua; mas o que aconteceu naquela época foi apenas a destruição de ninhos de cegonhas: ora, a ruína de Alexandre foi quando ele perdeu o caráter de modéstia, fidelidade, respeito à hospitalidade e ao decoro.

Quando foi que Aquiles se arruinou? Foi quando Pátroclo morreu? Não. Mas aconteceu quando ele começou a se irar, quando chorou por uma garota, quando esqueceu que estava em Troia não para obter amantes, mas para lutar.

Essas coisas são a ruína dos homens, isso é estar sitiado, isso é a destruição de cidades, quando as opiniões corretas são destruídas, quando são corrompidas.

Quando então mulheres são levadas, quando crianças são feitas cativas, e quando os homens são mortos, não são esses males? Como então você acrescenta aos fatos essas opiniões? Explique-me isso também.

— Não farei isso; mas como é que você diz que essas coisas não são males? — Venhamos às regras: apresentai as precognições (προλήψεις); pois é por negligenciar isso que não podemos nos admirar suficientemente do que os homens fazem. Quando pretendemos

EPICTETO.

julgar pesos, não julgamos por suposição: onde pretendemos julgar o reto e o torto, não julgamos por suposição.

Em todos os casos em que é nosso interesse saber o que é verdadeiro em qualquer matéria, nunca nenhum de nós fará algo por suposição.

Mas nas coisas que dependem da primeira e única causa de fazer o certo ou o errado, da felicidade ou infelicidade, de ser desafortunado ou afortunado, somente aí somos inconsiderados e precipitados.

Não há então nada como balanças, nada como uma régua: mas alguma aparência se apresenta, e imediatamente ajo de acordo com ela. Devo então supor que sou superior a Aquiles ou Agamêmnon, para que eles, seguindo as aparências, façam e sofram tantos males; e não será a aparência suficiente para mim? — E que tragédia tem outro começo? O Atreu de Eurípides, o que é? Uma aparência. O Édipo de Sófocles, o que é? Uma aparência.

O Fênix? Uma aparência.

O Hipólito? Uma aparência.

Que tipo de homem então você supõe ser aquele que não dá atenção a essa questão? E qual é o nome daqueles que seguem toda aparência? Eles são chamados de loucos.

Nós então agimos de modo algum diferente?

Schweighaeuser propõe eliminar μή do texto, mas está, suponho, em todos os manuscritos; e é fácil explicar a passagem sem eliminar o μή.

"Nil admirari prope res est una, Numici, Solaque quae possit facere et servare beatum."

sobre o qual Upton comenta que esta máxima é explicada de forma muito filosófica e erudita por Lord Shaftesbury (o autor das *Characteristics*), vol. iii, p. 202. Compare M. Antoninus, xii. 1. Sêneca, *De Vita Beata*, c. 3, escreve: "Aliarum rerum quae vitam instruunt diligens, sine admiratione cujusquam." Antonino (i. 15) expressa o "sine admiratione" por τὸ ἀδάμαστον.

EPICTETO.

Senhor das coisas que não estão em meu poder? E o que são essas coisas para mim?

Ensinais então, filósofos, a desprezar os reis? Espero que não.

Quem entre nós ensina a reivindicar contra eles o poder sobre as coisas que possuem? Tomai meu pobre corpo, tomai minha propriedade, tomai minha reputação, tomai aqueles que estão ao meu redor. Se eu aconselhar alguém a reivindicar essas coisas, podem verdadeiramente acusar-me. — Sim, mas pretendo comandar também as vossas opiniões.

— E quem vos deu esse poder? Como podeis conquistar a opinião de outro homem? Aplicando-lhe o terror, ele responde, eu a conquistarei. Não sabeis que a opinião conquista a si mesma, e não é conquistada por outro? Mas nada mais pode conquistar a Vontade senão a própria Vontade.

Por essa razão também a lei de Deus é poderosíssima e justíssima, que é esta: Que o mais forte seja sempre superior ao mais fraco.

Dez são mais fortes que um.

Para quê? Para pôr em correntes, para matar, para arrastar para onde escolherem, para tirar o que um homem possui.

Os dez conquistam, portanto, o um nisto em que são mais fortes.

Em que são então os dez mais fracos? Se o um possui opiniões corretas e os outros não.

Pois bem, podem os dez conquistar nisto? Como é possível? Se fôssemos colocados na balança, não deve o mais pesado fazer pender o prato em que está.

Quão estranho então que Sócrates tenha sido tão tratado pelos atenienses.

Escravo, por que dizes Sócrates? Fala da coisa como ela é: quão estranho que o pobre corpo de Sócrates tenha sido levado e arrastado à prisão por homens mais fortes, e que alguém tenha dado cicuta ao pobre corpo de Sócrates, e que ele tenha exalado a vida.

Parecem-vos estas coisas estranhas, parecem-vos injustas, e por causa delas censurais a Deus? Não teve então Sócrates equivalente para estas coisas? Onde estava então para ele a natureza do bem? A quem daremos ouvidos, a vós ou a ele? E que diz Sócrates? Anytus e Melitus podem matar-me, mas não podem ferir-me; e além disso, diz ele: "Se assim agrada a Deus, que assim seja."

Mas mostrai-me que aquele que tem princípios inferiores vence aquele que é superior em princípios. Nunca o mostrareis, nem chegareis perto de o mostrar; pois esta é a lei da natureza e de Deus: que o superior sempre vencerá o inferior. Em quê? Naquilo em que é superior. Um corpo é mais forte que outro; muitos são mais fortes que um; o ladrão é mais forte do que aquele que não é ladrão. É por isso que também perdi a minha lâmpada, porque na vigília o ladrão foi superior a mim. Mas o homem comprou a lâmpada por este preço: por uma lâmpada tornou-se ladrão, um sujeito infiel, e como uma fera selvagem. Isso lhe pareceu um bom negócio. Seja assim. Mas um homem apoderou-se do meu manto e arrasta-me para a praça pública; então outros gritam: Filósofo, de que serviram as tuas opiniões? Vês que és arrastado para a prisão, vais ser decapitado. E que sistema de filosofia (eisagoge) poderia eu ter elaborado para que, se um homem mais forte tivesse posto a mão no meu manto, eu não fosse arrastado; para que, se dez homens me tivessem agarrado e lançado na prisão, eu não fosse lançado? Não aprendi então nada mais? Aprendi a ver que tudo o que acontece, se for independente da minha vontade, nada é para mim. Posso perguntar se não ganhaste com isto. Por que procuras então vantagem em qualquer outra coisa senão naquilo em que aprendeste que está a vantagem?

Então, sentado na prisão, digo: O homem que clama desta maneira "nem ouve o que as palavras significam, nem compreende o que é dito, nem se importa em saber o que os filósofos dizem ou fazem. Deixai-o em paz."

Mas agora ele diz ao prisioneiro: Sai da tua prisão. — Se não precisas mais de mim na prisão, saio; se precisares de mim novamente, entrarei na prisão.

— Quanto tempo agirás assim? — Enquanto a razão exigir que eu permaneça com o corpo; mas quando a razão não o exigir, retira o corpo, e passa bem. Somente não devemos fazê-lo inconsideradamente, nem fracamente, nem por qualquer motivo leve; pois, por outro lado, Deus não deseja que isso seja feito, e ele tem necessidade de tal mundo e de tais habitantes nele. Mas se ele soa o sinal de retirada, como fez a Sócrates, devemos obedecer àquele que dá o sinal, como se fosse um general.

Então, deveríamos dizer tais coisas à multidão? Por que o faríamos? Não basta que um homem esteja convencido de si mesmo? Quando crianças vêm batendo palmas e gritando: "Hoje é a boa Saturnália", dizemos nós: "A Saturnália não é boa"? De modo algum, mas também batemos palmas.

Faze tu também o mesmo, então: quando não puderes fazer um homem mudar de opinião, fica certo de que ele é uma criança, e bate palmas com ele; e se não escolheres fazer isso, permanece em silêncio.

Um homem deve ter isso em mente; e quando for chamado a qualquer dificuldade semelhante, deve saber que chegou o momento de mostrar se foi instruído.

Pois aquele que entra numa dificuldade é como um jovem de uma escola que praticou a resolução de silogismos; e se alguém lhe propõe um silogismo fácil, ele diz: propõe-me antes um silogismo habilmente complicado, para que eu me exercite nele. Até os atletas se descontentam com jovens fracos e dizem: "Ele não pode me levantar." — "Este é um jovem de nobre disposição." [Tu não fazes assim]; mas quando chega o tempo da prova, um de vós deve chorar e dizer: "Quem dera eu tivesse aprendido mais." Um pouco mais de quê? Se não aprendeste estas coisas para as mostrar na prática, por que as aprendeste?

¹ Ver i. 18, 15, p. 58.

² Ver a nota de Schweighaeuser.

³ Um daqueles que gritam "Filósofo", etc.

⁴ Epicteto.

⁵ Ver i. 9. 20.

⁶ Ver i. 6. 13.

⁷ Sócrates foi condenado pelos atenienses a morrer, e ele se contentou em morrer, e pensou que era uma coisa boa; e esta foi a razão pela qual fez tal defesa como fez, que lhe trouxe a condenação; e preferiu a condenação a escapar dela suplicando aos dicastas (juízes), e lamentando, e dizendo e fazendo coisas indignas de si mesmo, como outros fizeram.

— Platão, Apologia, caps. 29-33. Comparar com Epict. i. 9, 16.

⁸ Ver i. 25, 8.

⁹ Leia φέρε em vez de θέλει. Ver a nota de Schweighaeuser.

Ver a nota de Schweighaeuser.

Isto parece ser a observação de Epicteto.

Se assim é, não está claro o que significa.

Schweighaeuser explica: "Mas a maioria de vós age de outra forma."

EPICTETO.

Penso que há alguém entre vós que aqui está sentado, que sofre como uma mulher em trabalho de parto, e diz: "Oh, que tal dificuldade não se me apresenta como a que veio a este homem; oh, que eu esteja a desperdiçar a minha vida num canto, quando poderia ser coroado em Olímpia.

Quando me anunciará alguém tal contenda?" Tal deveria ser a disposição de todos vós.

Mesmo entre os gladiadores de César (o Imperador) há alguns que se queixam amargamente por não serem trazidos à arena e emparelhados, e oferecem orações a Deus e se dirigem aos seus superintendentes, suplicando que possam lutar. E nenhum de vós se mostrará tal? De bom grado faria uma viagem [a Roma] para esse fim e veria o que o meu atleta está a fazer, como está a estudar o seu tema. — Não escolho tal tema, diz ele.

Porquê, está no vosso poder escolher o tema que quiserdes? Foi-vos dado tal corpo como tendes, tais pais, tais irmãos, tal pátria, tal lugar na vossa pátria: — então vinde a mim e dizeis:

Mudai o meu tema.

Não tendes capacidades que vos permitam gerir o tema que vos foi dado? [Deveríeis dizer]: É vosso negócio propor; é meu exercitar-me bem.

Contudo, não dizeis isso, mas dizeis:

Não me proponhais tal tema, mas tal [como eu desejaria].

" Os imperadores romanos mantinham gladiadores para o seu próprio divertimento e o do povo (Lipsius, Saturnalia, ii. 16). Sêneca diz (De Provid., c. 4): "Ouvi um mirmilão (uma espécie de gladiador) no tempo de C. César (Calígula) queixando-se da raridade dos espetáculos de gladiadores: 'Que período glorioso de vida está a desperdiçar-se.' 'A virtude,' diz Sêneca, 'é ávida de perigos; e considera apenas o que procura, não o que possa sofrer.'" — Upton.

" A palavra é Hypothesis (ὑπόθεσις), que nesta passagem significa "matéria sobre a qual trabalhar," "material," "assunto," como em ii. 5, 11, onde significa o "negócio do piloto." Em i. 7, hypothesis tem o sentido de uma proposição suposta como verdadeira por ora, e usada como fundamento de um argumento.

'Tropic (rpoiriKv), um termo lógico usado pelos estoicos, que Schweighaeuser traduz como "propositio connexa in syllogismo hypothetico".

O significado de tudo isto é o seguinte.

Você não gosta do trabalho que lhe é apresentado: como dizemos, você não está contente "em cumprir o seu dever naquele estado de vida para o qual aprouver a Deus chamá-lo". Ora, isto é tão tolo, diz Wolf, quanto um homem em qualquer discussão exigir que seu adversário não levante objeção alguma, exceto aquelas que possam servir ao próprio caso do homem.

EPICTETO.

escolha]; não me oponhas tal objeção, mas tal [como eu escolheria]. Haverá talvez um tempo em que os atores trágicos suporão que são [apenas] máscaras, coturnos e o manto longo. Digo, estas coisas, homem, são o teu material e assunto.

Dize algo para que saibamos se és um ator trágico ou um bufão; pois ambos tendes todo o resto em comum.

Se alguém então tirasse os coturnos do ator trágico e a sua máscara, e o introduzisse no palco como um fantasma, estaria o ator trágico perdido, ou ele ainda permanece? Se tem voz, ele ainda permanece.

Um exemplo de outro tipo.

"Assume o governo de uma província." Eu o assumo, e quando o assumi, mostro como um homem instruído se comporta.

"Depõe o laticlave (a marca da posição senatorial), e vestindo-te de trapos, apresenta-te neste caráter." Que então não tenho o poder de exibir uma boa voz (isto é, de fazer algo que devo fazer)? Como então apareces agora (no palco da vida)? Como uma testemunha convocada por Deus.

"Vem adiante, tu, e dá testemunho por mim, pois és digno de ser apresentado como testemunha por mim: é algo externo à vontade bom ou mau? firo eu algum homem? fiz eu o interesse de cada homem depender de alguém exceto dele mesmo? Que testemunho dás por Deus?" — Estou em uma condição miserável.

Senhor (Senhor), e sou infeliz; nenhum homem

"Haverá um tempo em que os atores trágicos não saberão qual é o seu ofício, mas pensarão que é tudo aparência.

Assim, diz Wolf, os filósofos serão apenas barba e manto, e não mostrarão pela sua vida e costumes o que realmente são; ou serão como falsos monges, que apenas usam o capuz, e não mostram uma vida de piedade e santidade.

Deus é introduzido como falando." — Schweighaeuser.

A palavra é Kvpios, o nome pelo qual um escravo em Epicteto se dirige ao seu senhor (dominus), um médico é tratado por seu paciente, e em outros casos também é usada.

É também usada pelos Evangelistas.

Eles falam do anjo, do Senhor (Mateus i. 24); e Jesus é tratado pelo mesmo termo (Mateus viii. 2), Senhor ou mestre.

A Sra. Carter tem a seguinte nota: "Foi observado que esta maneira de expressão não se encontra nos autores pagãos antes do Cristianismo, e portanto é um exemplo da linguagem das Escrituras entrando cedo em uso comum."

Mas a palavra (Kvpios) é usada pelos primeiros escritores gregos para indicar alguém que tem poder ou autoridade, e em um sentido como o "dominus" romano,

EPICTETO.

cuida de mim, ninguém me dá nada; todos me culpam, todos falam mal de mim. — É esta a evidência que você vai dar, e desonrar a convocação daquele que conferiu tanta honra a você, e o considerou digno de ser chamado para dar tal testemunho?

Mas suponha que aquele que tem o poder tenha declarado: "Eu o julgo ímpio e profano." O que aconteceu com você? Fui julgado ímpio e profano? Nada mais? Nada mais.

Mas se a mesma pessoa tivesse passado julgamento sobre um silogismo hipotético (avvr]fj.fUvov), e tivesse feito uma declaração: "a conclusão de que, se é dia, é luz, eu declaro ser falsa", o que aconteceu ao silogismo hipotético? quem é julgado neste caso? quem foi condenado? o silogismo hipotético, ou o homem que foi enganado por ele? Aquele então que tem o poder de fazer qualquer declaração sobre você sabe o que é piedoso ou ímpio? Ele estudou isso, e aprendeu? Onde? De quem? Então é fato que um músico não dá atenção àquele que declara que a corda mais grave da lira é a mais aguda; nem um geômetra, se ele declara que as linhas do centro de um círculo até a circunferência são

como por Sófocles, por exemplo.

O uso da palavra então por Epicteto não era novo, e pode ter sido usado pelos escritores estoicos muito antes de seu tempo.

A linguagem dos estoicos foi formada pelo menos dois séculos antes da era cristã, e os escritores do Novo Testamento usariam o grego que era corrente em sua época. A noção de "linguagem das Escrituras entrando cedo em uso comum" é totalmente infundada, e até mesmo absurda.

Sra.

A observação de Carter implica que Epicteto usava a linguagem das Escrituras, ao passo que ele usava a linguagem particular dos estoicos, e a linguagem geral de sua época, e os escritores do Novo Testamento fariam o mesmo.

Há semelhanças entre a linguagem de Epicteto e a dos escritores do Novo Testamento, tais como a expressão μὴ γένοιτο de Paulo, que Epicteto usa com frequência; mas isso é uma questão de pouca importância.

As palavras de Pedro (II Ep. 1, 4), "para que por elas vos tornásseis participantes da natureza divina", são uma expressão estoica, e o escritor desta Epístola, creio eu, as tomou da linguagem dos estoicos.

As palavras no texto são: περὶ τῆς νήτης (χορδῆς) εἶναι ὑπάτην, "Quando ὑπάτη é traduzida como 'a corda ou nota mais grave', deve-se lembrar que os nomes empregados na terminologia musical grega são precisamente o oposto dos nossos.

Compare μέση 'a nota mais aguda', embora a palavra em si signifique 'a mais baixa'." — Key's Philological Essays, p. 42, nota 1.

EPICTETO.

não é igual; e aquele que é verdadeiramente instruído dará alguma atenção ao homem não instruído quando este profere um julgamento sobre o que é piedoso e o que é ímpio, sobre o que é justo e o que é injusto? Oh, o dano notável causado pelo instruído.

Aprenderam eles isso aqui?

Não deixareis os argumentos mesquinhos (λογάρια) sobre essas questões para outros, para os preguiçosos, para que se sentem num canto e recebam seu mísero pagamento, ou resmunguem que ninguém lhes dá nada; e não vos adiantareis e fareis uso do que aprendestes? Pois não são esses pequenos argumentos que são necessários agora: os escritos dos estoicos estão cheios deles.

O que é então a coisa que se necessita? Um homem que os aplique, alguém que por seus atos dê testemunho de suas palavras.

'Assumi, eu vos suplico, esse caráter, para que não usemos mais nas escolas os exemplos dos antigos, mas possamos ter algum exemplo nosso.

A quem então pertence a contemplação dessas questões (investigações filosóficas)? Àquele que tem lazer, pois o homem é um animal que ama a contemplação.

Mas é vergonhoso contemplar essas coisas como fazem os escravos fugitivos: devemos sentar-nos, como num teatro, livres de distração, e ouvir ora o ator trágico, ora o tocador de lira; e não fazer como os escravos. Assim que o escravo toma seu lugar, elogia o ator e ao mesmo tempo olha ao redor; então, se alguém grita o nome de seu senhor, o escravo fica imediatamente assustado e perturbado.

É vergonhoso para os filósofos contemplar assim as obras da natureza.

Pois o que é um senhor? O homem não é senhor do homem; mas a morte é, e a vida e o prazer e a dor; pois se ele vier sem essas coisas, traze-me César e verás como sou firme. Mas quando ele vier com essas coisas, trovejando e relampejando, e quando eu tiver medo delas, o que faço então senão reconhecer meu senhor como o escravo fugitivo? Mas enquanto eu tiver alguma trégua desses terrores, como um escravo fugitivo está no teatro, assim estou eu: banho-me, bebo, canto; mas tudo isso faço com terror e inquietação.

Mas se eu me libertar de meus senhores, isto é, daquelas coisas pelas quais os senhores são formidáveis, que problema maior tenho, que senhor ainda tenho?

Que então, devemos publicar essas coisas a todos os homens? Não, mas devemos acomodar-nos aos ignorantes e dizer: "Este homem me recomenda aquilo que ele pensa ser bom para si mesmo: eu o desculpo." Pois Sócrates também desculpou o carcereiro, que tinha a seu cargo na prisão e chorava quando Sócrates ia beber o veneno, e disse.

Como generosamente ele lamenta por nós. Diz ele então ao carcereiro que por essa razão mandamos embora as mulheres? Não, mas ele o diz aos seus amigos que podiam ouvir (compreender) isso; e trata o carcereiro como uma criança.

A palavra é *eva-radu*.

O substantivo correspondente é *evarddna*, que é o título deste capítulo.

' Upton supõe que Epicteto esteja aludindo ao verso de Aristófanes (Acarn. 531), onde se diz de Péricles:

"Ele fulgurou, trovejou e confundiu a Hélade."

' Ele chama os não instruídos e ignorantes pela palavra grega "Idiotae", "idiotas", que agora usamos em um sentido peculiar. Um *Idiota* era um indivíduo privado, em oposição àquele que ocupava algum cargo público; e daí tinha geralmente o sentido de alguém que era ignorante de qualquer arte particular, como, por exemplo, alguém que não havia estudado filosofia.

" Compare com o Fédon de Platão (p. 116). Os filhos de Sócrates foram trazidos para vê-lo antes de ele tomar o veneno pelo qual morreu; e também as esposas dos amigos de Sócrates que o acompanharam até a morte. Sócrates ordenara que sua esposa Xantipa fosse levada para casa antes de ter sua última conversa com seus amigos, e ela foi retirada lamentando e chorando.

EPICTETO.

CAPÍTULO XXX.

O QUE DEVEMOS TER PRONTO EM CIRCUNSTÂNCIAS DIFÍCEIS.

Quando você for entrar na presença de alguma grande personagem, lembre-se de que outro, também, do alto observa o que se passa, e que você deve agradar a ele antes que ao outro. Aquele que vê do alto pergunta-te: Nas escolas, o que costumavas dizer sobre exílio, e prisões, e morte, e desgraça? Eu costumava dizer que são coisas indiferentes (nem boas nem más). O que dizes então delas agora? Estão elas mudadas de algum modo? Não. Estás tu mudado então? Não. Dize-me então quais coisas são indiferentes? As coisas que são independentes da vontade. Dize-me, também, o que se segue disso. As coisas que são independentes da vontade nada são para mim. Dize-me também sobre o Bem, qual era a tua opinião? Uma vontade tal como devemos ter e também tal uso das aparências. E o fim (propósito), o que é? Seguir-te. Dizes isso também agora? Digo o mesmo agora também.

Então entra na presença da grande personagem corajosamente e lembra-te destas coisas; e verás o que é um jovem que estudou estas coisas quando está entre homens que não as estudaram.

Imagino, de fato, que tereis pensamentos como estes: Por que fazemos preparativos tão grandes e tão numerosos para nada? É isto o que os homens chamam de poder? É esta a antecâmara? Estes são os homens da câmara? Estes são os guardas armados? Foi para isto que ouvi tantos discursos? Tudo isto não é nada; mas eu me preparei como para algo grandioso.

O leitor pode compreender por que Epicteto deu uma lição como esta, se recordar a tirania sob a qual os homens viviam naquele tempo.

LIVRO II.

CAPÍTULO I.

QUE A CONFIANÇA (CORAGEM) NÃO É INCOMPATÍVEL COM A CAUTELA.

A opinião dos filósofos talvez pareça a alguns um paradoxo; mas ainda assim examinemos o melhor que pudermos se é verdade que é possível fazer tudo tanto com cautela quanto com confiança.

Pois a cautela parece, de certo modo, contrária à confiança, e os contrários não são de forma alguma consistentes.

O que parece a muitos um paradoxo na questão em consideração é, em minha opinião, do seguinte tipo: se afirmássemos que devemos empregar cautela e confiança nas mesmas coisas, os homens poderiam justamente nos acusar de reunir coisas que não podem ser unidas.

Mas agora, onde está a dificuldade no que é dito? Pois se estas coisas são verdadeiras, que foram muitas vezes ditas e muitas vezes provadas — que a natureza do bem está no uso das aparências, e a natureza do mal igualmente, e que as coisas independentes da nossa vontade não admitem nem a natureza do mal nem a do bem — que paradoxo afirmam os filósofos ao dizer que onde as coisas não dependem da vontade, ali deveis empregar confiança, mas onde dependem da vontade, ali deveis empregar cautela? Pois se o mal consiste num mau exercício da vontade, a cautela só deve ser usada onde as coisas dependem da vontade.

Mas se as coisas independentes da vontade e que não estão em nosso poder nada são para nós, com respeito a estas devemos empregar confiança; e assim seremos tanto cautelosos quanto confiantes, e, na verdade, confiantes por causa da nossa cautela.

Pois, empregando cautela em relação às coisas que são realmente más, resultará que teremos confiança com respeito às coisas que não o são.

Estamos então na condição de cervos; quando fogem apavorados das penas dos caçadores, para onde se voltam e em que buscam refúgio como seguro? Voltam-se para as redes, e assim perecem por confundir as coisas que são objetos de medo com aquelas que não deveriam temer.

Assim também agimos nós: em que casos tememos? Nas coisas que são independentes da vontade.

Em que casos, ao contrário, comportamo-nos com confiança, como se não houvesse perigo? Nas coisas dependentes da vontade.

Ser enganado então, ou agir temerariamente, ou desavergonhadamente, ou com desejo vil de buscar algo, não nos concerne de modo algum, se apenas acertarmos o alvo nas coisas que são independentes da nossa vontade.

Mas onde há morte, ou exílio, ou dor, ou infâmia, aí tentamos fugir, aí somos tomados de terror.

Portanto, como podemos esperar que aconteça com aqueles que erram nas questões mais importantes, convertemos a confiança natural (isto é, segundo a natureza) em audácia, desespero, temeridade, desvergonhamento; e convertemos a cautela e a modéstia naturais em covardia e baixeza, que estão cheias de medo e confusão.

Pois se um homem transferisse a cautela para aquelas coisas em que a vontade pode ser exercida e os atos da vontade, ele imediatamente, ao querer ser cauteloso, teria também o poder de evitar o que escolhe; mas se a transferir para as coisas que não estão em seu poder e vontade, e tentar evitar as coisas que estão no poder de outros, ele necessariamente temerá, será instável, será perturbado.

Pois a morte ou a dor não é temível, mas o medo da dor ou da morte.

Por essa razão louvamos o poeta que disse:

Não é a morte um mal, mas uma morte vergonhosa.

Era costume dos caçadores assustar os cervos exibindo penas de várias cores em cordas ou fios, e assim amedrontando-os em direção às redes.

Virgílio, Geórgicas, iii.

— Púnicas agitam pavidos formidine pennae;

' Eurípides, fragmentos.

EPICTETO.

A confiança (coragem) então deve ser empregada contra a morte, e a cautela contra o medo da morte.

Mas agora fazemos o contrário, e empregamos contra a morte a tentativa de escapar; e à nossa opinião sobre ela empregamos descuido, temeridade e indiferença.

Estas coisas Sócrates costumava apropriadamente chamar de máscaras trágicas; pois assim como para as crianças as máscaras parecem terríveis e assustadoras por inexperiência, nós também somos afetados de maneira semelhante pelos eventos (as coisas que acontecem na vida), por nenhuma outra razão senão a que as crianças são pelas máscaras.

Pois o que é uma criança? Ignorância.

O que é uma criança? Falta de conhecimento.

Pois quando uma criança sabe estas coisas, ela não é em nada inferior a nós. O que é a morte? Uma máscara trágica.

Volta-a e examina-a. Vê, ela não morde.

O pobre corpo deve ser separado do espírito, seja agora ou mais tarde, assim como foi separado dele antes.

Por que então te perturbas, se ela é separada agora? Pois se não é separada agora, será separada depois.

Por quê? Para que o período do universo seja completado, pois ele tem necessidade do presente, e do futuro, e do passado.

O que é a dor? Uma máscara.

Volta-a e examina-a. A pobre carne é movida rudemente, então, ao contrário, suavemente.

Se isto não te satisfaz (agrada), a porta está aberta: se ela

* No Fédon, c. 24, ou p. 78.

 Era a opinião de alguns filósofos que a alma era uma porção da divindade enviada para baixo aos corpos humanos.

 Esta era uma doutrina de Heráclito e de Zenão.

Zenão (Diog. Laert. vii. 137) fala de Deus como "em certos períodos ou revoluções de tempo exaurindo em si mesmo a substância universal (οὐσία) e novamente gerando-a fora de si mesmo." Antonino (xi. 1) fala da renovação periódica de todas as coisas.

Para o homem, cuja existência é tão curta, a doutrina de todas as coisas existentes perecendo no curso do tempo e então sendo renovadas, não tem valor prático.

O presente é suficiente para a maioria dos homens.

Mas para os poucos que são capazes de abraçar em pensamento o passado, o presente e o futuro, a contemplação da natureza perecível de todas as coisas existentes pode ter um certo valor ao elevar suas mentes acima das coisas mesquinhas que outros prezam além de seu valor.

" Sec. i. 9, nota 7. Schweighaeuser diz que não vê bem qual é o significado de 'deveria estar aberta'; e sugere que Epicteto pretendia dizer 'devemos considerar que a porta está aberta para todas as ocasiões'; mas as ocasiões, diz ele, deveriam ser quando as coisas são tais que um homem não pode de modo algum suportá-las ou não pode honrosamente tolerá-las, e tais ocasiões o homem sábio considera serem a voz de Deus dando-lhe os sinais', para se retirar.

H

EPICTETO.

"suportar (as coisas). Pois a porta deve estar aberta para todas as ocasiões; e assim não temos problemas.

Qual é então o fruto dessas opiniões? É aquilo que deve ser o mais nobre e o mais conveniente para aqueles que são realmente educados: a libertação da perturbação, a libertação do medo, a liberdade.

Pois nestes assuntos não devemos acreditar na maioria, que diz que apenas as pessoas livres devem ser educadas, mas devemos antes acreditar nos filósofos que dizem que somente os educados são livres.

Como é isso? Desta maneira.

A liberdade é algo mais do que o poder de viver como escolhemos? Nada mais.

Dizei-me então, ó homens, desejais viver no erro? Não desejamos.

Ninguém que vive no erro é livre.

Desejais viver no medo? Desejais viver na tristeza? Desejais viver na perturbação? De modo algum.

Ninguém que está em estado de medo, tristeza ou perturbação é livre; mas quem é libertado das tristezas, medos e perturbações, esse está ao mesmo tempo também libertado da servidão.

Como então podemos continuar a acreditar em vós, caríssimos legisladores, quando dizeis:

Nós permitimos apenas que pessoas livres sejam educadas? Pois os filósofos dizem que nós não permitimos que ninguém seja livre exceto os educados; isto é, Deus não o permite. Quando então um homem fez girar diante do pretor o seu próprio escravo, ele não fez nada? Ele fez algo.

O quê? Ele fez girar diante do pretor o seu próprio escravo.

Ele não fez nada mais? Sim: ele também é obrigado a pagar por ele o imposto chamado a vigésima.

Bem então, o homem que passou por essa cerimônia não se tornou livre? Não mais do que se tornou livre das perturbações.

Vós que sois capazes de fazer girar (livres) outros, não tendes

' Isto é uma alusão a um dos modos romanos de alforriar um escravo diante do pretor.

Compare, Persius, Sat. V. 75 —

— Heu steriles veri, quibus una Quiritem Vertigo facit;

E novamente

Vertcrit hunc dominus, momento turbinis exit Marcus Dama.

A soma paga na manumissão era um imposto de cinco por cento, estabelecido em 356 a.C. (Livy, vii. 16), e pago pelo escravo.

Epicteto aqui fala do imposto sendo pago pelo senhor; mas em iii. 26, ele fala como pago pelo escravo emancipado.

Veja Bureau de la Malle, Économie Politique des Romains, i. 200, ii 169.

EPICTETO.

mestre? não é o dinheiro o seu mestre, ou uma moça ou um rapaz, ou algum tirano, ou algum amigo do tirano? Por que então você treme quando vai a alguma provação (perigo) desse tipo? É por essa razão que eu digo com frequência: estude e tenha em mãos esses princípios pelos quais você possa determinar quais são as coisas com referência às quais você deve ter confiança (coragem), e quais são aquelas com referência às quais você deve ser cauteloso: corajoso naquilo que não depende da sua vontade; cauteloso naquilo que depende dela.

Ora, não li para você, e você não sabe o que eu estava fazendo? Em quê? Nas minhas pequenas dissertações.

— Mostre-me como você está com respeito ao desejo e à aversão (ἔκκλισις); e mostre-me se você não falha em obter o que deseja, e se não cai nas coisas que você evitaria: mas quanto a essas longas e laboriosas sentenças, você as pegará e as apagará.

O que então Sócrates não escreveu? E quem escreveu tanto? — Mas como? Como ele nem sempre podia ter à mão alguém para argumentar contra seus princípios ou para ser argumentado contra por sua vez, ele costumava argumentar consigo mesmo e examinar-se, e estava sempre tratando ao menos algum assunto de maneira prática.

Essas são as coisas que um filósofo escreve.

Mas pequenas dissertações e esse método, do qual eu falo, ele deixa para outros, para os estúpidos, ou para aqueles homens felizes que, estando livres de perturbações, têm¹.

¹ Estas são as palavras de algum pupilo que se vangloria do que escreveu.

² A palavra é περὶσβία. Não tenho certeza sobre o significado exato de περισβία: veja as notas de Wolf e Schweighäuser.

³ Nenhum outro autor menciona que Sócrates tenha escrito alguma coisa. É, portanto, muito difícil explicar esta passagem na qual Arriano, que tomou as palavras de Epicteto, o representa dizendo que Sócrates escreveu tanto. Sócrates falava muito, e Epicteto pode ter falado de falar como se fosse escrever; pois ele deve ter sabido que Sócrates não era um escritor. Veja a nota de Schweighäuser.

⁴ A palavra é ἄνευ ἀταραξίας. A Sra. Carter pensa que a leitura correta é ὑπὸ ἀταραξίας, 'por ociosidade' ou 'não tendo o que fazer', e ela observa que 'liberdade de perturbações' é exatamente a coisa que Epicteto vinha recomendando durante todo o capítulo e é o assunto do próximo capítulo, e portanto não pode ser bem suposto ser a leitura correta em um lugar onde é mencionada com desprezo.

É provável que a Sra. Carter tenha razão.

Upton pensa que Epicteto está aludindo aos sofistas, e que devemos entendê-lo como falando ironicamente: e isso também pode estar certo.

Schopenhauer

EPICTETO.

lazer, ou para aqueles que são tolos demais para calcular consequências.

E agora, quando a oportunidade convida, irás tu exibir aquelas coisas que possuis, recitá-las, e fazer uma exibição vã, e dizer: Vede como componho diálogos? Não faças isso, meu homem; mas antes dize: Vede como não sou frustrado naquilo que desejo: Vede como não caio naquilo que evitaria.

Põe a morte diante de mim, e verás.

Põe diante de mim a dor, a prisão, a desgraça e a condenação.

Esta é a exibição própria de um jovem que saiu das escolas.

Mas deixa o resto para os outros, e que ninguém jamais te ouça dizer uma palavra sobre essas coisas; e se alguém te elogiar por elas, não o permitas; mas pensa que és ninguém e nada sabes.

Apenas mostra que sabes isto: como nunca ser frustrado em teu desejo e como nunca cair naquilo que evitaria.

Deixa que outros labutem em causas forenses, problemas e silogismos: tu labuta em pensar sobre a morte, as correntes, o potro, o exílio; e faze tudo isso com confiança e confiança naquele que te chamou para esses sofrimentos, que te julgou digno do lugar no qual, estando postado, mostrarás o que a potência racional governante pode fazer quando se coloca contra as forças que não estão sob o poder da nossa vontade.

E assim este paradoxo não parecerá mais nem impossível nem um paradoxo,

tenta explicar a passagem tomando 'livre de perturbações' no sentido comum e simples; mas duvido que tenha obtido sucesso.

" i/iirtpTrepevtrri.

Epicteto (iii. 2. 14) usa o adjetivo irepTrepos para significar um homem vaidoso.

Antonino (v. 5) usa o verbo irfprfpeveaOai: e Paulo (Coríntios i. c. 13, 4), onde a nossa versão é, 'a caridade (o amor) não se vangloria.' Cícero (ad Attic, i. 14, 4) usa ivfirtpiTfpevffdixTiv, para expressar uma exibição retórica.

' Toda a vida dos filósofos, diz Cícero (Tusc. i. 30), seguindo Platão, 'é uma reflexão sobre a morte.'

" " Alguns leitores ingleses, demasiado felizes para compreender como correntes, tortura, exílio e execuções súbitas podem ser classificados entre os acidentes comuns da vida, podem surpreender-se ao encontrar Epicteto tão frequentemente a tentar preparar os seus ouvintes para eles.

Mas deve-se lembrar que ele se dirigia a pessoas que viviam sob o imperador romano, cuja tirania expunha até os melhores homens a perigos desse tipo." — Sra. Carter.

Todos os homens, ainda agora, estão expostos a acidentes e infortúnios contra os quais não há segurança, e até o mais afortunado dos homens deve morrer por fim.

As lições de Epicteto podem ser tão úteis agora quanto foram em sua época.

Ver i. 30.

EPICTETO.

Que um homem deve ser ao mesmo tempo cauteloso e corajoso: corajoso diante das coisas que não dependem da vontade, e cauteloso nas coisas que estão dentro do poder da vontade.

CAPÍTULO II.

DA TRANQUILIDADE (LIBERDADE DE PERTURBAÇÃO).

Considera, tu que vais ao tribunal, o que desejas manter e o que desejas alcançar. Pois, se desejas manter uma vontade conforme à natureza, tens toda a segurança, toda a facilidade, não tens preocupações.

Pois, se desejas manter o que está em teu próprio poder e é naturalmente livre, e se te contentas com isso, que mais te importa?

Pois quem é o senhor de tais coisas? Quem pode tirá-las de ti? Se escolhes ser modesto e fiel, quem não te permitirá sê-lo? Se escolhes não ser contido nem compelido, quem te compelirá a desejar o que pensas que não deves desejar? Quem te compelirá a evitar o que não consideras adequado evitar? Mas o que dizes? O juiz decidirá contra ti algo que parece formidável; mas que também sofras ao tentar evitá-lo, como pode ele fazer isso? Quando, então, a busca de objetos e a evitação deles estão em teu poder, que mais te importa? Que isto seja o teu exórdio, esta a tua narrativa, esta a tua confirmação, esta a tua vitória, esta a tua peroração, este o teu aplauso (ou a aprovação que receberás).

Por isso Sócrates disse a alguém que o lembrava de se preparar para seu julgamento: "Não achas então que tenho me preparado para isso toda a minha vida?" Por que tipo de preparação? "Mantive aquilo que estava em meu próprio poder."

Como então? "Nunca fiz nada injusto, nem em minha vida privada nem em minha vida pública."

Epicteto refere-se às divisões retóricas de um discurso.

Xenofonte (Mem. iv. c. 8, 4) registrou este dito de Sócrates com base na autoridade de Hermógenes.

Compare a Apologia de Xenofonte, perto do início.

EPICTETO.

Mas se você deseja manter também os externos, seu pobre Tsocly, sua pequena propriedade e sua pequena estima, aconselho-o a fazer desde este momento todos os preparativos possíveis, e então considerar tanto a natureza do seu juiz quanto a do seu adversário.

Se for necessário abraçar seus joelhos, abrace seus joelhos; se chorar, chore; se gemer, gema.

Pois quando você submeteu aos externos o que é seu, então seja escravo e não resista, e não ora escolha ser escravo, ora não escolha, mas com toda a sua mente seja um ou outro, ou livre ou escravo, ou instruído ou não instruído, ou um galo bem criado ou um vil, ou suporte ser espancado até morrer ou ceda de uma vez; e que não lhe aconteça receber muitos açoites e então ceder.

Mas se essas coisas são vis, decida imediatamente.

Onde está a natureza do mal e do bem? Está onde a verdade está: onde a verdade está e onde a natureza está, aí está a cautela: onde a verdade está, aí está a coragem onde a natureza está.

Pois o que você pensa? Você pensa que, se Sócrates tivesse desejado preservar os externos, ele teria se apresentado e dito: Anytus e Melitus podem certamente me matar, mas prejudicar-me não são capazes? Foi ele tão tolo a ponto de não ver que esse caminho não leva à preservação da vida e da fortuna, mas a outro fim? Qual é então a razão de ele não levar em conta seus adversários, e até mesmo irritá-los? Exatamente da mesma maneira, meu amigo Heráclito, que tinha uma pequena disputa em Rodes sobre um pedaço de terra, e havia provado aos juízes que sua causa era justa, disse quando chegou à peroração de seu discurso: Não vou suplicar-vos nem me importo com o julgamento que dareis, e sois vós, mais do que eu, que estais em julgamento.

E assim ele encerrou o assunto. Que necessidade havia disso? Apenas não supliques; mas não digas também: 'Não suplico'; a menos que haja uma ocasião adequada para irritar deliberadamente os juízes, como foi o caso de Sócrates.

E você, se está preparando tal peroração, por que espera, por que obedece à ordem...

Submeter-se à provação? Pois se você deseja ser crucificado, espere e a cruz virá; mas se você escolhe submeter-se e defender sua causa o melhor que puder, deve fazer o que é consistente com esse objetivo, desde que mantenha o que é seu (seu caráter próprio).

Por essa razão também é ridículo dizer: "Sugira-me algo" (diga-me o que fazer). O que devo sugerir a você? Bem, forme minha mente de modo a se acomodar a qualquer evento. Por que isso é exatamente o mesmo que se um homem ignorante das letras dissesse: "Diga-me o que escrever quando qualquer nome me for proposto." Pois se eu lhe dissesse para escrever Dion, e então outro viesse e lhe propusesse não o nome de Dion, mas o de Teon, o que será feito? O que ele escreverá? Mas se você praticou a escrita, também está preparado para escrever (ou fazer) qualquer coisa que for necessária. Se você não está, o que posso sugerir agora? Pois se as circunstâncias exigirem outra coisa, o que você dirá, ou o que fará? Lembre-se então deste preceito geral e não precisará de sugestão.

Mas se você anseia por coisas externas, deve necessariamente vaguear para cima e para baixo em obediência à vontade de seu senhor. E quem é o senhor? Aquele que tem poder sobre as coisas que você procura obter ou tenta evitar.

O significado é: Você não deve pedir conselho quando estiver em dificuldade, mas todo homem deve ter tais princípios que esteja pronto em todas as ocasiões para agir como deve; assim como aquele que sabe escrever pode escrever qualquer nome que lhe seja proposto. — Wolf.

O leitor deve saber que estas dissertações foram faladas de improviso, e que uma coisa após outra viria aos pensamentos do orador. Assim, o leitor não se surpreenderá que, quando o discurso trata da manutenção da firmeza ou da liberdade de perturbações, Epicteto fale agora da preparação filosófica, que é a mais eficiente para a manutenção da firmeza. — Wolf.

Veja também a nota de Schweig. sobre a seção 21, "Sugira-me algo:" e ii. 24.

No Encheiridion ou Manual (c. 14) está escrito: "O senhor de todo homem é aquele que tem o poder de dar a um homem ou tirar aquilo que ele quer ter ou não ter: quem então deseja ser livre, que não busque nada nem evite nada que esteja no poder de outros: se não agir assim, será um escravo."

EPICTETO.

CAPÍTULO III.

AOS QUE RECOMENDAM PESSOAS AOS FILÓSOFOS.

Diógenes disse bem a alguém que lhe pedia cartas de recomendação: "Que és homem, disse ele, ele saberá assim que te vir; e saberá se és bom ou mau, se for experiente em distinguir o bom e o mau; mas se não tiver experiência, nunca saberá, ainda que eu lhe escreva dez mil vezes." Pois é exatamente o mesmo que se uma dracma (uma moeda de prata) pedisse para ser recomendada a uma pessoa para ser examinada. Se ela for hábil em examinar prata, saberá o que és, pois tu (a dracma) te recomendarás a ti mesmo.

Devemos então também na vida ter alguma habilidade, como no caso da moeda de prata, para que um homem possa dizer como o avaliador de prata: "Traze-me qualquer dracma, e eu a examinarei." Mas no caso dos silogismos, eu diria: "Traze-me qualquer homem que quiseres, e eu distinguirei para ti o homem que sabe resolver silogismos e o que não sabe."

Por quê? Porque sei resolver silogismos. Tenho o poder que um homem deve ter para descobrir aqueles que têm o poder de resolver silogismos.

Mas na vida, como ajo? Ora chamo uma coisa de boa, ora de má. Qual é a razão? O contrário do que ocorre no caso dos silogismos: ignorância e inexperiência.

[Nota: Carter diz: "Este é um dos muitos refinamentos extravagantes dos filósofos; e poderia levar as pessoas a erros muito perigosos, se fosse estabelecido como máxima na vida comum." Creio que a Sra. Carter não viu o significado de Epicteto. O filósofo descobrirá o caráter do homem testando-o, como o ensaiador testa a prata por meio de uma prova. Cícero (De legibus, i. 9) diz que o rosto expressa o caráter oculto. Eurípides (Medeia, 518) diz melhor, que nenhuma marca é impressa no corpo pela qual possamos distinguir o homem bom do mau. Shakespeare diz:

"Não há arte
Para encontrar a construção da mente no rosto."
— Macbeth, ato i, cena 4.]

EPICTETO.

CAPÍTULO IV.

CONTRA UMA PESSOA QUE FORA UMA VEZ DETECTADA EM ADULTÉRIO.

Como Epicteto dizia que o homem é formado para a fidelidade, e que aquele que subverte a fidelidade subverte a característica peculiar dos homens, entrou um daqueles que são considerados homens de letras, que fora uma vez detectado em adultério na cidade.

Então Epicteto continuou: Mas, se deixarmos de lado essa fidelidade para a qual fomos formados e conspirarmos contra a esposa do nosso próximo, o que estamos fazendo? O que mais, senão destruir e derrubar? A quem? O homem de fidelidade, o homem de modéstia, o homem de santidade.

É só isso? E não estamos derrubando a vizinhança, e a amizade, e a comunidade; e em que lugar estamos nos colocando? Como hei de considerar-te, homem? Como vizinho, como amigo? Que tipo de amigo? Como cidadão? Em que poderei confiar em ti? Assim, se fosses um utensílio tão inútil que ninguém pudesse usar-te, serias lançado no monturo, e ninguém te recolheria. Mas, se sendo homem, és incapaz de ocupar qualquer lugar que convenha a um homem, o que faremos contigo? Pois suponhamos que não possas ocupar o lugar de amigo; podes ocupar o lugar de escravo? E quem confiará em ti? Não estás então contente em também seres lançado em algum monturo, como utensílio inútil e um pouco de esterco? Então dirás: ninguém se importa comigo, um homem de letras? Não se importam, porque és mau e inútil.

É exatamente como se as vespas se queixassem de que ninguém se importa com elas, mas todos fogem delas, e, se um homem pode, ele as golpeia e as derruba.

Tens um ferrão tal que lanças em perturbação e dor qualquer homem que firas com ele. Que queres que façamos contigo? Não tens lugar onde possas ser posto.

O que então? Não são as mulheres comuns por natureza? Assim também

¹ Não está claro o que significa dizer que as mulheres são comuns por natureza, em qualquer sentido racional.

Zenão e sua escola disseram (Diógenes Laércio, vii.; Zenão, p. 195. Londres, 1664): 'é também sua opinião que as mulheres

EPICTETO.

eu digo; pois um porquinho é comum a todos os convidados, mas, quando as porções foram distribuídas, vai, se achas justo, e arrebata a porção daquele que se reclina ao teu lado, ou furtivamente rouba-a, ou estende a mão por baixo e agarra-a, e, se não podes arrancar um pedaço da carne, unta os dedos e lambe-os.

Um belo companheiro de copos, e na verdade um convidado socrático! Bem, não é o teatro comum aos cidadãos? Quando então tomaram seus assentos, vem, se achas conveniente, e expulsa um deles.

Dessa maneira, também as mulheres são comuns por natureza.

Quando então o legislador, como o anfitrião de um banquete, os tiver distribuído, não procurarás também a tua própria porção, e não furtarás nem manusearás o que pertence a outro?

Mas eu sou um homem de letras e entendo Archedemus. — Entende Archedemus então, e sê um adúltero, e infiel, e em vez de um homem, sê um lobo ou um macaco: pois qual é a diferença?

CAPÍTULO V.

COMO A MAGNANIMIDADE É CONSISTENTE COM O CUIDADO.

As coisas em si mesmas (matérias) são indiferentes; mas o uso delas não é indiferente.

Como então preservará um homem a firmeza e a tranquilidade, e ao mesmo tempo

deve ser comum entre os sábios, de modo que qualquer homem use qualquer mulher, como diz Zenão na sua Política, e Crisipo no livro sobre a Política, e Diógenes o Cínico e Platão; e amaremos todas as crianças igualmente como pais, e o ciúme acerca do adultério será removido.' Esses sábios pouco sabiam sobre a natureza humana, se ensinaram tais doutrinas.

Archedemus era um filósofo estoico de Tarso.

Sabemos pouco sobre ele.

' Um homem pode ser um filósofo ou pretender sê-lo; e ao mesmo tempo pode ser uma besta.'

' As matérias (ὕλαι) sobre as quais o homem trabalha não são nem boas nem más, e assim são, como Epicteto as nomeia, indiferentes.

Mas o uso das coisas, ou da matéria, não é indiferente.

Elas podem ser usadas bem ou mal, conforme à natureza ou não.

EPICTETO.

ser cuidadoso e nem precipitado nem negligente? Se ele imita aqueles que jogam dados.

Os contadores são indiferentes; os dados são indiferentes.

Como sei eu qual será o lance? Mas usar cuidadosa e habilmente o lance dos dados, isso é o meu negócio. Assim, então, na vida também o principal negócio é este: distinguir e separar as coisas, e dizer: Os exteriores não estão no meu poder: a vontade está no meu poder.

Onde buscarei o bem e o mal? Dentro, nas coisas que são minhas.

Mas no que não te pertence não chames nada de bom ou mau, nem de lucro ou dano, nem qualquer coisa do tipo.

O quê então? Devemos usar tais coisas descuidadamente? De modo algum: pois isso, por outro lado, é mau para a faculdade da vontade e, consequentemente, contra a natureza; mas devemos agir cuidadosamente porque o uso não é indiferente, e devemos também agir com firmeza e liberdade de perturbações porque a matéria é indiferente.

Pois onde a matéria não é indiferente, nenhum homem pode me impedir nem me compelir. Onde posso ser impedido e compelido, a obtenção dessas coisas não está em meu poder, nem é boa ou má; mas o uso é ou mau ou bom, e o uso está em meu poder.

Mas é difícil misturar e reunir estas duas coisas: o cuidado daquele que é afetado pela matéria (ou pelas coisas ao seu redor) e a firmeza daquele que não lhe dá importância; mas não é impossível: e se o é, a felicidade é impossível.

Mas devemos agir como fazemos no caso de uma viagem.

O que posso fazer? Posso escolher o mestre do navio, os marinheiros, o dia, a oportunidade.

Então vem uma tempestade.

O que mais tenho com que me preocupar? Pois minha parte está feita.

O negócio pertence a outro, ao mestre.

— Mas o navio está afundando — o que tenho então a fazer? Faço a única coisa que posso: não ser afogado cheio de medo, nem gritando, nem culpando a Deus, mas sabendo que o que foi produzido também deve perecer: pois não sou um ser imortal, mas um homem, uma parte do todo, assim como uma hora é parte do dia:

Terêncio diz (Adelphi, iv. 7) —

Se aquilo que é mais necessário não cai com o lançamento,  
Aquilo que caiu por acaso, com arte o corriges.

Habilmente é 'arte', τεχνικῶς em Epicteto.

— Upton.

EPICTETO;

Devo estar presente como a hora, e passar como a hora.

"Que diferença então me faz como eu passe, se por sufocação ou por febre, pois devo passar por algum desses meios?"

É exatamente isso que verás fazer aqueles que jogam habilmente a bola.

Ninguém se importa com a bola como sendo boa ou má, mas com o lançar e o apanhar. Nisso está a habilidade, nisso a arte, a rapidez, o julgamento, de modo que, mesmo que eu estenda meu regaço, talvez não consiga apanhá-la, e outro, se eu lançar, talvez apanhe a bola.

Mas se com perturbação e medo recebemos ou lançamos a bola, que tipo de jogo é então, e em que um homem será firme, e como verá a ordem no jogo? Mas um dirá: Lança; ou Não lances; e outro dirá: Lançaste uma vez.

Isso é briga, não jogo.

Sócrates então sabia jogar bola.

Como? Usando a brincadeira no tribunal onde foi julgado.

Dize-me, ele diz, Ânito, como afirmas que eu não creio em Deus.

Os Daemons (8aiu,ov€?), quem são eles, você acha? Não são eles filhos de deuses, ou compostos de deuses e homens? Quando Anytus admitiu isso, Sócrates disse: Quem então, você acha, pode acreditar que existem mulas (meio asnos), mas não asnos; e ele disse isso como se estivesse jogando bola. E qual era a bola nesse caso? Vida, correntes, exílio, um gole de veneno, separação da esposa e deixar os filhos órfãos.

Essas eram as coisas com as quais ele estava jogando; mas ainda assim ele jogou e lançou a bola habilmente.

Assim devemos fazer: devemos empregar todo o cuidado dos jogadores, mas mostrar a mesma indiferença em relação à bola.

Pois devemos por todos os meios aplicar nossa arte a algum material externo, não valorizando o material, mas, seja ele qual for, mostrando nossa arte nele. Assim também o tecelão não faz a lã, mas exerce sua arte sobre a que recebe.

Outro lhe dá alimento e propriedade e é capaz de tirá-los e também seu pobre corpo.

Quando então você recebeu o material, trabalhe nele. Se então você sair (da provação) sem ter sofrido nada, todos que o encontrarem o parabenizarão por sua fuga; mas aquele que sabe como olhar para tais coisas, se vir que você se comportou adequadamente no assunto, o elogiará e ficará satisfeito com você; e se descobrir que você deve sua fuga a qualquer falta de comportamento adequado, ele fará o contrário.

Pois onde a alegria é razoável, lá também a congratulação é razoável.

A palavra é apiraffrSu, que também foi usada pelos Romanos. Um lançava a bola e o outro a pegava. Crisipo usou essa símile de uma bola ao falar de dar e receber (Sêneca, De Beneficiis, ii. 17). Marcial tem a palavra (Epig. iv. 19) 'Sive harpasta nianu pulverulenta rapis'; e em outros lugares.

Na Apologia de Platão, c. 15, Sócrates se dirige a Meleto; e ele diz, seria igualmente absurdo se um homem acreditasse que existem deuses de cavalos e asnos, e não acreditasse que existem cavalos e asnos.

Mas Sócrates não diz nada sobre mulas, pois a palavra mulas em alguns textos da Apologia está manifestamente errada.

EPICTETO. III.

Como então se diz que algumas coisas externas são segundo a natureza e outras contrárias à natureza? Diz-se como se poderia dizer se estivéssemos separados da união (ou sociedade): pois ao pé direi que é segundo a natureza que esteja limpo; mas se o tomares como pé e como coisa não destacada (independente), convir-lhe-á tanto pisar na lama e trilhar espinhos, como às vezes ser cortado para o bem do corpo inteiro; caso contrário, já não é um pé.

Devemos pensar de modo semelhante sobre nós mesmos também.

O que és? Um homem.

Se te consideras como separado dos outros homens, é segundo a natureza viver até a velhice, ser rico, ser saudável.

Mas se te consideras como homem e parte de um certo todo, é por causa desse todo que ora deves estar doente, ora empreender uma viagem e correr perigo, ora estar em necessidade, e em alguns casos morrer prematuramente.

Por que então te perturbas? Não sabes que, assim como um pé não é mais um pé se estiver separado do corpo, também não és mais um homem se estiveres separado dos outros homens?

Pois o que é um homem? Uma parte de um estado, daquele primeiro que consiste de deuses e de homens; depois daquele que é chamado próximo a ele, que é uma pequena imagem do estado universal.

Que então devo ser levado a julgamento; deve outro ter febre, outro navegar no mar, outro morrer, e outro ser condenado? Sim, pois é impossível em tal corpo, em tal universo de coisas, entre tantos que vivem juntos, que tais coisas não aconteçam, umas a um e outras a outros.

É teu dever então, já que vieste aqui, dizer o que deves, arranjar essas coisas como convém. Então alguém diz: "Acusar-te-ei de me fazer mal." Muito bem te faça: fiz minha parte; mas se também fizeste a tua, deves cuidar disso; pois há também algum perigo nisso, que isso escape à tua atenção.

CAPÍTULO VI.

DA INDIFERENÇA.

A proposição hipotética é indiferente: o juízo sobre ela não é indiferente, mas é ou conhecimento, ou opinião, ou erro.

Assim, a vida é indiferente: o uso não é indiferente.

Quando alguém vos disser que essas coisas também são indiferentes, não vos torneis negligentes; e quando alguém vos convidar a ser cuidadosos (acerca de tais coisas), não vos torneis abjetos e tomados de admiração pelas coisas materiais.

E é bom que conheçais a vossa própria preparação e poder, para que, naquelas matérias em que não fostes preparados, permaneçais em silêncio, e não vos aflijais se outros levam vantagem sobre vós.

Pois também vós, em silogismos, reivindicareis ter vantagem sobre eles; e se outros se afligirem com isso, vós os consolareis dizendo: 'Eu os aprendi, e vós não.' Assim também, onde há necessidade de qualquer prática, não busqueis aquilo que é adquirido pela necessidade (de tal prática), mas cedei nessa matéria àqueles que tiveram prática, e contentai-vos vós mesmos com a firmeza de espírito.

Ide saudar uma certa pessoa.

Como? Não de modo servil.

— Mas fui excluído, pois não aprendi a abrir caminho pela janela; e quando encontrei a porta fechada, devo ou voltar ou entrar pela janela. — Mas ainda assim falai com ele.

— De que modo? Não de modo servil.

Mas suponde que não obtivestes o que queríeis.

Isso era vosso negócio, ou não era dele? Por que então reivindicais o que pertence a outro? Lembrai-vos sempre do que é vosso, e do que pertence a outro; e não sereis perturbados.

Crisipo, portanto, disse bem: Enquanto as coisas futuras são incertas, sempre me apego àquelas que são mais adaptadas à conservação daquilo que é segundo a natureza; pois o próprio Deus me deu a faculdade de tal escolha.

Mas se eu soubesse que estava destinado (na ordem das coisas) que eu ficasse doente, eu até mesmo iria em direção a isso; pois também o pé, se tivesse inteligência, mover-se-ia para entrar na lama. Pois por que são produzidas as espigas de milho? Não é para que sequem? E não secam para que sejam ceifadas? Pois não são separadas da comunhão com outras coisas.

Se então tivessem percepção, deveriam desejar nunca ser ceifadas? Mas isto é uma maldição para as espigas de milho: nunca serem ceifadas.

Assim devemos saber que também no caso dos homens é uma maldição não morrer, exatamente como não amadurecer e não ser ceifado.

Mas, uma vez que devemos ser ceifados, e também sabemos que somos ceifados,

Sec.

ii. 5, 24.

Epicteto alude aos versos da Hipsípila de Eurípides.

Compare Antonino (vii.

40): 'A vida deve ser ceifada como a espiga madura de milho: um homem nasce; outro morre.' Cícero (Tuscul.

Disp.

iii.

25) traduziu seis versos de Eurípides, e entre eles estão estes dois:

turn vita omnibus
Metinda ut fruges: sic jubet necessitas.

I

EPICTETO.

nos irritamos com isso; pois nem sabemos o que somos nem estudamos o que pertence ao homem, como aqueles que estudaram cavalos sabem o que pertence aos cavalos.

Mas Crisantas, quando ia golpear o inimigo, conteve-se ao ouvir a trombeta soar a retirada: assim pareceu-lhe melhor obedecer à ordem do general do que seguir sua própria inclinação.

Mas nenhum de nós escolhe, mesmo quando a necessidade chama, obedecer-lhe prontamente, mas chorando e gemendo sofremos o que sofremos, e chamamos isso de 'circunstâncias'. Que tipo de circunstâncias, homem? Se você dá o nome de circunstâncias às coisas que estão ao seu redor, todas as coisas são circunstâncias; mas se você chama as dificuldades por esse nome, que dificuldade há na morte daquilo que foi produzido? Mas aquilo que destrói é ou uma espada, ou uma roda, ou o mar, ou uma telha, ou um tirano.

Por que você se importa com o caminho de descida ao Hades? Todos os caminhos são iguais. Mas se você ouvir a verdade, o caminho pelo qual o tirano o envia é mais curto.

Um tirano nunca matou um homem em seis meses: mas uma febre muitas vezes leva um ano para isso. Todas essas coisas são apenas som e o ruído de nomes vazios.

Estou em perigo de vida por causa de César.'' E não estou eu em perigo, eu que habito em Nicópolis, onde há tantos terremotos: e quando atravessas o Adriático, que risco corres? Não é o risco da tua vida? Mas estou em perigo também quanto à opinião.

Referes-te à tua própria? Como? Pois quem pode compelir-te a ter uma opinião que não escolhas? Mas é quanto à opinião de outro homem? E que espécie de perigo é

» A história está na Ciropédia de Xenofonte (IV, perto do início), onde Ciro diz que chamou Crisantas pelo nome.

Epicteto, como observa Upton, cita de memória.

« Assim Anaxágoras disse que o caminho para o outro mundo (ad inferos) é o mesmo de todos os lugares.

(Cícero, Tusc.

Disp.

i. 43). O que se segue é um dos exemplos de afirmação extravagante em Epicteto.

Um tirano pode matar por uma morte lenta, como faz uma febre.

Suponho que Epicteto teria alguma resposta para isso.

Exceto para um estoico, os caminhos para a morte não são indiferentes: algumas maneiras de morrer são dolorosas, e mesmo aquele que pode suportar com fortaleza preferiria uma morte fácil.

' O texto tem iirl Kaiaapos; mas M talvez devesse ser inró ou oT5.

EPICTETO.

tua, se outros têm opiniões falsas? Mas estou em perigo de ser banido.

"O que é ser banido? Estar em algum outro lugar que não em Roma? Sim: e então, se eu fosse enviado para Gyara? Se isso te convém, irás para lá; mas se não convém, podes ir para outro lugar em vez de Gyara, para onde também irá aquele que te envia para Gyara, quer ele escolha ou não.

Por que então vais a Roma como se fosse algo grande? Não vale toda essa preparação, que um jovem ingênuo diga: Não valeu a pena ter ouvido tanto e ter escrito tanto e ter sentado tanto tempo ao lado de um velho que não vale muito.

Apenas lembra-te da divisão pela qual se distinguem as coisas que são tuas e as que não são tuas: nunca reivindiques nada que pertença a outros.

Um tribunal e uma prisão são cada um um lugar, um alto e outro baixo; mas a vontade pode ser mantida igual, se escolheres mantê-la igual em ambos.

E seremos então imitadores de Sócrates, quando formos capazes de escrever peãs na prisão. Mas em nossa presente disposição, considera se poderíamos suportar na prisão que outra pessoa nos dissesse: "Gostarias que eu lesse peãs para ti?" — Por que me importunas? Não sabes os males que me cercam? Posso eu em tais circunstâncias (ouvir peãs)? — Que circunstâncias? — Vou morrer. — E os outros homens serão imortais?

Ver i. 25, nota 4.

Diógenes Laércio relata em sua vida de Sócrates que ele escreveu na prisão um Peã, e dá o primeiro verso que contém uma invocação a Apolo e Ártemis.

I

EPICTETO.

CAPÍTULO VII.

COMO DEVEMOS USAR A ADIVINHAÇÃO.

Por um respeito irracional à adivinhação, muitos de nós omitimos muitos deveres. Pois o que mais pode o adivinho ver senão a morte, o perigo ou a doença, ou geralmente coisas dessa espécie? Se então devo expor-me ao perigo por um amigo, e se é meu dever até morrer por ele, que necessidade tenho então de adivinhação? Não tenho dentro de mim um adivinho que me disse a natureza do bem e do mal, e me explicou os sinais (ou marcas) de ambos? Que necessidade tenho então de consultar as entranhas das vítimas ou o voo das aves, e por que me submeto quando ele diz: "É do teu interesse"? Pois sabe ele o que é do meu interesse, sabe ele o que é bom? E, assim como aprendeu os sinais das entranhas, aprendeu também os sinais do bem e do mal? Pois se conhece os sinais destes, conhece os sinais tanto do belo quanto do feio, e do justo e do injusto.

Dizes-me tu, homem, o que é a coisa que me é significada: é vida ou morte, pobreza ou riqueza? Mas se estas coisas são do meu interesse ou se não são, não pretendo perguntar-te.

Por que não dás tua opinião sobre questões de gramática, e por que a dás aqui sobre coisas em que todos nós erramos e disputamos uns com os outros? Portanto, a mulher que pretendia...

¹ A adivinhação era uma grande parte da religião antiga e, como diz Epicteto, levava os homens 'a omitir muitos deveres.' Em certo sentido, havia algum significado nisso. Se é verdade que aqueles que creem em Deus podem ver certos sinais na administração do mundo pelos quais podem julgar como seu comportamento deveria ser, podem aprender quais são seus deveres.

Se esses sinais são mal compreendidos, ou se não são vistos corretamente, os homens podem ser governados por uma superstição abjeta.

Assim, as formas externas de qualquer religião podem tornar-se meios de corrupção e de rebaixamento humano, e as verdadeiras indicações da vontade de Deus podem ser negligenciadas.

TTpton compara Lucano (ix. 572), que às vezes dizia algumas boas coisas.

- Um homem que dá sua opinião sobre gramática dá uma opinião sobre uma coisa da qual muitos sabem algo.

Um homem que dá sua opinião sobre adivinhação ou sobre eventos futuros, dá uma opinião sobre coisas das quais todos nós nada sabemos.

Quando então um homem afeta instruir sobre coisas desconhecidas, podemos pedir-lhe que dê sua opinião sobre coisas que são conhecidas, e assim podemos aprender que tipo de homem ele é.

EPICTETO.

Tendo enviado por um navio um mês de provisões a Gratilla em seu exílio, fez uma boa resposta àquele que disse que Domiciano apreenderia o que ela enviava: Prefiro, respondeu ela, que Domiciano apreenda tudo do que eu não enviar.

O que então nos leva ao uso frequente da adivinhação? A covardia, o medo do que acontecerá.

Esta é a razão pela qual lisonjeamos os adivinhos.

Rogo, senhor, sucederei eu à propriedade de meu pai? Vejamos: sacrifiquemos na ocasião.

— Sim, senhor, como a fortuna escolher.

— Quando ele disse: Sucederás à herança, agradecemos-lhe como se recebêssemos a herança dele.

A consequência é que eles jogam conosco.

O que então devemos fazer? Devemos ir (à adivinhação) sem desejo ou aversão, como o viajante pergunta ao homem que encontra qual dos dois caminhos leva (ao fim de sua jornada), sem qualquer desejo por aquele que leva à direita em vez do que à esquerda, pois ele não deseja ir por nenhum caminho exceto o caminho que leva (ao seu fim). Da mesma maneira devemos ir também a Deus como guia; como usamos nossos olhos, não pedindo que nos mostrem antes tais coisas que desejamos, mas recebendo as aparências das coisas tais como os olhos as apresentam a nós. Mas agora, tremendo, tomamos o áugure (intérprete de aves) pela mão, e enquanto invocamos a Deus suplicamos ao áugure, e dizemos: Senhor, tem misericórdia de mim; permite-me sair salvo desta dificuldade.

Miserável, quererias então algo diferente do que é melhor? Há então algo melhor do que o que agrada a Deus? Por que, tanto quanto está em teu poder, corrompes teu juiz e desvias teu conselheiro?

' Gratilla era uma senhora de posição, que foi banida de Roma e da Itália por Domiciano.

Plínio, Epp. iii. 11. Veja a nota na ed. de Schweig. sobre eirif.'fiyta.

Sacerdotes velhacos frequentemente se aproveitaram dos medos e esperanças dos supersticiosos.

Schweighaeuser lê rhv opviOapiov.

Veja sua nota.

'Kupie f4r](Tov, Domine miserere.

Notissima formula in Christiana ecclesia jam usque a primis temporibus usurpata.' Upton.

EPICTETO.

CAPÍTULO VIII.

QUAL É A NATUREZA (17 owria) DO BEM?

Deus é benéfico.

Mas o Bem também é benéfico. É consistente, então, que onde está a natureza de Deus, aí também esteja a natureza do bem. O que é, então, a natureza de Deus? Carne? Certamente não.

Uma propriedade de terra? De modo algum.

Fama? Não. É inteligência, conhecimento, reta razão? Sim.

Busca então simplesmente aí a natureza do bem; pois suponho que não a buscas numa planta.

Não. Buscas num animal irracional? Não. Se então a buscas num animal racional, por que ainda a procuras em qualquer outro lugar senão na superioridade do racional sobre os irracionais? Ora, as plantas nem sequer têm o poder de usar as aparências, e por essa razão não lhes aplicas o termo bem.

O bem, então, exige o uso das aparências.

Exige apenas esse uso? Pois se dizes que exige apenas esse uso, afirma que o bem, e que a felicidade e a infelicidade, também estão nos animais irracionais.

Mas não dizes isso, e fazes bem; pois se eles possuem, mesmo no mais alto grau, o uso das aparências, contudo não têm a faculdade de compreender o uso das aparências; e há boa razão para isso, pois existem para servir a outros, e não exercem superioridade alguma.

Pois o asno, suponho, não existe para qualquer superioridade sobre os outros.

Não; mas porque tínhamos necessidade de um dorso que pudesse carregar algo; e, na verdade, também precisávamos que ele pudesse andar, e por essa razão recebeu também a faculdade de fazer uso das aparências, pois de outro modo não teria podido andar.

¹ Schweighaeuser observa que o título deste capítulo seria mais corretamente "o Deus em nós" (ho theos en hēmin). Não há melhor capítulo no livro. Sócrates (Xenofonte, Mem. iv. 6, 8) conclui "que o útil é bom para aquele a quem é útil."

² Não me lembro de que Epicteto tenha tentado qualquer outra descrição da natureza de Deus. Ele agiu mais sabiamente do que alguns que tentaram responder a uma pergunta que não pode ser respondida. Mas veja ii. 14, 11-13.

³ Compare Cícero, de Offic. i. 27.

EPICTETO.

E aqui então a questão parou.

Pois se ele também tivesse recebido a faculdade de compreender o uso das aparências, é evidente que, de acordo com a razão, ele não teria então estado sujeito a nós, nem nos teria prestado esses serviços, mas teria sido igual a nós e semelhante a nós.

Não buscarás então a natureza do bem no animal racional? Pois se não está aí, não escolherás dizer que ela existe em qualquer outra coisa (planta ou animal). O que então? Não são também as plantas e os animais obras de Deus? São; mas não são coisas superiores, nem tampouco partes dos deuses.

Mas tu és uma coisa superior; és uma porção separada da divindade; tens em ti mesmo uma certa porção dela.

Por que então ignoras a tua nobre descendência? Por que não sabes de onde vieste? Não te lembrarás, quando estás comendo, de quem és tu que comes e a quem alimentas? Quando estás em conjunção com uma mulher, não te lembrarás de quem és tu que fazes esta coisa? Quando estás em convívio social, quando te exercitas, quando estás engajado em discussão, não sabes que estás nutrindo um deus, que estás exercitando um deus? Infeliz, tu carregas contigo um deus, e não o sabes. Pensas que quero dizer algum deus de

Nobre descendência.

Ver i. c. 9.

A doutrina de que Deus está no homem é uma doutrina antiga.

Eurípides disse (Apud Theon.

Soph.

Progym.): —

'O vovs yap iifitv icrriv iv eKdaTCfi Qe6s. A doutrina tornou-se um lugar-comum dos poetas (Ovídio, Fast., vi.), ' Est dens in nobis, agitante cale.-cimus illo;' e Horácio, Sat.

ii. 6, 79,. ' Atque affigit humo divinae particulam aurae.' Ver i. 14, nota 4.

" A Sra.

Carter tem uma nota aqui.

' Ver 1 Cor.

vi. 19, 2 Cor.

vi. 16, 2 Tim.

i. 14, 1 João iii.

24, iv. 12, 13. Mas embora a simples expressão de carregar Deus conosco possa parecer ter algo quase paralelo a ela no Novo Testamento, contudo aqueles representam o Todo-Poderoso de maneira mais venerável, como tomando os corações dos homens bons por um templo para habitar. Mas as outras expressões aqui de alimentar e exercitar Deus, e todo o parágrafo, e de fato todo o sistema estoico, mostram o sentido real de mesmo suas frases mais decentes como vastamente diferente do que o das Escrituras.'

A passagem em 1 Cor.

vi. 19 é: 'O quê? Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual tendes de Deus, e que não sois de vós mesmos?' Isto segue-se ao v. 18, que é uma exortação a 'fugir da fornicação'. A passagem em 2 Cor.

vi. 16 é: 'E

EPICTETO.

prata ou ouro, e externos? Vós o carregais dentro de vós mesmos, e não percebeis que o estais poluindo.

que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivo; como Deus disse: Neles habitarei e entre eles andarei', etc.

A Sra.

Carter não expôs corretamente o sentido destas duas passagens.

É certo que Epicteto nada sabia dos escritores das Epístolas do Novo Testamento; mas de onde aprenderam esses escritores tais formas de expressão como as que encontramos nas passagens citadas pela Sra.

Carter? Creio que as extraíram dos filósofos estoicos que escreveram antes de Epicteto, e que as aplicaram à nova religião que ensinavam.

O ensino de Paulo e o de Epicteto não diferem: o espírito de Deus está no homem.

Swedenborg diz: 'Nestas duas faculdades (racionalidade e liberdade) o Senhor reside com todo homem, seja ele bom ou mau, sendo elas as mansões do Senhor na raça humana.

Mas a mansão do Senhor está mais próxima de um homem, na proporção em que o homem abre os graus superiores por meio dessas faculdades; pois, ao abri-los, ele adentra em graus superiores de amor e sabedoria e, consequentemente, aproxima-se mais do Senhor.

Daí pode parecer que, à medida que esses graus são abertos, assim o homem está no Senhor e o Senhor nele.' Swedenborg, Sabedoria Angélica, 240. Novamente: 'a faculdade de pensar racionalmente, considerada em si mesma, não é do homem, mas de Deus no homem.'

Não estou totalmente certo de como a administração da Eucaristia deve ser entendida no serviço da igreja da Inglaterra.

Alguns teólogos ingleses antigamente entendiam, e talvez alguns agora entendam, a cerimônia como uma comemoração do sangue de Cristo derramado por nós e do seu corpo que foi partido; como vemos na obra póstuma de T. Burnet (de Fide et Officiis Christianorum, p. 80). Era uma comemoração da última ceia de Jesus e dos Apóstolos.

Mas este não parece ser o sentido em que a cerimônia é agora entendida por alguns sacerdotes e por alguns membros da igreja da Inglaterra, cujas noções se aproximam da doutrina da missa católica.

Tampouco parece ser esse o sentido da oração feita antes de entregar o pão e o vinho aos comungantes, pois a oração é: "Concede-nos, Senhor gracioso, comer a carne de teu dileto filho Jesus Cristo e beber seu sangue, para que nossos corpos pecaminosos sejam purificados por seu corpo e nossas almas lavadas por seu preciosíssimo sangue, e para que habitemos para sempre nele e ele em nós." Isso é algo diferente da noção de Epicteto sobre Deus estar no homem, e também diferente, conforme entendo, da noção contida nas duas passagens de Paulo; pois ali se diz genericamente que o Espírito Santo está no homem, ou Deus no homem, não que Deus está no homem em virtude de uma cerimônia particular.

Não se deve omitir que, após o fim do serviço da Comunhão, há uma admoestação de que o pão e o vinho sacramentais permanecem o que eram, "e que o corpo e sangue naturais de nosso Salvador Cristo estão no céu e não aqui; sendo contrário à verdade do corpo natural de Cristo estar ao mesmo tempo em mais de um lugar." Foi afirmado pelos Reformadores e pelos melhores escritores da igreja inglesa que a presença de Cristo na Eucaristia é espiritual.

EPICTETO.

por pensamentos impuros e ações sórdidas.

E se uma imagem de Deus estivesse presente, não ousarias fazer nenhuma das coisas que fazes; mas quando o próprio Deus está presente dentro de ti, e vê tudo e ouve tudo, não te envergonhas de pensar tais coisas e fazer tais coisas, ignorante como és de tua própria natureza e sujeito à ira de Deus.

Então por que tememos quando enviamos um jovem da escola para a vida ativa, para que ele não faça algo indevidamente, coma indevidamente, tenha relações indevidas com mulheres; e para que os trapos com que está envolto não o rebaixem, e para que roupas finas não o tornem orgulhoso? Este jovem (se age assim) não conhece seu próprio Deus; não sabe com quem parte (para o mundo). Mas podemos suportar quando ele diz: "Quisera eu ter-te (Deus) comigo." Não tens Deus contigo? E procuras outro, quando o tens? Ou Deus te dirá algo além disto? Se fosses uma estátua de Fídias, seja Atena ou Zeus, pensarias tanto em ti mesmo quanto no artista, e se tivesses qualquer entendimento (poder de percepção), tentarias não fazer nada indigno daquele que te fez ou de ti mesmo, e tentarias não aparecer em traje (atitude) impróprio aos que te observam.

Mas agora, porque Zeus te fez, por essa razão não te importas com a tua aparência? E, no entanto, é o artista (num caso) semelhante ao artista (no outro)? Ou a obra (num caso) semelhante à outra? E que obra de artista, por exemplo, tem em si mesma as faculdades que o artista demonstra ao fazê-la? Não é mármore, bronze, ouro ou marfim? E a Atena de Fídias, quando uma vez estende a mão e nela recebe a figura da Vitória, permanece nessa atitude para sempre.

Mas as obras de Deus têm poder de movimento; respiram, têm a faculdade de usar as aparências das coisas e o poder de examiná-las.

Sendo a obra de tal artista, tu o desonras? E que direi, não apenas que ele te fez, mas também que te confiou a ti mesmo e te constituiu como um depósito para ti mesmo? Não considerarás também isto, mas desonrarás a tua própria guarda? Ora, se Deus te tivesse confiado um órfão, tu o negligenciarias assim? Ele entregou-te a teu próprio cuidado e diz: "Não tinha ninguém mais apto a quem confiá-lo do que a ti mesmo: guarda-o para mim tal como é por natureza, modesto, fiel, ereto, intrépido, livre de paixão e perturbação."

E então tu não o guardas assim.

"Mas alguns dirão: donde tirou este sujeito a arrogância que demonstra e esses olhares altivos? — Eu ainda não tenho tanta gravidade quanto convém a um filósofo; pois ainda não sinto confiança no que aprendi e no que assenti: ainda temo a minha própria fraqueza.

Deixa-me ganhar confiança, e então vereis um semblante tal como devo ter e uma atitude tal como devo ter: então vos mostrarei a estátua, quando estiver aperfeiçoada, quando estiver polida."

E nessa presença, e nessa opinião seguiram Calvino e os teólogos suíços: e, no entanto, no Livro de Oração temos a linguagem que citei; e até Calvino, que apenas mantinha uma presença espiritual, disse "que a verdade está, no entanto, unida aos sinais, e que no sacramento temos 'verdadeira Comunhão no corpo e sangue de Cristo'" (Contemporary Review, p. 464, agosto de 1874). O que teria Epicteto pensado das sutilezas dos nossos dias?

' "A Atena de Fídias estava no Partenon, na Acrópole ateniense, uma colossal estátua criselefantina, isto é, uma estrutura de madeira, coberta de marfim e ouro (Pausânias, i. 24). A figura de

EPICTETO.

O que esperais? Um semblante altivo? Porventura o Zeus de Olímpia ergue a sobrancelha? Não, o seu olhar é fixo, como convém àquele que está pronto a dizer:

"Irrevogável é a minha palavra e não falhará."

— Ilíada, i. 526.

Tal me mostrarei a vós, fiel, modesto, nobre, livre de perturbação — E que, também imortal, isento da velhice e da doença? Não, mas morrendo como convém a um deus, adoecendo como convém a um deus.

Este poder possuo; isto posso fazer. Mas o resto não possuo, nem posso fazer. Mostrarei os nervos (força) de um filósofo.

Que

A Vitória estava na mão da deusa, como vemos frequentemente em moedas.

Ver.

i. 6, 23, e a nota na edição de Schweig.

Cícero, da Natura Deorum, iii.

34.

A grande estátua em Olímpia era obra de Fídias (Pausânias, V. 11). Era uma estátua colossal sentada, crisoelefantina, e segurava uma Vitória na mão direita.

EPICTETO.

Que "nervos" são estes? Um desejo que nunca é decepcionado, uma aversão que nunca incide sobre aquilo que evitaria, uma busca (ὁρμή) adequada, um propósito diligente, um assentimento que não é precipitado.

Estes vereis.

CAPÍTULO IX.

QUE QUANDO NÃO PODEMOS CUMPRIR AQUILO QUE O CARÁTER DE UM HOMEM PROMETE, ASSUMIMOS O CARÁTER DE UM FILÓSOFO.

Não é coisa comum (fácil) fazer apenas isto: cumprir a promessa da natureza de um homem.

Pois o que é um homem? A resposta é: um ser racional e mortal.

Então, pela faculdade racional, de quem somos separados? Das feras.

E de que outros? Das ovelhas e animais semelhantes.

Cuidai, pois, de não fazer nada como uma fera; mas se o fizerdes, perdestes o caráter de homem; não cumpristes a vossa promessa.

Vede que não façais nada como uma ovelha; mas se o fizerdes, também neste caso o homem está perdido.

Que fazemos, então, como ovelhas? Quando agimos gulosa, leviana, precipitada, imunda e inconsideradamente, a que declinamos? Às ovelhas.

Que perdemos? A faculdade racional.

Quando agimos contenciosa, daninha, apaixonada e violentamente, a que declinamos? Às feras.

Consequentemente, alguns de nós são grandes feras, e outros, pequenas bestas, de má disposição e

 Uma alusão aos combatentes nos exercícios públicos, que costumavam mostrar os ombros, músculos e tendões como prova de sua força.

Ver i. 4, ii. 18, iii.

(Sra. Carter).

" ἔκκλισιν.

Ver Livro iii. c. 2.

'O abuso das faculdades, que são próprias do homem, chamadas racionalidade e liberdade, é a origem do mal.

Por racionalidade entende-se a faculdade de compreender as verdades e, portanto, os erros, e os bens e, então, os males; e por liberdade entende-se a faculdade de pensar, querer e agir livremente — e essas faculdades distinguem o homem dos animais.' Swedenborg, Sabedoria Angélica, 264 e também 240. Ver Epicteto, ii. c. 8.

EPICTETO.

pequeno, donde podemos dizer: 'Que eu seja comido por um leão.'* Mas em todas essas maneiras a promessa de um homem agindo como homem é destruída.

Pois quando é que uma proposição conjuntiva (complexa) é mantida? Quando cumpre o que sua natureza promete; de modo que a preservação de uma proposição complexa é quando ela é uma conjunção de verdades.

Quando é que uma disjuntiva é mantida? Quando cumpre o que promete.†

Quando é que flautas, uma lira, um cavalo, um cão são preservados? (quando cada um cumpre sua promessa). Qual é a maravilha então se o homem também é preservado de maneira semelhante e de maneira semelhante é perdido? Cada homem é melhorado e preservado por atos correspondentes, o carpinteiro por atos de carpintaria, o gramático por atos de gramática.

Mas se um homem se acostuma a escrever sem gramática, necessariamente sua arte será corrompida e destruída.

Assim, ações modestas preservam o homem modesto, e ações imodestas o destroem: e ações de fidelidade preservam o homem fiel, e as ações contrárias o destroem.

E, por outro lado, ações contrárias fortalecem caracteres contrários: a falta de vergonha fortalece o homem sem vergonha, a infidelidade o homem infiel, palavras abusivas o homem abusivo, a ira o homem de temperamento colérico, e receber e dar desiguais tornam o homem avarento mais avarento.

Por essa razão, os filósofos nos admoestam a não nos contentarmos apenas com o aprendizado, mas também a acrescentar o estudo e, depois, a prática. Pois há muito tempo estamos acostumados a fazer

* Isto parece ser um provérbio. Se eu for comido, que eu seja comido pelo animal mais nobre.

† Um axioma ou lema conjuntivo ou complexo (rruyuircTrXeyeVoi'). Gellius (xvi. 8) dá um exemplo: 'P. Cipião, filho de Paulo, foi duas vezes cônsul e triunfou, e exerceu a censura e foi colega de L. Múmio em sua censura.' Gellius acrescenta: 'em toda conjuntiva, se há uma falsidade, embora as outras partes sejam verdadeiras, o todo é dito falso', pois o todo é proposto como verdadeiro: portanto, se uma parte é falsa, o todo não é verdadeiro.

O disjuntivo (SitCfvyfifyov) é deste tipo: 'o prazer é ou mau ou bom, ou nem bom nem mau.'

Costumamos dizer que um homem aprende uma coisa particular; e há homens que professam ensinar certas coisas, tais como uma língua, ou uma arte; e eles querem dizer com ensinar que o ensinado deve aprender; e aprender significa que eles devem ser capazes de fazer o que aprendem.

Aquele que ensina uma arte professa que o estudante será capaz de praticar a arte, a arte de

EPICTETO.

coisas contrárias, e pomos em prática opiniões que são contrárias às opiniões verdadeiras.

Se então não pusermos também em prática as opiniões corretas, não seremos nada mais do que expositores das opiniões de outros.

Pois agora quem entre nós não é capaz de discorrer segundo as regras da arte sobre as coisas boas e más (desta maneira)? Que das coisas algumas são boas, e algumas são más, e algumas são indiferentes: as boas então são as virtudes, e as coisas que participam das virtudes; e as más são o contrário; e as indiferentes são riqueza, saúde, reputação.

— Então, se no meio da nossa conversa acontecesse algum ruído maior que o usual, ou algum dos presentes risse de nós, ficamos perturbados.

Filósofo, onde estão as coisas sobre as quais falavas? De onde as produziste e proferiste?

Dos lábios, e somente daí.

Por que então corrompes os auxílios providos por outros? Por que tratas das questões mais graves como se estivesses jogando um jogo de dados? Pois uma coisa é guardar pão e vinho como num armazém, e outra coisa é comer.

O que foi comido é digerido, distribuído, e torna-se tendões, carne, ossos, sangue, cor saudável, respiração saudável.

O que está guardado, quando quiseres podes prontamente pegar e mostrar; mas não tens outra vantagem disso exceto até o ponto de parecer que o possuis. Pois qual é a diferença entre explicar estas doutrinas e aquelas dos homens que têm opiniões diferentes? Senta-te agora e explica segundo as regras da arte as opiniões de Epicuro, e talvez expliques as opiniões dele de maneira mais útil do que o próprio Epicuro. Por que então te chamas a ti mesmo de

fazendo sapatos, por exemplo, ou outras coisas úteis.

Há homens que professam ensinar religião, e moralidade, e virtude em geral.

Estes homens podem nos dizer o que concebem ser religião, moralidade e virtude; e aqueles que são ditos instruídos podem saber o que seus mestres lhes ensinaram.

Mas o aprendizado da religião, da moralidade e da virtude significa que o aprendiz praticará os atos de religião, de moralidade e de virtude; o que é algo muito diferente de saber o que são os atos de religião, de moralidade e de virtude.

O ensino do mestre, de fato, só se torna eficaz pelo seu exemplo, pelo seu fazer aquilo que ensina.

"Não é um filósofo estoico aquele que apenas pode explicar de maneira sutil e adequada os princípios estoicos: pois a mesma pessoa pode explicar os princípios de Epicuro, certamente com o propósito de refutá-los, e talvez possa explicá-los melhor do que o próprio Epicuro.

Consequentemente, ele poderia ser ao mesmo tempo estoico e epicurista; o que é absurdo." — Schweig.

Ele quer dizer que o mero conhecimento das opiniões estoicas não faz de um homem um estoico, ou qualquer outro filósofo.

Um homem deve, segundo os princípios estoicos, praticá-las para ser um filósofo estoico.

Assim, se dizemos que um homem é religioso, ele deve praticar os atos que sua religião ensina; pois é somente por seus atos que podemos conhecê-lo como um homem religioso.

"O que ele diz e professa pode ser falso; e ninguém sabe, exceto ele mesmo, se suas palavras e profissões são verdadeiras.

A uniformidade, regularidade e consistência de seus atos são evidências que não podem ser equivocadas."

EFICTETO.

Estoico? Por que enganas a muitos? Por que representas o papel de um judeu, quando és um grego? Não vês como (por que) cada um é chamado judeu, ou sírio, ou egípcio? E quando vemos um homem inclinando-se para dois lados, costumamos dizer:

Este homem não é judeu, mas age como um.

Mas quando ele assumiu os afetos de alguém que foi imbuído da doutrina judaica e adotou essa seita, então ele é de fato e é chamado judeu." Assim também nós, sendo falsamente imbuídos (batizados), somos em nome judeus, mas de fato somos outra coisa.

Nossos afetos (sentimentos) são inconsistentes com nossas palavras; estamos longe de praticar o que dizemos, e aquilo de que nos orgulhamos, como se o conhecêssemos. Assim, sendo incapazes de cumprir até mesmo o que o caráter de um homem promete, acrescentamos ainda a isso a profissão de filósofo, que é um fardo tão pesado quanto se um homem, incapaz de suportar dez libras, tentasse levantar a pedra que Ajax ergueu.

® Foi sugerido que Epicteto confundiu sob o nome de judeus aqueles que eram judeus e aqueles que eram cristãos.

Sabemos que alguns judeus se tornaram cristãos.

Mas veja a nota 1 e a nota 7 de Schweig.

É possível, como eu disse, que por judeus Epicteto queira dizer cristãos, pois cristãos e judeus são evidentemente confundidos por alguns escritores, já que os primeiros cristãos eram da nação judaica.

No livro iv, c. 7, Epicteto dá o nome de galileus aos judeus.

O termo galileus aponta para o país do grande mestre.

Paulo diz (Romanos, ii. 28): "Porque não é judeu o que o é exteriormente — mas é judeu o que o é interiormente", etc.

Suas observações (ii. 17-29) sobre o homem que é chamado judeu, e se apóia na lei e se gloria em Deus, podem ser comparadas com o que Epicteto diz de um homem que é chamado filósofo e não pratica aquilo que professa.

Veja ii. 24, 26: Ilíada, vii. 264, etc.; Juvenal, xv. 65,

Nec hunc lapidem, quales et Turnus et Aiax
Vel quo Tydides percussit pondere coxam
Aeueae, — Upton.

EPICTETO.

CAPÍTULO X.

COMO PODEMOS DESCOBRIR OS DEVERES DA VIDA A PARTIR DOS NOMES.

Considera quem és.

Em primeiro lugar, és um homem; e isto é alguém que não tem nada superior à faculdade da vontade, mas todas as outras coisas sujeitas a ela; e a própria faculdade ele a possui não escravizada e livre de subjugação.

Considera então de que coisas foste separado pela razão.

Foste separado das feras: foste separado dos animais domésticos (προβάτων). Além disso, és um cidadão do mundo, e uma parte dele, não uma das partes subservientes (servidoras), mas uma das partes principais (governantes), pois és capaz de compreender a administração divina e de considerar a conexão das coisas.

O que então promete (professa) o caráter de um cidadão? Não ter nada como proveitoso para si mesmo; não deliberar sobre nada como se estivesse destacado da comunidade, mas agir como a mão ou o pé fariam, se tivessem razão e compreendessem a constituição da natureza, pois nunca se colocariam em movimento nem desejariam qualquer coisa senão com referência ao todo.

Portanto, os filósofos dizem bem que, se o homem bom tivesse presciência do que aconteceria, ele cooperaria para a sua própria doença e morte e mutilação, pois sabe que essas coisas lhe são atribuídas segundo a ordem universal

' Cícero (de Fin.

iv. 10); Sêneca, Ep. 95.

 Ver i. 9. M. Antonino, vi. 44: 'Mas minha natureza é racional e social; e minha cidade e pátria, enquanto sou Antonino, é Roma, mas enquanto sou homem, é o mundo.'

Traduzi aqui πρόβατα por 'animais domésticos'; suponho que se refiram à espécie bovina, e a ovelhas e cabras.

' Isto pode parecer extravagante; mas é possível explicá-lo, e até mesmo concordar com ele. Se um homem acredita que tudo está sabiamente disposto no curso dos eventos humanos, ele nem sequer tentaria resistir àquilo que sabe que lhe foi designado sofrer: ele se submeteria e suportaria.

Se Epicteto quer dizer que o homem promoveria ativamente o fim ou propósito que ele previu, a fim de que seus atos fossem consistentes com o que ele prevê e com seu dever, talvez a sentença do filósofo seja difícil demais de lidar; e como ela se baseia numa suposição impossível de presciência, podemos ser aqui mais sábios que os filósofos, se não dissermos mais nada a respeito. Compare Sêneca, de Provid.

c. 5.

EPICTETO.

arranjo, e que o todo é superior à parte, e o Estado ao cidadão. Mas agora, porque não conhecemos o futuro, é nosso dever ater-nos às coisas que são, por sua natureza, mais adequadas à nossa escolha, pois fomos feitos, entre outras coisas, para isso.

Depois disto, lembra-te de que és um filho.

O que promete este caráter? Considerar que tudo o que pertence ao filho pertence ao pai, obedecer-lhe em todas as coisas, nunca censurá-lo a outrem, nem dizer ou fazer qualquer coisa que o prejudique, ceder-lhe em tudo e dar lugar, cooperando com ele tanto quanto puderes.

Depois disto, sabe que és também um irmão, e que a este caráter é devido fazer concessões; ser facilmente persuadido, falar bem de teu irmão, nunca reivindicar em oposição a ele qualquer das coisas que são independentes da vontade, mas prontamente cedê-las, para que tenhas a maior parte no que depende da vontade.

Pois vê que coisa é esta: em lugar de uma alface, se assim acontecer, ou de um assento, ganhares para ti mesmo a bondade de disposição.

Quão grande é a vantagem.

Em seguida a isto, se és senador de algum Estado, lembra-te de que és senador: se jovem, que és jovem: se velho, que és velho; pois cada um destes nomes, se vier a ser examinado, assinala os deveres próprios.

Mas se fores e censurares teu irmão, eu te digo.

Você esqueceu quem você é e qual é o seu nome.

Em seguida, se você fosse um ferreiro e fizesse mau uso do martelo, teria esquecido o ferreiro; e se você esqueceu o irmão e, em vez de irmão, tornou-se um inimigo, não pareceria ter trocado uma coisa por outra nesse caso? E se, em vez de um homem, que é um animal domesticado e social, você se tornou uma fera selvagem e nociva, traiçoeira e mordaz, não perdeu nada? Mas, (suponho) você deve perder um pouco de dinheiro para sofrer dano? E a perda de qualquer outra coisa não causa dano a um homem? Se você

 Antonino, vi. 42: 'Todos nós trabalhamos juntos para um mesmo fim, uns com conhecimento e designo, e outros sem saber o que fazem.'

 Uma alface é um exemplo da coisa mais insignificante.

Um assento provavelmente significa um assento de superioridade, o assento de um magistrado, uma sella curulis romana.

EPICTETO.

tivesse perdido a arte da gramática ou da música, consideraria a perda disso um dano? E se você perder a modéstia, a moderação (καταστολή) e a gentileza, considera a perda nada? E, no entanto, as coisas primeiro mencionadas são perdidas por alguma causa externa e independente da vontade, e as segundas por nossa própria culpa; e quanto às primeiras, nem tê-las nem perdê-las é vergonhoso; mas quanto às segundas, não tê-las e perdê-las é vergonhoso e motivo de reprovação e um infortúnio.

O que o pático perde? Ele perde o (caráter de) homem.

O que perde aquele que faz do pático o que ele é? Muitas outras coisas; e ele também perde o homem não menos que o outro.

O que perde aquele que comete adultério? Ele perde o (caráter do) modesto, do temperante, do decente, do cidadão, do vizinho.

O que perde aquele que se ira? Algo mais.

O que o covarde perde? Algo mais.

Nenhum homem é mau sem sofrer alguma perda e dano.

Se então você procura o dano apenas na perda de dinheiro, todos esses homens não recebem nenhum mal ou dano; pode ser que até tenham lucro e ganho, quando adquirem um pouco de dinheiro por qualquer um desses atos.

Mas considere que se você referir tudo a uma pequena moeda, nem mesmo aquele que perde o nariz é, em sua opinião, danificado.

Sim, você diz, pois ele é mutilado em seu corpo.

Bem; mas aquele que perdeu o olfato perde apenas nada? Não há então nenhuma energia da alma que seja uma vantagem para quem a possui e um dano para quem a perdeu? — Diga-me que tipo (de energia) você quer dizer.

— Não temos uma modéstia natural? — Temos.

— Aquele que perde isso não sofre dano? Ele não é privado de nada, não se desfaz de nada das coisas que lhe pertencem? Não temos naturalmente fidelidade? afeição natural, uma disposição natural para ajudar os outros, uma disposição natural para a tolerância? O homem então que se permite ser danificado nessas questões, pode ele estar livre de dano e ileso? O que então? Não ferirei eu aquele que me feriu? No [οὔτοι ἢ ἀφίξασθαι].

Ver nota de Schweig.

Sócrates. — Não devemos então de modo algum praticar um ato de injustiça. Críton. — Certamente que não. Sócrates. — Nem tampouco, quando você é injustiçado, deve retribuir com injustiça, como a maioria pensa, já que você não deve de modo algum praticar um ato injusto. Platão, Críton, cap. 10.

EPICTETO.

Em primeiro lugar, considere o que é dano (βλάβη) e lembre-se do que você ouviu dos filósofos. Pois se o bem consiste na vontade (propósito, intenção, προαιρέσει), e o mal também na vontade, veja se o que você diz não é isto: O que então, já que aquele homem se feriu ao praticar um ato injusto contra mim, não hei de eu me ferir praticando algum ato injusto contra ele? Por que não imaginamos a nós mesmos (pensamos mentalmente) algo deste tipo? Mas onde há qualquer detrimento ao corpo ou à nossa posse, aí há dano; e onde a mesma coisa acontece à faculdade da vontade, aí (você supõe) não há dano; pois aquele que foi enganado ou aquele que praticou um ato injusto não sofre nem na cabeça, nem no olho, nem no quadril, nem perde sua propriedade; e não desejamos nada além de (segurança para) essas coisas. Mas se teremos a vontade modesta e fiel ou vergonhosa e infiel, isso não nos importa nem um pouco, exceto apenas na escola, no que diz respeito a algumas palavras. Portanto, nosso progresso se limita a essas poucas palavras; mas além delas não existe nem no mais leve grau.

CAPÍTULO XI.

QUAL É O COMEÇO DA FILOSOFIA.

O começo da filosofia, para aquele que pelo menos entra nela do jeito certo e pela porta, é a consciência de sua própria fraqueza e incapacidade acerca das coisas necessárias.

Pois entramos no mundo sem nenhuma noção natural de um triângulo retângulo, ou de uma diesis (um quarto de tom), ou de um meio tom; mas aprendemos cada uma dessas coisas por uma certa transmissão segundo a arte; e por essa razão

Ver o início do livro II, cap. 16.

A mesma observação se aplicará à maioria das dissertações faladas ou escritas sobre assuntos morais: são exercícios de habilidade para quem as profere ou escreve, ou matéria para crítica e talvez um modo de passar uma hora ociosa para quem as ouve; e isso é tudo.

Epicteto censura nossa indolência e indiferença quanto aos atos, e a frivolidade das escolas de filosofia na disputa.

EPICTETO.

aqueles que não as conhecem não pensam que as conhecem.

Mas quanto ao bem e ao mal, e ao belo e ao feio, e ao conveniente e ao inconveniente, e à felicidade e à infelicidade, e ao próprio e ao impróprio, e ao que devemos fazer e ao que não devemos fazer, quem jamais veio ao mundo sem ter uma ideia inata deles? Por isso todos usamos esses nomes, e nos esforçamos por ajustar as preconcepções aos vários casos (coisas) assim: ele agiu bem, ele não agiu bem; ele agiu como devia, não como devia; ele foi infeliz, ele foi afortunado; ele é injusto, ele é justo: quem não usa esses nomes? Quem entre nós adia o uso deles até tê-los aprendido, como adia o uso das palavras sobre linhas (figuras geométricas) ou sons? E a causa disso é que entramos no mundo já ensinados como que pela natureza em algumas coisas sobre essa matéria, e, partindo dessas, acrescentamos a elas a presunção. Pois por que, diz um homem, não sei eu o que é belo e o que é feio? Não tenho a noção disso? Tens.

Não a adapto aos particulares? Adaptas. Não a adapto então propriamente? Nisso reside toda a questão; e a presunção é acrescentada aqui.

Pois, partindo dessas coisas que são admitidas, os homens procedem àquilo que é objeto de disputa por meio de adaptação inadequada; pois se possuíssem esse poder de adaptação além daquelas coisas, o que os impediria de serem perfeitos? Mas agora, já que pensas que adaptas propriamente as preconcepções aos particulares, dize-me de onde derivas isso (supõe que o faças). Porque penso assim. Mas isso não parece assim a outro, e ele pensa que também faz uma adaptação adequada; ou não pensa assim? Ele pensa. É possível então que ambos possais aplicar corretamente as preconcepções a coisas sobre as quais tendes opiniões contrárias? Não é possível.

Podes então mostrar-nos algo melhor para adaptar as preconcepções além do teu pensar que o fazes? O louco faz outra coisa senão as coisas que lhe parecem certas? Esse critério é então suficiente também para ele? Não é suficiente.

Ver i. c. 2.

Ver o uso de 'opinatio' por Cícero (Tusc. iv. 11).

K

EPICTETO

Vem a algo que seja superior ao parecer (τὸ δοκεῖν). O que é isto?

Observa, este é o começo da filosofia: uma percepção do desacordo dos homens entre si, e uma investigação da causa do desacordo, e uma condenação e desconfiança daquilo que apenas 'parece', e uma certa investigação daquilo que 'parece' — se 'parece' corretamente — e uma descoberta de alguma regra (κανόνος), assim como descobrimos uma balança na determinação de pesos, e uma régua de carpinteiro (ou esquadro) no caso de coisas retas e tortas.

— Este é o começo da filosofia.

Devemos dizer que todas as coisas são leves que assim parecem a todos? E como é possível que contradições possam estar certas? — Não todas então, mas todas as que nos parecem estar certas.

— Como mais a ti do que aquelas que parecem certas aos Sírios? Por que mais do que o que parece certo aos Egípcios? Por que mais do que o que parece certo a mim ou a qualquer outro homem? De modo algum mais.

O que 'parece' a cada homem não é então suficiente para determinar o que 'é'; pois nem no caso de pesos ou medidas nos contentamos com a mera aparência, mas em cada caso descobrimos uma certa regra.

Nesta matéria então não há regra superior ao que 'parece'? E como é possível que as coisas mais necessárias entre os homens não tenham sinal (marca) e sejam incapazes de ser descobertas? Há então alguma regra.

E por que então não buscamos a regra e a descobrimos, e depois a usamos sem dela nos desviarmos, nem mesmo estendendo o dedo sem ela? Pois isto, creio eu, é o que, quando descoberto, cura da loucura aqueles que usam a mera "aparência" como medida, e a usam mal; de modo que, para o futuro, partindo de certas coisas (princípios) conhecidas e esclarecidas, possamos usar, no caso de coisas particulares, as preconcepções que estão distintamente fixadas.

Qual é a matéria que se nos apresenta sobre a qual estamos indagando? O prazer (por exemplo). Submete-o à regra, lança-o na balança.

Deve o bem ser

 Ver nota de Schweig.

 Não fazendo nada sem a regra.

Este é um provérbio grego, usado também por Porsius, Sat.

v. 119; comparar Cícero, de Fin.

iii.

17; e Antonino, ii 16L

ENCTETUS.

Uma coisa tal que seja próprio termos confiança nela? Sim. E em que devemos confiar? Deve ser. É próprio confiar em algo que é inseguro? Não. É então o prazer algo seguro? Não. Toma-o então e lança-o fora da balança, e afasta-o para longe do lugar das coisas boas.

Mas se não tens vista aguçada, e uma balança não te basta, traze outra.

É próprio exaltar-se com o que é bom? Sim. É próprio então exaltar-se com o prazer presente? Vê que não digas que é próprio; mas se o disseres, então não te considerarei digno sequer da balança. Assim as coisas são testadas e pesadas quando as regras estão prontas.

E filosofar é isto: examinar e confirmar as regras; e então usá-las, quando conhecidas, é o ato de um homem sábio e bom.

CAPÍTULO XI.

DA DISPUTAÇÃO OU DISCUSSÃO.

Que coisas um homem deve aprender para poder aplicar a arte da disputação, foi mostrado com precisão pelos nossos filósofos (os estóicos); mas com respeito ao uso adequado das coisas, estamos inteiramente sem prática.

Dai apenas a qualquer um de nós, a quem quiserdes, um homem iletrado para discutir, e ele não saberá como lidar com o homem.

Mas quando ele tiver movido o homem um pouco, se este responder fora do propósito, ele não saberá como tratá-lo, mas então ou o abusará ou o ridicularizará, e dirá: Ele é um homem iletrado; não é possível fazer nada

"Isso é, até aqui eu vos considerarei tão incapazes de julgar corretamente as coisas sem uma balança, que entenderei que nem mesmo com o auxílio de uma balança o podeis fazer, que não podeis sequer usar uma balança e, consequentemente, que não mereceis uma única palavra minha. *Schweig*.

Esta é uma conclusão justa.

Devemos fixar os cânones ou regras pelas quais as coisas são examinadas; e então as regras podem ser aplicadas pelos sábios e bons a todos os casos.

EPICTETO.

■willi him.

Ora, um guia, quando encontra um homem fora do caminho, condu-lo ao caminho certo: não o ridiculariza ou injuria e depois o abandona.

Fazei vós também ver a verdade ao homem iletrado, e vereis que ele a segue.

Mas, enquanto não lhe mostrardes a verdade, não o ridicularizeis; antes, senti a vossa própria incapacidade.

Como então agia Sócrates? Costumava compelir o seu adversário na disputa a dar testemunho a seu favor, e não precisava de outra testemunha. Por isso podia dizer: 'Não me importo com outras testemunhas, mas estou sempre satisfeito com a evidência (testemunho) do meu adversário, e não peço a opinião de outros, mas apenas a opinião daquele que disputa comigo.' Pois costumava tornar tão claras as conclusões tiradas das noções naturais que todo homem via a contradição (se existisse) e dela se retirava (assim): O invejoso se alegra? De modo algum, antes se entristece. Bem, considerais que a inveja é dor pelos males? E que inveja há dos males? Portanto, fazia o seu adversário dizer que a inveja é dor pelos bens.

Pois bem, alguém invejaria aqueles que nada lhe são? De modo algum.

Assim, tendo completado a noção e fixado-a distintamente, ele...

Isto é o que se diz no Górgias de Platão, p. 472, 474.

A palavra é *προλήψεις*, que Cícero explica ser o mesmo que *προλήψεις*.

Acad. Pr. ii. 10.

A noção de inveja de Sócrates é declarada por Xenofonte (Mem. iii. 9, 8) como sendo esta: 'é a dor ou vexação que os homens sentem pela prosperidade dos seus amigos, e que tais são as únicas pessoas invejosas.' O Bispo Butler dá uma definição melhor; pelo menos uma descrição mais completa da coisa.

A emulação é meramente o desejo e a esperança de igualdade com ou superioridade sobre outros, com quem podemos nos comparar.

Não parece haver qualquer outra dor na paixão natural, senão apenas aquela falta que está implícita no desejo.

Contudo, isso pode ser tão forte a ponto de ser a ocasião de grande dor."

Desejar alcançar essa igualdade ou superioridade, por meio específico de rebaixar os outros ao nosso nível, ou abaixo dele, é, penso eu, a noção distinta de inveja.

Donde é fácil ver que o fim real que a paixão natural, a emulação, e que a paixão ilegítima, a inveja, visam é o mesmo; a saber, essa igualdade ou superioridade: e consequentemente que fazer o mal não é o fim da inveja, mas meramente o meio de que ela se utiliza para atingir seu fim.' — Sermões sobre a Natureza Humana, I.

Omiti as palavras hrh toD ivavrlov Myria-e rhf nAriirtov.

Não vejo sentido nelas; e o texto é claro sem elas.

EPICTETO.

...iria embora sem dizer ao seu adversário: Define-me inveja; e se o adversário tivesse definido inveja, ele não dizia: Definiste mal, pois os termos da definição não correspondem à coisa definida — Esses são termos técnicos, e por essa razão desagradáveis e dificilmente inteligíveis para homens iletrados, termos esses que nós (filósofos) não podemos deixar de lado.

Mas que o próprio homem iletrado, que segue as aparências que se lhe apresentam, possa conceder algo ou rejeitá-lo, nunca poderemos, pelo uso desses termos, movê-lo a fazê-lo. Por conseguinte, conscientes de nossa própria incapacidade, não tentamos a coisa; pelo menos aqueles de nós que têm alguma cautela não o fazem.

Mas a maior parte e os precipitados, quando entram em tais disputas, confundem a si mesmos e confundem os outros; e finalmente, abusando de seus adversários e sendo por eles abusados, vão embora.

Ora, essa era a primeira e principal peculiaridade de Sócrates: nunca se irritar em argumentação, nunca proferir nada abusivo, nada insultuoso, mas suportar pessoas abusivas e pôr fim à disputa.

Se quiserdes saber quão grande poder ele tinha nesse sentido, lede o Banquete de Xenofonte, e vereis quantas disputas ele resolveu. Daí, com boa razão, também nos poetas esse poder é altamente louvado:

Rapidamente com habilidade ele resolve grandes disputas.

Hesíodo, Teogonia, v. 87.

Pois bem; o assunto não é agora muito seguro, e particularmente em Roma; pois quem tenta fazê-lo não deve fazê-lo num canto, podeis ter certeza, mas deve ir a um homem de posição consular, se assim for, ou a um homem rico, e perguntar-lhe:

Podeis dizer-me, senhor, a cujos cuidados confiastes vossos cavalos? Posso dizer-vos.

— Você as confiou a qualquer pessoa, indiferentemente, e a alguém que não tem experiência com cavalos? — De modo algum.

— Muito bem; então, pode me dizer a quem você confia suas coisas de ouro ou prata, ou suas vestes? — Não confio nem essas a

Não tenho certeza de que entendi corretamente e|c Sc 5 avrds no início desta frase.

O Banquete de Xenofonte existe.

Compare Epicteto, iii.

16, 5, e iv. c. 5, o início.

EPICTETO.

qualquer um indiferentemente.

— Bem; e o seu próprio corpo, você já considerou confiar o cuidado dele a alguma pessoa? — Certamente.

— A um homem experiente, suponho, e alguém versado na arte alíptica,¹ ou na arte de curar? — Sem dúvida.

— São essas as melhores coisas que você possui, ou você também possui algo mais que é melhor do que todas essas? — Que tipo de coisa você quer dizer? — Quero dizer aquilo que faz uso dessas coisas, e testa cada uma delas, e delibera.

— Você quer dizer a alma? — Você pensa corretamente, pois é a alma que quero dizer.

— Em verdade, creio que a alma é uma coisa muito melhor do que todas as outras que possuo.

— Pode então nos mostrar de que maneira você tem cuidado da alma? Pois não é provável que você, que é um homem tão sábio e tem reputação na cidade, permita inconsiderada e negligentemente que a coisa mais valiosa que possui seja negligenciada e pereça.

— Certamente não.

— Mas você cuidou da alma você mesmo; e aprendeu com outro a fazer isso, ou descobriu os meios por si mesmo? — Aqui surge o perigo de que, em primeiro lugar, ele possa dizer: O que é isso para você, meu bom homem, quem é você? Em seguida, se você persistir em perturbá-lo, há o perigo de que ele levante as mãos e lhe dê golpes.

Eu mesmo fui outrora também um admirador desse modo de instrução, até cair nesses perigos.

CAPÍTULO XIII.

SOBRE A ANSIEDADE (SOLICITUDE).

Quando vejo um homem ansioso, digo: O que este homem quer? Se ele não quisesse alguma coisa que não está em seu poder, como poderia estar ansioso? Por essa razão, um tocador de lira

¹ A arte alíptica é a arte de ungir e friccionar, um dos melhores meios de manter um corpo saudável.

A arte iátrica ou de curar é a arte de restaurar a saúde a um corpo doente.

A arte alíptica é também equivalente à arte ginástica, ou à arte de preparar para exercícios ginásticos, que são também um meio de preservar a saúde do corpo, quando os exercícios são bons e moderados.

Epicteto, falando de si mesmo e de sua experiência em Roma.

EPICTETO.

O tocador de lira, quando canta sozinho, não tem ansiedade, mas quando entra no teatro, fica ansioso mesmo que tenha boa voz e toque bem o alaúde; pois ele não deseja apenas cantar bem, mas também obter aplausos: mas isso não está em seu poder.

Assim, onde ele tem habilidade, aí tem confiança.

Traga qualquer pessoa que não entenda nada de música, e o músico não se importa com ela.

Mas na questão em que um homem nada sabe e não foi praticado, aí ele fica ansioso.

Que questão é essa? Ele não sabe o que é uma multidão ou o que é o elogio de uma multidão. No entanto, ele aprendeu a tocar a corda mais grave e a mais aguda; mas o que é o elogio de muitos, e que poder tem na vida, ele não sabe nem pensou sobre isso. Por isso, ele necessariamente deve tremer e empalidecer.

Não posso então dizer que um homem não é um tocador de lira quando o vejo com medo, mas posso dizer outra coisa, e não uma coisa só, mas muitas.

E primeiro de tudo, chamo-o de estranho e digo:

Este homem não sabe em que parte do mundo está, mas embora esteja aqui há tanto tempo, ignora as leis do Estado e os costumes, e o que é permitido e o que não é; e nunca empregou nenhum advogado para lhe dizer e explicar as leis.

Mas um homem não faz um testamento, se não sabe como deve ser escrito, ou emprega uma pessoa que saiba; nem sela precipitadamente um contrato ou escreve uma garantia.

Mas ele usa seu desejo sem conselho de advogado, e a aversão, e a busca (movimento), e a tentativa e o propósito.

Como assim, sem advogado? Ele não sabe que quer o que não é permitido, e não quer o que é necessário; e não sabe nem o que é seu nem o que é de outro homem; mas se soubesse, nunca seria impedido, nunca seria obstruído, não ficaria ansioso.

Como assim? — Algum homem então tem medo de coisas que não são males? — Não. — Tem medo de coisas que são males, mas ainda assim tão dentro de seu poder que possam não acontecer? — Certamente não.

— Se então as coisas que são independentes da vontade não são nem boas nem más, e todas as coisas que dependem da vontade estão em nosso poder, e nenhum homem pode tirá-las de nós ou dá-las a nós, se não quisermos, onde resta lugar para a ansiedade? Mas estamos ansiosos quanto ao nosso pobre corpo, à nossa pequena propriedade, quanto à vontade de César; mas não ansiosos quanto às coisas internas.

Estamos ansiosos quanto a não formar uma opinião falsa? — Não, pois isso está em meu poder.

— Quanto a não exercitar nossos movimentos contra a natureza? — Não, nem mesmo quanto a isso.

— Quando então vês um homem pálido, como diz o médico, julgando pela compleição, o baço deste homem está desordenado, o fígado daquele; assim também dize, o desejo e a aversão deste homem estão desordenados, ele não está no caminho certo, ele está com febre.

Pois nada mais muda a cor, ou causa tremor ou ranger de dentes, ou faz um homem

Afundar nos joelhos e mudar de pé em pé.

— Ilíada, xiii, 281.

Por essa razão, quando Zenão ia encontrar Antígono, ele não estava ansioso, pois Antígono não tinha poder sobre nenhuma das coisas que Zenão admirava; e Zenão não se importava com aquelas coisas sobre as quais Antígono tinha poder.

Mas Antígono estava ansioso quando ia encontrar Zenão, pois desejava agradar a Zenão; mas isso era uma coisa externa (fora de seu poder). Mas Zenão não queria agradar a Antígono; pois nenhum homem hábil em qualquer arte deseja agradar a quem não tem tal habilidade.

Devo eu tentar agradar-te? Por quê? Suponho que conheces a medida pela qual um homem é estimado por outro.

Tens-te esforçado para aprender o que é um homem bom e o que é um homem mau, e como um homem se torna um ou outro? Por que então não és tu mesmo bom? — Como, replica ele, não sou bom? — Porque nenhum homem bom lamenta ou geme ou chora, nenhum homem bom está pálido e treme, ou diz:

Como ele me receberá, como ele me ouvirá? — Escravo, assim como lhe agrada.

Por que te importas com o que pertence aos outros? É culpa dele agora se ele recebe mal o que procede de ti? — Certamente. —

Em Diógenes Laércio (Zenão, vii) há uma carta de Antígono a Zenão e a resposta de Zenão.

Simplício (nota sobre o Encheirídio, c. 51) supõe que este Antígono seja o Rei da Síria; mas Upton observa que é Antígono Gônatas, rei da Macedônia.

EPICTETO.

E é possível que uma falta seja de um homem, e o mal em outro? — Não. — Por que então você se preocupa com o que pertence a outros? — Sua pergunta é razoável; mas estou ansioso sobre como falarei com ele.

Não pode então falar com ele como escolher? — Mas temo que possa ser desconcertado? — Se você fosse escrever o nome de Dion, temeria ser desconcertado? — De modo algum.

— Por quê? Não é porque você praticou escrever o nome? — Certamente.

— Bem, se você fosse ler o nome, não sentiria o mesmo? E por quê? Porque toda arte tem uma certa força e confiança nas coisas que lhe pertencem. — Você então não praticou falar? E o que mais aprendeu na escola? Silogismos e proposições sofísticas? Para que propósito? Não foi para o propósito de discursar habilmente? E discursar habilmente não é o mesmo que discursar oportunamente e com cautela e com inteligência, e também sem cometer erros e sem impedimento, e além de tudo isso com confiança? — Sim.

— Então, quando você está montado em um cavalo e vai para uma planície, você fica ansioso ao ser confrontado com um homem que está a pé, e ansioso em uma questão em que você é praticado, e ele não é? — Sim, mas essa pessoa (a quem vou falar) tem poder de me matar. Fale a verdade então, infeliz, e não se vanglorie, nem reivindique ser um filósofo, nem recuse reconhecer seus mestres, mas enquanto você apresentar essa alça em seu corpo, siga todo homem que é mais forte que você.

Sócrates costumava praticar falar, ele que falou como falou aos tiranos, aos dicastas (juízes), ele que falou em sua prisão.

Diógenes tinha praticado falar, ele que falou como falou a Alexandre, aos piratas, à pessoa que o comprou.

Esses homens confiavam nas coisas que praticavam. Mas tu te afastas para os teus próprios assuntos e nunca os deixas: vai sentar-te num canto, e tecer silogismos, e propô-los a outro.

Não há em ti o homem que possa governar um Estado.

CAPÍTULO XIV.

A NASO.

Quando certo romano entrou com seu filho e ouviu alguém ler, Epicteto disse: Este é o método de instrução; e parou.

Quando o romano lhe pediu que continuasse, Epicteto disse: Toda arte, quando é ensinada, causa trabalho àquele que não a conhece e é inábil nela, e de fato as coisas que procedem das artes mostram imediatamente sua utilidade no propósito para o qual foram feitas; e a maioria delas contém algo atraente e agradável.

Pois, de fato, estar presente e observar como um sapateiro aprende não é uma coisa agradável; mas o sapato é útil e também não é desagradável de se olhar. E a disciplina de um ferreiro quando ele está aprendendo é muito desagradável para aquele que por acaso está presente e é estranho à arte: mas o trabalho mostra a utilidade da arte.

Mas verás isso muito mais na música; pois se estiveres presente enquanto uma pessoa está aprendendo, a disciplina parecerá muito desagradável; e, no entanto, os resultados da música são agradáveis e deleitáveis para aqueles que nada sabem de música.

E aqui concebemos que a obra de um filósofo é algo deste tipo: ele deve adaptar seu desejo (βούλησιν) ao que está acontecendo, para que nem nenhuma das coisas que estão ocorrendo ocorra contra o nosso desejo, nem nenhuma das coisas que não ocorrem deixe de ocorrer quando desejamos que ocorram.

[Há alguma corrupção aqui.]

Disso resulta para aqueles que assim arranjaram a obra da filosofia, não falhar no desejo, nem cair naquilo que evitariam; sem inquietação, sem medo, sem perturbação, passar pela vida eles mesmos, juntamente com seus associados, mantendo as relações tanto naturais quanto adquiridas, como a relação de filho, de pai, de irmão, de cidadão, de homem, de esposa, de vizinho, de companheiro de viagem, de governante, de governado.

A obra de um filósofo concebemos ser algo assim.

Resta então investigar como isso deve ser realizado.

Vemos, portanto, que o carpinteiro (tékton), quando aprende certas coisas, torna-se carpinteiro; o piloto, aprendendo certas coisas, torna-se piloto.

Não será então também na filosofia insuficiente desejar ser sábio e bom, havendo também a necessidade de aprender certas coisas? Investigamos, pois, o que são essas coisas.

Os filósofos dizem que devemos primeiro aprender que há um Deus e que ele provê todas as coisas; também que não é possível ocultar dele nossos atos, ou mesmo nossas intenções e pensamentos. A próxima coisa é aprender qual é a natureza dos deuses; pois, conforme eles são descobertos, aquele que deseja agradá-los e obedecer-lhes deve, com todo o seu poder, esforçar-se para ser semelhante a eles.

¹ Compare iii. 2. 4, iv. 8. 20. Antonino (viii. 27) escreve: 'Há três relações [entre ti e outras coisas]: a primeira com o corpo que te envolve; a segunda com a causa divina da qual todas as coisas vêm para todos; e a terceira com aqueles que vivem contigo.' Isso é preciso, verdadeiro e prático. Aqueles que objetam à 'causa divina' podem escrever em seu lugar 'a natureza e constituição das coisas'; pois há uma constituição das coisas, que o filósofo tenta descobrir; e para a maioria dos propósitos práticos, é indiferente se dizemos que ela é de origem divina ou tem outra origem, ou que nenhuma origem pode ser descoberta. O fato permanece de que uma constituição das coisas existe; ou, se essa expressão não for aceita, podemos dizer que concebemos que ela existe e não podemos deixar de assim pensar.

² Veja i. 14. 13, ii. 8. 14. Sócrates (Xen. Mem. i. 1. 19) disse o mesmo. Que o homem deve tornar-se semelhante aos Deuses é dito também por Antonino, x. 8. — Veja Platão, De Legg. i. 4. (Upton.)

³ Quando se diz que Deus provê todas as coisas, isso é o que os gregos chamavam de prónoia, providência. (Epicteto, i. 16, iii. 17.) Na segunda dessas passagens há uma breve resposta a algumas objeções feitas à Providência. Epicteto só podia saber ou acreditar o que Deus é pela observação dos fenômenos; e só podia saber o que supunha ser a providência de Deus observando sua administração do mundo e tudo o que nele acontece. Entre outras obras de Deus está o homem, que possui

EPICTETO.

dos deuses; pois, conforme eles são descobertos, aquele que deseja agradá-los e obedecer-lhes deve, com todo o seu poder, esforçar-se para ser semelhante a eles.

Se o divino é fiel, o homem também deve ser fiel; se é livre, o homem também deve ser livre; se é benéfico, o homem também deve ser benéfico; se é magnânimo, o homem também deve ser magnânimo; sendo então um imitador de Deus, deve fazer e dizer tudo de acordo com esse fato.

Com o que então devemos começar? Se você entrar na discussão, eu lhe direi que você deve primeiro compreender os nomes (palavras). — Então você diz que eu não compreendo agora os nomes.

— Você não os compreende.

— Como então os uso? — Assim como os analfabetos usam a linguagem escrita, como o gado usa as aparências: pois o uso é uma coisa, a compreensão é outra.

Mas se você pensa que os compreende, produza qualquer palavra que queira, e vamos testar se a compreendemos. — Mas é uma coisa desagradável para um homem ser refutado quando já é velho e, talvez, já tenha servido suas três campanhas. — Eu também sei disso: pois agora você vem a mim como se não precisasse de nada; e o que você poderia sequer imaginar que lhe falta? Você é rico, tem filhos e talvez uma esposa, e muitos escravos: César

certos poderes intelectuais que lhe permitem formar um julgamento das obras de Deus, e um julgamento do próprio homem.

O homem tem, ou supõe-se que tenha, certos sentimentos morais, ou uma capacidade de adquiri-los de alguma maneira.

Na suposição de que todos os poderes do homem são um dom de Deus, o poder do homem de julgar o que acontece no mundo sob a providência de Deus é um dom de Deus; e se ele não estiver satisfeito com a administração de Deus, temos a conclusão de que o homem, cujos poderes vêm de Deus, condena essa administração que também vem de Deus.

Assim, Deus e o homem, que é obra de Deus, estão em oposição um ao outro.

Se um homem rejeita a crença em uma divindade e em uma providência, por causa das contradições e dificuldades envolvidas nessa crença, ou supostamente envolvidas nela, e se ele encontra as contradições e dificuldades tais que não pode reconciliá-las com seus sentimentos e julgamentos morais, ele será coerente ao rejeitar a noção de uma divindade e de providência.

Mas ele também deve admitir coerentemente que seus sentimentos e julgamentos morais são seus próprios, e que não pode dizer como os adquiriu, ou como tem qualquer um dos poderes corporais ou intelectuais que usa diariamente.

Pela hipótese, eles não vêm de Deus.

Tudo o que um homem pode dizer então é que ele tem tais poderes.

 Ver ii. 10, i. 17. 12 ii. 11. 4, etc.

M. Antonino, x. 8.

EPICTETO.

Tu sabes, em Esme tens muitos amigos, prestas a todos o que lhes é devido, sabes retribuir a quem te faz um favor e pagar na mesma moeda a quem te faz um mal.

O que te falta? Se então eu te mostrar que te faltam as coisas mais necessárias e as principais para a felicidade, e que até agora cuidaste de tudo menos do que devias, e, para coroar tudo, que não sabes nem o que é Deus nem o que é o homem, nem o que é o bem nem o que é o mal; e quanto ao que disse sobre tua ignorância de outras coisas, talvez isso possa ser suportado, mas se eu disser que não sabes nada sobre ti mesmo, como é possível que me suportes e aguentes a prova e fiques aqui? Não é possível; mas imediatamente vais embora de mau humor.

E, no entanto, que mal te fiz eu? A menos que o espelho também injurie o homem feio porque lhe mostra a si mesmo tal como é; a menos que o médico também seja suposto insultar o doente quando lhe diz: Homem, pensas que não tens nada? Mas tens febre: fica sem comer hoje; bebe água.

E ninguém diz: que insulto! Mas se disseres a um homem:

Teus desejos estão inflamados, tuas aversões são baixas, tuas intenções são inconsistentes, tuas buscas (movimentos) não são conformes à natureza, tuas opiniões são precipitadas e falsas, o homem imediatamente vai embora e diz: Ele me insultou.

Nosso modo de agir é como o de uma assembleia lotada. Animais são trazidos para serem vendidos, e bois; e a maior parte dos homens vem para comprar e vender, e há alguns poucos que vêm para olhar o mercado e indagar como ele é conduzido, e por quê, e quem fixa o encontro e com que propósito.

Assim também aqui nesta assembleia (da vida): alguns, como o gado, não se preocupam com nada exceto com sua forragem.

Pois para todos vós que estais ocupados com posses, terras, escravos e cargos magistrais, essas coisas não são nada além de forragem.

Mas há poucos que frequentam a assembleia, homens que amam observar e considerar o que é o mundo, quem o governa.

* O original é 'adicionar o colofão', que é uma expressão proverbial e significa dar o toque final a uma coisa.

 Ver os fragmentos de Menandro citados por Upton.

EPICTETO.

Não tem governador? E como é possível que uma cidade ou uma família não possa continuar a existir, nem pelo mais curto espaço de tempo, sem um administrador e guardião, e que tão grande e belo sistema seja administrado com tal ordem e, no entanto, sem propósito e por acaso? Há então um administrador.

Que tipo de administrador e como ele governa? E quem somos nós, que fomos produzidos por ele, e com que propósito? Temos alguma conexão com ele e alguma relação para com ele, ou nenhuma? É assim que esses poucos são afetados, e então se aplicam somente a esta única coisa: examinar o encontro e depois partir.

Então? Eles são ridicularizados pela maioria, como os espectadores na feira são pelos comerciantes; e se os animais tivessem entendimento, ridicularizariam aqueles que admiram qualquer coisa além do forragem.

CAPÍTULO XV.

A FAVOR OU CONTRA AQUELES QUE OBSTINADAMENTE PERSISTEM NO QUE DETERMINARAM.

Quando algumas pessoas ouviram estas palavras, que o homem deve ser constante (firme), e que a vontade é naturalmente livre e não sujeita à coação, mas que todas as outras coisas estão sujeitas a impedimentos, à escravidão, e estão no poder de outros, elas supõem que devem, sem desvio, permanecer em tudo o que determinaram.

Mas, em primeiro lugar, o que foi determinado deve ser são (verdadeiro). Exijo tônus (fibra) no corpo, mas tal como existe num corpo saudável, num corpo atlético; mas se me é evidente que você tem o tônus de um frenético e se vangloria disso, eu lhe direi, homem, busca o médico; isto não é tônus, mas atonia (deficiência de tônus correto). De maneira diferente, algo do mesmo tipo é sentido por aqueles que ouvem estes discursos de modo errado; o que foi o caso de um dos meus companheiros que, sem razão alguma, resolveu jejuar até a morte. Soube disso quando era o terceiro dia de sua abstinência de comida e fui perguntar o que havia acontecido.

Eu resolvi, disse ele.

— Mas ainda me diga o que foi que o induziu a resolver; pois se você resolveu corretamente, sentaremos com você e o ajudaremos a partir; mas se você fez uma resolução irracional, mude de ideia.

— Devemos manter nossas determinações.

— O que você está fazendo, homem? Devemos manter não todas as nossas determinações, mas aquelas que são corretas; pois se agora você está convencido de que é noite, não mude de ideia, se achar conveniente, mas persista e diga: devemos permanecer em nossas determinações.

Você não fará o começo e lançará o fundamento em uma investigação se a determinação é sólida ou não sólida, e então construir sobre ela firmeza e segurança? Mas se você lançar um fundamento podre e ruinoso, sua miserável construção não cairá mais cedo, quanto mais e mais fortes forem os materiais que você colocar sobre ela? Sem qualquer razão, você se afastaria de nós, tirando da vida um homem que é amigo, companheiro, cidadão da mesma cidade, tanto da grande quanto da pequena cidade? Então, enquanto comete assassinato e destrói um homem que não fez nada de errado, você diz que deve permanecer em suas determinações? E se alguma vez lhe viesse à cabeça me matar, você deveria permanecer em suas determinações? Agora, esse homem foi com dificuldade persuadido a mudar de ideia.

Mas é impossível convencer algumas pessoas atualmente; de modo que agora pareço saber, o que não sabia antes, o significado do ditado comum: que você não pode persuadir nem quebrar um tolo. Que nunca seja minha sorte ter um tolo sábio como amigo: nada é mais intratável.

'Estou determinado', diz o homem.

Os loucos também estão; mas quanto mais firmemente formam um julgamento sobre coisas que não existem, mais heléboro exigem.

Você não agirá como um doente e chamará o médico? — Estou doente, mestre, ajude-me; considere o que devo fazer: é meu dever obedecer-lhe.

Assim é aqui também: não sei o que devo fazer, mas vim para aprender.

— Não é assim; mas fala-me de outras coisas: sobre isto estou decidido.

— Que outras coisas? pois o que é maior e mais útil do que persuadir-te de que não basta teres tomado a tua decisão e não a mudares? Este é o tom (a energia) da loucura, não da saúde.

— Hei de morrer, se me obrigas a isto.

— Porquê, homem? Que aconteceu? — Decidi — Tive uma sorte feliz por não teres decidido matar-me — não aceito dinheiro. Porquê? — Decidi — Fica certo de que com o próprio tom (energia) que agora usas ao recusar aceitar, nada te impede de, alguma vez, inclinares sem razão a aceitar dinheiro e então dizeres: decidi.

Assim como num corpo enfermo, sujeito a fluxões, o humor se inclina ora para estas partes, ora para aquelas, também uma alma doente não sabe para onde se inclinar: mas se a esta inclinação e movimento se acrescenta um tom (resolução obstinada), então o mal se torna além de ajuda e cura.

O sentido é que não podes afastar um tolo do seu propósito, nem por palavras nem por força.

'Um tolo sábio' deve significar um tolo que se julga sábio; e tais vemos às vezes.

'Ainda que pisasses o tolo no gral entre o trigo com a mão do pilão, contudo a sua estultícia não se apartará dele.' Provérbios, xxvii. 22.

O Eléboro era um medicamento usado na loucura.

Horácio diz, Sat. ii. 3. 82—

Danda est ellebori multo pars maxima avaris.

Parece que Epicteto, nesta discussão, se refere a algum professor que declarara que não aceitaria dinheiro dos seus ouvintes e, depois, pelo menos indiretamente, censurara o nosso filósofo por receber algum honorário dos seus ouvintes. — Schwei.

EPICTETO.

CAPÍTULO XVI.

QUE NÃO NOS ESFORÇAMOS POR USAR AS NOSSAS OPINIÕES SOBRE O BEM E O MAL.

Onde está o bem? Na vontade. Onde está o mal? Na vontade.

Onde não está nenhum deles? Nas coisas que são independentes da vontade.

Pois então? Alguém entre nós pensa nestas lições fora das escolas? Alguém medita (se esforça) por si mesmo a dar resposta às coisas, como no caso das questões? É dia? — Sim.

— É noite? — Não. — Bem, o número das estrelas é par? — Não posso dizer.

— Quando o dinheiro é mostrado (oferecido) a ti, estudaste para dar "a resposta adequada, que o dinheiro não é uma coisa boa? Praticaste-te nessas respostas, ou apenas contra sofismas? Por que te admiras, então, se nos casos que estudaste, nesses melhoraste; mas naqueles que não estudaste, nesses permaneces o mesmo? Quando o retórico sabe que escreveu bem, que memorizou o que escreveu, e traz uma voz agradável, por que ainda está ansioso? Porque não está satisfeito com o que estudou.

O que ele quer então? Ser louvado pela plateia? Para o propósito, então, de poder praticar a declamação, ele foi disciplinado; mas com respeito ao elogio e à censura, não foi disciplinado.

Pois quando ouviu de alguém o que é o elogio, o que é a censura, qual é a natureza de cada um, que tipo de elogio deve ser buscado, ou que tipo de censura deve ser evitada? E quando praticou essa disciplina que segue essas palavras (coisas)? Por que então ainda te admiras, se nas matérias que um homem aprendeu, nelas ele supera os outros, e naquelas em que não foi disciplinado, nelas ele é o mesmo que a maioria.

Assim, o tocador de lira sabe tocar, canta bem, e tem um belo traje, e ainda assim treme quando entra no palco; pois essas coisas ele entende, mas não sabe o que é uma multidão, nem os gritos de uma multidão, nem o que é o ridículo. Tampouco sabe o que é a ansiedade, se é obra nossa ou obra de outro, se é possível detê-la ou não.

Por essa razão, se foi louvado, ele sai do teatro inchado, mas se foi ridicularizado, a bexiga inchada foi perfurada e se esvazia.

Este é o caso também conosco.

O que admiramos? Externalidades.

Com que coisas estamos ocupados? Externalidades.

E temos então alguma dúvida sobre por que tememos ou por que estamos ansiosos? O que acontece então quando pensamos que as coisas que estão por vir sobre nós são males? Não está em nosso poder não ter medo, não está em nosso poder não estar ansiosos.

Então dizemos:

Senhor Deus, como não estarei ansioso? Tolo, não tens mãos? Não te fez Deus as mãos para ti? Senta-te agora e reza para que o teu nariz não escorra. Assoa-te antes e não o culpes.

Pois bem, não te deu Ele nada no caso presente? Não te deu a resistência? Não te deu a magnanimidade? Não te deu a virilidade? Quando tens tais mãos, procuras ainda alguém que te assoe o nariz? Mas nós não estudamos estas coisas nem nos importamos com elas.

Dai-me um homem que se importe com o modo como fará qualquer coisa, não pela obtenção de uma coisa, mas que se importe com a sua própria energia.

Que homem, quando está a passear, se importa com a sua própria energia? Quem, quando está a deliberar, se importa com a sua própria deliberação, e não com a obtenção daquilo sobre o que delibera? E se tem sucesso, fica exaltado e diz: Como deliberámos bem; não te disse eu, irmão, que é impossível, quando pensámos em qualquer coisa, que não se torne assim? Mas se a coisa se tornar de outro modo, o miserável homem fica humilhado; não sabe sequer o que dizer sobre o que aconteceu.

Quem entre nós, por causa deste assunto, consultou um vidente? Quem entre nós, quanto às suas ações, não dormiu na indiferença? Quem? Dá-me (nome) um que eu veja o homem que há muito procuro, que é verdadeiramente nobre e ingénuo, seja jovem ou velho; nomeia-o.

Por que então ainda nos admiramos, se estamos bem praticados em pensar sobre as matérias (qualquer assunto dado), mas nos nossos atos somos baixos, sem decência, sem valor, covardes, impacientes ao trabalho, inteiramente maus? Pois não nos importamos com estas coisas nem as estudamos.

Mas se tivéssemos temido não a morte ou o exílio, mas o próprio medo, teríamos estudado para não cair naquelas coisas que nos parecem males.

Agora, na escola, somos irritáveis e verbosos; e se surge qualquer pequena questão sobre alguma destas coisas, somos capazes de as examinar plenamente.

Nota: Pela palavra "Senta-te", Epicteto indica a baixeza e a indolência do homem, que deseja que Deus faça por ele aquilo que ele pode fazer e deve fazer. — Schweig.

Mas arraste-nos para a prática, e nos encontrará miseravelmente naufragados.

Deixe alguma aparência perturbadora vir sobre nós, e você saberá o que temos estudado e em que temos nos exercitado.

Consequentemente, por falta de disciplina, estamos sempre acrescentando algo à aparência e representando as coisas como maiores do que são.

Assim, Schweighaeuser explica esta passagem difícil.

Talvez ele esteja certo.

Esta parte do capítulo é obscura.

' ' É observável que este, o mais prático de todos os filósofos, admite que seus esforços encontraram pouco ou nenhum sucesso entre seus discípulos.

Os Apóstolos falam uma linguagem muito diferente em suas epístolas aos primeiros convertidos do Cristianismo: e os Atos dos Apóstolos, e todos os monumentos das eras primitivas testemunham a reforma de costumes produzida pelo Evangelho.

Essa diferença de sucesso poderia, de fato, ser justamente esperada da diferença entre os dois sistemas.' Sra.

Carter.

— Não citei esta nota da Sra.

Carter porque penso que ela seja verdadeira.

Não sabemos qual foi o efeito do ensino de Epicteto, a menos que esta passagem nos informe, se a Sra.

Carter tirou uma inferência correta dela. A linguagem de Paulo aos Coríntios não é muito diferente da de Epicteto, e ele fala muito desfavoravelmente de alguns de seus convertidos coríntios.

Podemos admitir que "uma reforma de costumes foi produzida pelo Evangelho" em muitos dos convertidos ao Cristianismo, mas não há evidência de que essa reforma foi produzida em todos; e há evidência de que não foi.

As corrupções na igreja cristã primitiva e nas eras subsequentes são uma prova de que as reformas feitas pelo Evangelho não foram nem universais nem permanentes; e este é o resultado que nosso conhecimento da natureza humana nos levaria a esperar.

» Ver ii. 1. 13.

EPICTETO.

são.

Por exemplo, quanto a mim mesmo, quando estou em uma viagem e olho para o mar profundo, ou olho ao redor e não vejo terra, fico fora de mim e imagino que devo beber toda essa água se eu naufragar, e não me ocorre que três pintas são suficientes.

O que então me perturba? O mar? Não, mas minha opinião.

Novamente, quando um terremoto acontecer, imagino que a cidade vai cair sobre mim; mas não basta uma pequena pedra para me tirar os miolos?

Que são, então, as coisas que nos pesam e nos perturbam? Que outra coisa senão as opiniões? E que outra coisa, senão as opiniões, pesa sobre aquele que parte e deixa seus companheiros, amigos, lugares e hábitos de vida? Ora, as criancinhas, por exemplo, quando choram porque a ama as deixa por um breve tempo, esquecem a tristeza se recebem um pequeno bolo.

Escolhes, então, que te comparemos a criancinhas? — Não, por Zeus, pois não desejo ser apaziguado por um pequeno bolo, mas por opiniões corretas.

— E quais são essas? Tais como um homem deve estudar o dia inteiro, e não ser afetado por nada que não seja seu, nem por companheiro, nem por lugar, nem por ginásios, e nem mesmo pelo próprio corpo, mas lembrar da lei e tê-la diante dos olhos.

E qual é a lei divina? Guardar o que é de cada um, não reivindicar o que pertence a outros, mas usar o que é dado, e quando não é dado, não desejá-lo; e quando uma coisa é tirada, devolvê-la pronta e imediatamente, e ser grato pelo tempo em que se teve o uso dela, se não queres chorar por tua ama e por tua mãe.

Pois que importa por que coisa um homem é subjugado, e de que depende? Em que és melhor do que aquele que chora por uma garota, se te entristeces por um pequeno ginásio, por pequenos pórticos, por jovens e por tais lugares de diversão? Outro vem e lamenta que não beberá mais a água de Dirce.

É a água Márcia pior do que a de Dirce? Mas eu estava acostumado com a água de Dirce. E tu, por tua vez, te acostumarás com a outra.

Então, se te apegares também a esta, chora por esta também, e tenta fazer um verso como o verso de Eurípides:

Os banhos quentes de Nero e a água Márcia.

Vê como a tragédia é feita quando coisas comuns acontecem a homens tolos.

"Quando então verei novamente Atenas e a Acrópole? Infeliz, não te contentas com o que vês diariamente? Tens algo melhor ou maior para ver do que o sol, a lua, as estrelas, a terra inteira, o mar? Mas se de fato compreendes aquele que administra o Todo e o carregas dentro de ti, ainda desejas pequenas pedras e uma bela rocha?" Quando então estás para deixar o próprio sol e a lua, o que farás? Sentar-te-ás e chorarás como crianças? Bem, o que tens feito na escola? O que ouviste, o que aprendeste? Por que te registraste como filósofo, quando poderias ter registrado a verdade; como, "Fiz certas introduções, e li Crisipo, mas nem sequer me aproximei da porta de um filósofo"? Pois como possuiria eu algo do tipo que Sócrates possuía, que morreu como morreu, que viveu como viveu, ou algo como o que Diógenes possuía? Pensas que algum desses homens se afligiu ou lamentou, porque não iria ver um certo homem, ou uma certa mulher, nem estar em Atenas ou em Corinto, mas, se assim acontecesse, em Susa ou em Ecbátana? Pois se um homem pode deixar o banquete quando escolhe, e não mais se divertir, permanece ele ainda reclamando, e não permanece, como em qualquer diversão, apenas enquanto está satisfeito? Tal homem, suponho, suportaria exílio perpétuo ou ser condenado à morte.

Não te desmamarás agora, como crianças, e

arcos deste aqueduto existem.

O 'límpido rio de Dirce' é mencionado no Hércules Furioso de Eurípides (v. 573). O verso no texto, que podemos supor que Epicteto compôs, tem um espondeu no quarto lugar, o que é contrário à regra.

"'As pequenas pedras' supõe-se serem os mármores que decoravam Atenas, e a rocha a Acrópole.

"No original é Κιαιγόηαι.

Era um nome usado para comentários curtos sobre os princípios de qualquer arte; tais como agora chamamos Introduções, Compêndios, Elementos.

Gellius, xvi. 8.

"Ver nota de Schweig.

EPICTETO.

tomar alimento mais sólido, e não chorar por mamães e babás, que são as lamentações de velhas? — Mas se eu partir, causarei-lhes tristeza.

— Causar-lhes tristeza? De modo algum; mas aquilo que também te causa tristeza, a opinião, é que lhes causará tristeza.

O que tens então a fazer? Remove tua própria opinião; e, se essas mulheres forem sábias, removerão também a delas; se não o fizerem, lamentar-se-ão por culpa própria.

Meu homem, como diz o provérbio, faze um esforço desesperado em prol da tranquilidade de espírito, da liberdade e da magnanimidade.

Ergue a cabeça, enfim, como quem foi libertado da escravidão.

Ousa olhar para Deus e dizer: "Trata-me daqui em diante como quiseres; sou da mesma mente que tu; sou teu; nada recuso do que te agrada; guia-me para onde quiseres; veste-me com qualquer traje que escolheres; é tua vontade que eu ocupe o cargo de magistrado, que eu esteja na condição de homem privado, que fique aqui ou seja exilado, que seja pobre, que seja rico? Farei tua defesa perante os homens em favor de todas essas condições; mostrarei a natureza de cada coisa, o que ela é." — Tu não farás isso; mas te sentarás no ventre de um boi e esperarás por tua mamãe até que ela te alimente.

Quem teria sido Hércules, se tivesse ficado sentado em casa? Teria sido Euristeu, e não Hércules.

E, em suas viagens pelo mundo, quantos íntimos e quantos amigos teve? Mas nada lhe foi mais caro do que Deus.

Por essa razão, acreditava-se que ele era filho de Deus, e ele o era.

Em obediência a Deus, então, ele andava purgando a injustiça e a ilegalidade.

Mas tu não és Hércules, e não és capaz de purgar a maldade dos outros; nem és Teseu, capaz de purgar os males da Ática. Limpa os teus próprios.

De ti mesmo, dos teus pensamentos, lança fora, em vez de Procrustes e Escíron,¹ a tristeza, o medo, o desejo, a inveja, a malevolência, a avareza, a efeminação, a intemperança.

¹ Os manuscritos têm ἴτρος τλῆθι; mas a emenda de Salmasius, ἀθὲς τλῆθι, é certa.

² Há inúmeras passagens em São Paulo que, na realidade, prestam esse nobre testemunho que Epicteto aqui exige de seu caráter imaginário. Tais são aquelas em que ele se gloria na tribulação; fala com um desprezo heroico da vida, quando posta em competição com o cumprimento de seu dever; alegra-se em grilhões e prisões, e na visão de seu martírio iminente; e representa as aflições como uma prova do amor de Deus. Ver Atos xx. 23, 24; Rom. v. 3, viii. 38-39; 2 Tim. iv. 6. — Sra. Carter.

³ O significado é incerto. Ver a nota de Schweighaeuser.

EPICTETO.

Mas não é possível afastar essas coisas senão olhando somente para Deus, fixando as tuas afeições somente nele, sendo consagrado aos seus mandamentos.

Mas se escolheres qualquer outra coisa, serás compelido, com suspiros e gemidos, a seguir o que é mais forte do que tu mesmo, sempre buscando tranquilidade e nunca podendo encontrá-la; pois buscas tranquilidade onde ela não está, e negligencias buscá-la onde está.

CAPÍTULO XVII.

COMO DEVEMOS ADAPTAR AS PRÉ-NOÇÕES AOS CASOS PARTICULARES.

Qual é o primeiro ofício daquele que filosofa? Lançar fora a presunção (οἴησις). Pois é impossível que um homem comece a aprender aquilo que pensa que já sabe.

Quanto às coisas, então, que devem ser feitas e não devem ser feitas, e o bem e o mal, e o belo e o feio, todos nós, falando delas ao acaso, vamos aos filósofos; e sobre essas matérias louvamos, censuramos, acusamos, culpamos, julgamos e decidimos acerca de princípios honrosos e desonrosos.

Mas por que vamos aos filósofos? Porque desejamos aprender o que não pensamos que sabemos.

E o que é isso? Teoremas. Pois desejamos aprender o que os filósofos dizem como algo elegante e agudo; e alguns desejam aprender isso para obter proveito do que aprendem.

É ridículo, então, pensar que uma pessoa deseja aprender uma coisa e aprenderá outra; ou ainda, que um homem progredirá naquilo que não aprende.

Mas a maioria é enganada por isso, o que enganou também o retor Teopompo, quando ele censura até Platão por querer que tudo fosse definido.

Pois o que ele diz? Acaso nenhum de nós, antes de ti, usou as palavras Bom ou Justo, ou proferimos os sons de maneira vazia e sem sentido, sem compreender o que cada uma significa? Ora, quem te diz, Teopompo, que não tínhamos noções naturais de cada uma dessas coisas e preconcepções (προλήψεις)? Mas não é possível adaptar as preconcepções aos seus objetos correspondentes se não as distinguimos (analisamos) e investigamos que objeto deve ser submetido a cada preconcepção.

Podes fazer a mesma acusação também contra os médicos.

Pois quem entre nós não usava as palavras saudável e doentio antes de Hipócrates existir, ou proferíamos essas palavras como sons vazios? Pois temos também uma certa preconcepção da saúde, mas não somos capazes de adaptá-la. Por essa razão, um diz: abstém-te de alimento; outro diz: dá alimento; outro diz: sangra; e outro diz: usa ventosas.

Qual é a razão? É outra senão que o homem não pode adaptar corretamente a preconcepção da saúde aos casos particulares?

Assim também é nesta matéria, nas coisas que concernem à vida.

"Quem entre nós não fala do bem e do mal, do útil e do inútil; pois quem entre nós não tem uma preconcepção de cada uma dessas coisas? É então uma preconcepção distinta e perfeita? Mostra isso.

Como hei de mostrar isso? Adapta a preconcepção corretamente às coisas particulares.

Platão, por exemplo, submete definições à preconcepção do útil, mas tu à preconcepção do inútil.

É possível então que ambos estejais

¹ Este retórico ou orador, como Epicteto o nomeia, parece ser a mesma pessoa que Teopompo de Quios, o historiador.

² Que Epicteto não compara de todo corretamente a noção do que é salutar ao corpo humano com a noção preconcebida (anticipata notione) do bem e do mal moral, será evidente para aqueles que investigaram cuidadosamente as diversas origens e princípios de nossas noções.' Schweighäuser.

Vê também sua nota sobre ἀντιλήψεις.

EPICTETO.

certos? Como é possível? Não adapta um homem a preconcepção do bem à matéria da riqueza, e outro não à riqueza, mas à matéria do prazer e à da saúde? Pois, em geral, se todos nós que usamos essas palavras conhecemos suficientemente cada uma delas, e não necessitamos de diligência em resolver (tornar distintas) as noções das preconcepções, por que diferimos, por que brigamos, por que nos censuramos uns aos outros?

E por que agora alego esta contenda com outro e falo dela? Se tu mesmo adaptas devidamente as tuas pré-noções, por que és infeliz, por que és impedido? Omitamos por ora o segundo tópico sobre as ocupações (ἐπιτηδεύματα) e o estudo dos deveres que a elas se relacionam.

Omitamos também o terceiro tópico, que se refere aos assentimentos (συγκαταθέσεις): cedo-te esses dois tópicos.

Instemos no primeiro, que apresenta uma demonstração quase óbvia de que não adaptamos devidamente as pré-noções. Desejas tu agora aquilo que é possível e aquilo que te é possível? Por que então és impedido? Por que és infeliz? Não procuras tu agora evitar o inevitável? Por que então te deparas com algo que evitarias? Por que és desafortunado? Por que, quando desejas uma coisa, ela não acontece, e, quando não a desejas, acontece? Pois esta é a maior prova de infelicidade e miséria: desejo algo, e isso não acontece.

E o que é mais miserável do que eu?

Foi porque não pôde suportar isso que Medeia veio a assassinar os seus filhos: um ato de espírito nobre, ao menos sob este ponto de vista, pois ela tinha uma justa opinião sobre o que é não ter sucesso aquilo que uma pessoa deseja.

Então ela diz: "Assim me vingarei dele (meu marido), que me injustiçou e insultou; e que ganharei eu se ele for punido assim? como então se fará? Matarei os meus filhos, mas punirei também a mim mesma: e que me importa?" Esta é a aberração da alma que possui grande energia.

Pois ela não sabia

O tópico dos desejos e aversões.

Ver iii. c. 2.

Compare i. c. 27, 10.

Este é o significado do que Medeia diz na Medeia de Eurípides; Epicteto não reproduz as palavras do poeta.

EPICTETO.

em que consiste o fazer aquilo que desejamos; que não podes obter isso do exterior, nem tampouco pela alteração e nova adaptação das coisas.

Não desejes o homem (Jasão, marido de Medeia), e nada do que desejas deixará de acontecer: não desejes obstinadamente que ele viva contigo: não desejes permanecer em Corinto; e, em uma palavra, não desejes nada senão o que Deus quer.

— E quem te impedirá? Quem te compelirá? Nenhum homem te compelirá mais do que compeliria a Zeus.

Quando você tem um guia assim e seus desejos e anseios são os mesmos que os dele, por que ainda teme a decepção? Abandone seu desejo por riqueza e sua aversão à pobreza, e você será decepcionado em uma, e cairá na outra.

Pois abandone-os em relação à saúde, e você será infeliz; abandone-os em relação a magistraturas, honras, pátria, amigos, filhos, em uma palavra, a qualquer das coisas que não estão no poder do homem (e você será infeliz). Mas abandone-os a Zeus e aos demais deuses; entregue-os aos deuses, deixe que os deuses governem, que seu desejo e sua aversão se alinhem ao lado dos deuses, e em que você será ainda infeliz? Mas se, preguiçoso miserável, você inveja, e se queixa, e tem ciúmes, e teme, e nunca cessa por um único dia de se queixar tanto de si mesmo quanto dos deuses, por que ainda fala em ser educado? Que tipo de educação, homem? Você quer dizer que se ocupou com silogismos sofísticos (συλλογισμῶν μεταπίπτοντων)? Não irá você, se for possível, desaprender todas essas coisas e começar do princípio, e ver ao mesmo tempo que até agora você nem sequer tocou no assunto; e então, começando deste fundamento, não irá você construir tudo o que se segue, de modo que nada aconteça que você não escolha, e nada deixe de acontecer que você escolha?

Dê-me um jovem que tenha vindo à escola com essa intenção, que se tenha tornado um campeão por essa causa e diga: 'Abandono tudo o mais, e é isso que importa.'

Basta para mim que esteja em meu poder passar minha vida livre de impedimentos e livre de perturbações, e estender (apresentar) meu pescoço a todas as coisas como um homem livre, e olhar para o céu como amigo de Deus e não temer nada que possa acontecer. Que qualquer um de vocês aponte tal homem, para que eu possa dizer: 'Vem, jovem, para a posse do que é teu, pois é teu destino adornar a filosofia: tuas são estas posses, teus são estes livros, teus são estes discursos.' Então, quando ele tiver trabalhado suficientemente e se exercitado nesta parte do assunto (topos), que ele venha a mim novamente e diga: 'Desejo ser livre da paixão e livre da perturbação; e desejo, como homem piedoso e filósofo e pessoa diligente, saber qual é meu dever para com os deuses, o que para com meus pais, o que para com meus irmãos, o que para com minha pátria, o que para com estranhos.' (Eu digo) 'Vem também para a segunda questão (topos): isto também é teu.' — 'Mas agora estudei suficientemente também a segunda parte (topos), e eu gostaria de estar seguro e inabalável, e não apenas quando estou acordado, mas também quando estou dormindo, e quando estou cheio de vinho, e quando estou melancólico.' Homem, você é um deus, você tem grandes desígnios.

Não: mas desejo entender o que Crisipo diz em seu tratado do Pseudomenos (o Mentiroso). — Você não vai se enforcar, miserável, com tal intenção? E que bem isso lhe fará? Você lerá tudo com tristeza, e falará aos outros tremendo.

Assim vocês também fazem. 'Você quer, irmão, que eu leia para você, e você para mim?' — Você escreve excelentemente, meu homem; e você também excelentemente no estilo de Xenofonte, e você no estilo de Platão, e você no estilo de Antístenes.

O Pseudomenos era um tratado de Crisipo (Diog. Laert. vii. Crisipo). 'O Pseudomenos era um famoso problema entre os estoicos, e é este. Quando uma pessoa diz: eu minto; ele mente, ou não? Se ele mente, fala a verdade: se fala a verdade, mente. Os filósofos compuseram muitos livros sobre essa dificuldade. Crisipo escreveu seis. Philetas se consumiu estudando para respondê-la.' Sra. Carter.

Epicteto está ridicularizando os homens que se elogiam mutuamente por seus escritos. Upton compara Horácio, Epp. ii. 2. 87. ut alter Alterius sermone meros audiret honores — Ciscedo Alcacus puncto illius? ille meo quis? Quis nisi Callimachus?

Então, depois de terdes contado vossos sonhos uns aos outros, retornais às mesmas coisas: vossos desejos são os mesmos, vossas aversões são as mesmas, vossas buscas são as mesmas, e vossos desígnios e propósitos, desejais as mesmas coisas e trabalhais pelas mesmas.

Em seguida, nem sequer procurais alguém para vos aconselhar, mas vos irritais se ouvis tais coisas (como eu digo). Então dizeis: "Um velho mal-humorado: quando eu partia, ele não chorou nem disse: 'Em que perigo vais incorrer: se saíres ileso, meu filho, acenderei luzes.' Isso é o que um homem de bom coração faria." Será uma grande coisa para vós se retornardes ilesos, e valerá a pena acender luzes para tal pessoa: pois devereis ser imortais e isentos de doença.

Lançando fora, então, como eu digo, essa presunção de pensar que sabemos algo útil, devemos chegar à filosofia como nos aplicamos à geometria e à música: mas se não o fizermos, nem sequer nos aproximaremos da proficiência, ainda que leiamos todas as coleções e comentários de Crisipo e os de Antípatro e Arquedemo.

CAPÍTULO XVIII.

COMO DEVEMOS LUTAR CONTRA AS APARÊNCIAS.

Todo hábito e faculdade é mantido e aumentado pelas ações correspondentes: o hábito de andar, andando; o hábito de correr, correndo.

Se quiserdes ser um bom leitor, lede; se escritor, escrevei.

Mas quando não tiverdes lido por trinta dias consecutivos, e tiverdes feito outra coisa, sabereis a consequência.

Da mesma forma, se tiverdes permanecido deitado por dez dias, levantai-vos

" Compare i. 19. 4.

" Schweighaeuser não tem dúvida de que, em vez de 'coleções', devemos ler 'introduções'. " Quanto a Arquedemo, ver ii. 4, 11; e Antípatro, ii. 19, 2. Ver iv. c. 12.

EPICTETO.

e tentai fazer uma longa caminhada, e vereis como vossas pernas estão enfraquecidas.

Geralmente, então, se quiserdes tornar algo um hábito, fazei-o; se não quiserdes torná-lo um hábito, não o façais, mas acostumai-vos a fazer outra coisa em seu lugar.

Assim é com respeito às afecções da alma: quando vos irritastes, deveis saber que não apenas esse mal vos sobreveio, mas também aumentastes o hábito e, de certa forma, lançastes combustível ao fogo.

Quando tiverdes sido vencido na relação sexual com uma pessoa, não conteis apenas essa única derrota, mas contai que também nutristes e aumentastes vossa incontinência.

Pois é impossível que hábitos e faculdades, alguns deles não sejam produzidos, quando não existiam antes, e outros não sejam aumentados e fortalecidos por atos correspondentes.

Dessa maneira certamente, como dizem os filósofos, também as doenças da mente crescem. Pois quando uma vez desejaste dinheiro, se a razão for aplicada para conduzir à percepção do mal, o desejo é detido, e a faculdade diretriz de nossa mente é restaurada à autoridade original. Mas se não aplicas nenhum meio de cura, ela não retorna mais ao mesmo estado, mas, sendo novamente excitada pela aparência correspondente, inflama-se para desejar mais rapidamente do que antes: e quando isso ocorre continuamente, daí em diante ela se endurece (torna-se calosa), e a doença da mente confirma o amor ao dinheiro.

Pois aquele que teve febre e foi aliviado dela não está no mesmo estado em que estava antes, a menos que tenha sido completamente curado.

Algo semelhante ocorre também nas doenças da alma.

Certos traços e bolhas ficam nela, e a menos que um homem os apague completamente, quando é novamente açoitado nos mesmos lugares, o açoite produzirá não bolhas (vergões), mas feridas.

Se então desejas não ser de temperamento irascível, não alimentes o hábito: não lhe atires nada que o aumente: no início permanece em calma, e conta os dias em que não te iraste.

Eu costumava me encolerizar todos os dias; agora a cada dois dias; depois a cada três, depois a cada quatro.

Mas se interrompeste por trinta dias, faze um sacrifício a Deus.

Pois o hábito no início começa a enfraquecer, e então é completamente destruído.

'Não me irritei hoje, nem no dia seguinte, nem ainda em qualquer dia sucessivo durante dois ou três meses; mas tive cuidado quando algumas coisas excitantes aconteceram.' Fica certo de que estás em bom caminho. Hoje, quando vi uma pessoa bela, não disse a mim mesmo: Quem me dera poder deitar-me com ela, e feliz é o marido dela; pois quem diz isso diz: Feliz é também o adúltero dela.

Nem imagino o resto em minha mente; a mulher presente, despindo-se e deitando-se ao meu lado.

Passo a mão na cabeça e digo:

Muito bem, Epicteto, resolveste um belo pequeno sofisma, muito mais belo do que aquele que é chamado de sofisma mestre.

E se até mesmo a mulher estiver disposta, e der sinais, e enviar mensagens, e se ela também me acariciar e se aproximar de mim, e eu me abstiver e for vitorioso, isso seria um sofisma além daquele que é chamado o Mentiroso, e o Quiescente. Sobre tal vitória como esta, um homem pode justamente orgulhar-se; não por propor o sofisma-mestre.

Como então isso será feito? Esteja disposto, por fim, a ser aprovado por si mesmo, esteja disposto a parecer belo diante de Deus, deseje estar em pureza com o seu próprio eu puro e com Deus.

Então, quando tal aparência o visitar, Platão diz: Recorra a expiações, vá como suplicante aos templos das divindades protetoras.

É até suficiente se você recorrer à companhia de homens nobres e justos, e comparar-se com eles, quer encontre um que esteja vivo ou morto.

Vá a Sócrates e veja-o deitado com Alcibíades, e zombando de sua beleza:

Κομψὸς ἦν ἴσως.

Compare o Evangelho de São João iv. 52, ἐπύθετο οὖν τὴν ὥραν παρ' αὐτῶν ἐν ᾗ κομψότερον ἔσχεν.

Pois agrada a Crisipo que, quando interrogado gradualmente, por exemplo, se três são poucos ou muitos, ele descanse um pouco antes de chegar a muitos; isto é o que eles chamam de ἡσυχάζειν. Cícero, Acad. ii. Pr. 29. Compare Pérsio, Sat. vi. 80:

Depinge ubi sistam.

Inventus.

Crisipo, tui finitor acervi.

A passagem está em Platão, Leis, ix. p. 854, ὅταν σοι προσπίπτῃ τι τῶν τοιούτων δογμάτων, etc.

A conclusão é: 'se você não pode ser curado da sua doença (mental), busque a morte, que é melhor, e parta da vida.' Isso tem alguma semelhança com o preceito em Mateus vi. 29: 'E se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti', etc.

EPICTETO.

considere que vitória ele finalmente descobriu ter conquistado sobre si mesmo; que vitória olímpica; em que número ele se colocou a partir de Hércules; de modo que, pelos deuses, alguém pode justamente saudá-lo: Salve, homem admirável, tu que conquistaste não esses pobres boxeadores e pancratiastas, nem aqueles que são como eles, os gladiadores.

Ao colocar esses objetos do outro lado, você conquistará a aparência: você não será arrastado por ela. Mas, em primeiro lugar, não se deixe levar pela rapidez da aparência, mas diga:

Aparências, esperem por mim um pouco: deixem-me ver quem vocês são e o que pretendem; deixem-me pô-las à prova.

E então não permitas que a aparência te conduza e te desenhe quadros vivos das coisas que se seguirão; pois, se o fizeres, ela te levará para onde bem quiser.

Mas, ao contrário, opõe-lhe alguma outra aparência bela e nobre, e rejeita essa aparência vil.

E se te acostumares a ser exercitado dessa maneira, verás que ombros, que tendões, que força tens.

Mas agora são apenas palavras frívolas, e nada mais.

Este é o verdadeiro atleta: o homem que se exercita contra tais aparências.

Fica firme, infeliz, não sejas arrastado.

Grande é o combate, divina é a obra; é pela realeza, pela liberdade, pela felicidade, pela ausência de perturbação.

Lembra-te de Deus: invoca-o como auxiliador e protetor, assim como os homens no mar invocam os Dióscuros na tempestade.

Pois que tempestade é maior do que aquela que vem das aparências violentas que expulsam a razão? Pois a própria tempestade, o que mais é senão uma aparência? Pois remove o medo da morte, e supõe

¹ Diz-se que Hércules estabeleceu os combates ginásticos e foi o primeiro vencedor.

² Aqueles que obtinham a vitória tanto na luta quanto no pancrácio eram contados na lista de vencedores como ocupando o segundo ou terceiro lugar depois dele, e assim por diante.

³ Segui a conjectura de Wolff, *irai/cray*, em vez da leitura antiga *irai/cray*.

⁴ Comparar iii. 12. 15.

⁵ Castor e Pólux. Horácio, *Carm*. i. 12: —

"Quorum simul alba nautis Stella refulsit, etc."

Gélio, xix. c. 1, 'visa quae vi quadam sua se inferunt noscitanda hominibus.'

EPICTETO.

quantos trovões e relâmpagos quiseres, e saberás que calma e serenidade há na faculdade diretora.

Mas se uma vez fores derrotado e disseres que conquistarás depois, e então disseres o mesmo novamente, fica certo de que por fim estarás em condição tão miserável e tão fraco que nem mesmo saberás depois que estás errando, mas começarás até a fazer apologia (defesas) do teu erro, e então confirmarás como verdadeiro o dito de Hesíodo:

"Com males constantes o procrastinador luta."

CAPÍTULO XIX.

CONTRA AQUELES QUE ABRAÇAM OPINIÕES FILOSÓFICAS APENAS EM PALAVRAS.

O argumento chamado argumento dominante (6 Kvpieviov Aoyos) parece ter sido proposto a partir de tais princípios como estes: há de fato uma contradição comum entre si nestas três proposições, cada duas estando em contradição com a terceira.

As proposições são: que toda coisa passada deve, por necessidade, ser verdadeira; que uma impossibilidade não decorre de uma possibilidade; e que uma coisa é possível a qual nem é nem será verdadeira.

Diodoro, observando esta contradição, empregou a força probatória das duas primeiras para a demonstração desta proposição:

Que nada é possível que não seja verdadeiro e nunca será.

"Considera que toda coisa é opinião, e a opinião está em teu poder.

Tira então, quando escolheres, a tua opinião, e como um marinheiro que dobrou o promontório, acharás calma, tudo estável, e um mar sem ondas." Antonino, xii. 22.

"Hesíodo, Trabalhos e Dias, v. 411.

Compare Gélio xvii. c. 19.

'Vê a longa nota comunicada a Upton por James Harris; e a nota de Schweighaeuser.

'Diodoro, cognominado Cronos, viveu em Alexandria, no tempo de Ptolemeu Sóter.

Era da escola denominada Megárica, e distinto em dialética.

EPICTETO.

Agora, outro sustentará estas duas: Que algo é possível, o qual não é verdadeiro nem jamais será; e Que uma impossibilidade não decorre de uma possibilidade.

Mas ele não admitirá que tudo o que é passado é necessariamente verdadeiro, como os seguidores de Cleantes parecem pensar, e Antípatro copiosamente os defendeu.

Mas outros sustentam as outras duas proposições: Que uma coisa é possível a qual não é verdadeira nem será verdadeira; e Que tudo o que é passado é necessariamente verdadeiro; mas então sustentarão que uma impossibilidade pode decorrer de uma possibilidade.

Mas é impossível sustentar estas três proposições, por causa de sua contradição comum.

Se então alguém me perguntasse: qual destas proposições sustentas tu? Eu lhe responderei que não sei; mas recebi esta história, que Diodoro sustentou uma opinião, os seguidores de Pantoides, creio eu, e Cleantes sustentaram outra opinião, e os de Crisipo uma terceira.

Qual é então a tua opinião? Não fui feito para este propósito, de examinar as aparências que me ocorrem, e comparar o que outros dizem e formar uma opinião própria sobre a coisa.

Portanto, não difiro em nada do gramático.

Quem foi o pai de Heitor? Príamo.

Quem eram seus irmãos? Alexandre e Deífobo.

Quem era sua mãe? Hécuba.

— Eu ouvi essa história.

De quem? De Homero.

E Helânico também, creio eu, escreve sobre as mesmas coisas, e talvez outros como ele.

E o que mais sei sobre o argumento dominante? Nada.

Mas, se sou um homem vaidoso, especialmente em um banquete, surpreendo os convidados enumerando aqueles que escreveram sobre esses assuntos.

Tanto Crisipo escreveu admiravelmente em seu primeiro livro sobre as Possibilidades, quanto Cleantes escreveu especialmente sobre o assunto, e Arquedemo.

Antípatro também escreveu não apenas em sua obra sobre as Possibilidades, mas também separadamente em sua obra sobre o argumento dominante.

Você não leu a obra? Não a li. Leia.

E que proveito terá um homem disso? Ele será mais frívolo e impertinente do que já é; pois que mais ganhaste ao lê-la? Que opinião formaste sobre este assunto? Nenhuma; mas nos falarás de Helena e Príamo, e da ilha de Calipso, que nunca existiu e nunca existirá. E nessa questão, de fato, não é de grande importância se reténs a história, mas não formaste opinião própria.

Mas nos assuntos de moral (Ética) isso nos acontece muito mais do que nessas coisas de que falamos.

Fala-me sobre o bem e o mal.

Ouve:

O vento de Ílion às praias dos cicones
Trouxe-me. — Odisseia, ix. 39.

Das coisas, algumas são boas, algumas são más, e outras são indiferentes.

As boas, então, são as virtudes e as coisas que participam das virtudes; as más são os vícios e as coisas que deles participam; e as indiferentes são as coisas que estão entre as virtudes e os vícios: riqueza, saúde, vida, morte, prazer, dor.

De onde você sabe isso? Helânico o diz em sua história egípcia; pois que diferença faz dizer isso, ou dizer que Diógenes o tem em sua Ética, ou Crisipo ou Cleantes? Examinaste então alguma dessas coisas e formaste uma opinião própria? Mostra como costumas te comportar numa tempestade em alto mar? Lembras-te dessa divisão (distinção das coisas) quando o cordame range e um homem, que nada sabe de tempos e estações, está ao teu lado enquanto gritas e diz: Dize-me, peço-te pelos Deuses, o que estavas dizendo agora há pouco: é um vício sofrer um naufrágio? Isso participa do vício? Não pegarás um bastão e o aplicarás na cabeça dele? Que temos nós a ver contigo, homem? Estamos perecendo e tu vens zombar de nós? Mas se César te convocar para responder a uma acusação, lembras-te da distinção? Se, ao entrares pálido e trêmulo, alguém se aproximar de ti e disser:

Por que tremes, homem? Qual é a questão em que estás envolvido? Será que César, que está sentado lá dentro, dá virtude e vício àqueles que entram para vê-lo? Respondes: Por que também zombas de mim e acrescentas às minhas dores presentes? — Ainda assim, dize-me, filósofo, dize-me por que tremes? Não é a morte de que corres o risco, ou uma prisão, ou a dor do corpo, ou o exílio, ou a desonra? Que mais há? Há algum vício ou algo que participe do vício? Que costumavas dizer então dessas coisas? — 'Que tens tu a ver comigo, homem? Meus próprios males me bastam.' E dizes bem.

Teus próprios males te bastam: tua baixeza, tua covardia, tua jactância que mostraste quando estavas sentado na escola.

'Fala-me', etc.

pode-se supor que seja dito a Epicteto, que tem ridicularizado as sutilezas lógicas e o saber dos gramáticos.

Quando lhe dizem para falar do bem e do mal, ele pega um verso da Odisseia, o primeiro que lhe ocorre, e diz: Escuta.

Não há nada para ouvir, mas é tão bom para o ouvinte quanto qualquer outra coisa.

Então profere alguns princípios filosóficos e, perguntado onde os aprendeu, diz: de Helânico, que era um historiador, não um filósofo.

Ele está zombando do ouvinte: não importa de que autor os aprendi; é tudo o mesmo.

A questão real é: examinaste o que são o Bem e o Mal, e formaste uma opinião própria?

EPICTETO.

Por que você se adornou com o que pertencia a outros? Por que você se chamou de estoico?

Observai-vos assim em vossas ações, e descobrireis a que seita pertenceis.

Descobrireis que a maioria de vós sois epicureus, poucos peripatéticos,¹ e esses fracos.

Pois em que mostrareis que realmente considerais a virtude igual a tudo o mais, ou mesmo superior? Mas mostrai-me um estoico, se puderdes.

Onde ou como? Mas podeis mostrar-me um número infinito que proferem pequenos argumentos dos estoicos.

Pois os mesmos não repetem as opiniões epicureias de modo pior? E os peripatéticos, não as tratam também com igual precisão? Quem, então, é um estoico? Assim como chamamos uma estátua de fídia, que é moldada segundo a arte de Fídias, mostrai-me um homem que é moldado segundo as doutrinas que profere.

Mostrai-me um homem que está doente e feliz, em perigo e feliz, morrendo e feliz, no exílio e feliz, na desgraça e feliz.

Mostrai-o: desejo, pelos deuses, ver um estoico.

Não podeis mostrar-me um moldado assim; mas mostrai-me ao menos um que está se formando, que tenha mostrado uma tendência a ser estoico.

Fazei-me esse favor: não invejeis a um velho ver um espetáculo que ainda não vi.

Pensais que deveis mostrar-me o Zeus de Fídias ou a Atena, uma obra de marfim e ouro? Que qualquer um de vós me mostre uma alma humana pronta a pensar como Deus pensa, e a não culpar nem a Deus nem ao homem, pronta a não se decepcionar com coisa alguma, a não se considerar prejudicada por coisa alguma, a não se irar, a não invejar, a não ter ciúmes; e por que não o diria diretamente? Desejosa, de homem, de tornar-se deus, e neste pobre corpo mortal pensando em sua comunhão com Zeus. Mostrai-me o homem.

Mas não podeis.

Por que então vos iludis e enganais os outros? E por que assumeis uma aparência que não vos pertence, e andais por aí sendo ladrões e pilferadores desses nomes e coisas que não vos pertencem?

E agora eu sou vosso mestre, e vós sois instruídos na minha escola.

E tenho este propósito: tornar-vos livres de restrição, compulsão, impedimento, tornar-vos livres, prósperos, felizes, olhando para Deus em tudo, pequeno e grande.

E vós estais aqui para aprender e praticar essas coisas.

¹ Os peripatéticos permitiam que muitas coisas fossem boas por contribuírem para uma vida feliz; mas ainda assim sustentavam que a menor excelência mental era superior a todas as outras coisas. Cícero, De Fin. v. 5.

CAPÍTULO XX. CONTRA OS EPICURISTAS E ACADÊMICOS.

Por que então você não termina o trabalho, se você também tem tal propósito como deveria ter, e se eu, além do propósito, também tenho tal qualificação como deveria ter? O que é que falta? Quando vejo um artífice e material diante dele, espero o trabalho.

Aqui está então o artífice, aqui o material; o que é que queremos? Não é a coisa algo que pode ser ensinado? É. Não está então em nosso poder? A única coisa de tudo que está em nosso poder.

Nem a riqueza está em nosso poder, nem a saúde, nem a reputação, nem, em uma palavra, qualquer outra coisa, exceto o uso correto das representações.

Este (uso correto) é por natureza livre de restrição, este sozinho é livre de impedimento.

Por que então você não termina o trabalho? Diga-me a razão.

Pois é ou por minha culpa que você não o termina, ou por sua própria culpa, ou pela natureza da coisa.

A coisa em si é possível, e a única coisa em nosso poder.

Resta então que a culpa está ou em mim ou em você, ou, o que está mais próximo da verdade, em ambos.

Bem, então, você está disposto a que comecemos finalmente a trazer tal propósito para esta escola, e a não dar atenção ao passado? Vamos apenas fazer um começo.

Confie em mim, e você verá.

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Notas:

1. Ver ii. c. 8. 20.

2. 'Culpar a Deus' significa culpar a constituição e a ordem das coisas, pois fazer isso parecia a Epicteto absurdo e ímpio; tão absurdo quanto o vaso do oleiro culpar o oleiro, se isso pode ser imaginado, por tê-lo feito sujeito a desgaste e a quebrar.

3. 'Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo,' 1 João i. 3. O leitor atento observará várias passagens além daquelas que foram notadas, nas quais há uma notável conformidade entre Epicteto e as Escrituras; e perceberá a partir delas, ou que os estoicos haviam aprendido muito da linguagem cristã, ou que tratar um assunto praticamente e com seriedade leva os homens a expressões tão fortes como as que frequentemente encontramos nas Escrituras e às vezes nos filósofos, especialmente Epicteto.' Sra. Carter.

4. A palavra 'comunhão' na passagem de João e de Epicteto é Kotpuyia.

5. Ver i. 29. nota 19.

As proposições verdadeiras e evidentes são necessariamente usadas até mesmo por aqueles que as contradizem: e um homem poderia talvez considerar como a maior prova de uma coisa ser evidente o fato de que ela se mostra necessária até mesmo para aquele que a nega, ao mesmo tempo em que a utiliza.

Por exemplo, se um homem negasse que há algo universalmente verdadeiro, é claro que ele deve fazer a negação contraditória, de que nada é universalmente verdadeiro.

O quê, miserável, não admites nem mesmo isto? Pois o que mais é isto senão afirmar que tudo o que é universalmente afirmado é falso? Novamente, se um homem se apresentasse e dissesse: Sabe que não há nada que possa ser conhecido, mas todas as coisas são incapazes de evidência segura; ou se outro dissesse: Crê em mim e serás beneficiado por isso, que um homem não deve crer em coisa alguma; ou ainda, se outro dissesse: Aprende de mim, homem, que não é possível aprender coisa alguma; eu te digo isto e te ensinarei, se quiseres.

Ora, em que aspecto estes diferem daqueles? A quem nomearei? Aqueles que se chamam Acadêmicos? 'Homens, concordai [conosco] que nenhum homem concorda [com outro]: crede em nós que nenhum homem crê em alguém.'

Assim também Epicuro, quando pretende destruir a sociedade natural da humanidade, ao mesmo tempo faz uso daquilo que destrói.

Pois o que ele diz? 'Não sejais enganados, homens, nem vos deixeis desviar, nem vos enganeis: não há sociedade natural entre os animais racionais; crede em mim. Mas aqueles que dizem o contrário vos enganam e vos seduzem por falsas razões.' — O que é isto para ti? Permite-nos ser enganados.

Ficarás pior, se todos nós, os demais, formos persuadidos de que há uma sociedade natural entre nós, e que ela deve por todos os meios ser preservada? Não, será muito melhor e mais seguro para ti.

Homem, por que te preocupas conosco? Por que permaneces desperto por nós? Por que acendes tua lâmpada? Por que te levantas cedo? Por que escreves tantos livros, para que nenhum de nós seja enganado acerca dos deuses e acredite que eles cuidam dos homens; ou para que ninguém suponha que a natureza do bem seja outra senão o prazer? Pois se é assim, deita-te e dorme, e leva a vida de um verme, da qual te julgaste digno: come e bebe, e desfruta das mulheres, e alivia-te, e ronca. E o que te importa como os demais pensarão acerca dessas coisas, seja certo ou errado? Pois o que temos nós a ver contigo? Tu cuidas das ovelhas porque elas nos fornecem lã e leite, e por fim a sua carne.

Não seria desejável

' Cícero, de Fin.

ii. 30. 31, falando da carta que Epicuro escreveu a Hermarco quando estava morrendo, diz 'que as ações de Epicuro eram inconsistentes com seus ditos', e 'seus escritos eram refutados por sua probidade e moralidade.'

■ Paulo diz, Cor.

i. 15. 32: 'Se, como homem, combati com feras em Éfeso, que proveito tenho? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, porque amanhã morreremos.' As palavras 'comamos e bebamos, etc.' são ditas como uma citação da Tais de Menandro.

O significado parece ser que, se eu não creio na ressurreição dos mortos, por que não deveria desfrutar apenas dos prazeres sensuais da vida? Esta não é a doutrina de Epicteto, como vemos no texto.

EPICTETO.

Se os homens pudessem ser embalados e encantados pelos estoicos, e dormir e se apresentar a vós e aos que são como vós para serem tosquiados e ordenhados? Pois isso deveis dizer aos vossos irmãos epicuristas; mas não deveis ocultá-lo dos outros, e sobretudo persuadi-los de que somos por natureza adaptados para a comunhão, que a temperança é uma coisa boa; a fim de que tudo vos seja assegurado? Ou devemos manter essa comunhão com alguns e não com outros? Com quem então devemos mantê-la? Com aqueles que, por sua vez, também a mantêm, ou com aqueles que violam essa comunhão? E quem a viola mais do que vós, que estabeleceis tais doutrinas? O que então despertou Epicuro de sua sonolência e o compeliu a escrever o que escreveu? O que mais foi senão aquilo que é a coisa mais forte nos homens, a natureza, que arrasta o homem à sua própria vontade, ainda que ele esteja relutante e queixoso? Pois, uma vez que, diz ela, pensais que não há comunidade entre os homens, escrevei essa opinião e deixai-a para outros, e interrompei vosso sono para fazer isso, e por vossa própria prática condenai vossas próprias opiniões.

Diremos então que Orestes foi agitado pelas Erínias (Fúrias) e despertado de seu sono profundo, e que Erínias e Dores mais selvagens não despertaram Epicuro de seu sono e não lhe permitiram descansar, mas o compeliriam a dar a conhecer seus próprios males, como a loucura e o vinho fizeram aos Gálatas (os sacerdotes de Cibele)? Tão forte e invencível é a natureza do homem. Pois como pode uma videira ser movida não à maneira de uma videira, mas à maneira de uma oliveira? Ou, por outro lado, como pode uma oliveira ser movida não à maneira de uma oliveira, mas à maneira de uma videira? É impossível: não pode ser concebido.

Nem então é possível para um homem perder completamente os movimentos (afetos) de um homem; e mesmo aqueles que são privados de seus membros genitais não são capazes de se privar dos desejos do homem. Assim, Epicuro também mutilou todos os ofícios de um homem, e de um pai de família, e de um cidadão e de um amigo, mas não o fez.

■ Daria segurança aos epicuristas, que eles gozariam de tudo o que valorizam, se outros homens fossem persuadidos de que somos todos feitos para a comunhão, e que a temperança é uma coisa boa.

 Ver nota de Upton.

EPICTETO.

mutilam os desejos humanos, pois não o podem; não mais do que os Acadêmicos preguiçosos podem lançar fora ou cegar os próprios sentidos, embora tenham tentado com todas as suas forças fazê-lo. Que vergonha é esta? quando um homem recebeu da natureza medidas e regras para o conhecimento da verdade, e não se esforça por acrescentar a essas medidas e regras e por melhorá-las, mas, pelo contrário, procura tirar e destruir tudo o que nos permite discernir a verdade?

Que dizeis, filósofo? piedade e santidade, que pensais que são? Se quiserdes, demonstrarei que são coisas boas.

Pois bem, demonstrai-o. para que os nossos cidadãos sejam convertidos e honrem a divindade e não sejam mais negligentes quanto às coisas de maior valor.

Tendes então as demonstrações? — Tenho, e sou grato.

— Já que estais satisfeito com elas, ouvi o contrário: Que não há Deuses, e, se os há, não cuidam dos homens, nem há qualquer comunhão entre nós e eles; e que esta piedade e santidade de que se fala entre a maioria dos homens é a mentira de fanfarrões e sofistas, ou certamente de legisladores, com o propósito de aterrorizar e refrear os malfeitores. — Muito bem, filósofo, fizestes algo pelos nossos cidadãos, trouxestes todos os jovens ao desprezo das coisas divinas.

— Então, isto não vos satisfaz? Aprendei agora, que a justiça é nada, que a modéstia é loucura, que um pai é nada, um filho é nada.

— Muito bem, filósofo, persistis, persuadi os jovens, para que tenhamos mais com as mesmas opiniões que vós e que digam o mesmo que vós.

De tais princípios como estes cresceram os nossos bem constituídos estados; por estes foi fundada Esparta: Licurgo fixou estas opiniões nos Lacedemônios por suas leis e educação, que nem a condição servil é mais baixa do que honrosa, nem a condição de homens livres é mais honrosa.

Segui a Schweighaeuser, que sugere προσεφέρεσθαι em lugar do manuscrito προσεφέρεσθαι.

Políbio (vi. 56), quando fala do estado romano, elogia os homens de outrora, que estabeleceram nas mentes da multidão as opiniões sobre os deuses e o Hades, nas quais, diz ele, agiram mais sabiamente do que os de seu tempo que destruiriam tais opiniões.

EPICTETO.

do que a base, e que aqueles que morreram nas Termópilas morreram por essas opiniões; e por que outras opiniões os atenienses abandonaram sua cidade? Então aqueles que falam assim casam-se e geram filhos, e ocupam-se dos assuntos públicos, e fazem-se sacerdotes e intérpretes.

De quê? De deuses que não existem: e consultam a sacerdotisa pítia para ouvirem mentiras, e relatam os oráculos a outros.

Monstruosa impudência e impostura.

Homem, o que estás fazendo? Estás refutando a ti mesmo todos os dias; e não abandonarás essas tentativas fúteis? Quando comes, para onde levas a mão? À boca ou ao olho? Quando te lavas, em que entras? Alguma vez chamas uma panela de prato, ou uma concha de espeto? Se eu fosse escravo de algum desses homens, ainda que devesse ser esfolado por ele diariamente, eu o atormentaria.

Se ele dissesse: 'Rapaz, derrama um pouco de azeite no banho', eu pegaria molho de picles e o derramaria sobre sua cabeça.

O que é isto? — diria ele — Uma aparência me foi apresentada, juro pelo teu gênio, que não podia ser distinguida do azeite e era exatamente como ele — Aqui, dá-me a bebida de cevada (tisana), diz ele — eu encheria e lhe levaria um prato de molho picante — Não pedi eu a bebida de cevada? Sim, senhor: esta é a bebida de cevada? Toma-a e cheira; toma-a e prova.

Como sabes então se os nossos sentidos nos enganam? — Se eu tivesse três ou quatro companheiros de escravidão da mesma opinião, eu o forçaria a enforcar-se por paixão ou a mudar de ideia.

Mas agora eles zombam de nós usando todas as coisas que a natureza dá, e em palavras destruindo-as.

Gratos são, de fato, os homens e modestos, que, se

nada mais, comem pão diariamente e ainda têm a desfaçatez de dizer: não sabemos se existe uma Deméter ou sua filha Perséfone ou um Plutão; sem mencionar que desfrutam do dia e da noite, das estações do ano, e das estrelas, e do mar e da terra e da cooperação da humanidade, e ainda assim não são movidos em nenhum grau por essas coisas a voltar sua atenção para elas; mas apenas procuram arrotar seu pequeno problema (matéria para discussão), e quando exercitaram o estômago, vão para o banho.

Mas o que dirão, e sobre quais coisas ou a quais pessoas, e o que seus ouvintes aprenderão com essa conversa, eles não se importam nem no mínimo grau, nem se importam se algum jovem generoso, após ouvir tal conversa, sofrer algum dano com ela, nem se, após sofrer o dano, perder todas as sementes de sua natureza generosa; nem se dermos a um adúltero ajuda para ser desavergonhado em seus atos; nem se um peculador público lançar mão de alguma desculpa astuta dessas doutrinas; nem se outro que negligencia seus pais for confirmado em sua audácia por esse ensinamento.

— O que então, em sua opinião, é bom ou mau? Isto ou aquilo? — Por que então um homem deveria dizer mais algo em resposta a tais pessoas, ou dar-lhes qualquer razão, ou ouvir qualquer razão delas, ou tentar convencê-las? Por Zeus, seria muito mais provável esperar que catamitas mudassem de opinião do que aqueles que se tornaram tão surdos e cegos aos seus próprios males.

" Epicteto está falando de acordo com as noções populares.

Negar Deméter e comer o pão que ela dá é a mesma coisa, nas noções comuns dos gregos, como seria para Epicteto negar a existência de Deus e comer o pão que ele dá.

' Os manuscritos têm iropao-x&'M''- Uapdax'' estaria em conformidade com o resto da passagem.

Mas essa mudança de pessoas é comum em Epicteto.

' 'Isto se assemelha ao que nosso Salvador disse aos líderes judeus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram no reino de Deus antes de vós. Mateus, xxi. 31. Sra. Carter.

A um acadêmico que disse que não compreendia nada, o estoico Ariston respondeu: 'Você não vê nem mesmo a pessoa que está sentada perto de você?' Quando o acadêmico negou, Ariston disse: 'Quem o tornou cego? Quem roubou seu poder de visão?' (Diog. Laert. vii. 163. Upton.)

EPICTETO.

CAPÍTULO XXVII.

DA INCONSISTÊNCIA.

Algumas coisas os homens confessam prontamente, e outras não.

Ninguém, então, confessará que é tolo ou sem entendimento; mas, muito pelo contrário, ouvireis todos os homens dizerem: "Quisera eu ter fortuna igual ao meu entendimento."

Mas os homens confessam prontamente que são tímidos, e dizem: "Sou bastante tímido, confesso; mas quanto aos demais aspectos, não me achareis tolo."

Um homem não confessará prontamente que é intemperante; e que é injusto, não confessará de modo algum.

De nenhuma maneira confessará que é invejoso ou intrometido.

A maioria dos homens confessará que é compassiva.

Qual é, então, a razão? — A coisa principal (o princípio dominante) é a incoerência e a confusão nas coisas que se relacionam ao bem e ao mal.

Mas homens diferentes têm razões diferentes; e geralmente o que imaginam ser torpe, não confessam de modo algum.

Mas supõem que a timidez seja uma característica de boa disposição, e também a compaixão; mas a tolice, a característica absoluta de um escravo.

E não admitem (confessam) de forma alguma as coisas que são ofensas à sociedade.

Mas, no caso da maioria dos erros, por esta razão principalmente são induzidos a confessá-los, porque imaginam que há neles algo de involuntário, como na timidez e na compaixão; e se um homem confessa que é em algum aspecto intemperante, alega o amor (ou a paixão) como desculpa para o que é involuntário.

Mas os homens não imaginam que a injustiça seja de modo algum involuntária.

Há também no ciúme, como supõem, algo de involuntário; e por esta razão confessam também o ciúme.

Vivendo, então, entre tais homens, tão confusos, tão ignorantes do que dizem, e dos males que têm ou não têm, e por que os têm, ou como serão aliviados deles, penso que vale a pena

¹ Schweig.

tem algumas observações sobre o título deste capítulo.

Ele diz 'que este discurso não se mantém no mesmo assunto, mas procede daquilo com que começou para outras coisas.'

EPICTETO.

para um homem vigiar constantemente (e perguntar) se eu também sou um deles, que imaginação tenho sobre mim mesmo, como me conduzo, se me conduzo como um homem prudente, se me conduzo como um homem temperante, se alguma vez digo isto, que fui ensinado a estar preparado para tudo o que possa acontecer.

Tenho eu a consciência, que um homem que nada sabe deveria ter, de que nada sei? Vou ao meu mestre como os homens vão aos oráculos, preparado para obedecer? Ou, como um menino chorão, vou à escola para aprender história e entender os livros que antes não entendia e, se assim acontecer, também explicá-los a outros? — Homem, tiveste uma briga em casa com um pobre escravo, viraste a família de cabeça para baixo, assustaste os vizinhos, e vens a mim como se fosses um sábio, e tomas assento e julgas como expliquei alguma palavra, e como tagarelei o que me veio à cabeça.

Vens cheio de inveja e humilhado, porque nada trazes de casa; e sentas-te durante a discussão pensando em nada mais senão em como teu pai está disposto para contigo e para com teu irmão.

"O que dizem de mim lá? Agora pensam que estou melhorando e dizem: 'Ele voltará com todo o conhecimento.' Quem dera eu pudesse aprender tudo antes de voltar; mas é necessário muito trabalho, e ninguém me envia nada, e os banhos em Nicópolis estão sujos; tudo está ruim em casa, e ruim aqui."

Então dizem: ninguém obtém proveito algum da escola.

— Por quê, quem vem à escola? Quem vem com o propósito de ser melhorado? Quem vem para apresentar suas opiniões a fim de serem purificadas? Quem vem para aprender aquilo de que necessita? Por que te admiras, então, se levas de volta da escola exatamente as coisas que trazes para ela? Pois não vens para depor (teus princípios) ou para corrigi-los, ou para receber outros princípios em seu lugar.

De modo algum, nem nada parecido. Antes, olhas para isto: se já possuis aquilo por que vens.

Καταστολὴς τροφῆς.

Omiti estas palavras porque não as compreendo; nem os comentadores as compreendem. A palavra Καταστολὴ ocorre em ii. 10. 15, onde é inteligível.

Literalmente, 'porque para ti ou por ti nada é trazido de casa.' Talvez o significado seja explicado pelo que se segue. O homem não tem conforto em casa; nada traz pelo pensamento do qual seja consolado.

EPICTETO.

Você deseja tagarelar sobre teoremas? E então? Não vos tornais maiores frívolos? Vossos pequenos teoremas não vos dão alguma oportunidade de exibição? Resolveis silogismos sofísticos. Não examinais as premissas do silogismo chamado "O Mentiroso"? Não examinais silogismos hipotéticos? Por que então ainda vos afligis se recebeis as coisas pelas quais vindes à escola? Sim; mas se meu filho morrer ou meu irmão, ou se eu tiver de morrer ou ser torturado, que bem me farão essas coisas? — Bem, viestes para isto? Para isto vos sentais ao meu lado? Acendestes vossa lâmpada ou permanecestes acordado por isto? Ou, quando saíeis para o passeio, propusestes alguma aparência que vos fora apresentada em vez de um silogismo, e a discutistes com vossos amigos? Onde e quando? Então dizeis: Teoremas são inúteis.

Para quem? Para aqueles que fazem mau uso deles.

Pois colírios não são inúteis para aqueles que os usam como devem e quando devem.

Fomentos não são inúteis.

Halteres¹ não são inúteis; mas são inúteis para alguns, úteis para outros.

Se me perguntardes agora se os silogismos são úteis, dir-vos-ei que são úteis, e, se quiserdes, prová-lo-ei. — Como então me serão úteis de alguma forma? Homem, perguntastes se são úteis para vós, ou perguntastes em geral? Que aquele que sofre de disenteria me pergunte se o vinagre é útil; direi que é útil.

— Será então útil para mim? — Direi: não. Buscai primeiro que a descarga seja estancada e as úlceras fechadas.

E vós, ó homens, curai primeiro as úlceras e estancai a descarga; sede tranquilos em vossa mente, trazei-a livre de distração para a escola, e sabereis que poder a razão tem.

¹ Ver i. 4, nota 5 sobre Halteres.

Ver ii. 25.

EPICTETO.

CAPÍTULO XXII.

SOBRE A AMIZADE.

Aquilo a que um homem se aplica seriamente, isso ele naturalmente ama.

Aplicam-se então os homens seriamente às coisas que são más? De modo algum.

Bem, aplicam-se às coisas que de nenhuma forma lhes dizem respeito? Tampouco a essas.

Resta, então, que eles se ocupam seriamente apenas com as coisas que são boas; e, se se ocupam seriamente com as coisas, também amam tais coisas.

Quem, pois, compreende o que é bom, pode também saber como amar; mas quem não consegue distinguir o bom do mau, e as coisas que não são nem boas nem más de ambas, como poderia possuir o poder de amar? Amar, então, só está ao alcance do sábio.

Como assim? — pode dizer um homem — sou tolo e, no entanto, amo meu filho.

— Na verdade, admiro-me de teres começado por admitir que és tolo.

Pois do que careces? Não podes fazer uso dos teus sentidos? Não distingues as aparências? Não usas do alimento adequado ao teu corpo, do vestuário e da habitação? Por que, então, admites que és tolo? É, em verdade, porque és frequentemente perturbado pelas aparências e ficaste perplexo, e o seu poder de persuasão muitas vezes te vence; e às vezes consideras estas coisas boas, e depois as mesmas coisas más, e por fim nem boas nem más; e, em suma, te entristeces, temes, invejas, és perturbado, mudas.

Esta é a razão pela qual confessas que és tolo.

E não és também inconstante no amor? Mas a riqueza, o prazer e, numa palavra,

Nesta dissertação expõe-se o princípio estoico de que a amizade só é possível entre os bons. Schweig.

Ele diz também que houve outro discurso de Epicteto sobre este assunto, no qual ele expressou algumas das opiniões de Musônio Rufo (i. 1. nota 12). Schweig.

tira esta conclusão de certas palavras de Estobeu; e supõe que esta dissertação de Epicteto estava em um dos últimos quatro livros dos discursos de Epicteto por Arriano, que se perderam.

Cícero (de Amicit.

c. 5) diz 'nisi in bonis amicitiam esse non posse,' e c. 18.

EPICTETO.

as próprias coisas, às vezes as consideras boas, e às vezes más? E não consideras os mesmos homens ora bons, ora maus? E não tens ora um sentimento amigável para com eles, ora um sentimento de inimigo? E ora os elogias, ora os censuras? Sim; também tenho esses sentimentos.

Pois bem, pensas que aquele que foi enganado a respeito de um homem é seu amigo? Certamente não.

E aquele que escolheu um homem como amigo e é de disposição inconstante, tem boa vontade para com ele? Não tem.

E aquele que agora maltrata um homem e depois o admira? Esse homem também não tem boa vontade para com o outro.

Pois bem, nunca viste cachorrinhos acariciando-se e brincando uns com os outros, de modo que dirias: não há nada mais amigável? Mas, para que saibas o que é amizade, lança um pedaço de carne entre eles, e aprenderás.

Lança entre ti e teu filho uma pequena propriedade, e saberás quão depressa ele desejará enterrar-te e quão depressa desejarás que teu filho morra.

Então mudarás de tom e dirás: que filho criei! Há muito tempo ele deseja enterrar-me. Lança uma garota bonita entre vós; e tu, velho, amá-la-ás, e o jovem também a amará.

Se uma pequena fama intervier, ou perigos, será exatamente o mesmo.

Proferirás as palavras do pai de Admeto!

A vida te dá prazer: e por que não a teu pai?

Pensas que Admeto não amava o próprio filho quando este era pequeno? Que não estava em agonia quando a criança teve febre? Que não dizia frequentemente: quisera eu ter a febre em vez da criança? Então, quando a prova (a coisa) veio e se aproximou, vê que palavras proferem.

Não eram Etéocles e Polinices da mesma mãe e do mesmo pai? Não foram criados juntos, não viveram juntos, beberam juntos, dormiram juntos e muitas vezes se beijaram? De modo que, se

O primeiro verso é da Alceste de Eurípides, v. 691. O segundo em Epicteto não está em Eurípides.

Schweighaeuser pensa que foi introduzido no texto a partir de um escolio trivial.

N

EPICTETO.

alguém, creio eu, os tivesse visto, teria ridicularizado os filósofos pelos paradoxos que proferem acerca da amizade.

Mas quando surgiu uma disputa entre eles sobre o poder real, como entre cães por um pedaço de carne, vê o que dizem:

Polinices.

Onde te posicionarás diante das torres?

Etéocles.

Por que me perguntas isso?

Pol. Posicionar-me-ei em frente e tentarei

matar-te.

Et. Eu também desejo fazer o mesmo.

Tais são os desejos que proferem.

Pois universalmente, não te enganes, todo animal não se apega a nada tanto quanto ao seu próprio interesse. Portanto, tudo o que lhe parecer um impedimento a esse interesse, seja um irmão, ou um pai, ou um filho, ou amado, ou amante, ele odeia, repele, amaldiçoa: pois sua natureza é não amar nada tanto quanto o seu próprio interesse; este é pai, e irmão, e parente, e pátria, e Deus.

Quando então os deuses nos parecem ser um impedimento para isso, nós os injuriamos, derrubamos suas estátuas e queimamos seus templos, como Alexandre ordenou que os templos de Esculápio fossem queimados quando seu querido amigo morreu.

Por essa razão, se um homem coloca no mesmo lugar o seu interesse, a santidade, a bondade, a pátria, os pais e os amigos, tudo isso está seguro; mas se ele coloca em um lugar o seu interesse, em outro os seus amigos, e a sua pátria, e os seus parentes, e a própria justiça, tudo isso cede, sendo esmagado pelo peso do interesse.

Pois onde o eu e o meu são colocados, para esse lugar de necessidade o animal se inclina: se na carne, ali está o poder diretivo; se na vontade, ali está; e se está nas coisas externas, ali está.

¹ Das Fenícias de Eurípides, v. 723, etc.

² Compare Eurípides, Hécuba, v. 846, etc.:

— Terrível é aos mortais que tudo se volta, e as necessidades como leis eles estabelecem, fazendo amigos os mais inimigos, e os que antes eram hostis tornando amigos.

³ Alexandre fez isso quando Heféstion morreu. Arriano, Expedição de Alexandre, vii. 14.

EPICTETO.

Se então eu estou lá onde está a minha vontade, somente então serei um amigo como devo ser, e filho, e pai; pois este será o meu interesse: manter o caráter de fidelidade, de modéstia, de paciência, de abstinência, de cooperação ativa, de observar minhas relações (para com todos). Mas se eu me coloco em um lugar, e a honestidade em outro, então a doutrina de Epicuro se torna forte, a qual afirma que ou não há honestidade, ou ela é aquilo que a opinião considera honesto (virtuoso).

Foi por essa ignorância que os atenienses e os lacedemônios se desentenderam, e os tebanos com ambos; e o grande rei se desentendeu com a Hélade, e os macedônios com ambos; e os romanos com os getas. E ainda antes, a guerra de Troia aconteceu por essas razões.

Alexandre era hóspede de Menelau; e se alguém tivesse visto sua disposição amigável, não teria acreditado em quem dissesse que eles não eram amigos.

Mas foi lançado entre eles (como entre cães) um pedaço de carne, uma mulher bonita, e por causa dela surgiu a guerra.

E agora, quando você vê irmãos que são amigos aparentando ter um só pensamento, não conclua daí nada sobre a amizade deles, nem mesmo se eles juram e dizem que é impossível serem separados um do outro.

Pois

Mateus vi. 21: "pois onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração."

"Por 'eu' entende-se aqui o Bem próprio, ou, como Salomão o expressa, Ecl. xii. 13, 'o todo do homem'. O estoico prova excelentemente o inconveniente de colocar isso em qualquer coisa que não seja uma escolha correta (uma disposição e comportamento corretos): mas como é do interesse de cada indivíduo, em todos os casos, fazer essa escolha em preferência ao prazer presente e em desafio aos sofrimentos presentes, só aparece a partir da doutrina de uma recompensa futura." Sra. Carter.

Compare Cícero, De Fin. ii. 15, onde ele fala de Epicuro e traduz as palavras ἀποφαίνεσθαι μηδὲν εἶναι τὸ καλὸν ἢ τὸ ἔνδοξον, "ut enim consuetudo loquitur, id solum dicitur Honestum quod est populari fama gloriosum (ἔνδοξον)." Veja a nota de Schweig.

As disputas dos atenienses com os lacedemônios aparecem principalmente na história da Guerra do Peloponeso. (Tucídides, i. 1). A disputa do grande rei, o rei da Pérsia, é o assunto da história de Heródoto (i. 1). A grande disputa dos macedônios com os persas é o assunto da expedição de Alexandre, de Arriano.

Os romanos estavam em guerra com os getas ou dácios no tempo de Trajano, e podemos supor que Epicteto ainda vivia então.

EPICTETO.

O princípio governante de um homem mau não pode ser confiável, é inseguro, não tem regra certa pela qual seja dirigido, e é dominado em diferentes momentos por diferentes aparências. Mas examinai, não o que outros homens examinam, se eles nasceram dos mesmos pais e foram criados juntos, e sob o mesmo pedagogo; mas examinai somente isto: em que eles colocam seu interesse, se nas coisas externas ou na vontade.

Se nas coisas externas, não os chameis de amigos, assim como não os chameis de confiáveis ou constantes, ou corajosos ou livres; não os chameis nem mesmo de homens, se tendes algum juízo.

Pois não é um princípio da natureza humana o que os faz morder uns aos outros, e abusar uns dos outros, e ocupar lugares desertos ou lugares públicos, como se fossem montanhas, e nos tribunais de justiça exibir os atos de ladrões; nem ainda o que os faz intemperantes e adúlteros e corruptores, nem o que os faz fazer qualquer outra coisa que os homens fazem uns contra os outros através desta única opinião, a de colocarem a si mesmos e seus interesses nas coisas que não estão dentro do poder de sua vontade.

Mas se você ouvir que, na verdade, esses homens consideram o bem apenas ali onde está a vontade, e onde há um uso correto das aparências, não se preocupe mais se eles são pai ou filho, ou irmãos, ou se conviveram por muito tempo e são companheiros; mas, quando tiveres verificado somente isto, declara com confiança que eles são amigos, assim como declaras que são fiéis, que são justos.

Pois onde mais está a amizade senão onde há fidelidade e modéstia, onde há uma comunhão de coisas honestas e de nada mais?

Mas podes dizer: tal pessoa me tratou com consideração por tanto tempo; e não me amava? Como sabes, escravo, se ele não te considerava da mesma forma como limpa os seus sapatos com uma esponja, ou como cuida do seu animal? Como sabes que, quando deixares de ser útil como um vaso, ele não te lançará fora como um prato quebrado? Mas esta mulher é minha esposa, e vivemos juntos por tanto tempo.

E por quanto tempo Erífile viveu com Anfiarao, e foi mãe de filhos e de muitos? Mas um colar interveio entre eles; e o que é um colar? É a opinião acerca de tais coisas.

Esse era o princípio bestial, essa era a coisa que rompeu a amizade entre marido e mulher, aquilo que não permitiu que a mulher fosse esposa nem que a mãe fosse mãe.

E que todo homem entre vós que tenha seriamente resolvido, ou a ser ele próprio um amigo, ou a ter outro por amigo, corte fora essas opiniões, odeie-as, expulse-as de sua alma.

E assim, em primeiro lugar, ele não se censurará a si mesmo, não estará em desacordo consigo mesmo, não mudará de opinião, não se atormentará.

Em segundo lugar, a outro também, que seja semelhante a ele, ele será total e completamente um amigo.

Mas ele suportará o homem que é diferente de si mesmo; será bondoso com ele, gentil, pronto a perdoar por causa de sua ignorância, por causa de seu engano nas coisas da maior importância; mas não será duro com ninguém, estando bem convencido da doutrina de Platão de que toda mente é privada da verdade contra a sua vontade.

Se não puderes fazer isso, ainda assim poderás, em todos os outros aspectos, fazer como fazem os amigos: beber juntos, e hospedar-se juntos, e navegar juntos, e podeis ter nascido dos mesmos pais; pois também as serpentes o são; mas nem elas serão amigas nem vós, enquanto retiverdes essas opiniões bestiais e malditas.

'A velha história de Erífile, que traiu o marido por um colar.

" Ver a nota de Schweighäuser.

EPICTETO.

CAPÍTULO XXIII.

SOBRE O PODER DE FALAR.

Todo homem lerá um livro com mais prazer ou até com mais facilidade, se estiver escrito em caracteres mais belos. Portanto, todo homem também ouvirá com mais prontidão o que é dito, se for expresso por palavras apropriadas e convenientes.

Não devemos dizer então que não há faculdade de expressão: pois essa afirmação é característica de um homem ímpio e também de um homem tímido.

De um homem ímpio, porque ele desvaloriza os dons que vêm de Deus, como se quisesse tirar a utilidade do poder da visão, ou da audição, ou do ver.

Acaso Deus te deu olhos em vão? E em vão infundiu neles um espírito tão forte e de tão hábil artifício, a ponto de alcançar uma longa distância e de moldar as formas das coisas que são vistas? Que mensageiro é tão veloz e vigilante? E em vão fez ele a atmosfera intermediária tão eficaz e elástica, de modo que a visão penetra através da atmosfera que é, por assim dizer, movida? E em vão fez ele a luz, sem cuja presença não haveria utilidade em nenhuma outra coisa?

Homem, não sejas ingrato por esses dons, nem te esqueças das coisas que são superiores a eles.

Mas, na verdade, pelo poder de ver e de ouvir, e até pela própria vida, e pelas coisas que contribuem para sustentá-la, pelos frutos secos, e pelo vinho e pelo azeite, dá graças a Deus: mas lembra-te de que ele te deu algo melhor do que tudo isso, quero dizer, o poder de usá-los, prová-los e estimar o valor de cada um.

Pois o que é isso

A palavra para 'espírito' é *iruevna*, um espírito vital, um espírito animal, um fluido nervoso, como Schweighaeuser o explica, ou como Plutarco diz (*De Placit. Philosoph.* iv. 15), "o espírito que tem o poder da visão, que permeia desde a faculdade principal da mente até a pupila do olho"; e em outra passagem do mesmo tratado (iv. 8), "os instrumentos de percepção são ditos serem espíritos inteligentes (*pneumata noera*) que têm um movimento desde a faculdade principal da mente até os órgãos".

Ver a nota de Schweig.

EPICTETO.

Quem dá informação sobre cada uma dessas faculdades, qual é o valor de cada uma delas? É cada faculdade em si mesma? Alguma vez ouviste a faculdade da visão dizer algo sobre si mesma? Ou a faculdade da audição? Ou o trigo, ou a cevada, ou um cavalo ou um cão? Não; mas eles são designados como ministros e servos para servir à faculdade que tem o poder de fazer uso das aparências das coisas.

E se indagares qual é o valor de cada coisa, de quem indagas? Quem te responde? Como então pode qualquer outra faculdade ser mais poderosa do que esta, que usa as demais como ministras e ela mesma prova cada uma e pronuncia sobre elas? Pois qual delas sabe o que é ela mesma, e qual é o seu próprio valor? Qual delas sabe quando deve empregar-se e quando não? Qual é a faculdade que abre e fecha os olhos, e os desvia dos objetos aos quais não deve aplicá-los, e os aplica a outros objetos? É a faculdade da visão? Não; mas é a faculdade da vontade.

Qual é essa faculdade que fecha e abre os ouvidos? Qual é aquela pela qual eles são curiosos e indagadores, ou, pelo contrário, imóveis diante do que é dito? É a faculdade da audição? Não é outra senão a faculdade da vontade. Essa faculdade então, visto que está no meio de todas as outras faculdades que são cegas e mudas e incapazes de ver qualquer outra coisa exceto os próprios atos para os quais são designadas, a fim de ministrarem a esta (faculdade) e a servirem, mas esta faculdade sozinha vê com agudeza e vê qual é o valor de cada uma das demais; declarará esta faculdade para nós que alguma outra coisa é a melhor, ou que ela mesma o é? E o que mais faz o olho, quando aberto, senão ver? Mas se devemos olhar para a esposa de certa pessoa, e de que maneira, quem nos diz? A faculdade da vontade.

E se devemos acreditar no que é dito ou não acreditar, e se acreditamos, se devemos ser movidos por isso ou não, quem nos diz? Não é a faculdade da vontade?

» Ver i. 1.

Schweighaeuser tem esta nota: 'Aquilo que Epicteto nomeia a προαιρετική δύναμις e posteriormente frequentemente προαίρεσις, é geralmente traduzido por "voluntas" (vontade); mas tem um significado mais amplo do que geralmente se dá à palavra latina, e compreende o intelecto com a vontade, e todo o poder ativo da mente que algumas vezes designamos pelo nome geral de "razão".'

EPICTETO.

Mas esta faculdade de falar e de ornamentar as palavras, se é que existe de fato tal faculdade peculiar, o que mais ela faz, quando há discurso sobre uma coisa, senão ornamentar as palavras e arranjá-las como os cabeleireiros fazem com o cabelo? Mas se é melhor falar ou calar-se, e melhor falar desta ou daquela maneira, e se isto é conveniente ou inconveniente, e a ocasião para cada coisa e o uso, o que mais nos diz senão a faculdade da vontade? Quereis então que ela venha adiante e condene a si mesma?

Que então? Ela (a vontade) diz: se o fato é assim, pode aquilo que serve ser superior àquilo a que serve, pode o cavalo ser superior ao cavaleiro, ou o cão ao caçador, ou o instrumento ao músico, ou os servos ao rei? O que é que faz uso do resto? A vontade.

O que cuida de tudo? A vontade.

O que destrói o homem inteiro, ora pela fome, ora pela forca, e ora por um precipício? A vontade.

Então há algo mais forte nos homens do que esta? E como é possível que as coisas que estão sujeitas a restrição sejam mais fortes do que aquilo que não está? Que coisas são naturalmente formadas para impedir a faculdade da visão? Tanto a vontade quanto as coisas que não dependem da faculdade da vontade. O mesmo se dá com a faculdade da audição, com a faculdade de falar de igual maneira.

Mas o que tem poder natural de impedir a vontade? Nada que seja independente da vontade; mas somente a própria vontade, quando é pervertida.

Portanto, esta (a vontade) é sozinha o vício ou sozinha a virtude.

Sendo então tão grande faculdade e posta sobre todas as demais, que ela (a vontade) venha adiante e nos diga que a mais excelente de todas as coisas é a carne.

Nem mesmo se a própria carne declarasse que é a mais excelente, alguém suportaria que ela dissesse isto.

Mas o que é isso, Epicuro, que pronuncia isto, que escreveu sobre o Fim

 No texto grego, Upton observa que "há muitas passagens nestas dissertações que são ambíguas ou antes confusas por causa das pequenas questões, e porque a matéria não é expandida pela copiosidade oratória, para não mencionar outras causas."

 A leitura geral é kai proairesei.

Salinasius propõe kai aproaireta, o que Schweig.

diz em uma nota que aceita, e assim o traduz no latim; mas em seu texto ele tem kai proaireta.

EPICTETO.

(propósito) do nosso Ser? que escreveu sobre a Natureza das Coisas, que escreveu sobre o Cânon (regra da verdade), que te levou a usar barba, que escreveu quando estava morrendo que passava o último e um dia feliz? Foi isto a carne ou a vontade? Quando admites que possuis algo superior a isto (a vontade)? e não estás louco? estás de fato tão cego e surdo?

Que então? despreza alguém as outras faculdades? Espero que não.

Diz alguém que não há uso ou excelência na faculdade de falar? Espero que não.

Isso seria tolo, ímpio, ingrato para com Deus.

Mas um homem atribui a cada coisa o seu devido valor.

Pois há algum uso até mesmo num asno, mas não tanto como num boi: há também uso num cão, mas não tanto como num escravo: há também algum uso num escravo, mas não tanto como nos cidadãos: há também algum uso nos cidadãos, mas não tanto como nos magistrados.

Não é, de fato, porque algumas coisas são superiores, que devemos subestimar o uso que outras coisas têm.

Há um certo valor no poder de falar, mas não é tão grande quanto o poder da vontade.

Quando então falo assim, que ninguém pense que te peço para negligenciar o poder de falar, pois nem te peço para negligenciar os olhos, nem os ouvidos, nem as mãos, nem os pés, nem o vestuário, nem os sapatos.

Mas se me perguntas o que é então o mais excelente de todas as coisas, o que devo dizer? Não posso dizer o poder de falar, mas o poder da vontade, quando é reta (orthē). Pois é esta que usa o outro (o poder de falar), e todas as outras faculdades, tanto pequenas como grandes.

Pois quando esta faculdade da vontade é posta em retidão, um homem que não é bom torna-se bom:

' Este parece ser o livro que Cícero (Tuscul. iii. 18) intitula sobre o 'sumo bem' (de summo bono), que, como Cícero diz, contém toda a doutrina de Epicuro.

O livro sobre o Cânon ou Regra é mencionado por Veleio em Cícero, *De Nat. Deorum* i. c. 16, como "aquele volume celestial de Epicuro sobre a Regra e o Julgamento". Ver também *De Fin.* i. 19.

Isto é dito em uma carta escrita por Epicuro, quando estava morrendo em grande dor (Diog. Laert. x. 22); Cícero (*De Fin.* ii. c. 30) cita esta carta.

" Os manuscritos têm *prosphoretikēs dynameōs*. Lorde Shaftesbury sugeriu (*praktikēs*), e Salmásio também. Schweighäuser colocou *phrastikēs* no texto, e fez bem.

EPICTETO

mas quando ela falha, o homem se torna mau. É por meio dela que somos infelizes, que somos felizes, que culpamos uns aos outros, que nos agradamos uns aos outros. Em uma palavra, é ela que, se a negligenciamos, causa infelicidade, e se cuidamos dela com atenção, causa felicidade.

Mas tirar a faculdade de falar e dizer que tal faculdade não existe na realidade é ato não apenas de um homem ingrato para com aqueles que a concederam, mas também de um homem covarde: pois tal pessoa me parece temer que, se houver alguma faculdade deste tipo, não sejamos capazes de desprezá-la. Tais também são aqueles que dizem que não há diferença entre beleza e feiura. Então aconteceria que um homem seria afetado da mesma maneira se visse Tersites e se visse Aquiles; da mesma maneira, se visse Helena e qualquer outra mulher. Mas estas são noções tolas e grosseiras, e noções de homens que não conhecem a natureza de cada coisa, mas temem que, se um homem vir a diferença, seja imediatamente capturado e levado, vencido.

Mas esta é a grande questão: deixar a cada coisa o poder (faculdade) que ela tem, e, deixando-lhe esse poder, ver qual é o valor do poder, e aprender o que é o mais excelente de todas as coisas, e perseguir isso sempre, ser diligente quanto a isso, considerando todas as outras coisas de valor secundário comparado a isso, mas ainda assim, tanto quanto pudermos, não negligenciando todas essas outras coisas. Pois devemos cuidar também dos olhos, não como se fossem a coisa mais excelente, mas devemos cuidar deles por causa da coisa mais excelente, porque ela não estará em sua verdadeira condição natural se não usar corretamente as outras faculdades, e preferir algumas coisas a outras.

O que então se faz usualmente? Os homens geralmente agem como um viajante agiria a caminho de seu próprio país, quando entra em uma boa estalagem e, agradado com ela, ali permanecesse.

Homem, esqueceste o teu propósito: não estavas viajando para esta estalagem, mas apenas passando por ela. — Mas esta é uma estalagem agradável.

— E quantas outras estalagens são agradáveis? e quantos prados são agradáveis? contudo, apenas para se passar por eles.

Mas o teu propósito é este: retornar à tua pátria, aliviar teus parentes da ansiedade, cumprir os deveres de cidadão, casar,

EPICTETO.

gerar filhos, ocupar as magistraturas habituais. Pois não vieste para escolher lugares mais agradáveis, mas para viver naqueles onde nasceste e dos quais foste feito cidadão.

Algo semelhante ocorre na matéria que estamos considerando.

Visto que, com o auxílio da palavra e da comunicação que aqui recebes, deves avançar para a perfeição, e purgar a tua vontade e corrigir a faculdade que faz uso das representações das coisas; e visto que é necessário também que o ensino (transmissão) dos teoremas se efetue por um certo modo de expressão e com uma certa variedade e agudeza, algumas pessoas, cativadas por essas próprias coisas, permanecem nelas — uma cativada pela expressão, outra pelos silogismos, outra ainda pelos sofismas, e outra por alguma outra estalagem (πανδοκεῖον) do gênero; e ali ficam e se consomem como se estivessem entre Sereias.

Homem, o teu propósito (negócio) era tornar-te capaz de usar conforme a natureza as representações que te são apresentadas, nos teus desejos não ser frustrado, na tua aversão não cair naquilo que evitarias, nunca ter má sorte (como se poderia dizer), nem jamais ter infortúnio, ser livre, não impedido, não compelido, conformando-te à administração de Zeus, obedecendo-lhe, bem satisfeito com isso, não culpando ninguém, não acusando ninguém de falta, capaz de proferir do fundo da tua alma estes versos:

"Conduze-me, ó Zeus, e tu também, Destino."

Então, tendo este propósito diante de ti, se alguma pequena forma de expressão te agrada, se alguns teoremas te agradam, não

Mas o casamento pode ser feito sem qualquer senso de dever; e a continuação da raça humana é assegurada pelo amor natural do macho e da fêmea pela conjunção.

Ainda assim, é um bom conselho o que o censor romano Metelo deu a seus concidadãos: que, como não podiam viver sem mulheres, fizessem o melhor desse negócio do casamento.

(Gélio, i. 6.)

' O restante dos versos é citado no Encheiridion, s. 52.

EPICTETO.

tu permaneces entre eles e escolhes habitar ali, esquecendo as coisas de casa, e dizes: "Estas coisas são belas"? Quem diz que não são belas? Mas apenas como sendo um caminho de volta para casa, como estalagens o são. Pois o que te impede de ser um homem infeliz, mesmo que fales como Demóstenes? E o que te impede, se podes resolver silogismos como Crisipo, de ser miserável, de te entristecer, de invejar, em uma palavra, de ser perturbado, de ser infeliz? Nada.

Vês então que estas eram estalagens, sem valor algum; e que o propósito diante de ti era outra coisa.

Quando falo assim a algumas pessoas, elas pensam que estou rejeitando o cuidado com o falar ou o cuidado com os teoremas.

Mas não estou rejeitando esse cuidado, mas estou rejeitando o permanecer incessantemente acerca dessas coisas e colocar nossas esperanças nelas.

Se um homem por este ensinamento causa dano àqueles que o ouvem, conta-me também entre os que causam esse dano: pois não sou capaz, quando vejo uma coisa que é a mais excelente e suprema, de dizer que outra o é, para te agradar.

CAPÍTULO XXIV.

A (ou contra) uma pessoa que era uma daquelas que não eram valorizadas (estimadas) por ele.

Certa pessoa lhe disse (a Epicteto): Frequentemente desejei ouvir-te e vim a ti, e nunca me deste qualquer resposta; e agora, se é possível, suplico-te que me digas algo. Pensas, disse Epicteto, que assim como há uma arte em qualquer outra coisa, também há uma arte no falar, e que aquele que tem a arte falará habilmente, e aquele que não a tem falará sem habilidade? — Assim o penso. — Então, aquele que, ao falar, recebe benefício

' Crisipo escreveu um livro sobre a resolução de silogismos. Diógenes Laércio (vii.) diz de Crisipo que ele era tão famoso entre os dialéticos que a maioria das pessoas pensava que, se houvesse Dialética entre os Deuses, não seria outra senão a de Crisipo.

' Ver a nota de Schweig. sobre ἀκαταληκτικῶς.

EPICTETO.

ele mesmo, e é capaz de beneficiar os outros, falará habilmente; mas aquele que é antes prejudicado ao falar e prejudica os outros, "será ele inábil nessa arte de falar? E podes descobrir que alguns são prejudicados e outros beneficiados pelo falar.

E todos os que ouvem são beneficiados pelo que ouvem? Ou descobrirás que entre eles também alguns são beneficiados e alguns prejudicados? — Há ambos também entre estes, disse ele.

— Nesse caso, também então aqueles que ouvem habilmente são beneficiados, e aqueles que ouvem inabilmente são prejudicados? Ele admitiu isso.

Existe então também uma habilidade em ouvir, assim como há em falar? — Parece que sim. — Se quiseres, considera o assunto também desta maneira.

A prática da música, a quem pertence? A um músico.

E a confecção adequada de uma estátua, a quem pensas que pertence? A um estatuário.

E o olhar para uma estátua com habilidade, isso te parece exigir o auxílio de nenhuma arte? — Isso também exige o auxílio da arte.

— Então, se falar adequadamente é a tarefa do homem hábil, vês que também ouvir com benefício é a tarefa do homem hábil? Agora, quanto a falar e ouvir perfeitamente, e utilmente, deixemos por ora, se te agrada, não dizer mais nada, pois ambos estamos muito longe de tudo desse tipo.

Mas penso que todo homem admitirá isto, que aquele que vai ouvir filósofos requer alguma quantidade de prática em ouvir.

Não é assim? Dize-me então sobre o que eu deveria falar contigo: sobre que assunto és capaz de ouvir? — Sobre o bem e o mal.

— O bem e o mal em quê? Em um cavalo? Não. Bem, em um boi? Não. O que então? Em um homem? Sim.

Sabemos então o que é um homem, qual é a noção que temos dele, ou temos nossos ouvidos de algum modo praticados acerca desse assunto? Mas entendes o que é a natureza? ou podes mesmo de algum modo entender-me quando digo: usarei demonstração contigo? Como? Entendes isto mesmo, o que é demonstração, ou como algo é demonstrado, ou por que meios; ou o que são as coisas

¹ Isto é, não consideremos agora se eu sou perfeito na arte de falar, e se tens uma mente bem preparada para extrair real vantagem da conversa filosófica.

Consideremos somente isto, se teus ouvidos estão suficientemente preparados para ouvir, se podes compreender uma discussão filosófica.' Schweig.

EPICTETO.

como demonstração, mas não são demonstração? Sabes o que é verdadeiro ou o que é falso? O que é consequente a uma coisa, o que é repugnante a uma coisa, ou não consistente, ou inconsistente? Mas devo eu incitar-te à filosofia, e como? Mostrar-te-ei a repugnância nas opiniões da maioria dos homens, pela qual diferem acerca das coisas boas e más, e acerca das coisas que são proveitosas e improveitosas, quando tu não sabes esta mesma coisa, o que é repugnância (contradição)? Mostra-me então o que hei de realizar ao discursar contigo: excita a minha inclinação para fazer isso.

Como a grama adequada, quando é apresentada a uma ovelha, move a sua inclinação para comer, mas se lhe apresentares uma pedra ou pão, ela não será movida a comer; assim há em nós certas inclinações naturais também para falar, quando o ouvinte parecer ser alguém, quando ele próprio nos excitar; mas quando ele se sentar ao nosso lado como uma pedra ou como grama, como pode ele excitar o desejo de um homem (de falar)? Diz a videira ao lavrador: Cuida de mim? Não, mas a videira, mostrando em si mesma que será proveitosa ao lavrador, se ele cuidar dela, convida-o a exercer o cuidado.

Quando as crianças são atraentes e vivas, a quem não convidam para brincar com elas, e rastejar com elas, e balbuciar com elas? Mas quem está ansioso para brincar com um asno ou para zurrar com ele? Pois embora seja pequeno, é ainda um asninho.

Por que então não me dizes nada? Só posso dizer-te isto: que quem não sabe quem é, e para que propósito existe, e o que é este mundo, e com quem está associado, e quais são as coisas boas e más, e as belas e feias, e quem não entende nem discurso nem demonstração, nem o que é verdadeiro nem o que é falso, e quem não é capaz de distingui-los, não desejará segundo a natureza, nem se afastará, nem se moverá em direção, nem intentará (agir), nem assentirá, nem dissentirá, nem suspenderá o seu julgamento: para dizer tudo em poucas palavras, ele andará mudo e cego, pensando que é alguém, mas não sendo ninguém.

É isto assim agora pela primeira vez? Não é fato que, desde que a raça humana existe, todos os erros e infortúnios surgiram através desta ignorância?

 Ver nota de Schweig.

EPICTETO.

ranee? Por que Agamemnon e Aquiles discutiram um com o outro? Não foi por não saberem o que é proveitoso e o que não é proveitoso? Não diz um que é proveitoso devolver Criseida a seu pai, e não diz o outro que não é proveitoso? Não diz um que ele deveria tomar o prêmio de outro, e não diz o outro que ele não deveria? Não foi por essas razões que esqueceram, ambos, quem eram e com que propósito ali tinham vindo? Oh, homem, com que propósito vieste? Para ganhar amantes ou para lutar? Para lutar.

Com quem? Com os troianos ou com os helenos? Com os troianos.

Deixas então Heitor de lado e desembainhas tua espada contra teu próprio rei? E tu, ó excelentíssimo senhor, negligencias os deveres do rei, tu que és o guardião do povo e tens tais cuidados; e estás a discutir por uma garotinha com o mais belicoso de teus aliados, a quem deverias por todos os meios cuidar e proteger? E tornas-te pior (inferior) a um sacerdote bem-comportado que trata a ti e a esses belos gladiadores com todo respeito? Vês que tipo de coisas faz a ignorância do que é proveitoso?

Mas eu também sou rico.

És então mais rico que Agamemnon? Mas eu também sou belo.

És então mais belo que Aquiles? Mas eu também tenho belos cabelos.

Mas não tinha Aquiles cabelos mais belos e cor de ouro? E ele não os penteava elegantemente nem os arranjava. Mas eu também sou forte.

Podes então levantar uma pedra tão grande quanto Heitor ou Ájax? Mas eu também sou de nobre nascimento.

És filho de uma mãe deusa? És filho de um pai nascido de Zeus? Que bem então essas coisas lhe fazem, quando ele se senta e chora por uma garota? Mas eu sou um orador.

E ele não era? Não vês como ele lidou com os mais hábeis dos helenos na oratória, Odisseu e Fênix? Como ele lhes calou a boca?

Isto é tudo o que tenho a te dizer; e digo mesmo isto não de bom grado.

Por quê? Porque não me despertaste. Pois a que devo olhar para ser despertado, como homens peritos em equitação são despertados por generosos

¹ No nono livro da Ilíada, onde Aquiles responde aos mensageiros enviados a ele por Agamemnon. A resposta de Aquiles é um exemplo maravilhoso de eloquência.

EPICTETO.

cavalos? Devo olhar para teu corpo? Tu o tratas de forma desonrosa.

Para teu vestuário? Esse é luxuoso.

Para teu comportamento, para teu olhar? Isso é o mesmo que nada.

Quando você quiser ouvir um filósofo, não lhe diga: "Você não me diz nada"; mas apenas mostre-se digno de ouvir, ou apto para ouvir; e você verá como moverá o orador.

CAPÍTULO XXV.

QUE A LÓGICA É NECESSÁRIA.

Quando um dos presentes disse: "Persuade-me de que a lógica é necessária", ele respondeu: "Queres que eu te prove isso?" A resposta foi: "Sim".

— Então devo usar uma forma demonstrativa de discurso.

— Isso foi concedido.

— Como então saberás se estou te enganando com meu argumento? O homem ficou em silêncio.

Vês, disse Epicteto, que tu mesmo estás admitindo que a lógica é necessária, se sem ela não podes saber nem mesmo isto: se a lógica é necessária ou não necessária?

CAPÍTULO XXVI.

QUAL É A PROPRIEDADE DO ERRO.

Todo erro compreende contradição: pois, como quem erra não deseja errar, mas acertar, é evidente que ele não faz o que deseja.

Pois o que o ladrão deseja fazer? Aquilo que é para seu próprio interesse. Se então o furto não é para seu interesse, ele não faz o que deseja.

Mas toda alma racional é por natureza ofendida pela contradição, e enquanto não compreende essa contradição, não é impedida de fazer coisas contraditórias: mas quando compreende a contradição, deve necessariamente evitar a contradição, e evitá-la tanto quanto um homem deve dissentir do falso quando vê que uma coisa é falsa; mas enquanto essa falsidade não lhe aparece, ele assente a ela como à verdade.

Aquele, então, é forte em argumento e tem a faculdade de exortar e confutar, quem é capaz de mostrar a cada homem a contradição pela qual ele erra e provar claramente como ele não faz o que deseja e faz o que não deseja.

Pois se alguém mostrar isto, o homem se retirará por si mesmo daquilo que faz; mas enquanto não mostrares isto, não te surpreendas se um homem persiste em sua prática; pois, tendo a aparência de fazer o certo, ele faz o que faz.

Por essa razão, também Sócrates, confiando nesse poder, costumava dizer: "Costumo não chamar nenhuma outra testemunha do que digo, mas estou sempre satisfeito com aquele com quem estou discutindo, e peço-lhe que dê sua opinião e o chamo como testemunha, e embora ele seja apenas um, ele é suficiente no lugar de todos."

Pois Isócrates sabia por que a alma racional é movida, tal como um par de balanças, e então deve inclinar-se, quer escolha ou não. Mostrai à faculdade racional governante uma contradição, e ela se afastará dela; mas se não lha mostrais, culpai a vós mesmos antes que àquele que não foi persuadido.

Há alguma deficiência no texto.

Cícero (Acad. Prior., i. 12), "ut enim necesse est lancem in libra ponderibus impositis deprimi; sic animum perspicuis cedere", parece suprir a deficiência.

M. Antonino, v. 28; x. i.

LIVRO III.

CAPÍTULO I.

DO PRIMOR NO VESTUÁRIO.

Certo jovem retórico veio ver Epicteto, com os cabelos mais cuidadosamente arranjados do que era habitual e o traje em estilo ornamentado; onde Epicteto disse: Dize-me, não pensas que alguns cães são belos e alguns cavalos, e assim de todos os outros animais?

Assim o penso, respondeu o jovem.

Não são então também alguns homens belos e outros feios? Certamente.

Chamamos então, pela mesma razão, cada um deles belo na mesma espécie, ou cada um belo por algo peculiar? E julgarás deste modo esta questão.

Visto que vemos um cão naturalmente formado para uma coisa, e um cavalo para outra, e para outra ainda, como, por exemplo, um rouxinol, podemos geralmente e não impropriamente declarar cada um deles belo então quando é mais excelente segundo a sua natureza; mas, visto que a natureza de cada um é diferente, cada um deles me parece ser belo de um modo diferente.

Não é assim? Ele admitiu que era.

Aquilo então que faz um cão belo faz um cavalo feio; e o que faz um cavalo belo faz um cão feio, se é verdade que as suas naturezas são diferentes.

Parece que sim. Pois penso que o que faz um pancraciasta belo faz um lutador não ser bom, e um corredor ser ridiculíssimo; e quem é belo para o pentatlo é muito feio para a luta. Assim é, disse ele. O que então faz

Um pancraciasta é um homem treinado para o pancrácio, isto é, tanto para o boxe quanto para a luta.

O pentatlo compreendia cinco exercícios, que são expressos por um verso grego:

Salto, corrida, o disco, o arremesso do dardo, a luta.

Compare Aristóteles, Ret. i. 5.

EPICTETO.

um homem belo? É aquilo que, na sua espécie, faz tanto um cão quanto um cavalo belos? É, disse ele.

O que então faz um cão belo? A posse da excelência de um cão.

E o que torna um cavalo belo? A posse da excelência de um cavalo.

O que então torna um homem belo? Não é a posse da excelência de um homem? E então, se desejas ser belo, jovem, labora nisto: na aquisição da excelência humana.

Mas o que é isto? Observa a quem tu mesmo elogias, quando elogias muitas pessoas sem parcialidade: elogias o justo ou o injusto? O justo.

Elogias o moderado ou o imoderado? O moderado.

E o temperante ou o intemperante? O temperante.

Se então te tornares tal pessoa, saberás que te tornarás belo; mas enquanto negligenciares estas coisas, deves ser feio, ainda que empregues todos os meios para parecer belo.

Além disso, não sei o que te dizer; pois se eu te disser o que penso, hei de te ofender, e talvez deixes a escola e não retornes a ela; e se eu não disser o que penso, vê como estarei agindo, se vens a mim para seres melhorado, e eu não te melhorar em nada, e se vens a mim como a um filósofo, e eu nada te disser como filósofo.

E quão cruel é para ti deixar-te sem correção.

Se em algum momento depois adquirires juízo, com justa razão me culparás e dirás:

O que Epicteto observou em mim, que, ao ver-me em tal estado, vindo a ele em tão escandalosa condição, me negligenciou e nunca disse uma palavra? Desesperou ele tanto de mim? Não era eu jovem? Não era eu capaz de ouvir a razão? E quantos outros jovens nesta idade cometem muitos erros semelhantes? Ouço que um certo Polemon, de um jovem dissoluto, passou por tão grande transformação.

Bem, suponha que ele não pensasse que eu me tornaria um Polemon; contudo, ele poderia ter corrigido meus cabelos, poderia ter-me despido dos meus enfeites, poderia ter-me impedido de depilar o corpo; mas quando me viu vestido como — que direi? — ele permaneceu em silêncio.

Não digo como; mas tu dirás quando recobrares o juízo, e souberes o que é, e que pessoas usam tal vestimenta.

Se você me acusar disso daqui em diante, que defesa farei? Ora, direi que o homem não será persuadido por mim? Foi Laio persuadido por Apolo? Não foi ele embora, embriagou-se e não deu atenção ao oráculo? Então, por essa razão, Apolo recusou-se a dizer-lhe a verdade? Eu, de fato, não sei se você será persuadido por mim ou não; mas Apolo sabia com toda a certeza que Laio não seria persuadido e, ainda assim, falou.

Mas por que ele falou? Eu respondo.

Mas por que ele é Apolo, e por que ele profere oráculos, e por que ele se fixou neste lugar como profeta e fonte de verdade, e para que os habitantes do mundo recorram a ele? E por que as palavras "Conhece-te a ti mesmo" estão escritas diante do templo, embora ninguém lhes dê atenção?

Sócrates persuadiu todos os seus ouvintes a cuidarem de si mesmos? Nem a milésima parte.

No entanto, depois de ter sido colocado nessa posição pela divindade, como ele mesmo diz, nunca a abandonou. Mas o que ele diz até mesmo aos seus juízes? "Se me absolverdes sob estas condições, de que eu não faça mais o que faço agora, não consentirei e não desistirei; mas irei tanto aos jovens quanto aos velhos e, para falar claramente, a todo homem que encontrar, e farei as perguntas que faço agora; e farei isso especialmente a vós, meus concidadãos, porque me sois mais próximos." — És tão curioso, Sócrates, e tão intrometido? E como isso te concerne, o modo como agimos? E o que é que dizes? Sendo da mesma comunidade e do mesmo sangue, negligencias a ti mesmo e te mostras um mau cidadão para o Estado, e um mau parente para os teus parentes, e um mau vizinho para os teus vizinhos.

Quem és tu então? — Aqui é uma grande coisa dizer: "Sou aquele cujo dever é cuidar dos homens; pois não é toda bezerrinha que ousa resistir a um leão; mas se o touro se aproxima e lhe resiste, dize ao touro, se quiseres: 'e quem és tu, e que negócio tens aqui?'" Homem, em cada espécie produz-se algo que se sobressai; nos bois, nos cães, nas abelhas, nos cavalos.

Não digas, então, àquilo que se sobressai: "Quem és tu então?" Se o fizeres, isso encontrará voz de alguma maneira e dirá: "Sou tal como a púrpura em uma vestimenta; não esperes que eu seja como os outros, nem culpes minha natureza por ter-me feito diferente do restante dos homens."

Que então? Sou eu tal homem? Certamente não.

E és tu tal homem que pode ouvir a verdade? Quisera eu que fosses.

Mas, contudo, já que de certo modo fui condenado a usar barba branca e manto, e vens a mim como a um filósofo, não te tratarei com crueldade, nem tampouco como se desesperasse de ti, mas direi:

Jovem, a quem desejas tornar belo? Em primeiro lugar, sabe quem és e então adorna-te apropriadamente.

És um ser humano; e este é um animal mortal que tem o poder de usar as representações racionalmente.

Mas o que se entende por "racionalmente"? Conforme à natureza e completamente.

Que possuis então de peculiar? É a parte animal? Não. É a condição de mortalidade? Não. É o poder de usar as representações? Não. Possuis a faculdade racional como algo peculiar: adorna e embeleza esta; mas deixa teu cabelo àquele que o fez como escolheu.

Vamos, que outras designações tens? És homem ou mulher? Homem.

Adorna-te então como homem, não como mulher.

A mulher é naturalmente lisa e delicada; e se tem muito cabelo (no corpo), é um monstro e é exibida em Roma entre os monstros.

E.

Num homem é monstruoso não ter cabelo; e se ele não tem cabelo, é um monstro; mas se ele corta os cabelos e os arranca, que faremos com ele? Onde o exibiremos? E sob que nome o mostraremos? Exibirei a vós um homem que prefere ser mulher a ser homem.

Que visão terrível! Não há homem que não se admire de tal aviso.

De fato, creio que os homens que arrancam os cabelos fazem o que fazem sem saber o que fazem. Homem, que falta tens a encontrar na tua natureza? Que ela te fez homem? E então? Convinha que a natureza fizesse todas as criaturas humanas mulheres? E que vantagem terias tu então em ser adornado? Para quem te adornarias, se todas as criaturas humanas fossem mulheres? Mas não estás satisfeito com a matéria: põe mãos à obra então em todo o negócio. Tira — qual é o seu nome? — aquilo que é a causa dos cabelos: faze-te mulher em todos os aspectos, para que não sejamos enganados: não faças metade homem e metade mulher.

A quem desejas agradar? Às mulheres? Agrada-lhes como homem.

Pois bem; mas elas gostam de homens imberbes.

Não te enforcarás? E se as mulheres se deleitassem em catamitas, tornar-te-ias um? É este o teu ofício? Nasceste para este propósito, que mulheres dissolutas se deleitem em ti? Faremos de um tal como tu um cidadão de Corinto e porventura um prefeito da cidade, ou chefe da juventude, ou general ou superintendente dos jogos? E então, quando tiveres tomado esposa, pretendes ter os teus cabelos arrancados? Para agradar a quem e com que propósito? E quando tiveres gerado filhos, introduzi-los-ás também no estado com o hábito de arrancar os cabelos? Um belo cidadão, e senador e retórico.

Deveríamos orar para que tais jovens nasçam entre nós e sejam criados.

Não faças isso, eu te suplico pelos Deuses, jovem; mas quando tiveres ouvido estas palavras, vai-te e dize a ti mesmo: 'Epicteto não me disse isto; pois como poderia? Mas algum Deus propício através dele: pois nunca lhe teria vindo ao pensamento dizer isto, já que ele não está acostumado a falar assim com ninguém.'

Vinde, então, obedeçamos a Deus, para que não estejamos sujeitos à sua ira.' Dizeis vós. Não. Mas (eu digo), se um corvo pelo seu grasnar significa alguma coisa para vós, não é o corvo que significa, mas Deus através do corvo; e se ele significa alguma coisa através de uma voz humana, não fará ele com que o homem vos diga isto, para que conheçais o poder da divindade, que ele significa para uns de um modo, e para outros de outro modo, e acerca das coisas maiores e mais importantes ele significa através do mais nobre mensageiro? Que outra coisa é o que o poeta diz:

"Pois nós mesmos o advertimos, e enviamos Hermes, o vigilante cuidadoso, o matador de Argos."

O esposo, que não matasse nem desposasse a esposa.

Iria Hermes descer do céu para dizer isto a ele (Egisto)? E agora os Deuses vos dizem isto e enviam o mensageiro, o matador de Argos, para vos advertir que não pervertais o que está bem ordenado, nem vos ocupeis com isso, mas permitais que um homem seja um homem, e uma mulher seja uma mulher, um homem belo seja como um homem belo, e um homem feio como um homem feio, pois vós não sois carne e cabelo, mas sois vontade (προαίρεσις); e se a vossa vontade é bela, então sereis belos.

Mas até o presente momento não ouso dizer-vos que sois feios, pois penso que estais mais prontos a ouvir qualquer coisa do que isto.

Mas vede o que Sócrates diz ao mais belo e florescente dos homens, Alcibíades: Tenta então ser belo.

O que ele lhe diz? Arranja o teu cabelo e depila as tuas pernas? Nada disso. Mas adorna a tua vontade, remove as más opiniões.

Como com o corpo? Deixa-o como é por natureza.

Outro cuidou destas coisas: confia-lhas.

"O quê, então, deve um homem ser imundo? Certamente não; mas o que tu és e és feito por natureza, limpa isto.

Um homem deve ser limpo como homem, uma mulher como mulher, uma criança como criança.

Dizeis não: mas arranquemos também a juba do leão, para que ele não seja imundo, e a crista do galo, pois ele também deve ser limpo.

Concedido, mas como galo, e o leão como leão, e o cão de caça como cão de caça.

CAPÍTULO II.

EM QUE UM HOMEM DEVE SER EXERCITADO QUANDO JÁ FEZ PROGRESSO; E QUE NEGLIGENCIAMOS AS COISAS PRINCIPAIS.

Há três coisas (tópicos, *tottoi*) nas quais um homem deve exercitar-se, se quiser ser sábio e bom. A primeira concerne aos desejos e às aversões, para que o homem não deixe de obter o que deseja e não caia naquilo que não deseja. A segunda concerne aos movimentos (em direção a um objeto) e aos movimentos de afastamento de um objeto e, em geral, ao fazer o que o homem deve fazer, para que aja segundo a ordem, a razão, e não descuidadamente.

A terceira coisa concerne à liberdade de engano e à precipitação no julgamento e, em geral, concerne aos assentimentos (*sunkatatheseis*). Destes tópicos, o principal e o mais urgente é o que se relaciona aos afetos (*ta pathē*, perturbações); pois um afeto não é produzido de outra maneira senão pelo fracasso em obter o que o homem deseja ou por cair naquilo que o homem desejaria evitar.

É isto que traz perturbações, desordens, má fortuna, infortúnios, dores, lamentações e inveja; é isto que torna os homens invejosos e ciumentos; e por essas causas somos incapazes até mesmo de ouvir os preceitos da razão. O segundo tópico concerne aos deveres de um homem; pois não devo ser livre de afetos (*apatheia*) como uma estátua, mas devo manter as relações (*skheseis*) naturais e adquiridas, como homem piedoso, como filho, como pai, como cidadão.

O terceiro tópico é o que concerne imediatamente àqueles que estão progredindo, o que concerne à segurança dos outros dois, de modo que nem mesmo no sono qualquer aparência não examinada nos surpreenda, nem na intoxicação, nem na melancolia.

Isto, pode-se dizer, está acima do nosso poder.

Mas os filósofos atuais, negligenciando o primeiro tópico e o segundo (as afecções e os deveres), ocupam-se do terceiro, usando argumentos sofísticos (μεταπίπτοντας), tirando conclusões de questionamentos, empregando hipóteses, mentindo.

Pois um homem deve, como se diz, quando ocupado com essas matérias, cuidar para não ser enganado.

Quem deve? O homem sábio e bom.

Isto, então, é tudo o que vos falta.

Trabalhaste com sucesso o resto? Estás livre do engano no que diz respeito ao dinheiro? Se vês uma bela moça, resistes à aparência? Se o teu vizinho obtém uma propriedade por testamento, não te afliges? Agora, não te falta nada além da firmeza de mente inalterável (ἀμεταπτωσία)? Infeliz, ouves essas mesmas coisas com medo e ansiedade de que alguém te despreze, e com indagações sobre o que qualquer pessoa possa dizer a teu respeito.

E se um homem vier e te disser que em certa conversa, na qual a questão era quem era o melhor filósofo, um homem presente disse que certa pessoa era o principal filósofo, a tua pequena alma, que tinha apenas um dedo de comprimento, estica-se para dois côvados.

Mas se outro presente disser: Estás enganado; não vale a pena ouvir certa pessoa, pois o que ele sabe? Ele tem apenas os primeiros princípios, e nada mais? Então te confundes, empalideces, e clamas imediatamente: Eu lhe mostrarei quem sou, que sou um grande filósofo.

— Isso se vê por essas mesmas coisas: por que desejas mostrá-lo por outras? Não sabes que Diógenes apontou um dos sofistas dessa maneira, estendendo o dedo médio? E então, quando o homem estava furioso de raiva.

Este, disse ele, é a certa pessoa: eu o apontei para vós.

Pois um homem não é mostrado pelo dedo, como uma pedra ou um pedaço de madeira; mas quando alguém mostra os princípios do homem, então o mostra como homem.

Vejamos também os teus princípios.

Pois não é evidente que você não valoriza absolutamente a sua própria vontade (prohairesis), mas olha externamente para coisas que são independentes da sua vontade? Por exemplo, o que certa pessoa dirá? E o que pensarão de você? Será que você será considerado um homem erudito; leu Crisipo ou Antípatro? Pois se você leu também Archedemo, você tem tudo [o que pode desejar]. Por que você ainda está inquieto, temendo não nos mostrar quem você é? Permitiria que eu lhe dissesse que tipo de homem você nos mostrou que é? Você se exibiu a nós como um sujeito mesquinho, queixoso, apaixonado, covarde, achando defeito em tudo, culpando a todos, nunca tranquilo, vaidoso: é isso que você nos exibiu. Vá agora e leia Archedemo; então, se um rato saltar e fizer barulho, você está morto.

Pois tal morte o aguarda como aconteceu — qual era o nome do homem? — Crinis; e ele também era orgulhoso, porque entendia Archedemo.

"Infeliz, você não deixará de lado essas coisas que não lhe dizem respeito de forma alguma? Essas coisas são adequadas àqueles que podem aprendê-las sem perturbação, àqueles que podem dizer: 'Não estou sujeito à ira, ao pesar, à inveja: não sou impedido, não sou contido.'"

O que me resta? Tenho lazer, estou tranquilo: vejamos como devemos lidar com argumentos sofísticos; vejamos como, quando um homem aceita uma hipótese, ele não será levado a algo absurdo. A eles tais coisas pertencem.

Para aqueles que são felizes, é apropriado acender o fogo, jantar; se escolherem, tanto cantar quanto dançar.

Mas quando o navio está afundando, você vem a mim e iça as velas.

CAPÍTULO III.

QUAL É A MATÉRIA NA QUAL UM BOM HOMEM DEVE SE OCUPAR, E NO QUE DEVEMOS PRINCIPALMENTE NOS EXERCITAR.

A matéria para o homem sábio e bom é a sua própria faculdade diretriz; e o corpo é a matéria para o médico e para o untador (o homem que unge as pessoas); a terra é a matéria para o agricultor.

O negócio do homem sábio e bom é usar as aparências conforme a natureza: e assim como é da natureza de toda alma assentir à verdade, dissentir do falso, e permanecer em suspenso quanto ao que é incerto; assim também é da sua natureza ser movida ao desejo do bem, e à aversão do mal; e com respeito ao que não é nem bom nem mau, ela se sente indiferente.

Pois assim como ao cambista (banqueiro) não é permitido rejeitar a moeda de César, nem ao vendedor de ervas, mas se você mostrar a moeda, quer ele queira ou não, ele deve dar o que é vendido pela moeda; assim também é no que diz respeito à alma.

Quando o bem aparece, imediatamente

' Ver este capítulo acima.

 Tovs (TKpipovs.

Sobre esta leitura, o estudante pode consultar a nota na edição de Schweighaeuser.

A palavra vKpipovs, se for a leitura correta, não é clara; nem o significado desta conclusão.

O filósofo é representado como estando cheio de ansiedade sobre coisas que não lhe dizem respeito, e que são assuntos próprios apenas para aqueles que estão livres de paixões perturbadoras e são bastante felizes, o que não é a condição do filósofo.

Ele é comparado a um navio que afunda, e neste exato momento supõe-se que ele esteja empregado no trabalho inútil de içar as velas.

EPICTETO.

atrai a si; o mal repele de si.

Mas a alma nunca rejeitará a manifestação evidente do bem, assim como as pessoas não rejeitarão a moeda de César.

Neste princípio depende todo movimento tanto do homem quanto de Deus.

Por esta razão, o bem é preferido a toda relação íntima (obrigação). Não há relação íntima entre mim e meu pai, mas há entre mim e o bem.

Você é tão duro de coração? Sim, pois tal é a minha natureza; e esta é a moeda que Deus me deu. Por esta razão, se o bem é algo diferente do belo e do justo, tanto o pai é abandonado (negligenciado), quanto o irmão e a pátria, e tudo o mais.

Mas devo eu desconsiderar o meu próprio bem, para que você o tenha, e devo eu cedê-lo a você? Por quê? Eu sou seu pai.

Mas você não é o meu bem.

Eu sou seu irmão.

Mas você não é o meu bem.

Mas se colocarmos o bem numa reta determinação da vontade, a própria observância das relações da vida é boa, e, consequentemente, aquele que renuncia a quaisquer coisas externas obtém aquilo que é bom.

Seu pai toma sua propriedade.

Mas ele não o prejudica.

Teu irmão terá a maior parte da herança em terras.

Deixa-o ter quanto escolher.

Terá ele então uma maior porção de modéstia, de fidelidade, de afeição fraternal? Pois quem te expulsará desta posse? Nem mesmo Zeus, pois nem ele assim o escolheu; mas ele tornou isto dependente do meu próprio poder, e o concedeu a mim assim como ele próprio o possuía, livre de impedimento, compulsão e obstáculo.

Quando, então, a moeda que outro usa é uma moeda diferente, se um homem apresenta esta moeda, ele recebe aquilo que se vende por ela. Suponhamos que chegue à província um procônsul ladrão; que moeda ele usa? Moeda de prata.

Mostra-lha, e leva o que quiseres.

Suponhamos que venha um adúltero: que moeda ele usa? Meninas.

Toma, diz um homem, a moeda, e vende-me a pequena coisa.

Dá, diz o vendedor, e compra [o que queres]. Outro é ávido de possuir rapazes.

Dá-lhe a moeda, e recebe o que desejas.

Outro é afeiçoado à caça: dá-lhe um belo cavalo ou um cão.

Embora ele gema e se lamente, venderá por isso aquilo que queres.

Pois outro

» Comp.

i. 19, 11.

EPICTETO.

o compele por dentro, aquele que fixou (determinou) esta moeda.

Contra (ou com respeito a) esta espécie de coisa principalmente deve um homem exercitar-se.

Assim que saíres pela manhã, examina cada homem que vires, cada homem que ouvires; responde como a uma pergunta: Que viste? Um homem ou mulher formosos? Aplica a regra.

Isto é independente da vontade, ou dependente? Independente.

Retira-o.

Que viste? Um homem lamentando-se pela morte de um filho.

Aplica a regra.

A morte é uma coisa independente da vontade.

Retira-a.

Encontrou-te o procônsul? Aplica a regra.

Que espécie de coisa é o ofício de procônsul? Independente da vontade, ou dependente dela? Independente.

Retira também isto: não resiste ao exame; lança-o fora: nada é para ti.

Se praticássemos isto e nisto nos exercitássemos diariamente, de manhã à noite, algo de fato se faria.

Mas agora somos de imediato apanhados meio adormecidos por toda aparência, e é apenas, se tanto, que na escola despertamos um pouco.

Então, quando saímos, se vemos um homem a lamentar-se, dizemos: Está perdido.

Se vemos um cônsul, dizemos: É feliz.

Se vemos um exilado, dizemos: É miserável.

Se vemos um pobre, dizemos: É desgraçado; não tem o que comer.

Devemos então erradicar essas más opiniões e, para esse fim, dirigir todos os nossos esforços.

Pois o que é o choro e o lamento? Opinião.

O que é a má sorte? Opinião.

O que é a sedição civil, o que é a opinião dividida, o que é a censura, o que é a acusação, o que é a impiedade, o que é a

A Sra. Carter compara a Epístola aos Romanos, vii. 21-23. Schweighaeuser diz que o homem ou vê que a coisa que está fazendo é má ou injusta, ou por qualquer outra razão não a faz voluntariamente; mas é compelido e se deixa levar pela paixão que o domina.

O 'outro' que compele é Deus, diz Schweig., que fez a natureza do homem tal que ele deve adiar tudo o mais para aquilo em que coloca o seu Bem; e acrescenta que é culpa do homem se ele coloca o seu bem naquilo em que Deus não o colocou.

Alguns não considerarão isso satisfatório. O homem é 'compelido e se deixa levar', etc. A noção de 'compulsão' é inconsistente com o exercício da vontade. O homem é azarado. Ele é como aquele 'que vê', como diz o poeta latino, 'as coisas melhores e as aprova, mas segue as piores.'

EPICTETO.

trifling? Todas essas coisas são opiniões, e nada mais, e opiniões sobre coisas independentes da vontade, como se fossem boas e más.

Que um homem transfira essas opiniões para as coisas dependentes da vontade, e eu lhe garanto que ele será firme e constante, qualquer que seja o estado das coisas ao seu redor.

Tal como é um prato de água, tal é a alma.

Tal como é o raio de luz que cai sobre a água, tais são as aparências.

Quando a água é movida, o raio também parece ser movido, mas não é movido.

E quando então um homem é tomado por vertigem, não são as artes e as virtudes que são confundidas, mas o espírito (o poder nervoso) sobre o qual elas estão impressas; mas se o espírito for restaurado ao seu estado estável, essas coisas também são restauradas.

CAPÍTULO IV.

CONTRA UMA PESSOA QUE MOSTROU SEU PARTIDARISMO DE MANEIRA INDECENTE NUM TEATRO.

O governador do Épiro tendo mostrado seu favor a um ator de maneira indecente e sendo publicamente censurado por isso, e depois tendo relatado a Epicteto que foi censurado e que estava irritado com aqueles que o censuravam, Epicteto disse: Que mal eles estavam fazendo? Esses homens também estavam agindo como partidários, assim como você estava fazendo.

O governador respondeu: Então alguma pessoa mostra seu partidarismo dessa maneira? Quando eles veem você, disse Epicteto, que é seu governador, amigo de César e seu representante, mostrando partidarismo dessa maneira, não era de se esperar que eles também mostrassem seu partidarismo da mesma forma? Pois se não é certo mostrar partidarismo dessa maneira, não o faças tu mesmo; e se é certo, por que te irritas se eles seguiram teu exemplo? Pois a quem têm os muitos para imitar senão a ti, que és seu superior? A cujo exemplo devem olhar quando vão ao teatro senão ao teu? Vê como o representante de César observa: ele gritou, e eu também então gritarei. Ele salta de seu assento, e eu saltarei. Seus escravos sentam-se em vários lugares do teatro e clamam. Não tenho escravos, mas eu mesmo gritarei o quanto puder e tão alto quanto todos eles juntos. Deves então saber que, quando entras no teatro, entras como regra e exemplo para os demais de como devem observar a representação.

"Por que então te censuraram? Porque todo homem odeia aquilo que é um obstáculo para ele. Eles desejavam que uma pessoa fosse coroada; tu desejavas outra. Eles foram um obstáculo para ti, e tu foste um obstáculo para eles. Tu foste considerado o mais forte; e eles fizeram o que puderam; censuraram aquilo que os obstruía. O que então queres? Que faças o que te agrada, e que eles nem mesmo digam o que lhes agrada? E qual é a maravilha? Não abusam os lavradores de Zeus quando são obstruídos por ele? Não abusam dele os marinheiros? Cessam eles alguma vez de abusar de César? O que então? Não sabe Zeus? Não é o que se diz relatado a César? O que ele faz então? Ele sabe que, se punisse todos os que dele abusam, não teria ninguém sobre quem governar. O que então? Quando entras no teatro, não deves dizer: Que Sófron (algum ator) seja coroado, mas deves dizer isto: Vinde, deixe-me manter minha vontade neste assunto de modo que seja conforme à natureza: nenhum homem me é mais caro do que eu mesmo. Seria então ridículo que eu fosse ferido (prejudicado) para que outro, que é ator, fosse coroado. A quem então desejo que obtenha o prêmio? Por que o ator que de fato obtém o prêmio; e assim sempre obterá o prêmio aquele que eu desejo que o obtenha. — Mas eu quero que Sófron seja coroado."

— Celebra tantos jogos quantos escolheres em tua própria casa, Nereanos, Pítios, Ístmicos, Olímpicos, e proclama-o vencedor.

Mas em público não reivindiques mais do que te é devido, nem tentes apropriar-te daquilo que pertence a todos.

Se não consentes nisto, suporta ser injuriado: pois quando fazes o mesmo que a maioria, colocas-te no mesmo nível deles.

EPICTETO.

CAPÍTULO V

CONTRA AQUELES QUE, POR CAUSA DE DOENÇA, PARTEM PARA CASA.

Estou doente aqui, disse um dos discípulos, e desejo voltar para casa.

— Em casa, suponho, estavas livre da doença.

Não consideras se estás fazendo algo aqui que possa ser útil ao exercício de tua vontade, para que ela seja corrigida? Pois se não estás fazendo nada nesse sentido, foi em vão que vieste.

Vai embora.

Cuida de teus assuntos em casa.

Pois se tua faculdade diretriz não pode ser mantida em um estado conforme à natureza, é possível que tua terra possa, que sejas capaz de aumentar teu dinheiro, que cuidarás de teu pai em sua velhice, frequentarás a praça pública, ocuparás cargos públicos: sendo mau, farás mal qualquer outra coisa que tenhas de fazer. Mas se compreendes a ti mesmo e sabes que estás lançando fora certas opiniões más e adotando outras em seu lugar, e se mudaste teu modo de vida das coisas que não estão sob tua vontade para aquelas que estão sob tua vontade, e se alguma vez disseres: Ai de mim! não estás dizendo o que dizes por causa de teu pai, ou de teu irmão, mas por causa de ti mesmo, ainda assim alegas tua doença? Não sabes que tanto a doença quanto a morte devem surpreender-nos enquanto estamos fazendo algo? O lavrador enquanto lavra a terra, o marinheiro enquanto está em sua viagem? O que estarias fazendo quando a morte te surpreendesse, pois deves ser surpreendido enquanto fazes algo? Se podes estar fazendo algo melhor do que isto quando fores surpreendido, faze-o. Pois desejo ser surpreendido pela doença ou pela morte quando estou cuidando de nada além de minha própria vontade, para que eu esteja livre de perturbação, livre de impedimento, livre de compulsão, e em um estado de liberdade.

Desejo ser encontrado praticando estas coisas, para que possa dizer a Deus: Transgredi em algum aspecto teus mandamentos? Usei em algum aspecto erroneamente os poderes que me deste? Usei mal minhas percepções ou minhas noções prévias?

P

EPICTETO.

(irpoXTJij/ea-i) ? Alguma vez te culpei? Alguma vez achei defeito na tua administração? Estive doente, porque era a tua vontade, e assim também outros, mas eu estava contente em estar doente.

Fui pobre, porque era a tua vontade, mas também estava contente.

Não ocupei um cargo magistral, porque não era do teu agrado que eu o fizesse: nunca o desejei. Alguma vez me viste por essa razão descontente? Não me aproximei sempre de ti com um semblante alegre, pronto a cumprir os teus mandamentos e a obedecer aos teus sinais? É agora a tua vontade que eu parta da assembleia dos homens? Eu parto.

Dou-te todas as graças por me teres permitido juntar-me a esta tua assembleia de homens, ver as tuas obras e compreender esta tua administração.

Que a morte me surpreenda enquanto penso nestas coisas, enquanto assim escrevo e leio.

Mas minha mãe não segurará minha cabeça quando eu estiver doente.

Vai então para tua mãe; pois és uma pessoa adequada para terem a tua cabeça segurada quando estiveres doente.

— Mas em casa eu costumava deitar-me numa cama deliciosa.

— Vai para a tua cama: de fato, és adequado para te deitares em tal cama mesmo quando estás com saúde: não percas então o que podes fazer lá (em casa).

Mas o que diz Sócrates? Assim como um homem, diz ele, se compraz em melhorar a sua terra, outro em melhorar o seu cavalo, assim eu me comprazo diariamente em observar que estou a melhorar.

Melhorar em quê? em usar palavras bonitinhas? Homem, não digas isso.

Em pequenas questões de especulação (θεωρήματα)? O que estás a dizer? — E, de fato, não vejo que mais haja em que os filósofos empreguem o seu tempo.

— Parece-te nada nunca ter achado defeito em pessoa alguma, nem em Deus nem no homem? não ter culpado ninguém? carregar o mesmo semblante sempre ao sair e ao entrar? Isto é o que Sócrates sabia, e contudo

¹ Sobre 'preconcepções', ver i. 2.

² Xenofonte (Memorab. i. 6, 14); mas Epicteto não cita as palavras, dá apenas o sentido.

³ Antonino (viii. 43) diz: 'Coisas diferentes deleitam pessoas diferentes. Mas é o meu deleite manter a faculdade diretriz sã, sem me desviar nem de nenhum homem nem de nenhuma das coisas que acontecem aos homens, mas olhando e recebendo tudo com olhos acolhedores, e usando cada coisa segundo o seu valor.'

EPICTETO.

Ele nunca disse que sabia alguma coisa ou ensinava alguma coisa. Mas se alguém lhe pedia pequenas palavras elegantes ou pequenas especulações, ele o levava a Protágoras ou a Hípias; e se alguém vinha pedir ervas para cozinhar, ele o levava ao jardineiro.

Quem, então, entre vós, tem este propósito (motivo para agir)? Pois se realmente o tivésseis, estaríeis contentes tanto na doença, quanto na fome, e na morte.

Se algum de vós já esteve apaixonado por uma jovem encantadora, sabe que digo a verdade.

CAPÍTULO VI.

MISCELÂNEA.

Quando alguém lhe perguntou como acontecia que, já que a razão tem sido mais cultivada pelos homens da era presente, o progresso feito em tempos anteriores era maior.

Em que aspecto, respondeu ele, tem ela sido mais cultivada agora, e em que aspecto era o progresso maior então? Pois naquilo em que agora tem sido mais cultivada, também agora se encontrará o progresso.

Atualmente, ela tem sido cultivada com o propósito de resolver silogismos, e progresso se faz.

Mas em tempos anteriores, era cultivada com o propósito de manter a faculdade diretriz em uma condição conforme à natureza, e progresso se fazia.

Não mistureis, então, coisas que são diferentes, e não espereis, quando trabalhais em uma coisa, fazer progresso em outra.

Mas vede se algum homem entre nós, quando está atento a isto — manter-se a si mesmo em um estado conforme à natureza e viver sempre assim — não faz progresso.

Pois não encontrareis tal homem.

O homem bom é invencível, pois não entra na contenda onde não é mais forte.

Se tu (seu adversário) queres ter sua terra e tudo o que nela está, toma a terra; toma seus escravos, toma seu cargo de magistrado, toma seu pobre corpo.

Mas não farás seu desejo falhar naquilo que busca, nem sua aversão cair naquilo que ele evitaria.

O único combate em que ele entra é acerca das coisas que estão dentro do poder de sua vontade; como, então, não será invencível?

Tendo alguém perguntado a Epicteto o que é o senso comum, ele respondeu: Assim como se pode chamar de certa audição comum aquela que apenas distingue sons vocais, e a que distingue sons musicais não é comum, mas artificial, assim também há certas coisas que os homens, que não estão inteiramente pervertidos, veem pelas noções comuns que todos possuem.

Tal constituição da mente é denominada senso comum.

Não é fácil exortar jovens fracos; pois tampouco é fácil segurar queijo (mole) com um gancho. Mas aqueles que têm uma boa disposição natural, mesmo que tentes desviá-los, apegam-se ainda mais à razão.

Por isso, Rufus geralmente tentava desencorajar (seus discípulos), e usava esse método como teste para aqueles que tinham boa disposição natural e aqueles que não tinham.

Pois era seu hábito dizer: assim como uma pedra, se a lançares para cima, será trazida à terra por sua própria natureza, assim o homem cuja mente é naturalmente boa, quanto mais o repele, mais ele se volta para aquilo a que é naturalmente inclinado.

O grego é Koivos vovs, o Communis sensus dos romanos, e o nosso senso comum.

Horácio (Sat. i. 3, 65) fala de um homem que 'communi sensu plane caret', alguém que não tem o sentido ou entendimento que é propriedade comum dos homens.

Este era um provérbio usado por Bion, como diz Diógenes Laércio. O queijo era novo e mole, como os antigos o usavam.

'Rufus é mencionado em i. 1, nota 12.

EPICTETO.

CAPÍTULO VII.

AO ADMINISTRADOR DAS CIDADES LIVRES QUE ERA EPICURISTA.

Quando o administrador veio visitá-lo, e o homem era epicurista, Epicteto disse:

É apropriado que nós, que não somos filósofos, indaguemos de vós, que sois filósofos, assim como aqueles que chegam a uma cidade estranha indagam dos cidadãos e daqueles que a conhecem, qual é a melhor coisa do mundo, a fim de que nós também, após a indagação, vamos em busca do que é melhor e o contemplemos, como os estrangeiros fazem com as coisas nas cidades.

Pois que há três coisas que se relacionam ao homem — alma, corpo e coisas externas —, dificilmente alguém nega.

Resta-vos, filósofos, responder qual é a melhor.

O que diremos aos homens? É a carne o melhor? E foi por isso que Máximo navegou até Cássiope no inverno (ou mau tempo) com seu filho, e o acompanhou para que ele fosse gratificado na carne? Quando o homem disse que não, e acrescentou: "Longe disso".

— Não convém então, disse Epicteto, estarmos ativamente ocupados com o melhor? É certamente, de todas as coisas, a mais conveniente.

O que possuímos, então, que seja melhor do que a carne? A alma, respondeu ele.

E as coisas boas do melhor, são melhores, ou as coisas boas do pior? As coisas boas do melhor.

E as coisas boas do melhor estão dentro do poder da vontade ou não estão dentro do poder da vontade? Estão dentro do poder da vontade.

É então o prazer da alma uma coisa dentro do poder da vontade? É, respondeu ele.

O grego é Siopdoorrns.

A palavra latina é Corrector, que ocorre em inscrições e em outros lugares.

Os epicuristas são ironicamente chamados de Filósofos, pois a maioria deles eram homens arrogantes.

Veja o que é dito deles no De Natura Deorum de Cícero, i. 8. Schweig.

Máximo foi nomeado por Trajano para conduzir uma campanha contra os partos, na qual perdeu a vida.

Dion Cássio, ii. 1108, 1126, Keimarus.

Cassiope ou Cassope é uma cidade em Épiro, perto do mar, e entre Pandósia e Nicópolis, onde Epicteto viveu.

EPICTETO.

E de que dependerá este prazer? De si mesmo? Mas isso não pode ser concebido: pois deve primeiro existir uma certa substância ou natureza (ousia) do bem, pela obtenção da qual teremos prazer na alma.

Ele assentiu também a isso.

De que, então, dependeremos para este prazer da alma? Pois se depender das coisas da alma, a substância (natureza) do bem é descoberta; pois o bem não pode ser uma coisa, e aquilo com que somos racionalmente deleitados outra coisa; nem, se o que precede não é bom, pode o que vem depois ser bom, pois para que a coisa que vem depois seja boa, o que precede deve ser bom.

Mas você não afirmaria isso, se estivesse em seu juízo perfeito, pois então diria o que é inconsistente tanto com Epicuro quanto com o resto de suas doutrinas.

Resta então que o prazer da alma está no prazer das coisas do corpo: e novamente que essas coisas corporais devem ser as coisas que precedem e a substância (natureza) do bem.

Por essa razão, Máximo agiu tolamente se fez a viagem por qualquer outro motivo que não fosse pela carne, isto é, pelo que há de melhor.

E também um homem age tolamente se se abstém daquilo que pertence a outros, quando é juiz (Si/cao-Ts) e capaz de tomá-lo. Mas, se vos agrada, consideremos apenas isto: como essa coisa pode ser feita secretamente, e com segurança, e de modo que ninguém o saiba. Pois nem o próprio Epicuro declara que o roubar seja mau, mas admite que a detecção o seja; e porque é impossível ter segurança contra a detecção, por essa razão ele diz:

Não roubeis.

Mas eu vos digo que, se o roubo for feito com habilidade e cautela, não seremos detectados; além disso, temos amigos poderosos em Roma, tanto homens quanto mulheres, e os helenos (gregos) são fracos, e nenhum homem ousará subir a Roma com o propósito (de se queixar). Por que vos absteríeis do vosso próprio bem? Isso é insensato, tolo.

Mas, ainda que me digais que vos abstendes, não vos acreditarei.

Pois, assim como é

¹ vxiKols é a emenda de Lord Shaftesbury no lugar de 07060??, e é aceita por Scliweighaeuser.

² Diógenes Laércio (x. 151), citado por Upton.

³ 'A injustiça', diz Epicuro, 'não é um mal em si mesma, mas o mal está no medo que há por causa da suspeita.'

EPICTETO.

impossível assentir ao que parece falso, e afastar-se do que é verdadeiro, assim é impossível abster-se do que parece bom.

Mas a riqueza é uma coisa boa, e certamente muito eficiente para produzir prazer.

Por que não adquirireis riqueza? E por que não corromperíamos a esposa do nosso próximo, se pudermos fazê-lo sem detecção? E se o marido tolamente tagarelar sobre o assunto, por que não lançá-lo para fora de casa? Se quereis ser um filósofo como deveis ser, se um filósofo perfeito, se consistente com vossas próprias doutrinas, [deveis agir assim]. Se não quiserdes, não diferireis em nada de nós que somos chamados estoicos; pois também nós dizemos uma coisa, mas fazemos outra: falamos das coisas que são belas (boas), mas fazemos o que é vil.

Mas vós sereis perverso no sentido contrário, ensinando o que é mau, praticando o que é bom.

Em nome de Deus'', estais pensando em uma cidade de epicuristas? [Um homem diz], 'Eu não me caso.' — 'Nem eu, pois um homem não deve se casar; nem devemos gerar filhos, nem nos envolver em assuntos públicos.' O que acontecerá então? De onde virão os cidadãos? Quem os criará? Quem será o governador da juventude, quem presidirá os exercícios ginásticos? E em que também o mestre os instruirá? Ensinar-lhes-á o que foi ensinado aos Lacedemônios, ou o que foi ensinado aos Atenienses? Vinde, tomai um jovem, criai-o segundo vossas doutrinas.

As doutrinas são más, subversivas do Estado, perniciosas às famílias e inconvenientes às mulheres.

Afastai-as, homem.

Vós viveis numa cidade principal: é vosso dever ser magistrado, julgar com justiça, abster-se do que pertence a outrem; nenhuma mulher deve parecer bela a vós, exceto a vossa própria esposa, e nenhum jovem, nenhum vaso de prata, nenhum vaso de ouro (exceto os vossos). Buscai doutrinas que sejam consistentes com o que digo, e, fazendo delas vosso guia, com prazer vos absteréis das coisas que têm tal poder persuasivo para nos conduzir e dominar. Mas se, ao poder persuasivo dessas coisas, também concebermos uma tal filosofia como esta, que nos ajuda a impelir-nos em direção a elas e nos fortalece para esse fim, qual será a consequência? Numa peça de arte taurética, qual é a melhor parte? A prata ou o trabalho? A substância da mão é a carne; mas o trabalho da mão é a parte principal (aquilo que precede e conduz o resto). Os deveres, então, são também três: aqueles que se dirigem à existência de uma coisa; aqueles que se dirigem à sua existência em um tipo particular; e, terceiro, as próprias coisas principais ou condutoras.

Assim também no homem não devemos valorizar o material, a pobre carne, mas o principal (as coisas principais, τα προηγούμενα). O que são estas? Dedicar-se aos negócios públicos, casar, gerar filhos, venerar a Deus, cuidar dos pais e, geralmente, ter desejos, aversões (ἐκκλίνειν), buscas de coisas e evitações, da maneira como devemos fazer essas coisas, e segundo a nossa natureza.

E como somos constituídos por natureza? Livres, nobres, modestos; pois que outro animal cora? Que outro é capaz de receber a aparência (a impressão) da vergonha? E somos constituídos por natureza de modo a sujeitar o prazer a estas coisas, como um ministro, um servo, para que ele desperte a nossa atividade, para que nos mantenha constantes em atos que são conformes à natureza.

"Mas sou rico e não quero nada."

— Por que então finges ser filósofo? Os teus vasos de ouro e de prata bastam para ti.

Que necessidade tens de princípios (opiniões)? "Mas também sou juiz (κριτής) dos gregos."

— Sabes julgar? Quem te ensinou a saber? César me escreveu um codicilo.

Que ele escreva e te dê uma comissão para julgar música; e qual será a utilidade disso para ti? Ainda assim, como te tornaste juiz? Cuja mão beijaste? A mão de Sínforo ou de Numênio? Diante de cuja câmara dormiste? A quem enviaste presentes? Então não vês que ser juiz tem exatamente o mesmo valor que Numênio tem? "Mas posso lançar na prisão qualquer homem que eu quiser."

— Assim podes fazer com uma pedra.

"Mas posso bater com paus em quem eu quiser."

— Assim podes com um asno.

Isso não é um governo de homens.

Governa-nos como animais racionais: mostra-nos o que é proveitoso para nós, e o seguiremos; mostra-nos o que é improveitoso, e nos afastaremos disso. Faze-nos imitadores de ti mesmo, como Sócrates fez os homens imitadores dele.

Pois ele era como um governador de homens, que lhes submetia a ele os seus desejos, a sua aversão, os seus movimentos em direção a um objeto e o seu afastamento dele. — Faze isto: não faças isto: se não obedeceres, lançar-te-ei na prisão.

— Isso não é governar homens como animais racionais.

Mas eu (digo): Assim como Zeus ordenou, assim age; se não agires assim, sentirás a penalidade, serás punido.

— Qual será a punição? Nada mais do que não teres cumprido o teu dever: perderás o caráter de fidelidade, modéstia, decoro.

Não procures penalidades maiores do que estas.

"Um 'codicillus' é um pequeno 'codex', e o sentido original de 'codex' é um tronco ou toco forte.

Por fim, foi usado para um livro, e até mesmo para um testamento.

'Codicilli' eram pequenas tábuas de escrita, cobertas de cera, sobre as quais os homens escreviam com um stilus ou metal pontiagudo.

Por fim, codicillus é um livro ou escrito em geral; e um escrito ou carta pela qual o imperador conferia qualquer cargo.

Nossa palavra codicilo tem apenas um sentido, que é um pequeno escrito adicionado ou subjunto a um testamento ou última vontade; mas esse sentido também é derivado do uso romano da palavra.

(Dig. 29, tit. 7, de jure codicillorum.)

"Upton supõe que isto signifique: de quem és tu, ó homem do quarto de dormir? E ele compara i. 19. Mas Schweig. diz que este não é o significado aqui, e que o significado é este: Aquele que antes do amanhecer espera à porta de um homem rico, cujo favor ele busca, diz-se, de maneira zombeteira, que está passando a noite diante do quarto de um homem.

EPICTETO.

CAPÍTULO VIII.

AGORA DEVEMOS EXERCITAR-NOS CONTRA AS APARÊNCIAS (φαντασίας).

Assim como nos exercitamos contra questões sofísticas, assim devemos nos exercitar diariamente contra as aparências; pois estas aparências também nos propõem questões. O filho de certa pessoa morreu.

Resposta; a coisa não está no poder da vontade: não é um mal.

Um pai deserdou um certo filho.

O que pensas disso? É uma coisa além do poder da vontade, não um mal.

César condenou uma pessoa.

É uma coisa além do poder da vontade, não um mal.

O homem está aflito com isso.

A aflição é uma coisa que depende da vontade: é um mal.

Ele suportou a condenação bravamente. Isso é uma coisa dentro do poder da vontade: é um bem.

Se nos treinarmos desta maneira, progrediremos; pois nunca assentiremos a qualquer coisa da qual não haja uma aparência capaz de ser compreendida.

Teu filho morreu.

O que aconteceu? Teu filho morreu.

Nada mais? Nada.

Tua nau se perdeu.

O que aconteceu? Tua nau se perdeu.

Um homem foi levado à prisão.

O que aconteceu? Ele foi levado à prisão.

Mas que nisso ele tenha se saído mal, cada um acrescenta de sua própria opinião.

Mas Zeus, dizes tu, não age corretamente nestas questões.

Por quê? Porque te fez capaz de resistência? Porque te fez magnânimo? Porque tirou daquilo que te sobrevém o poder de serem males? Porque está em teu poder ser feliz enquanto sofres o que sofres; porque te abriu a porta, quando as coisas não te agradam? Homem, sai e não te queixes.

Ouve como os romanos sentem em relação aos filósofos, se quiseres saber.

Italicus, que era o de maior reputação entre os filósofos, uma vez quando eu estava presente, irritado com seus próprios amigos e como se sofresse algo intolerável, disse: "Não posso suportar isso, estais me matando: fareis de mim tal como aquele homem é"; apontando para mim.

' Ver i. 9. 20.

' Ver ii. 6. 22, &v aoi iroiij.

Upton.

' Schweighaeuser diz que não vê claramente o que Epicteto quer dizer; nem eu.

EPICTETO.

CAPÍTULO IX.

A UM CERTO RETÓRICO QUE SUBIA A ROMA POR UMA CAUSA.

"Quando certa pessoa veio a ele, que subia a Roma por causa de uma causa que dizia respeito à sua posição, Epicteto indagou a razão de sua ida a Roma, e o homem então perguntou o que ele pensava sobre o assunto.

Epicteto respondeu.

Se me perguntas o que farás em Roma, se terás sucesso ou fracasso, não tenho regra (dewprjixa) sobre isso.

Mas se me perguntas como te sairás, posso te dizer: se tiveres opiniões corretas (Soy/LAara), te sairás bem; se forem falsas, te sairás mal.

Pois para todo homem a causa de seu agir é a opinião.

Pois qual é a razão pela qual desejaste ser eleito governador dos Cnossianos? Tua opinião.

Qual é a razão pela qual agora sobes a Roma? Tua opinião.

E ir no inverno, e com perigo e despesa.

— Devo ir. — O que te diz isso? Tua opinião.

Então, se as opiniões são as causas de todas as ações, e um homem tem más opiniões, tal como for a causa, tal também será o efeito.

Temos então todos nós opiniões sólidas, tanto tu quanto teu adversário? E como diferis? Mas tens opiniões mais sólidas que teu adversário? Por quê? Tu assim o pensas. E ele também pensa que suas opiniões são melhores; e assim também os loucos.

Este é um mau critério.

Mas mostra-me que fizeste algum exame de tuas opiniões e que tomaste algum cuidado com elas.

E assim como agora você está navegando para Roma a fim de se tornar governador dos Cnossianos, e não se contenta em ficar em casa com as honras que tinha, mas deseja algo maior e mais conspícuo, então quando foi que você alguma vez fez uma viagem com o propósito de examinar suas próprias opiniões e expulsá-las, se tiver alguma que seja má? A quem você se aproximou para esse fim? Que tempo você fixou para isso? Que idade? Repasse os tempos da sua vida por si mesmo, se você tem vergonha de mim (sabendo o fato de que quando você era menino, você examinou suas próprias opiniões? E não

EPICTETO.

então, como você faz todas as coisas agora, fez como fazia? E quando você se tornou jovem e frequentou os retóricos, e você mesmo praticou retórica, o que você imaginava que lhe faltava? E quando você era um homem jovem e se envolvia em assuntos públicos, e pleiteava causas você mesmo, e ganhava reputação, quem então parecia seu igual? E quando você teria se submetido a qualquer homem examinar e mostrar que suas opiniões são más? O que então você deseja que eu lhe diga? — Ajude-me neste assunto.

— Não tenho regra (princípio) para isso.

Nem você tem; se você veio a mim para esse propósito, não veio a mim como a um filósofo, mas como a um vendedor de vegetais ou a um sapateiro.

Para que propósito então existem os princípios filosóficos? Para este propósito: que tudo o que acontecer, nossa faculdade diretriz possa ser e continuar a ser conforme à natureza.

Isso parece a você uma coisa pequena? — Não; mas a maior.

— Então? Isso precisa apenas de um curto tempo? E é possível agarrá-lo de passagem? Se você pode, agarre-o.

Então você dirá: encontrei Epicteto como encontraria uma pedra ou uma estátua; pois você me viu, e nada mais.

Mas aquele que encontra um homem como homem, aprende suas opiniões e, por sua vez, mostra as suas próprias.

Aprenda minhas opiniões: mostre-me as suas; e então diga que você me visitou. Vamos examinar um ao outro: se eu tenho alguma opinião má, remova-a; se você tem alguma, mostre-a. Este é o significado de encontrar um filósofo.

— Não é assim, (você diz): mas esta é apenas uma visita de passagem, e enquanto estamos alugando o navio, podemos também ver Epicteto.

Vejamos o que ele diz.

Então você vai embora e diz: Epicteto não era nada; ele cometia solecismos e falava de maneira bárbara.

Por que mais haveis de vir como juízes? — Bem, mas um homem pode dizer-me: se eu me ocupar de tais assuntos (como vós), não terei terras, como vós não tendes; não terei taças de prata, como vós não tendes, nem belos rebanhos, como vós não tendes.

— Em resposta a isto, talvez baste dizer: não tenho necessidade de tais coisas; mas se vós possuís muitas coisas, tendes necessidade de outras: quer queirais, quer não, sois mais pobre do que eu. De que tenho eu então necessidade? Daquilo que vós não tendes: de firmeza, de uma mente conforme à natureza, de estar livre de perturbação.

Tenha eu um patrono¹ ou não, que me importa isso? Mas a vós importa.

Sou mais rico do que vós: não estou ansioso sobre o que César pensará de mim: por esta razão, não lisonjeio homem algum.

Isto é o que possuo em vez de vasos de prata e ouro.

Vós tendes utensílios de ouro; mas o vosso discurso, as vossas opiniões, os vossos assentimentos, os vossos movimentos (propósitos), os vossos desejos são de barro.

Mas quando tenho estas coisas conformes à natureza, por que não empregaria também os meus estudos na razão? pois tenho lazer: a minha mente não está distraída.

Que farei, já que não tenho distração? Que coisa mais adequada a um homem tenho do que esta? Quando não tendes nada que fazer, estais perturbados, ides ao teatro ou vagueais sem propósito.

Por que não haveria o filósofo de laborar para aperfeiçoar a sua razão? Vós vos ocupais com vasos de cristal; eu ocupo-me com o silogismo chamado o mentiroso²: vós com vasos de murra³; eu ocupo-me com o silogismo chamado o negador. Para vós tudo o que possuís parece pequeno; para mim tudo o que tenho parece grande.

O vosso desejo é insaciável: o meu é satisfeito.

(A crianças) que metem a mão num vaso de barro de gargalo estreito para tirar figos e nozes, isto acontece; se enchem a mão, não a podem tirar, e então choram.

Larga algumas delas e tirarás as coisas.

E vós abandonai os vossos desejos: não desejeis muitas coisas e tereis o que quereis.

¹ A palavra romana 'patronus', que naquele tempo tinha o sentido de protetor.

² Sobre o silogismo chamado 'mentiroso' (ψευδόμενος), ver Epict. ii. 17. 34.

³ Os 'vasa murrhina' eram considerados muito preciosos pelos romanos, e pagavam grandes preços por eles. Não é certo de que material eram feitos. Plínio (xxxvii. c. 2) tem algo sobre eles.

CAPÍTULO X.

DE QUE MANEIRA DEVEMOS SUPORTAR A DOENÇA.

Quando a necessidade de cada opinião surge, devemos tê-la pronta: na ocasião do desjejum, tais opiniões que se relacionam ao desjejum; no banho, as que concernem ao banho; no leito, as que concernem ao leito.

Que o sono não venha sobre teus olhos lânguidos
Antes que cada ação diária tenhas examinado;
O que foi feito mal, o que foi feito, o que foi deixado por fazer;
Do primeiro ao último examina tudo, e então
Censura o que está errado, no que está certo regozija-te.

E devemos reter estes versos de tal maneira que possamos usá-los, não para os proferir em voz alta, como quando exclamamos 'Paean Apollo.' Novamente, na febre, devemos ter prontas tais opiniões que concernem a uma febre; e não devemos, tão logo a febre comece, perder e esquecer tudo.

(Um homem que tem febre) pode dizer: Se eu filosofar por mais tempo, que eu seja enforcado: onde quer que eu vá, devo cuidar do pobre corpo, para que uma febre não venha. Mas o que é filosofar? Não é uma preparação contra eventos que possam acontecer? Não compreendes que estás dizendo algo deste tipo? "Se eu ainda me preparar para suportar com paciência o que acontece, que eu seja enforcado." Mas isto é exatamente como se um homem, após receber golpes, desistisse do Pancrácio.

No Pancrácio, está em nosso poder desistir e não receber golpes.

Mas na outra questão, se abandonarmos a filosofia, o que ganharemos? O que então deveria um homem dizer na ocasião de cada coisa dolorosa? Foi para isto que me exercitei, para isto me disciplinei.

Deus te diz.

Dai-me uma prova de que praticastes devidamente os exercícios atléticos, de que comestes o que devíeis, de que fostes exercitado, de que obedecestes aos aliptes (o untador e friccionador). Então mostrais-vos fraco quando chega o momento da ação? Agora é o momento da febre.

Suportai-a bem.

Agora é o momento da sede, suportai-a bem; agora é o momento da fome, suportai-a bem.

Não está em vosso poder? Quem vos impedirá? O médico impedir-vos-á de beber; mas não pode impedir-vos de suportar bem a sede: e impedir-vos-á de comer; mas não pode impedir-vos de suportar bem a fome.

Mas não posso dedicar-me aos meus estudos filosóficos. E com que propósito os seguis? Escravo, não é para que sejais feliz, para que sejais constante, não é para que estejais em um estado conforme à natureza e vivaís assim? O que vos impede, quando tendes febre, de ter a vossa faculdade dominante conforme à natureza? Eis aqui a prova da coisa, eis aqui o teste do filósofo. Pois isto também é uma parte da vida, como caminhar, como navegar, como viajar por terra, assim também é a febre.

Lês quando caminhas? Não. Nem quando tendes febre.

Mas se caminhais bem, tendes tudo o que pertence a um homem que caminha.

Se suportais bem uma febre, tendes tudo o que pertence a um homem com febre.

O que é suportar bem uma febre? Não culpar a Deus ou ao homem; não se afligir com o que acontece, esperar a morte bem e nobremente, fazer o que deve ser feito: quando o médico entra, não se assustar com o que ele diz; nem se ele disser, 'estais indo bem', ficar excessivamente alegre.

Pois que bem vos disse ele? E quando estáveis com saúde, que bem vos era isso? E mesmo se ele disser, 'estais em mau estado', não desanimeis.

Pois o que é estar doente? Será que estás próximo da separação da alma e do corpo? Que mal há nisso? Se não estás próximo agora, não estarás depois? O mundo vai virar de cabeça para baixo quando morreres? Por que então lisonjeias o médico? Por que dizes: "se te agrada, senhor, ficarei bom"? Por que lhe dás oportunidade de erguer as sobrancelhas (de ser orgulhoso; ou de mostrar sua importância)? Não valorizas um médico como valorizas um sapateiro quando ele mede teu pé, ou um carpinteiro quando constrói tua casa, e assim tratas o médico quanto ao corpo, que não é teu, mas por natureza morto? Quem tem febre tem oportunidade de fazer isso: se fizer essas coisas, tem o que lhe pertence.

Pois não é negócio do filósofo cuidar desses externos, nem de seu vinho, nem de seu azeite, nem de seu pobre corpo, mas de sua própria faculdade diretriz.

Mas quanto aos externos, como deve agir? Tão somente para não ser descuidado com eles.

Onde então há razão para medo? Onde então há ainda razão para ira, e de medo acerca do que pertence a outros, acerca de coisas que não têm valor? Pois devemos ter estes dois princípios prontos: que exceto a vontade, nada é bom nem mau; e que não devemos conduzir os acontecimentos, mas segui-los. — Meu irmão não deveria ter se comportado assim comigo. — Não; mas ele cuidará disso: e, no entanto, como ele se comporte, eu me conduzirei em relação a ele como devo.

Pois isto é meu próprio negócio: aquilo pertence a outro; ninguém pode impedir isto, aquilo pode ser obstruído.

E que necessidade há de prometer grandes montanhas a Cratero? Pérsio, iii.

65. Cratero era um médico.

' Upton compara Mateus, viii.

2. "Senhor, se quiseres, podes purificar-me."

' Compare M. Antonino, iv. 48. as sobrancelhas.

. .a-va-wdffavTes.

' A este preceito estoico Horácio (Epict.

i. 1. 19) opõe o de Aristipo.

t mihi res, non me rebus, subjungere conor.

Ambos disseram sabiamente, se forem bem compreendidos.

Schweig., que remete a i. 12. 17.

' Lord Shaftesbury propôs ler rhv »o-pdv em vez de rhv aSfKSf. Mas veja a nota de Schweig.

EPICTETO.

CAPÍTULO XI.

CERTOS ASSUNTOS MISCELÂNEOS.

Há certas penalidades fixadas como que por lei para aqueles que desobedecem à administração divina. Quem quer que pense que qualquer outra coisa é boa, exceto aquelas que dependem da vontade, que inveje, que deseje, que lisonjeie, que se perturbe; quem quer que considere qualquer outra coisa como má, que se aflija, que lamente, que chore, que seja infeliz.

E, no entanto, embora tão severamente punidos, não podemos desistir.

Lembra-te do que o poeta diz sobre o estrangeiro:

Estrangeiro, não devo, mesmo que um homem pior venha, tratar um estrangeiro indignamente; pois todos vêm de Zeus, estrangeiros e pobres.

Isto então pode ser aplicado até mesmo a um pai: não devo, mesmo que um homem pior do que tu venha, tratar um pai indignamente; pois todos são do Zeus paternal.

E (que o mesmo seja dito) de um irmão, pois todos são do Zeus que preside sobre os parentes.

E assim, nas outras relações da vida, encontraremos Zeus como inspetor.

CAPÍTULO XII.

SOBRE O EXERCÍCIO.

Não devemos fazer consistir os nossos exercícios em meios contrários à natureza e adaptados para causar admiração, pois, se assim fizermos, nós, que nos chamamos filósofos, não diferiremos em nada dos malabaristas.

Pois é difícil até mesmo andar sobre uma corda; e não apenas difícil, mas também perigoso.

Devemos, por essa razão, praticar andar sobre uma corda, ou erguer uma palmeira, ou abraçar estátuas? De modo algum.

Tudo o que é difícil e perigoso não é adequado para a prática; mas é adequado aquilo que conduz à realização daquilo que nos é proposto. E o que é aquilo que nos é proposto como algo a ser realizado? Viver com desejo e aversão (evitação de certas coisas) livres de restrição.

E o que é isto? Não ser decepcionado naquilo que desejas, nem cair em qualquer coisa que queiras evitar.

Para este objetivo, então, o exercício (prática) deve tender.

Pois, visto que não é possível ter o desejo não frustrado e a aversão livre de cair naquilo que se evitaria, sem grande e constante prática, deves saber que, se permitires que teu desejo e tua aversão se voltem para coisas que não estão dentro do poder da vontade, não terás teu desejo capaz de alcançar seu objeto, nem tua aversão livre do poder de evitar aquilo que evitarías.

E como o hábito forte prevalece, e estamos acostumados a empregar desejo e aversão apenas em coisas que não estão dentro do poder de nossa vontade, devemos opor a este hábito um hábito contrário, e onde houver grande escorregadice nas aparências, ali opor o hábito do exercício.

Sou antes inclinado ao prazer: inclinar-me-ei ao lado contrário, além da medida, por causa do exercício.

I

' "Erguer uma palmeira." Ele não quer dizer uma palmeira real, mas algo alto e ereto.

Os escaladores de palmeiras são mencionados por Luciano, em *De Dea Syria* (c. 29). Schweigh.

deu a verdadeira interpretação quando diz que, em certos dias de festa no campo, um pedaço alto de madeira é fixado na terra e escalado pelos jovens mais ativos, usando apenas as mãos e os pés.

Na Inglaterra, sabemos o que isso é.

Diz-se que Diógenes costumava abraçar estátuas quando estavam cobertas de neve, com o propósito de se exercitar.

Suponho que fossem estátuas de bronze, não de mármore, que poderiam ser facilmente quebradas.

O homem não permaneceria muito tempo no abraço de uma estátua de metal no inverno.

Mas talvez a história não seja verdadeira.

Ouvi falar de um general, não um general inglês, que colocou um soldado sobre um canhão frio; mas foi como punição.

ayaToix{iru. Veja a nota de Schweighaeuser.

EPICTETO.

.

sou avesso à dor; esfregarei e exercitarei contra isso as aparências que me são apresentadas, com o propósito de retirar minha aversão de toda coisa semelhante.

Pois quem é um praticante de exercício? Aquele que pratica não usar seu desejo e aplica sua aversão apenas a coisas que estão dentro do poder de sua vontade, e pratica mais nas coisas que são difíceis de conquistar.

Por essa razão, um homem deve praticar-se mais contra uma coisa, e outro contra outra coisa.

Qual é então o propósito de erguer uma palmeira, ou de carregar uma tenda de peles, ou um pilão e uma mão de gral? Pratica, homem, se és irritável, para suportar; se és insultado, para não te afligires; se és tratado com desonra, para não te aborreceres.

Então terás feito tanto progresso que, mesmo que um homem te bata, dirás a ti mesmo:

Imagina que abraçaste uma estátua: então também te exercita a usar o vinho corretamente, para não beberes muito, pois também nisto há homens que se exercitam tolamente; mas antes de tudo deves abster-te dele, e abster-te de uma jovem donzela e de bolos delicados.

Então, por fim, se a ocasião se apresentar, para o propósito de te testares no momento apropriado, descerás à arena para saber se as aparências te dominam como dominavam antes. Mas primeiro foge longe daquilo que é mais forte do que tu: a disputa é desigual entre uma jovem encantadora e um principiante em filosofia.

A bilha de barro, como diz o ditado, e a rocha não concordam.

Após o desejo e a aversão, vem o segundo tópico (matéria) dos movimentos em direção à ação e dos afastamentos dela; para que sejas obediente à razão, para que não faças nada fora de tempo ou de lugar, ou contrário a qualquer propriedade desse tipo. O terceiro tópico diz respeito aos assentimentos, que está relacionado às coisas que são persuasivas e atraentes.

Pois, como disse Sócrates, não devemos

* Isto era feito por causa do exercício, diz Upton; mas não entendo a passagem.

 Há uma fábula semelhante em Esopo sobre a bilha de barro e a de bronze.

Upton.

 O texto tem curv/ji/ierplav.

Seria mais fácil entender a passagem, se lêssemos a-vixfierpiiv, como em iv. 1, 84 temos irapa to /utVpa (ver nota de Schweig.).

Q

. EPICTETO.

para viver uma vida sem exame,' assim também não devemos aceitar uma aparência sem exame, mas devemos dizer: Espera, deixa-me ver o que és e de onde vens; como o vigia noturno (que diz): Mostra-me a senha (a *tessera* romana). Tens o sinal da natureza que a aparência que pode ser aceita deve ter? E, finalmente, quaisquer meios que sejam aplicados ao corpo por aqueles que o exercitam, se tendem de algum modo para o desejo e a aversão, também podem ser meios adequados de exercício; mas se são para exibição, são indícios de alguém que se voltou para algo externo, que está à caça de outra coisa e que procura espectadores que digam: Oh, o grande homem.

Por isso Apolônio disse bem: Quando pretendes exercitar-te para tua própria vantagem e estiveres sedento pelo calor, toma na boca um gole de água fria, cospe-o e não contes a ninguém.

CAPÍTULO XIII.

O QUE É A SOLIDÃO, E QUE TIPO DE PESSOA É O HOMEM SOLITÁRIO.

A solidão é uma certa condição de um homem desamparado. Pois, porque um homem está sozinho, não é por essa razão também solitário; assim como, embora um homem esteja entre muitos, não está por isso não solitário.

Quando então perdemos um irmão, ou um filho, ou um amigo em quem estávamos acostumados a repousar, dizemos que ficamos solitários, embora estejamos frequentemente em Roma, embora tal multidão nos encontre, embora tantos vivam no mesmo lugar, e às vezes tenhamos um grande número de escravos.

Pois o homem que é solitário, como

¹ Ver i. 26, 18, e iii.

2, 5. ² Políbio vi. 36.

³ Schweighaeuser refere-se à Expedição de Alexandre de Arriano (vi. 26) para tal exemplo da abstinência de Alexandre.

Havia um Apolônio de Tiana, cuja vida foi escrita por Filóstrato: mas pode ser que não seja este o homem aqui mencionado.

 EPICTETO.

se concebe, é considerado uma pessoa desamparada e exposta àqueles que desejam prejudicá-la.

Por essa razão, quando viajamos, então especialmente dizemos que estamos sós quando caímos entre ladrões, pois não é a visão de uma criatura humana que nos remove da solidão, mas a visão de alguém que é fiel, modesto e útil para nós. Pois se estar sozinho basta para fazer a solidão, podes dizer que até Zeus é solitário na conflagração e se lamenta, dizendo: Infeliz que sou, que não tenho nem Hera, nem Atena, nem Apolo, nem irmão, nem filho, nem descendente, nem parente.

Isto é o que alguns dizem que ele faz quando está sozinho na conflagração. Pois não compreendem como um homem passa a sua vida quando está sozinho, porque partem de um certo princípio natural, do desejo natural de comunidade e de amor mútuo, e do prazer da conversação entre os homens.

Mas, não obstante, um homem deve estar preparado de certa maneira também para isto (estar sozinho), para ser capaz de bastar a si mesmo e de ser seu próprio companheiro.

Pois, assim como Zeus habita consigo mesmo, e está tranquilo por si mesmo, e pensa na sua própria administração e na sua natureza, e se ocupa em pensamentos adequados a si mesmo; assim também nós devemos ser capazes de conversar conosco mesmos, de não sentir a falta dos outros, de não estarmos desprovidos dos meios de passar o nosso tempo; de observar a administração divina, e a relação de nós mesmos com todas as outras coisas; de considerar como outrora éramos afetados em relação às coisas que acontecem e como o somos no presente; quais são ainda as coisas que nos causam dor; como estas também podem ser curadas e como removidas; se há coisas que requerem aperfeiçoamento, aperfeiçoá-las segundo a razão.

¹ Esta era a doutrina de Heráclito, 'que todas as coisas eram compostas de (tinham sua origem no) fogo, e eram resolvidas nele', opinião depois adotada pelos estoicos.

Não é tão extravagante, como pode parecer a algumas pessoas, supor que a terra teve um começo, está em um estado de mudança contínua, e será finalmente destruída de alguma maneira, e terá um novo começo.

Ver Sêneca, Ep. 9 'cum resoluto mundo, diis in unum confusis, paulisper cessante natura, adquiescit sibi Jupiter, cogitationibus suis traditus.'

A tradução latina é: 'hoc etiam nonnulli facturum eum in conflagratione mundi .... aiunt'. Mas a palavra é ποτε; e isto pode significar que a conflagração aconteceu, e acontecerá novamente.

Os filósofos gregos em suas especulações não eram incomodados com a consideração do tempo.

Mesmo Heródoto (ii. 11), em suas especulações sobre o golfo, que ele supõe que o vale do Nilo outrora foi, fala da possibilidade de ele ser preenchido em 20.000 anos, ou menos.

Especuladores modernos somente recentemente se tornaram suficientemente ousados para lançar fora a noção de que a terra e os outros corpos no espaço são limitados pelo tempo, como os ignorantes a conceberam.

EPICTETO.

Pois vedes que César parece fornecer-nos grande paz, que já não há inimigos nem batalhas nem grandes associações de ladrões nem de piratas, mas podemos viajar a qualquer hora e navegar de leste a oeste.

Mas pode César dar-nos segurança também contra a febre, pode contra o naufrágio, contra o fogo, contra o terremoto ou contra o raio? Bem, direi, pode dar-nos segurança contra o amor? Não pode.

Contra a tristeza? Não pode.

Contra a inveja? Não pode.

Em uma palavra, então, ele não pode proteger-nos de nenhuma dessas coisas.

Mas a doutrina dos filósofos promete dar-nos segurança (paz) mesmo contra essas coisas.

E o que ela diz? Homens, se me derdes atenção, onde quer que estejais, o que quer que estejais fazendo, não sentireis tristeza, nem ira, nem compulsão, nem impedimento, mas passareis vosso tempo sem perturbações e livres de tudo.

Quando um homem tem essa paz, não proclamada por César (pois como poderia ele proclamá-la?), mas por Deus através da razão, não está ele contente quando está só? Quando vê e reflete.

Agora nenhum mal pode acontecer-me; para mim não há ladrão, nem terremoto, tudo está cheio de paz, cheio de tranquilidade: todo caminho, toda cidade, todo encontro, vizinho, companheiro é inofensivo.

Uma pessoa, cujo ofício é esse, fornece-me alimento; outra, vestimenta; outra, percepções e preconcepções (προλήψεις). E se ele não fornece o que é necessário, (Deus) dá o sinal de retirada, abre a porta e diz-te:

Vai. Vai para onde? Para nada terrível, mas para o lugar de onde vieste, para teus amigos e parentes, para os elementos: o que havia em ti de fogo vai para o fogo; de terra, para a terra; de ar (espírito), para o ar; de água, para a água: nenhum Hades, nem Aqueronte, nem Cócito, nem Piriflegetonte, mas tudo está cheio de Deuses e Demônios.

Quando um homem tem tais coisas para pensar, e vê o sol, a lua e as estrelas, e desfruta da terra e do mar, não está solitário nem mesmo desamparado.

Bem, então, se algum homem

Carter, que também se refere a 1 Tess. iv. 14; João vi. 39, 40; xi. 25, 26; 1 Cor. vi. 14; xv. 53; 2 Cor. v. 14 etc.

A Sra. Carter cita Eclesiastes, mas o autor diz quase o que Epicarmo disse, citado por Plutarco, παραμυθ. πρὸς Ἀπολλώνιον, vol. i. p. 435 ed. Wytt. (ἐκρίθη καὶ διεκρίθη καὶ ἀπῆλθεν ὅθεν ἦλθε, γᾶ μὲν εἰς γᾶν, πνεῦμα δ' ἄνω τι τῶνδε χρὴ 'λπίζειν; οὐδὲ εἷς).

Eurípides, num fragmento do Crisipo, fr. 836, ed. Nauck, diz:

τὰ μὲν ἐκ γαίας φύντα εἰς γαῖαν, τὰ δ' ἀπ' αἰθερίου βλαστόντα γονῆς εἰς οὐράνιον πάλιν ἔλθε πόλον.

Traduzi as palavras de Epicteto 'ὅσον πνευμάτιον, εἰς πνευμάτιον' por 'de ar (espírito), para o ar': mas o πνευμάτιον de Epicteto pode significar o mesmo que o πνεῦμα de Epicarmo, e o mesmo que o 'espírito' de Eclesiastes.

Um comentarista inglês diz que "a doutrina de uma retribuição futura forma a grande base e a verdade principal deste livro (Eclesiastes)", e que "o Pregador real (Eclesiastes) apresenta a perspectiva de uma vida futura e retribuição". Não consigo descobrir nenhuma evidência dessa afirmação no livro.

A conclusão é a melhor parte deste livro mal conectado, obscuro e confuso, como aparece em nossa tradução.

A conclusão é (xii. 13, 14): 'Teme a Deus e guarda os seus mandamentos: porque isto é todo o dever do homem, pois Deus trará a juízo toda obra, juntamente com toda coisa secreta, seja boa, seja má.' Isto é tudo o que posso descobrir no livro que possa apoiar a declaração do comentarista; e mesmo isto pode não significar o que ele afirma.

Schweighaeuser observa que aqui era a oportunidade para Epicteto dizer algo sobre a imortalidade da alma, se tivesse algo a dizer.

Mas ele não diz nada, a menos que queira dizer que a alma, o espírito, "volta para Deus que a deu", como diz o Pregador.

Há uma passagem (iii. 24, 94) que parece significar que a alma do homem, após a morte, será mudada em algo mais, que o universo exigirá para algum uso ou propósito.

É estranho, observa Schweig., que Epicteto, que estudou a filosofia de Sócrates e fala tão eloquentemente da capacidade do homem e de seu dever para com Deus, não diga mais: mas a explicação pode ser que ele não tinha doutrina da imortalidade do homem, no sentido em que essa palavra é agora usada.

EPICTETO.

"Vens sobre mim quando estou sozinho e me assassinas? Tolo, não te assassino a ti, mas ao teu pobre corpo."

Que tipo de solidão resta então? Que falta? Por que nos tornamos piores que crianças? E o que fazem as crianças quando são deixadas sozinhas? Pegam conchas e cinzas, e constroem algo, depois derrubam, e constroem outra coisa, e assim nunca lhes faltam meios de passar o tempo.

Devo eu então, se você navegar para longe, sentar-me e chorar, porque fui deixado sozinho e solitário? Devo eu então não ter conchas, nem cinzas? Mas as crianças fazem o que fazem por falta de pensamento (ou deficiência de conhecimento), e nós, por conhecimento, somos infelizes.

Todo grande poder (faculdade) é perigoso para os principiantes. Deves então suportar tais coisas como podes, mas conforme a natureza; mas não... Pratica às vezes um modo de viver como uma pessoa enferma, para que possas algum dia viver como um homem saudável.

Abstém-te de alimento, bebe água, abstém-te às vezes inteiramente do desejo, a fim de que possas algum dia desejar de acordo com a razão; e se de acordo com a razão, quando tiveres algo bom em ti, desejarás bem.

— Não é assim: mas queremos viver como sábios imediatamente e ser úteis aos homens — Úteis como? O que estás fazendo? Foste útil a ti mesmo? Mas, suponho, desejas exortá-los? Tu os exortas! Desejas ser útil a eles.

Mostra a eles em teu próprio exemplo que tipo de homens a filosofia faz, e não brinques.

Quando estiveres comendo, faze o bem àqueles que comem contigo; quando estiveres bebendo, àqueles que bebem contigo; cedendo a todos, dando lugar, suportando-os, assim lhes fazeis o bem, e não cuspas sobre eles tua fleuma (maus humores).

O texto tem apxonepuv, mas provavelmente deveria ser apxo/ifvi. Compare i. 1, 8, iraffa Svvanis firtffpa-fis.

O texto de (ptpetv oZv Set to ry tpdiaiK é ininteligível.

Lord Shaftesbury diz que a passagem não está corrompida, e ele dá uma explicação; mas Schweig. diz que a exposição do erudito inglês não torna o texto mais claro para ele; nem para mim. Schweig. observa que a passagem que começa com iraa-a fnydXti e o que se segue parecem pertencer ao próximo capítulo xiv.

'Veja a nota de Schweig., e a versão latina.

EPICTETO.

CAPÍTULO XIV.

CERTOS ASSUNTOS MISCELÂNEOS.

Assim como maus atores trágicos não podem cantar sozinhos, mas em companhia de muitos: assim algumas pessoas não podem andar sozinhas.

Homem, se és algo, anda sozinho e fala contigo mesmo, e não te escondas no coro.

Examine um pouco, finalmente, olhe ao redor, anime-se, para que você saiba — quem você é.

Quando um homem bebe água, ou faz qualquer coisa por causa da prática (disciplina), sempre que há uma oportunidade ele conta a todos: "Eu bebo água." É para isso que você bebe água, com o propósito de beber água? Homem, se é bom para você beber, beba; mas se não, você está agindo de maneira ridícula.

Mas se é bom para você e você bebe, não diga nada àqueles que estão descontentes com os bebedores de água.

O que então, você deseja agradar a esses mesmos homens?

Das coisas que são feitas, algumas são feitas com um propósito final (Trporjyovfxivws), algumas de acordo com a ocasião, outras com certa referência às circunstâncias, outras com o propósito de cumprir com os outros, e algumas de acordo com um esquema fixo de vida.

Você deve arrancar dos homens essas duas coisas: arrogância (orgulho) e desconfiança.

Arrogância então é a opinião de que você não quer nada (não é deficiente em nada): mas desconfiança é a opinião de que você não pode ser feliz quando tantas circunstâncias o cercam.

A arrogância é removida pela confutação; e Sócrates foi o primeiro que praticou isso.

E (para saber) que a coisa não é impossível, indague e busque.

Essa busca não lhe fará mal; e de certa maneira isso é filosofar, buscar como é possível empregar desejo e aversão (ckkAio-ci) sem impedimento.

Eu sou superior a você, pois meu pai é um homem de posição consular.

Outro diz: Eu fui tribuno, mas você não.

Se fôssemos cavalos, você diria: Meu pai era mais veloz? Eu tenho muita cevada e forragem, ou elegantes ornamentos de pescoço.

Se então enquanto você dizia isso, eu dissesse: Assim seja: corramos então.

Bem, não há nada em um homem, como correr em um cavalo, pelo qual se saberá qual é superior e inferior? Não há modéstia (aiSws), fidelidade, justiça? Mostre-se superior nessas coisas, para que você seja superior como homem.

Se você me disser que pode chutar violentamente, eu também lhe direi que você se orgulha daquilo que é o ato de um asno.

CAPÍTULO XV.

QUE DEVEMOS PROCEDER COM CIRCUNSPECÇÃO EM TODAS AS COISAS.

Em cada ato, considere o que precede e o que segue, e então prossiga para o ato.

Se não considerares, começarás primeiro pelo espírito, pois não pensaste de modo algum nas coisas que se seguem; mas depois, quando algumas consequências se manifestarem, desistirás vergonhosamente (daquilo que começaste). — Quero vencer nos Jogos Olímpicos.

— [E eu também, pelos deuses: pois é uma coisa bela]. Mas considera aqui o que precede e o que se segue; e então, se for para o teu bem, empreende a coisa.

Deves agir segundo regras, seguir dieta estrita, abster-te de iguarias, exercitar-te por compulsão em horas fixas, no calor, no frio; não beber água fria, nem vinho, quando houver oportunidade de bebê-lo. Em uma palavra, deves entregar-te ao treinador, como te entregas a um médico.

Em seguida, na contenda, deves ser coberto de areia, às vezes deslocar uma mão, torcer um tornozelo, engolir uma quantidade de poeira, ser açoitado com o chicote; e, depois de passar por tudo isso, às vezes deves ser vencido.

Depois de calcular todas essas coisas, se ainda tiveres inclinação, vai à prática atlética.

Se não as calculas, observa que te comportarás como crianças que ora brincam de lutadores, ora de gladiadores, ora tocam trombeta, ora representam uma tragédia, quando viram e admiraram tais coisas.

Assim também tu fazes: és ora lutador (atleta), ora gladiador, ora filósofo, ora retórico; mas com toda a tua alma não és nada: como o macaco, imitas tudo o que vês; e sempre uma coisa após outra te agrada, mas aquilo que se torna familiar te desagrada.

Pois nunca empreendeste nada após consideração, nem depois de teres explorado todo o assunto e o submetido a um exame rigoroso; mas o empreendeste ao acaso e com um desejo frio.

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¹ Compare Encheiridion 20.

² Este capítulo tem grande conformidade com Lucas xiv.

etc.

Mas deve-se observar que Epicteto, tanto aqui como em outros lugares, supõe algumas pessoas incapazes de serem filósofos; isto é, homens virtuosos e piedosos: mas o Cristianismo requer e capacita todos a serem tais." — Sra. Carter.

A passagem em Lucas contém uma lição prática, e até certo ponto é o mesmo que o ensinamento de Epicteto: mas a conclusão no v. 33 não parece ser auxiliada pelo que imediatamente precede v. 28-32. A observação de que o Cristianismo 'capacita todos a serem tais' não é verdadeira, a menos que a Sra. Carter dê à palavra 'capacita' um significado que não vejo.

EPICTETO.

Assim, algumas pessoas, tendo visto um filósofo e tendo ouvido alguém falar como Eufrates — e quem pode falar como ele? — desejam ser filósofas elas mesmas.

Homem, considera primeiro qual é a matéria (que te propões a fazer), depois também a tua própria natureza, o que ela é capaz de suportar.

Se és um lutador, olha para teus ombros, tuas coxas, teus lombos: pois diferentes homens são naturalmente formados para diferentes coisas.

Pensas que, se fizeres (o que fazes diariamente), podes ser um filósofo? Pensas que podes comer como agora comes, beber como agora bebes, e da mesma maneira ficar irado e mal-humorado? Deves vigiar, trabalhar, conquistar certos desejos, deves afastar-te de teus parentes, ser desprezado por teu escravo, ridicularizado por aqueles que te encontram, em tudo deves estar em condição inferior, quanto ao cargo magistral, em honras, em tribunais de justiça.

Quando tiveres considerado todas essas coisas completamente, então, se achares conveniente, aproxima-te da filosofia, se quiseres ganhar em troca dessas coisas a liberdade das perturbações, a liberdade, a tranquilidade.

Se não consideraste essas coisas, não te aproximes da filosofia: não aja como crianças, ora um filósofo, ora um coletor de impostos, ora um retórico, ora um procurador (oficial) de César.

Essas coisas não são consistentes.

Deves ser um homem, ou bom ou mau: deves ou trabalhar na tua própria faculdade diretriz ou nas coisas externas: deves ou trabalhar nas coisas internas ou nas externas: isto é, deves ocupar o lugar de um filósofo ou o de um vulgar.

Uma pessoa disse a Rufo quando Galba foi assassinado: "O mundo agora é governado pela Providência?" Mas Rufo respondeu: "Por acaso eu alguma vez formei um argumento a partir de Galba de que o mundo é governado pela Providência?"

CAPÍTULO XV

QUE DEVEMOS COM CAUTELA ENTRAR EM INTERCURSO FAMILIAR COM OS HOMENS.

Se um homem tem frequente intercâmbio com outros, seja para conversar, seja para beber juntos, ou geralmente para fins sociais, ele deve tornar-se como eles, ou mudá-los para a sua própria maneira.

Pois se um homem coloca um pedaço de carvão apagado junto a um pedaço que está queimando, ou o carvão apagado apagará o outro, ou o carvão queimando acenderá o que está apagado.

Visto que o perigo é tão grande, devemos entrar cautelosamente em tais intimidades com aqueles da espécie comum, e lembrar que é impossível que um homem possa manter companhia com alguém que está coberto de fuligem sem tornar-se participe da mesma fuligem.

Pois o que fareis se um homem fala sobre gladiadores, sobre cavalos, sobre atletas, ou o que é pior, sobre homens? Tal pessoa é má, tal pessoa é boa: isto foi bem feito, isto foi mal feito.

Além disso, se ele zombar, ou ridicularizar, ou mostrar uma disposição maldosa? Está algum homem entre nós preparado como um tocador de lira quando pega uma lira, de modo que, assim que toca as cordas, descobre quais estão discordantes e afina o instrumento? Tal poder como Sócrates tinha, que em todo o seu intercâmbio social podia conduzir seus companheiros ao seu próprio propósito? Como poderíeis ter esse poder? É, portanto, uma consequência necessária que sejais levados pela espécie comum de pessoas.

Por que então eles são mais poderosos do que vós? Porque eles proferem essas palavras inúteis a partir de suas opiniões reais; mas vós proferis vossas palavras elegantes apenas de vossos lábios; por essa razão elas são sem força e mortas, e é nauseante ouvir vossas exortações e vossa miserável virtude, que é falada por toda parte (para cima e para baixo). Desse modo, os vulgares têm vantagem sobre vós: pois toda opinião (dogma) é forte e invencível.

Até então, os bons (KOfjupai) sentimentos (vTroAii/eis) estão fixados em vós, e tereis adquirido certo poder para vossa segurança, aconselho-vos a serdes cuidadosos em vossa associação com pessoas comuns: se não o fordes, cada dia, como cera ao sol, será derretido tudo o que inscreverdes em vossas mentes na escola.

Retirai-vos, pois, para longe do sol enquanto tiverdes esses sentimentos de cera.

Por essa razão também os filósofos aconselham os homens a deixarem sua pátria, porque os hábitos antigos os distraem e não permitem que um começo seja

¹ A palavra é criKxayai.

Ver Antonino v. 9.

EPICTETO.

feito de um hábito diferente; nem podemos tolerar aqueles que nos encontram e dizem: Vede, tal pessoa agora é filósofa, que outrora era assim e assim. Assim também os médicos enviam aqueles que têm doenças prolongadas para um país diferente e um ar diferente; e fazem bem.

Introduzi também outros hábitos além daqueles que tendes: fixai vossas opiniões e exercitai-vos nelas.

Mas vós não fazeis assim: vós ides daqui a um espetáculo, a uma exibição de gladiadores, a um lugar de exercício (vo-tov), a um circo; então voltais para cá, e novamente deste lugar ides para aqueles lugares, e ainda as mesmas pessoas.

E não há hábito (bom) agradável, nem atenção, nem cuidado de si mesmo e observação deste tipo.

Como usarei as aparências que me são apresentadas? Segundo a natureza, ou contra a natureza? Como respondo a elas? Como devo, ou como não devo? Digo àquelas coisas que são independentes da vontade que elas não me concernem? Pois se ainda não estais nesse estado, fugi de vossos hábitos anteriores, fugi da gente comum, se pretendeis algum dia começar a ser algo.

CAPÍTULO XVII.

SOBRE A PROVIDÊNCIA.

Quando fizerdes qualquer acusação contra a Providência, considerai, e aprendereis que a coisa aconteceu segundo a razão.

— Sim, mas o homem injusto tem a vantagem.

— Em quê? — Em dinheiro.

— Sim, pois ele é superior a vós nisto, que ele lisonjeia, é sem vergonha e é vigilante.

Qual é a maravilha? Mas vede se ele tem vantagem sobre vós em ser fiel, em ser modesto: pois não achareis que seja assim; mas onde sois superior, ali achareis que tendes a vantagem.

E eu certa vez disse a um homem que estava irritado porque Filostorgos era afortunado: Escolheríeis deitar com Sura? —

Upton sugere que Sura pode ser Palfurius (Juvenal, iv. 53), ou Palfurius Sura (Suetônio, Domiciano, c. 13).

EPICTETO.

Que nunca aconteça, respondeu ele, que esse dia chegue? Por que então te afliges, se ele recebe algo em troca daquilo que vende; ou como podes considerar feliz aquele que adquire essas coisas por meios que abominas; ou que mal faz a Providência, se dá as coisas melhores aos homens melhores? Não é melhor ser modesto do que ser rico? — Ele admitiu isso — Por que te afliges então, homem, quando possuis a coisa melhor? Lembra-te então sempre e tem em prontidão a verdade, de que esta é uma lei da natureza, que o superior tem vantagem sobre o inferior naquilo em que é superior; e nunca te afligirás.

Mas minha esposa me trata mal.

— Bem, se alguém te perguntar o que é isso, dize: minha esposa me trata mal — Há então nada mais? Nada.

— Meu pai não me dá nada — [O que é isto? Meu pai não me dá nada — Não há então nada mais? — Nada]: mas dizer que isto é um mal é algo que deve ser acrescentado externamente, e falsamente acrescentado.

Por essa razão não devemos nos livrar da pobreza, mas da opinião sobre a pobreza, e então seremos felizes.

CAPÍTULO XVIII.

QUE NÃO DEVEMOS SER PERTURBADOS POR QUALQUER NOTÍCIA.

QUANDO qualquer coisa te for relatada que seja de natureza a perturbar, tem este princípio em prontidão: que a notícia é sobre nada que esteja no poder da tua vontade.

Pode algum homem relatar-te que formaste uma má opinião, ou tiveste um mau desejo? De modo algum.

Mas talvez ele relate que alguma pessoa morreu.

O que é isso para ti? Ele pode relatar que alguém fala mal de ti.

O que é isso para ti? Ou que teu pai está planejando algo ou outro.

Contra quem? Contra a tua vontade (Prohairesis)? Como pode ele? Mas é contra o teu pobre corpo, contra a tua pequena propriedade?

Vês a nota de Schweig.

EPICTETO.

Estás bastante seguro: não é contra ti.

Mas o juiz declara que cometeste um ato de impiedade.

E não fizeram os juízes (dikastai) a mesma declaração contra Sócrates? Importa-te que o juiz tenha feito essa declaração? Não. Por que então te preocupas mais com isso? Teu pai tem certo dever, e se não o cumprir, perde o caráter de pai, de homem de afeição natural, de gentileza.

Não desejes que ele perca qualquer outra coisa por causa disso.

Pois nunca um homem erra em uma coisa e sofre em outra.

Por outro lado, é teu dever fazer tua defesa com firmeza, modéstia, sem ira; mas, se não o fizeres, também perdes o caráter de filho, de homem de comportamento modesto, de caráter generoso.

Bem, então, o juiz está livre de perigo? Não; mas ele também está em igual perigo.

Por que então ainda temes a decisão dele? Que tens tu a ver com aquilo que é o mal de outro homem? É teu próprio mal fazer uma má defesa: guarda-te somente contra isso.

Mas ser condenado ou não ser condenado, como isso é ato de outra pessoa, assim é o mal de outra pessoa.

Uma certa pessoa te ameaça.

A mim? Não. Ele te censura.

Que ele veja como administra seus próprios assuntos.

Ele vai te condenar injustamente.

Ele é um homem miserável.

CAPÍTULO XIX.

QUAL É A CONDIÇÃO DE UM HOMEM COMUM E DE UM FILÓSOFO.

A primeira diferença entre uma pessoa comum (iStoms) e um filósofo é esta: a pessoa comum diz: Ai de mim por meu filhinho, por meu irmão, por meu pai. O filósofo, se alguma vez for compelido a dizer: Ai de mim, para e diz: "mas por mim mesmo." Pois nada que seja independente da vontade pode impedir ou danificar

 Compare iii.

5. 4.

EPICTETO.

a vontade, e a vontade só pode impedir ou danificar a si mesma.

Se então nós mesmos nos inclinarmos nessa direção, de modo que, quando estivermos infelizes, nos culpemos a nós mesmos e nos lembremos de que nada mais é a causa da perturbação ou da perda de tranquilidade, exceto nossa própria opinião, juro-vos por todos os deuses que fizemos progresso.

Mas no estado atual das coisas, seguimos outro caminho desde o início.

Por exemplo, enquanto ainda éramos crianças, a ama, se alguma vez tropeçássemos por falta de cuidado, não nos repreendia, mas batia na pedra.

Mas o que fez a pedra? Devia a pedra ter se movido por causa da tolice de teu filho? Novamente, se não encontrássemos nada para comer ao sair do banho, o pedagogo nunca refreava nosso apetite, mas açoitava o cozinheiro.

Homem, fizemos-te pedagogo do cozinheiro e não da criança?² Corrige a criança, melhora-a.

Dessa maneira, mesmo quando crescidos, somos como crianças.

Pois quem é desprovido de música é uma criança em música; quem é desprovido de letras é uma criança em aprendizado; quem é não instruído é uma criança na vida.

CAPÍTULO XX.

QUE PODEMOS EXTRAIR VANTAGEM DE TODAS AS COISAS EXTERNAS.

No caso das aparências que são objetos da visão, quase todos permitiram que o bem e o mal estejam em nós mesmos, e não nas coisas externas.

Ninguém dá o nome de bem ao fato de ser dia, nem de mal ao fato de ser noite, nem o nome do maior mal à opinião de que três são quatro.

Mas o que dizem os homens? Eles

Não segui o texto de Schweighaeuser aqui.

Veja sua nota.

O original é OeccpririKwv pavTa(nwv, que é traduzido na versão latina como 'visa theoretica', mas isso não nos ajuda. Talvez o autor queira dizer quaisquer aparências que nos são apresentadas seja pelos olhos, seja pelo entendimento; mas não tenho certeza do que ele quer dizer.

Diz-se no Index Graecitatis (ed. de Schweig.): '(pavTatriai 6iu}p7)riKal, notiones theoreticae, iii. 20. 1, quibus opponuntur Practicae ad vitam regendam spectautes.'

B

EPICTETO.

dizem que o conhecimento é bom, e que o erro é mau; de modo que, mesmo em relação à própria falsidade, há um bom resultado: o conhecimento de que é falsidade.

Assim também deveria ser na vida.

A saúde é uma coisa boa, e a doença é uma coisa má? Não, homem.

Mas o que é? Estar saudável, e saudável de maneira correta, é bom; estar saudável de maneira má é mau; de modo que é possível extrair vantagem até mesmo da doença, eu declaro.

Pois não é possível extrair vantagem até mesmo da morte, e não é possível extrair vantagem da mutilação? Pensas que Menoeceus ganhou pouco com a morte? Poderia um homem que diz isso ganhar tanto quanto Menoeceus ganhou? Vamos, homem, não manteve ele o caráter de ser um amante de sua pátria, um homem de grande mente, fiel, generoso? E se tivesse continuado a viver, não teria perdido todas essas coisas? Não teria ganho o oposto? Não teria ganho o nome de covarde, ignóbil, um odiador de sua pátria, um homem que temia a morte? Bem, pensas que ele ganhou pouco ao morrer? Suponho que não.

Mas o pai de Admeto ganhou muito ao prolongar sua vida tão ignobilmente e miseravelmente? Não morreu ele depois? Cessa, eu te conjuro pelos deuses, de admirar as coisas materiais.

Cessai de vos tornar escravos, primeiro das coisas, depois, por causa das coisas, escravos daqueles que podem dá-las ou tirá-las.

Pode-se então extrair vantagem dessas coisas? De todas; e daquele que abusa de ti.

Em que se beneficia o atleta o homem que o exercita antes do combate? Muito grandemente.

Este homem torna-se meu exercitador antes do combate: ele me exercita na resistência, no domínio do meu temperamento, na brandura.

Dizes não: mas aquele que me agarra pelo pescoço e disciplina meus lombos e ombros,

'Menoeceu, filho de Creonte, sacrificou a própria vida pela qual salvaria sua pátria, conforme fora declarado por um oráculo.

(Cícero, Tuscul.

i. c. 48.) Juvenal (Sat.

xiv.

238) diz

Quarum Amor In te Quantum patriae Eteclorum in pectore; quantum Dilexit Thebas, si Graecia vera, Menoeceus.

Eurípides, Phoenissae, v. 913. ' Ver nota de Schweig.

O pai de Admeto era Feras (Eurípides, Alcestis).

EPICTETO.

faz-me bem; e o mestre de exercícios (o aliptes, ou ungidor) tem razão quando diz: Levanta-o com ambas as mãos, e quanto mais pesado ele (ekeinos) for, tanto mais em meu proveito. Mas se um homem me exercita no domínio do meu temperamento, não me faz bem? — Isso é não saber como obter vantagem dos homens.

É meu próximo mau? Mau para si mesmo, mas bom para mim: ele exercita minha boa disposição, minha moderação.

É meu pai mau? Mau para si mesmo, mas para mim bom.

Esta é a vara de Hermes: toca com ela o que quiseres, como se diz, e tornar-se-á ouro.

Não digo assim: mas traze o que quiseres, e eu o tornarei bom.® Traze doença, traze morte, traze pobreza, traze injúria, traze julgamento sob acusações capitais: todas essas coisas, através da vara de Hermes, tornar-se-ão proveitosas.

Que farás com a morte? Ora, que mais senão que ela te honre, ou que te mostre por ato através dela,' o que é um homem que segue a vontade da natureza? Que farás com a doença? Mostrarei sua natureza, serei conspícuo nela, serei firme, serei feliz, não lisonjearei o médico, não desejarei morrer.

Que mais buscas? O que quer que me dês, eu o tornarei feliz, afortunado, honrado, uma coisa que um homem buscará.

Dizes não: mas cuida para que não adoeças: é uma coisa má.

Isso é o mesmo que se dissesses.

Cuida para que nunca recebas a impressão (aparência) de que três são quatro: isso é mau.

Homem, como isso é mau? Se eu pensar sobre isso como devo, como então isso me causará algum dano? E não me fará até mesmo bem? Se então eu pensar sobre a pobreza como devo, sobre a doença, sobre não ter cargo público, isso não me basta? Não será uma vantagem?

" O significado não é claro, se seguirmos o texto original.

Schweig.

não consigo ver o sentido de 'com ambas as mãos' no grego, nem eu. Ele também diz que nas palavras S.poy v-rrip a.fx(poT€pas, a menos que algum substantivo masculino esteja subentendido e não expresso, eKuyos deve ser referido ao aliptes; e ele traduz apvTepos por 'severior.'

Sra.

Carter cita a epístola aos Romanos (viii.

28): 'e sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus'; mas ela cita apenas a primeira parte do versículo e omite a conclusão, 'daqueles que são chamados segundo o seu propósito.'

' Ver nota de Schweig.

 ayapxias ; ver iv. 4, 2 e 23.

R

EFICTEIUS.

tagem? Como então devo eu ainda procurar buscar o mal e o bem nas coisas externas? "O que acontece? essas doutrinas são mantidas aqui, mas ninguém as leva para casa; mas imediatamente cada um está em guerra com seu escravo, com seus vizinhos, com aqueles que zombaram dele, com aqueles que o ridicularizaram.

Boa sorte para Lésbio, que diariamente prova que eu nada sei.

CAPÍTULO XXI.

CONTRA AQUELES QUE PRONTAMENTE VÊM À PROFISSÃO DE SOFISTAS.

Aqueles que tomaram meros teoremas (Oewpr/fxaTa) imediatamente desejam vomitá-los, como pessoas cujo estômago está doente fazem com a comida.

Primeiro digira a coisa, depois não a vomite assim: se você não a digerir, a coisa se torna verdadeiramente um emético, um alimento cru e impróprio para comer.

Mas após a digestão, mostre-nos alguma mudança em sua faculdade diretriz, como os atletas mostram em seus ombros pelo que foram exercitados e pelo que comeram; como aqueles que tomaram certas artes mostram pelo que aprenderam.

O carpinteiro não vem e diz: Ouçam-me falar sobre a arte do carpinteiro; mas tendo se comprometido a construir uma casa, ele a constrói, e prova que conhece a arte.

Você também deve fazer algo do tipo; coma como um homem, beba como um homem, vista-se, case, gere filhos, faça o ofício de cidadão, suporte abusos, suporte um irmão irracional, suporte seu pai, suporte seu filho, vizinho, companheiro. Mostre-nos essas coisas para que vejamos que

 Algum sujeito abusivo, conhecido de alguns dos ouvintes de Epicteto.

Talvez devêssemos entender as palavras como se fosse dito: "cada um de vocês deveria dizer a si mesmo: Boa sorte para Lésbius, etc." Nota de Schweig.

O ensinamento prático dos estoicos está contido no capítulo 7 do livro III, e é bom e sábio.

Um escritor moderno diz da prática moderna: "Se abrirmos os olhos e se quisermos honestamente reconhecer para nós mesmos o que descobrimos, seremos compelidos a confessar que toda a vida e

EPICTETO.

Vocês, na verdade, aprenderam algo com os filósofos.

Vocês dizem: Não; mas venham e ouçam-me ler comentários (filosóficos).

Vão embora e procurem alguém em quem vomitá-los. (Ele responde) E de fato eu vos exporei os escritos de Crisipo como nenhum outro homem pode: explicarei seu texto claramente; acrescentarei também, se puder, a veemência de Antípatro e Arquedemo.

É então para isso que os jovens deixarão seu país e seus pais, para que venham a este lugar e ouçam você explicar palavras? Não deveriam eles voltar com capacidade de suportar, de ser ativos na associação com outros, livres de paixões, livres de perturbação, com tal provisão para a jornada da vida com a qual possam suportar bem as coisas que acontecem e obter honra delas? E como você pode dar-lhes qualquer uma dessas coisas que você não possui? Você fez desde o início qualquer outra coisa além de se ocupar com a resolução de silogismos?

Cícero (Acad. Prior., ii. 47) nomeia Antípatro e Arquedemo como os principais dos dialéticos, e também "homens muito opiniosos".

Esta passagem é uma daquelas que mostram o grande bom senso de Epicteto na questão da educação; e algumas outras observações no mesmo sentido seguem neste capítulo.

Um homem poderia justamente dizer que não temos uma noção clara do propósito da educação.

Um escritor moderno, que parece pertencer à escola de Epicteto, diz: "não se pode negar que em todas as escolas de todos os tipos, o primeiro e principal objetivo deve ser tornar as crianças saudáveis, boas, honestas e, se possível, sensatas, homens e mulheres; e se isso não for feito em um grau razoável, sustento que a educação dessas escolas não serve para nada — não proponho tornar as crianças boas, honestas e sábias por preceitos, dogmas e pregações, como vereis.

Elas devem ser tornadas boas e sábias pelo cultivo do entendimento, pela prática da disciplina necessária para esse fim, e pelo exemplo daquele que governa, dirige e instrui." Além disso, "meus professores e minhas professoras têm algo que os outros não têm: eles têm um propósito, um fim em seu sistema de educação; e o que é educação? O que é a vida humana sem algum propósito ou fim que possa ser alcançado pela diligência, ordem e exercício de habilidades moderadas? Grandes habilidades são raras, e frequentemente são acompanhadas de qualidades que tornam as habilidades inúteis para quem as possui, e até prejudiciais à sociedade."

EPICTETO.

gismos, de argumentos sofísticos (οἱ μετατιθέντες), e naqueles que operam por perguntas? Mas tal homem tem uma escola; por que eu também não deveria ter uma escola? Essas coisas não são feitas, homem, de maneira descuidada, nem apenas como acontece; mas deve haver uma (adequada) idade e vida e Deus como guia.

Você diz, Não. Mas ninguém navega de um porto sem ter sacrificado aos Deuses e invocado sua ajuda; nem os homens semeiam sem ter invocado Deméter; e um homem que empreendeu tão grande obra a empreenderá com segurança sem os Deuses? E aqueles que empreendem esta obra chegarão a ela com sucesso? O que mais estás fazendo, homem, senão divulgar os mistérios? Você diz, há um templo em Elêusis, e um aqui também.

Há um Hierofante em Elêusis, e eu também farei um Hierofante: há um arauto, e eu estabelecerei um arauto: há um portador de tocha em Elêusis, e eu também estabelecerei um portador de tocha; há tochas em Elêusis, e eu terei tochas aqui.

As palavras são as mesmas: como as coisas feitas aqui diferem daquelas feitas lá? — Ó homem ímpio, não há diferença? Estas coisas são feitas tanto no lugar devido quanto no tempo devido; e quando acompanhadas de sacrifício e orações, quando o homem é primeiro purificado, e quando está disposto em sua mente ao pensamento de que vai se aproximar de ritos sagrados e ritos antigos.

Dessa forma, os mistérios são úteis; dessa forma, chegamos à noção de que todas essas coisas foram estabelecidas pelos antigos para a instrução e correção da vida. Mas você os publica e divulga fora do tempo, fora do lugar, sem sacrifícios, sem pureza; você não tem as vestes que o hierofante deveria ter, nem o cabelo, nem o toucado, nem a voz, nem a idade; nem se purificou como ele: mas você confiou à memória apenas as palavras, e diz: Sagradas são as palavras por si mesmas.

Havia um grande templo de Deméter (Ceres) em Elêusis, na Ática, e solenes mistérios, e um Hierofante ou condutor das cerimônias.

Veja a nota de T. Burnet, De Fide et Officiis Christianorum, Ed. Sec.

p. 89.

O leitor, que tem inclinação para comparar formas religiosas antigas e modernas, pode encontrar algo na prática moderna ao qual as palavras de Epicteto são aplicáveis.

EPICTETO.

Você deve abordar essas questões de outra maneira; a coisa é grande, é mística, não é algo comum, nem é dada a todo homem.

Mas nem mesmo a sabedoria talvez seja suficiente para que um homem possa cuidar de jovens: é preciso também uma certa prontidão e aptidão para esse propósito, e uma certa qualidade de corpo, e acima de tudo deve ter Deus para aconselhá-lo a ocupar esse ofício, como Deus aconselhou Sócrates a ocupar o lugar de quem confuta o erro, Diógenes o ofício de realeza e repreensão, e o ofício de ensinar preceitos.

Mas você abre uma loja de médico, embora não tenha nada além de remédios: mas onde e como devem ser aplicados, você não sabe, nem se deu ao trabalho de saber. Veja, aquele homem diz: eu também tenho pomadas para os olhos.

Você também tem a

Na presente 'Ordenação de Diáconos' na Igreja da Inglaterra, a pessoa que é proposta como apta para ser diácono recebe do bispo a seguinte pergunta: 'Confiais que sois interiormente movido pelo Espírito Santo a assumir este ofício e ministério para servir a Deus, para a promoção de sua glória e a edificação de seu povo?' Na 'Ordenação de Sacerdotes', esta pergunta é omitida, e apenas outra é feita, que também é usada na ordenação de Diáconos: 'Pensais em vosso coração que sois verdadeiramente chamado, segundo a vontade de nosso Senhor Jesus Cristo', etc.

O professor deve ter Deus para aconselhá-lo a ocupar o ofício de professor, como diz Epicteto.

Ele não diz como Deus aconselhará: talvez ele supusesse que esse conselho pudesse ser dado da maneira como Sócrates disse que o recebia.

'Sabedoria talvez não seja suficiente' para habilitar um homem a cuidar de jovens.

Seja o que for que 'sabedoria' signifique, é verdade que um professor deve ter aptidão e gosto pelo ofício.

Se não tiver, achará desagradável e não o fará bem.

Ele pode e deve ganhar um sustento razoável com seu trabalho: se busca apenas dinheiro e riqueza, está no caminho errado, e é apenas como um negociante comum de compra e venda, um açougueiro ou um sapateiro, ou um alfaiate, todos membros úteis da sociedade e todos necessários em seus vários tipos.

Mas o professor tem um ofício sacerdotal, a formação, na medida do possível, de crianças em bons homens e mulheres.

Deveria ele ser 'ordenado' como um Diácono ou um Sacerdote, pois seu ofício é ainda mais útil do que o de Sacerdote ou Diácono? Alguns dirão que isso é ridículo.

Talvez os sábios não pensem assim.

EPICTETO.

poder de usá-las? Sabeis quando e como elas farão o bem, e a quem farão o bem? Por que então ageis ao acaso em coisas da maior importância? Por que sois descuidado? Por que empreendeis algo que não é de modo algum adequado para vós? Deixai isso para aqueles que são capazes de fazê-lo, e de fazê-lo bem.

Não tragais vós mesmo desonra para a filosofia por vossos próprios atos, e não sejais um daqueles que a carregam com má reputação.

Mas, se os teoremas te agradam, senta-te e revolve-os por ti mesmo; mas nunca digas que és um filósofo, nem permitas que outro o diga; mas dize: Ele está enganado, pois nem os meus desejos são diferentes do que eram antes, nem a minha atividade se dirige a outros objetos, nem assinto a outras coisas, nem no uso das aparências mudei em nada da minha condição anterior.

Isto deves pensar e dizer sobre ti mesmo, se quiseres pensar como deves; se não, age ao acaso e faze o que estás fazendo; pois isso te convém.

CAPÍTULO XXII

SOBRE O CINISMO.

Quando um de seus discípulos perguntou a Epicteto — e era uma pessoa que parecia inclinada ao Cinismo — que tipo de pessoa um Cínico deveria ser e qual era a noção (TrpoXrjij/Li) da coisa, nós investigaremos, disse Epicteto, com calma; mas tenho tanto a te dizer que aquele que sem Deus tenta tão grande empreendimento é odioso a Deus, e não tem outro propósito senão agir indecentemente em público.

Pois em qualquer casa bem administrada nenhum homem se adianta e diz a si mesmo: Eu devo ser o administrador da casa.

Se o faz, o senhor se volta e, vendo-o dar ordens com insolência, arrasta-o para fora e o açoita.

Assim também é nesta grande cidade (o mundo); pois aqui também há um senhor da casa que ordena todas as coisas.

(Ele diz) Tu és o sol; podes, ao circular, fazer o ano e as estações, e fazer os

EPICTETO.

2'

frutos crescerem e florescerem, e agitar os ventos e fazê-los cessar, e aquecer os corpos dos homens adequadamente: vai, percorre o teu caminho, e assim administra as coisas desde as maiores até as menores.

Tu és um bezerro; quando um leão aparecer, faze o teu dever (isto é, foge); se não o fizeres, sofrerás.

Tu és um touro: avança e luta, pois isto é o teu dever, e te convém, e podes fazê-lo. Podes conduzir o exército contra Ílion; sê Agamemnon.

Podes lutar em combate singular contra Heitor: sê Aquiles.

Mas se Tersites se adiantasse e reivindicasse o comando, ou não o teria obtido; ou, se o obtivesse, ter-se-ia desonrado diante de muitas testemunhas.

Tu também pensa cuidadosamente sobre o assunto: não é o que te parece.

(Você diz) Visto um manto agora e o vestirei então: durmo profundamente agora, e dormirei profundamente então: levarei além disso um pequeno saco agora e um cajado, e andarei por aí e começarei a mendigar e a insultar aqueles que encontrar; e se vir algum homem arrancando os pelos do corpo, repreendê-lo-ei, ou se ele tiver arrumado o cabelo, ou se andar vestido de púrpura — Se você imagina a coisa como sendo tal, mantenha-se longe dela: não se aproxime: ela não é de modo algum para você.

Mas se você a imagina como o que ela é, e não se considera incapaz para ela, considere quão grande coisa você empreende.

Em primeiro lugar, nas coisas que dizem respeito a você mesmo, não deve ser em nenhum aspecto como o que você é agora: não deve culpar Deus nem o homem: deve eliminar o desejo por completo, deve transferir a aversão apenas para as coisas que estão dentro do poder da vontade: não deve sentir ira nem ressentimento nem inveja nem piedade; uma moça não deve parecer bela para você, nem deve você amar uma pequena reputação, nem se agradar de um menino ou de um bolo.

Pois você deve saber que o resto dos homens lança muros ao redor de si, e casas e escuridão, quando fazem tais coisas, e têm muitos meios de ocultação.

Um homem fecha a porta, coloca alguém diante do aposento: se uma pessoa vem, diz que ele saiu, que não está disponível.

Mas o Cínico, em vez de todas essas coisas, deve usar a modéstia como sua proteção: se não o fizer, será indecente em sua nudez e sob o céu aberto.

Esta é sua casa, sua porta: este é o escravo diante de seu quarto: esta é sua escuridão.

Pois ele não deve desejar esconder nada do que faz: e se o fizer, está perdido, perdeu o caráter de um Cínico, de um homem que vive sob o céu aberto, de um homem livre: começou a temer alguma coisa externa, começou a ter necessidade de ocultação, nem pode obter ocultação quando escolhe.

Pois onde se esconderá e como? E se por acaso este instrutor público for descoberto, este pedagogo, que tipo de coisas será compelido a sofrer? Quando então um homem teme essas coisas, é possível que ele seja ousado com toda a sua alma para supervisionar os homens? Não pode ser: é impossível.

Em primeiro lugar, então, você deve tornar pura sua faculdade diretriz, e também este modo de vida.

Agora (você deveria dizer), para mim, a questão em que devo trabalhar é meu entendimento, assim como a madeira é para o carpinteiro, como os couros para o sapateiro; e meu ofício é o uso correto das aparências.

Mas o corpo nada é para mim: as partes dele nada são para mim. A morte? Que venha quando escolher, seja a morte do todo ou de uma parte.

Fuja, você diz.

E para onde? Pode algum homem me expulsar do mundo? Não pode.

Mas onde quer que eu vá, lá está o sol, lá está a lua, lá estão as estrelas, sonhos, presságios e a conversação (συνουσία) com os Deuses.

Então, se ele está assim preparado, o verdadeiro Cínico não pode se contentar com isso; mas deve saber que é enviado como mensageiro de Zeus aos homens sobre coisas boas e más, para mostrar-lhes que se extraviaram e buscam a substância do bem e do mal onde ela não está, mas onde está, nunca pensam; e que ele é um espião, como Diógenes foi levado a Filipe após a batalha de Queroneia como espião.

Pois, de fato, um Cínico é um espião das coisas que são boas para os homens e das que são más, e é seu dever examinar cuidadosamente e vir e relatar com verdade, e não ser tomado de terror a ponto de apontar como inimigos aqueles que não são inimigos, nem de qualquer outra forma ser perturbado pelas aparências nem confundido.

É seu dever, então, poder com voz alta, se a ocasião surgir, e aparecendo no palco trágico, dizer como Sócrates: Homens, para onde vos apressais, que fazeis, infelizes? Como cegos, vagueais para cima e para baixo: ides por outro caminho e deixastes o caminho verdadeiro: buscais prosperidade e felicidade onde elas não estão, e se outro vos mostra onde estão, não o credes.

Por que a buscais fora? No corpo? Não está lá.

Se duvidais, olhai para Miro, olhai para Ofélio. Nas posses? Não está lá.

Mas se não me credes, olhai para Creso: olhai para os que agora são ricos, com quão grandes lamentações sua vida está repleta.

No poder? Não está lá.

Se está, aqueles que foram cônsules duas e três vezes devem ser felizes; mas não são.

A quem devemos acreditar nestas questões? A vós, que de fora vedes os seus assuntos e sois deslumbrados por uma aparência, ou aos próprios homens? O que dizem eles? Ouvi-os quando gemem, quando se afligem, quando por causa dessas mesmas consulados e glória e esplendor julgam que são mais miseráveis e estão em maior perigo.

Está no poder real? Não está: se estivesse, Sero teria sido feliz, e Sardanápalo.

Mas nem Agamêmnon

Quod petis hic est.

Est Ulubris, animus si te non deficit aequus.

Horácio, Ep. i. 11, 30.

Queres sempre vaguear mais longe? Vê, o bem está tão perto.

Aprende apenas a agarrar a felicidade, Pois a felicidade está sempre ali.

Goethe, Gedichte.

Esses homens são supostos terem sido gladiadores fortes.

Creso é o rico rei da Lídia, que foi feito prisioneiro por Ciro, o Persa.

EPICTETO.

feliz, embora fosse um homem melhor que Sardanápalo e Nero; mas enquanto outros roncam, o que ele está fazendo?

Muito da cabeça arrancou os cabelos enraizados:

Ilíada, X. 15. e o que ele diz de si mesmo?

'Estou perplexo', diz ele, 'e

Perturbado estou', e 'meu coração do meu peito

Está saltando.'

Ilíada X. 91.

Miserável, qual dos teus assuntos vai mal? As tuas posses? Não. O teu corpo? Não. Mas és rico em ouro e cobre.

O que é então que te aflige? Essa parte de ti, seja ela qual for, foi negligenciada por ti e está corrompida, a parte com a qual desejamos, com a qual evitamos, com a qual nos movemos em direção às coisas e nos afastamos delas.

Como negligenciada? Ele não conhece a natureza do bem para o qual foi feito pela natureza nem a natureza do mal; e o que é seu, e o que pertence a outro; e quando algo que pertence a outros vai mal, ele diz: Ai de mim, pois os helenos estão em perigo.

Miserável é a sua faculdade diretriz, e sozinha negligenciada e descuidada.

Os helenos vão morrer destruídos pelos troianos.

E se os troianos não os matarem, não morrerão eles? Sim; mas não todos de uma vez.

Que diferença faz então? Pois se a morte é um mal, quer os homens morram todos juntos, quer morram individualmente, é igualmente um mal.

Alguma outra coisa então vai acontecer senão a separação da alma e do corpo? Nada.

E se os helenos perecem, a porta está fechada, e não está em teu poder morrer? Está. Por que então te lamentas (e dizes): Ó tu, que és um rei e tens o cetro de Zeus? Um rei infeliz não existe mais do que um deus infeliz.

Que és então? Em verdade, um pastor: pois choras como fazem os pastores, quando um lobo levou uma de suas ovelhas; e estes que são governados por ti são ovelhas.

E por que vieste aqui? Estava teu desejo em perigo? Estava tua aversão (ekklisis)? Estava teu movimento (buscas)? Estava tua evitação das coisas? Ele responde: Não; mas a esposa de meu irmão foi levada.

Não foi então um grande ganho ser privado de uma esposa adúltera? — Seremos então desprezados pelos troianos? — Que tipo de pessoas são os troianos, sábios ou tolos? Se são sábios, por que lutas com eles? Se são tolos, por que te importas com eles?

Em que está então o bem, já que não está nestas coisas? Dize-nos, tu que és senhor, mensageiro e espião.

Onde não pensas que ele esteja, nem escolhes buscá-lo: pois se escolhesses buscá-lo, tê-lo-ias encontrado em vós mesmos; nem estarias vagando fora do caminho, nem buscando o que pertence a outros como se fosse teu.

Voltai vossos pensamentos para vós mesmos: observai as preconcepções que tendes.

Que tipo de coisa imaginais ser o bem? Aquilo que flui facilmente, aquilo que é feliz, aquilo que não é impedido.

Vinde, e não o imaginais naturalmente como algo grande, não o imaginais como algo valioso? não o imaginais como algo livre de dano? Em que matéria então deveis buscar aquilo que flui facilmente, aquilo que não é impedido? Naquilo que serve ou naquilo que é livre? Naquilo que é livre.

Possuís então o corpo livre ou está em condição servil? Não sabemos.

Não sabeis que ele é escravo da febre, da gota, da oftalmia, da disenteria, de um tirano, do fogo, do ferro, de tudo o que é mais forte? Sim, é um escravo.

Como é então possível que algo que pertence ao corpo possa ser livre de impedimento? E como é algo grande ou valioso o que é naturalmente morto, ou terra, ou lama? Bem, então, não possuís nada que seja livre? Talvez nada.

E quem é capaz de te compelir a assentir àquilo que parece falso? Ninguém.

E quem pode te compelir a não assentir àquilo que parece verdadeiro? Ninguém.

Por isso então vês que há algo em ti naturalmente livre.

Mas desejar ou sentir aversão, ou mover-se em direção a um objeto ou afastar-se dele, ou preparar-se, ou propor fazer qualquer coisa, qual de vós pode fazer isso, a menos que

EPICTETO.

tenha recebido uma impressão da aparência daquilo que é proveitoso ou um dever? Nenhum homem.

Tendes, então, também nestas coisas algo que não é impedido e é livre.

Miseráveis homens, trabalhai nisto, cuidai disto, buscai o bem aqui.

E como é possível que um homem que nada tem, que está nu, sem casa, sem lar, sórdido, sem escravo, sem cidade, possa passar uma vida que flui facilmente? Vede, Deus vos enviou um homem para vos mostrar que é possível. Olhai para mim, que estou sem cidade, sem casa, sem posses, sem escravo; durmo no chão; não tenho esposa, nem filhos, nem pretório, mas apenas a terra e os céus, e um pobre manto.

E o que desejo? Não estou sem tristeza? Não estou sem medo? Não sou livre? Quando algum de vós me viu falhar no objeto do meu desejo? Ou alguma vez cair naquilo que eu evitaria? Acusei eu alguma vez a Deus ou ao homem?

"É observável que Epicteto parece considerar uma qualificação necessária num mestre enviado por Deus para a instrução da humanidade ser destituído de todas as vantagens externas e um caráter sofredor.

Assim, este excelente homem, que havia elevado a razão humana a tão grande altura, dá testemunho da propriedade daquele método que a sabedoria divina julgou adequado seguir no esquema do Evangelho; cujo grande autor não tinha onde reclinar a cabeça; e que alguns em épocas posteriores têm inconsideradamente apresentado como um argumento contra a religião cristã.

A infinita disparidade entre a proposta do exemplo de Diógenes em Epicteto e a do nosso Redentor no Novo Testamento é demasiado óbvia para necessitar de qualquer ampliação." Sra. Carter.

Alguns dos antigos, que se chamavam filósofos, culpavam a Deus e à sua administração do mundo; e há homens que fazem o mesmo agora.

Se um homem está insatisfeito com a condição do mundo, ele tem o poder de sair dele, como Epicteto frequentemente diz; e se ele sabe, como deve saber, que não pode alterar a natureza do homem e as condições da vida humana, pode considerar sábio retirar-se de um estado de coisas com o qual não está satisfeito.

Se alguém acredita que não há Deus, está em liberdade de fazer o que pensa ser melhor para si; e se acredita que há um Deus, pode ainda pensar que seu poder de deixar o mundo é um poder que pode exercer quando escolher.

Muitas pessoas cometem suicídio, não porque estão insatisfeitas com o estado do mundo, mas por outras razões.

Ainda não ouvi falar de um filósofo moderno que tenha encontrado defeito na condição das coisas humanas e voluntariamente se retirado da vida.

Nossos filósofos vivem o máximo que podem.

E alguns deles cuidam de si mesmos e de tudo o que possuem; eles até provêm bem para o conforto daqueles que deixam para trás.

A conclusão parece ser que eles preferem viver neste mundo a deixá-lo, que suas queixas são conversa ociosa; e que, sendo homens de mentes fracas e grande vaidade, assumem o nome de filósofo, e enquanto tentam tornar os outros tão insatisfeitos quanto professam ser, na verdade estão desfrutando a si mesmos, à sua maneira, o máximo que podem.

EPICTETO.

Acusei eu algum homem? Algum de vocês me viu alguma vez com semblante triste? E como eu lido com aqueles que vocês temem e admiram? Não os trato como escravos? Quem, ao me ver, não pensa que vê seu rei e mestre?

Esta é a linguagem dos Cínicos, este é o seu caráter, este é o seu propósito.

Vocês dizem não: mas a característica deles é a pequena bolsa, e o cajado, e as grandes mandíbulas: devorar tudo o que lhes dão, ou guardá-lo, ou abusar inoportunamente de todos que encontram, ou exibir seu ombro como uma coisa bela.

— Você vê como vai empreender tão grande empreendimento? Primeiro pegue um espelho: olhe para seus ombros; observe seus lombos, suas coxas.

Você vai, meu homem, ser inscrito como combatente nos jogos olímpicos, não em uma competição frígida e miserável.

Nos jogos olímpicos, a um homem não é permitido ser apenas conquistado e partir; mas primeiro deve ser desonrado diante de todo o mundo, não apenas diante dos atenienses, ou dos lacedemônios, ou dos nicopolitanos; depois deve também ser açoitado se tiver entrado nas contendas imprudentemente: e antes de ser açoitado, deve sofrer sede e calor, e engolir muita poeira.

Estes homens, embora possam ter meios de viver com tanto conforto quanto as condições da vida humana permitem, estão insatisfeitos, e, se pudessem, tornariam tão insatisfeitos quanto eles mesmos aqueles que têm menos meios de tornar a vida tolerável.

Estes resmungadores não são os homens que dão seu dinheiro, seu trabalho ou suas vidas para aumentar a felicidade da humanidade e diminuir os sofrimentos inevitáveis da vida humana; mas acham mais fácil culpar a Deus, quando creem nele; ou achar defeitos nas coisas como são, o que é mais absurdo, quando não creem em Deus, e quando deveriam fazer o melhor que pudessem das condições sob as quais vivemos.

O texto é elKrj if66vTa.

Meibomius sugeriu elTe66vra no lugar de tiKB6vra: Schwegig.

parece preferir claeKdovTo, e eu traduzi esta palavra na versão.

Penso que não há dúvida sobre a emenda.

EPICTETO.

Reflete mais cuidadosamente, "conhece-te a ti mesmo", consulta a divindade, sem Deus nada tentes; pois se ele te aconselhar (a fazer isto ou qualquer coisa), fica certo de que ele pretende que te tornes grande ou que recebas muitos golpes.

Pois esta qualidade muito divertida está unida a um Cínico: ele deve ser açoitado como um asno, e quando é açoitado, deve amar aqueles que o açoitam, como se fosse o pai de todos, e o irmão de todos — Tu dizes Não; mas se um homem te açoita, fica no lugar público e clama: 'César, o que sofro neste estado de paz sob tua proteção?' Tragamos o ofensor diante do procônsul.

— Mas o que é César para um Cínico, ou o que é um procônsul, ou o que é qualquer outro exceto aquele que enviou o Cínico para cá, e a quem ele serve, a saber, Zeus? Ele invoca algum outro senão Zeus? Não está convencido de que tudo o que sofre, é Zeus quem o está exercitando? Hércules, quando era exercitado por Euristeu, não pensava que era miserável, mas sem hesitação tentava executar tudo o que tinha em mãos.

E aquele que é treinado para a contenda e exercitado por Zeus vai clamar e se irritar, ele que é digno de portar o cetro de Diógenes? Ouve o que Diógenes diz aos transeuntes quando está com febre.

Miseráveis, não ficareis? Mas ides em tão longa jornada a Olímpia para ver a destruição ou a luta de atletas; e não escolhereis ver o combate entre uma febre e um homem? Acusaria tal homem a Deus que o enviou, como se Deus o tratasse indignamente, um homem que se gloriava em suas circunstâncias e se dizia exemplo para os que passavam? Pois do que o acusaria? Por manter uma decência de comportamento, por exibir sua virtude mais conspicuamente? Bem, e o que ele diz sobre a pobreza, sobre a morte, sobre a dor? Como comparou sua própria felicidade com a do grande rei (o rei da Pérsia)? Ou antes, pensou que não havia comparação entre elas.

" 'Do céu desceu o 'Conhece-te a ti mesmo' — Juvenal xi. 27. A expressão 'Conhece-te a ti mesmo' é atribuída a várias pessoas, e entre elas a Sócrates."

O autoconhecimento é um dos tipos de conhecimento mais difíceis; e nenhum homem o possui completamente. Os homens ou estimam suas capacidades demasiadamente, e isso é chamado vaidade, presunção ou arrogância; ou pensam muito humildemente de suas capacidades e não realizam o que poderiam realizar, se tivessem uma autoconfiança razoável.

"Compare isso com os preceitos cristãos de tolerância e amor aos inimigos, Mateus v. 39-44. O leitor observará que Cristo especifica injúrias e provocações mais elevadas do que Epicteto; e exige de todos os seus seguidores o que Epicteto descreve apenas como dever de uma ou duas pessoas extraordinárias, como tais." Sra. Carter.

"Upton cita Hieronymus, livro ii, contra Joviniano, onde a coisa é contada de maneira diferente."

EPICTETO. suas circunstâncias, e se dizia exemplo para os que passavam? Pois do que o acusaria? Por manter uma decência de comportamento, por exibir sua virtude mais conspicuamente? Bem, e o que ele diz sobre a pobreza, sobre a morte, sobre a dor? Como comparou sua própria felicidade com a do grande rei (o rei da Pérsia)? Ou antes, pensou que não havia comparação entre elas. Pois onde há perturbações, e tristezas, e medos, e desejos não satisfeitos, e aversões a coisas que não podes evitar, e invejas e ciúmes, como há ali um caminho para a felicidade? Mas onde há princípios corruptos, aí essas coisas devem necessariamente existir.

Quando o jovem perguntou se, quando um Cínico adoece, e um amigo lhe pede para ir à sua casa e ser cuidado em sua doença, o Cínico deve aceitar o convite, ele respondeu: E onde encontrarás, pergunto, um amigo de um Cínico? Pois o homem que convida deve ser tal como o Cínico, para que seja digno de ser considerado amigo do Cínico.

Ele deveria ser um parceiro no cetro do Cínico e em sua realeza, e um ministro digno, se pretende ser considerado digno da amizade de um Cínico, assim como Diógenes foi amigo de Antístenes, assim como Crates foi amigo de Diógenes.

Pensas que se um homem vem a um Cínico e o saúda, ele é amigo do Cínico, e que o Cínico o considerará digno de receber um Cínico em sua casa? Portanto, se te agrada, reflete também sobre isto: antes procura algum monturo conveniente sobre o qual suportarás tua febre e que te abrigue do vento norte, para que não sintas frio.

Mas me pareces querer entrar na casa de alguém e ser bem alimentado lá por um tempo.

Por que então pensas em tentar uma coisa tão grande (como a vida de um Cínico)?

"Não traduzi, porque não compreendo, as palavras Bti KUTTnyopu.

Veja a nota de Schweig.

" Este deve ser o significado.

Meibomius sugeriu que a leitura verdadeira é Kwikov, e não Kvvikóv: e Schweig.

parece ser da mesma opinião.

Repeti a palavra Cínico várias vezes para remover toda ambiguidade nesta seção.

' Veja a nota de Schweig. sobre Sxrre &u aot SoKp

EPICTETO.

Mas, disse o jovem, o casamento e a procriação de filhos como dever principal serão assumidos pelo Cínico?® Se me concederes uma comunidade de sábios, responde Epicteto, talvez nenhum homem se aplicará prontamente à prática cínica.

Pois por causa de quem ele deveria assumir este modo de vida? No entanto, se supusermos que ele o faz, nada o impedirá de casar e gerar filhos; pois sua esposa será outra como ele, e seu sogro será outro como ele, e seus filhos serão criados como ele.

Mas no estado atual das coisas, que é como o de um exército posto em ordem de batalha, não é apropriado que o Cínico, sem qualquer distração, seja empregado somente no ministério de Deus, capaz de andar entre os homens,

 Os estoicos recomendavam o casamento, a procriação de filhos, o exercício de cargos magistrais e os deveres da vida social em geral.

' "É notável que Epicteto aqui use a mesma palavra (airepio-Trao-Tos) com São Paulo, 1 Cor.

vii.

35, e apresente a mesma consideração, de aplicar-se inteiramente ao serviço de Deus, para dissuadir do casamento.

Observou também que o estado das coisas era então (ὡς ἐν παρατάξει) como o de um exército preparado para a batalha, o que se assemelha quase à "necessidade presente" (ἐνεστῶσα ἀνάγκη) do Apóstolo.

São Paulo diz em 2 Tm.

ii. 4 (οὐδεὶς στρατευόμενος ἐμπλέκεται etc.) nenhum homem que guerreia se enreda nos negócios da vida.

Assim Epicteto diz aqui que um cínico não deve estar (ἐμπεπλεγμένον) em relações etc.

A partir destas e de muitas outras passagens de Epicteto, seria-se inclinado a pensar que ele não desconhecia as Epístolas de São Paulo, ou que ouvira algo da doutrina cristã." Sra.

Carter.

Não encontro nenhuma evidência de que Epicteto conhecesse as Epístolas de Paulo.

É possível que ele tivesse ouvido algo da doutrina cristã, mas não observei nenhuma evidência desse fato.

Epicteto e Paulo não têm a mesma opinião sobre o casamento, pois Paulo diz que "se não podem conter-se, casem-se: porque é melhor casar do que abrasar-se". Consequentemente, sua doutrina é "para evitar a fornicação, tenha cada homem a sua própria esposa, e cada mulher o seu próprio marido". Ele não diz diretamente o que um homem deve fazer quando não é capaz de sustentar uma esposa; mas a inferência é clara quanto ao que ele fará (1 Co.

vii.

2). A visão de Paulo sobre o casamento difere da de Epicteto, que recomenda o casamento.

Paulo não o faz: ele escreve: "Digo, portanto, aos solteiros e às viúvas.

É bom para eles se permanecerem como eu". Ele não reconhece o casamento e a procriação de filhos como um dever; o que Epicteto reconhecia.

Na condição presente do mundo, Epicteto diz que o "ministro de Deus" não deve casar-se, porque os cuidados de uma família o distrairiam e o tornariam incapaz de cumprir seus deveres.

Epicteto.

não está atado aos deveres comuns da humanidade, nem enredado nas relações ordinárias da vida, as quais, se ele negligenciar, não manterá o caráter de um homem honrado e bom? E se as observar, perderá o caráter de mensageiro, espião e arauto de Deus.

Pois considera que é seu dever fazer algo por seu sogro, algo pelos outros parentes de sua esposa, algo também por sua esposa (se a tiver). Ele também é excluído, por ser um cínico, de cuidar da doença de sua própria família e de prover o seu sustento.

E para não falar do resto, ele deve ter um vaso para aquecer água para a criança, a fim de lavá-la no banho; lã para sua mulher quando ela der à luz, óleo, uma cama, uma taça: assim a mobília da casa aumenta.

Nada digo de suas outras ocupações e de sua distração.

"Onde está então agora aquele rei, ele que se devota aos interesses públicos,

O guardião do povo e tão cheio de cuidados.

Homero, Ilíada ii.

cujo dever é cuidar dos outros, dos casados e daqueles que têm filhos; ver quem trata bem sua esposa, quem a trata mal; quem briga; qual família é bem administrada, qual não é; andando por aí como um médico faz e sente os pulsos? Ele diz a um, você tem febre, a outro você tem dor de cabeça, ou gota: ele diz a um, abstenha-se de comida; a outro ele diz, coma; ou não use o banho; a outro, você precisa da faca, ou do cautério.

Como pode ele ter tempo para isso quem está preso aos deveres da vida comum? Não é seu dever fornecer roupas aos filhos e enviá-los ao mestre-escola com tabuinhas de escrita e estiletes (para escrever)? Além disso, não deve ele fornecer-lhes camas? Pois eles

Há bom senso nisso.

Um 'ministro de Deus' não deveria ser distraído pelos cuidados de uma família, especialmente se for pobre.

"A palavra é ἀνδρείον.

Compare ii. 17, 9.

'' No texto está γράμματα, πινακίδια.

É provável que deva haver apenas uma palavra.

Veja a nota de Schweig.

Horácio (Sat.

i. 6, 73) fala de meninos indo à escola

Laevo suspensi loculos tabulamque lacerto.

s

EPICTETO.

não podem ser verdadeiros cínicos assim que nascem.

Se ele não fizer isso, seria melhor expor as crianças assim que nascem do que matá-las dessa maneira.

Considere ao que estamos reduzindo o cínico, como estamos tirando dele sua realeza.

— Sim, mas Crates tomou uma esposa.

— Você está falando de uma circunstância que surgiu do amor e de uma mulher que era outra Crates." Mas estamos investigando casamentos comuns e aqueles que são livres de distrações, e fazendo essa investigação não descobrimos que o assunto do casamento neste estado do mundo seja algo especialmente adequado ao cínico.

Como então um homem manterá a existência da sociedade? Em nome de Deus, são maiores benfeitores da sociedade aqueles que introduzem no mundo, para ocupar seus próprios lugares, dois ou três filhos grunhindo, ou aqueles que supervisionam, na medida do possível, toda a humanidade, e veem o que fazem, como vivem, a que atendem, o que negligenciam contra o seu dever? Os que deixaram filhos pequenos aos tebanos fizeram-lhes mais bem do que Epaminondas, que morreu sem filhos? E Priamo, que gerou cinquenta filhos inúteis, ou Dânao, ou Éolo, contribuíram mais para a comunidade do que Homero? Então o dever de um general ou a ocupação de um escritor excluirão um homem do casamento ou da geração de filhos, e tal homem não será julgado por ter aceito a condição de não ter filhos em vão; e a realeza de um Cínico não será considerada um equivalente para a falta de filhos? Não percebemos a sua grandeza e não contemplamos justamente o caráter de Diógenes; e, em vez disso, não voltamos os nossos olhos para os Cínicos atuais, que são cães que servem à mesa, e em nada imitam os antigos Cínicos, exceto talvez em soltar ventos, mas em nada mais? Pois tais assuntos não nos teriam movido de modo algum, nem nos admiraríamos se um Cínico não se casasse ou não gerasse filhos.

A esposa de Crates era Hipárquia, que, contra todos os conselhos, persistiu em casar-se com Crates e viveu com ele exatamente como ele vivia.

Diógenes Laércio, vi. 96. Upton.

'Há alguma dificuldade sobre "airfpitriria-ruv" aqui. Upton propôs escrever "&irfpiffTdruv", que ele explica como "aquilo que não tem nada de peculiar".

'' Schweig. traduz "KaKopvyxo" como "male grunnientes" (porcos grunhindo): talvez signifique "de rosto feio".

EPICTETO.

Homem, o Cínico é o pai de todos os homens; os homens são seus filhos, as mulheres são suas filhas: ele visita todos tão cuidadosamente, tão bem cuida de todos.

Pensas que é por impertinência ociosa que ele repreende aqueles que encontra? Ele o faz como um pai, como um irmão, e como o ministro do pai de todos, o ministro de Zeus.

Se te agrada, pergunta-me também se um Cínico se envolverá na administração do estado.

Tolo, procuras uma forma maior de administração do que aquela em que ele está empenhado? Perguntas se ele deverá aparecer entre os atenienses e falar algo sobre as receitas e os suprimentos, ele que deve falar com todos os homens, igualmente com atenienses, igualmente com coríntios, igualmente com romanos, não sobre suprimentos, nem tampouco sobre receitas, nem sobre paz ou guerra, mas sobre felicidade e infelicidade, sobre boa fortuna e má fortuna, sobre escravidão e liberdade? Quando um homem assumiu a administração de tal estado, perguntas-me se ele se empenhará na administração de um estado? Pergunta-me também se ele governará (ocupará um cargo magistral); novamente te direi.

Tolo, que maior governo exercerá ele do que aquele que exerce agora?

É necessário também que tal homem (o cínico) tenha certo hábito de corpo; pois se ele parecer consuntivo, magro e pálido, seu testemunho não terá então o mesmo peso.

Pois ele não deve apenas, mostrando as qualidades da alma, provar ao vulgo que está em seu poder, independente das coisas que eles admiram, ser um homem bom, mas deve também mostrar por seu corpo que seu modo simples e frugal de viver ao ar livre não prejudica nem mesmo o corpo.

Vede, ele diz, eu sou uma prova disso, e meu próprio corpo também o é. Assim costumava fazer Diógenes, pois andava com aspecto fresco e atraía a atenção da multidão por sua aparência pessoal.

Mas se um cínico é objeto de compaixão, parece um mendigo; todos se afastam dele, todos se ofendem com ele; pois nem deve ele parecer sujo, para que também nesse aspecto não afaste os homens; mas sua própria aspereza deve ser limpa e atraente.

Deve também pertencer ao cínico muita graça natural e perspicácia; e se não for assim, ele é um sujeito estúpido, e nada mais; e deve ter essas qualidades

EPICTETO.

para que possa pronta e convenientemente fazer frente a todas as circunstâncias que possam ocorrer.

Assim respondeu Diógenes a um que disse: És tu o Diógenes que não acredita que há deuses? E como, respondeu Diógenes, pode isso ser, quando penso que tu és odioso aos deuses? Noutra ocasião, em resposta a Alexandre, que estava ao seu lado quando ele dormia e citou o verso de Homero (Ilíada, ii. 24)

Um homem conselheiro não deveria dormir a noite toda,

respondeu ele, meio adormecido,

Guardião do povo e tão cheio de cuidados.

Mas, antes de tudo, a faculdade diretriz do cínico deve ser mais pura que o sol; e, se não o for, ele será necessariamente um velhaco astuto e um sujeito sem princípios, pois, estando ele mesmo enredado em algum vício, repreenderá os outros.' Pois vede como a questão se coloca: a esses reis e tiranos, os seus guardas e armas dão o poder de repreender algumas pessoas, e de poder até punir aqueles que erram, embora eles próprios sejam maus; mas a um cínico, em vez de armas e guardas, é a consciência (to syneidos) que dá esse poder.

Quando ele sabe que tem vigiado e trabalhado pela humanidade, e que dormiu puro, e que o sono o deixou ainda mais puro, e que pensou tudo o que pensou como amigo dos deuses, como ministro, como participante do poder de Zeus, e que em todas as ocasiões está pronto a dizer:

"Conduze-me, ó Zeus, e tu, ó Destino;"

e também:

"Se assim agrada aos deuses, que assim seja;"

por que não haveria ele de ter confiança para falar livremente aos seus próprios irmãos, aos seus filhos, numa palavra, aos seus parentes? Por essa razão, ele não é nem excessivamente curioso nem intrometido quando está nesse estado de espírito; pois não é um intrometido nos assuntos alheios quando está supervisionando os assuntos humanos, mas está cuidando dos seus próprios assuntos.

Se não for assim, podeis também dizer que o general é um intrometido quando inspeciona os seus soldados, e os examina, e os observa, e pune os desordeiros.

Mas se, enquanto tendes um bolo debaixo do braço, repreendeis os outros, eu vos direi: Não ireis antes para um canto comer aquilo que roubastes; que tendes vós a ver com os assuntos dos outros? Pois quem sois vós? Sois o touro do rebanho, ou a rainha das abelhas? Mostrai-me os sinais da vossa supremacia, tais como eles os têm da natureza.

Mas se sois um zangão que reivindica a soberania sobre as abelhas, não supondes que os vossos concidadãos vos hão de derrubar como as abelhas fazem com os zangões?

O cínico também deve ter tal poder de resistência que pareça insensível ao vulgo e uma pedra: ninguém o injuria, ninguém o golpeia, ninguém o insulta, mas ele entrega o seu corpo para que qualquer um que queira faça dele o que lhe aprouver.

Pois ele tem em mente que o inferior deve ser dominado pelo superior naquilo em que é inferior; e o corpo é inferior ao muitos, o mais fraco ao mais forte.

Ele nunca desce, então, a tal contenda em que possa ser dominado; mas imediatamente se retira das coisas que pertencem a outros, não reivindica as coisas que são servis.

Mas onde há vontade e o uso das representações, aí verás quantos olhos ele tem, de modo que possas dizer: Argos era cego em comparação com ele.

É o seu assentimento alguma vez precipitado, o seu movimento (em direção a um objeto) rash, o seu desejo alguma vez falha em seu objeto, aquilo que ele evitaria alguma vez lhe sobrevém, o seu propósito fica por cumprir, ele alguma vez encontra falhas, é alguma vez humilhado, é alguma vez invejoso? A estas coisas ele dirige toda a sua atenção e energia; mas quanto a tudo o mais, ele ronca supino.

AH é paz; não há ladrão que tire a sua vontade, nem tirano.

Mas que dizeis quanto ao seu corpo? Digo que há. E quanto às suas posses? Digo que há. E quanto a magistraturas e honras? — Que lhe importam elas? — Quando então alguém o

 Isto é citado por M. Antonino, xi. 36.

EPICTETO.

tenta amedrontar por meio delas, ele lhe diz: Vai-te, procura crianças: as máscaras são formidáveis para elas; mas eu sei que são feitas de concha, e não têm nada por dentro.

Acerca de tal assunto como este estás a deliberar.

Portanto, se te apraz, insto-te em nome de Deus, adia a questão, e primeiro considera a tua preparação para ela. Pois vê o que Heitor diz a Andrômaca, Retira-te antes, diz ele, para dentro de casa e tece:

A guerra é obra dos homens, De todos, na verdade, mas especialmente minha.

II. vi. 490.

Assim ele estava consciente da sua própria qualificação, e conhecia a fraqueza dela.

CAPÍTULO XXIII.

AOS QUE LEEM E DISCUTEM POR CAUSA DA OSTENTAÇÃO.

PRIMEIRO dize a ti mesmo "Quem desejas ser": depois faze de acordo com isso o que estás a fazer; pois em quase todas as outras coisas vemos que assim é. Aqueles que seguem exercícios atléticos primeiro determinam o que desejam ser, depois fazem de acordo com isso o que se segue.

Se um homem é corredor na corrida de longa distância, há um certo tipo de dieta, de caminhada, fricção e exercício; se um homem é corredor no estádio, todas estas coisas são diferentes; se é um Pentatleta, são ainda mais diferentes.

Assim também o acharás nas artes.

Se és carpinteiro, terás tais e tais coisas; se és trabalhador em metal, tais coisas.

Para tudo o que fazemos, se não o referimos a nenhum fim, fá-lo-emos sem propósito; e se o referimos ao fim errado, erraremos o alvo.

Além disso, há um fim ou propósito geral, e um propósito particular.

Primeiro de tudo, devemos agir como um homem.

O que está compreendido nisto? Não devemos ser como uma ovelha, embora gentil; nem nocivos, como uma fera selvagem.

Mas o fim particular tem referência ao modo de vida de cada pessoa e à sua vontade.

O tocador de lira age como tocador de lira, o carpinteiro como carpinteiro, o filósofo como filósofo, o retórico como retórico.

Quando então dizes: "Vem e ouve-me ler": cuida primeiro de que não estás a fazer isto sem um propósito; depois, se descobriste que estás a fazer isto com referência a um propósito, considera se é o propósito correto.

Queres fazer o bem ou ser elogiado? Imediatamente o ouves dizer: "Para mim, qual é o valor do elogio da multidão?" E ele diz bem, pois não tem valor para um músico, enquanto músico, nem para um geômetra.

Queres então ser útil? Em quê? Dize-nos, para que corramos à tua sala de audiências.

Ora, pode um homem fazer algo útil aos outros, se não recebeu ele próprio algo útil? Não, pois nem um homem pode fazer algo útil na arte do carpinteiro, a menos que seja carpinteiro; nem na arte do sapateiro, a menos que seja sapateiro.

Queres saber então se recebeste alguma vantagem? Apresenta as tuas opiniões, filósofo.

O que é que o desejo promete? Não falhar no objeto.

O que é que a aversão promete? Não cair naquilo que evitarías.

Bem; cumprimos nós a sua promessa? Dize-me a verdade; mas se mentires, eu te direi. Recentemente, quando os teus ouvintes se reuniram com bastante frieza e não te aplaudiram, saíste humilhado.

Recentemente, de novo, quando foste elogiado, andaste por aí e disseste a todos:

O que pensaste de mim? — Maravilhoso, mestre, juro por tudo o que me é caro. Mas como tratei daquela questão particular? — Qual? — A passagem em que descrevi Pã e as ninfas? — Excelentemente.

Então me dizes que no desejo e na aversão ages conforme a natureza? Vai; tenta persuadir outra pessoa.

Não louvaste uma certa pessoa contra tua opinião? E não lisonjeaste uma certa pessoa que era filho de um senador? Desejarias que teus próprios filhos fossem tais pessoas? — Espero que não — Por que então o louvaste e lisonjeaste? — Ele é um jovem ingênuo e ouve bem os discursos — Como assim? — Ele me admira. Apresentaste tua prova.

Então o que pensas? Não é verdade que essas mesmas pessoas secretamente te desprezam? Quando então um homem que tem consciência de que não fez nenhum bem nem jamais pensa nisso encontra um filósofo que diz: Tens um grande talento natural e uma disposição sincera e boa, que outra coisa pensas que ele diz senão isto: Este homem tem alguma necessidade de mim? Ou dize-me que ato que indica uma grande mente ele mostrou? Observa; ele esteve em tua companhia por muito tempo; ouviu teus discursos, ouviu-te ler; tornou-se mais modesto? Foi levado a refletir sobre si mesmo? Percebeu em que mau estado se encontra? Lançou fora a presunção? Procura alguém que o ensine? Procura.

Um homem que o ensine a viver? Não, tolo, mas a falar; pois é por isso que ele também te admira.

Ouve e escuta o que ele diz: Este homem escreve com perfeita arte, muito melhor que Dion. Isso é algo totalmente diferente.

Diz ele: Este homem é modesto, fiel, livre de perturbações? E mesmo que o dissesse, eu lhe diria.

Já que este homem é fiel, dize-me o que é esse homem fiel. E se ele não pudesse me dizer, eu acrescentaria isto.

Primeiro compreende o que dizes, e depois fala.

Tu então, que estás em condição miserável e ávido por aplausos e contando teus ouvintes, pretendes ser útil aos outros? — Hoje muitos mais assistiram ao meu discurso.

Sim, muitos; suponhamos quinhentos.

Isso não é nada; suponhamos que houvesse mil — Dion nunca teve tantos ouvintes — Como poderia? — E eles compreendem o que é dito belamente.

O que é belo, mestre, pode mover até uma pedra — Vede, estas são as palavras de um

Dion de Prusa, na Bitínia, foi chamado Crisóstomo (boca de ouro) por causa de sua eloquência.

Era retórico e sofista, como o termo era então entendido, e vivia na mesma época que Epicteto.

Oitenta de suas orações escritas em grego ainda existem.

e alguns fragmentos de quinze

EPICTETO.

filósofo.

Esta é a disposição de um homem que fará o bem aos outros; aqui está um homem que ouviu discursos, que leu o que está escrito sobre Sócrates como socrático, não como as composições de Lísias e Isócrates.

"Frequentemente me perguntei por quais argumentos." Não é assim, mas "por qual argumento": isto é mais exato do que aquilo — Como, você leu as palavras de uma maneira diferente daquela com que lê pequenas odes? Pois se as lesse como deveria, não estaria prestando atenção a tais assuntos, mas antes estaria olhando para estas palavras: "Ânito e Meleto podem matar-me, mas não podem prejudicar-me:" "e sou sempre de tal disposição que não dou atenção a nada do que é meu, exceto à razão que, após investigação, me parece a melhor." Portanto, quem já ouviu Sócrates dizer: "Eu sei algo e ensino"; mas ele costumava enviar pessoas diferentes a mestres diferentes.

Por isso, costumavam vir a ele e pedir que os apresentasse aos filósofos; e ele os levava e os recomendava.

— Não é assim; mas, enquanto os acompanhava, dizia.

Ouvi-me hoje discursando na casa de Quadrato. Por que eu haveria de ouvi-lo? Você deseja mostrar-me que combina palavras habilmente? Você as combina, homem; e que bem isso lhe fará? — Mas apenas elogie-me. — O que você quer dizer com elogiar? — Diga-me: admirável, maravilhoso.

— Bem, eu o digo. Mas se isso é elogio, seja o que for que os filósofos entendam pelo nome (κατηγορία) "de"

 Estas palavras são o início dos Memorabilia de Xenofonte, i. 1. Os pequenos críticos disputavam se o texto deveria ser τοῖς λόγοις, ou τίνι λόγῳ.

 Do Críton de Platão, c. 6.

 Os ricos, diz Upton, costumavam emprestar suas casas para recitações, como aprendemos com Plínio, Ep. viii. e Juvenal, vii. 40.

Si dulcedine famae Succensus recites, maculosas commodat aedes.

Quadrato é um nome romano.

Parece haver uma confusão entre Sócrates e Quadrato.

O homem diz: Não. Sócrates não faria isso: mas ele faria, como um homem poderia fazer agora.

Ele costumava dizer no caminho: Espero que vocês venham me ouvir. Não encontro nada nas notas sobre esta passagem; mas ela requer explicação.

'KUTT/jyopia é um dos termos comuns de Aristóteles.

EPICTETO.

Bem, o que tenho a elogiar em você? Se é bom falar bem, ensine-me, e eu o elogiarei.

— Que então? Não deveria um homem ouvir tais coisas sem prazer? — Espero que não.

Quanto a mim, não ouço nem mesmo um tocador de alaúde sem prazer.

. Devo então, por essa razão, ficar de pé e tocar alaúde? Ouça o que Sócrates diz.

Nem seria conveniente para um homem da minha idade, como um jovem compondo discursos, apresentar-me diante de vocês. Como um jovem, ele diz.

Pois, na verdade, essa pequena arte é algo elegante: selecionar palavras, e colocá-las juntas, e vir à frente e lê-las ou dizê-las com graça, e enquanto lê, dizer: Não há muitos que possam fazer essas coisas, eu juro por tudo o que vocês prezam.

Um filósofo convida pessoas para ouvi-lo? Assim como o próprio sol atrai os homens a si, ou como o alimento o faz, não atrai também o filósofo aqueles que receberão benefício? Que médico convida um homem a ser tratado por ele? Na verdade, agora ouço que até os médicos em Roma convidam pacientes, mas quando eu vivia lá, os médicos eram convidados.

Eu os convido a vir ouvir que as coisas estão em mau estado para vocês, e que vocês cuidam de tudo, exceto daquilo de que deveriam cuidar, e que são ignorantes do bem e do mal, e são infelizes e desgraçados.

Uma bela espécie de convite: e, no entanto, se as palavras do filósofo não produzem esse efeito em vocês, ele está morto, e também o orador.

Rufus costumava dizer: Se vocês têm lazer para me elogiar, estou falando em vão. Por isso, ele costumava falar de tal maneira que cada um de nós que ali estava sentado supunha que alguém o havia acusado diante de Rufus: ele tão bem tocava no que estava sendo feito, tão bem colocava diante dos olhos as faltas de cada homem.

A escola do filósofo, ó homens, é uma cirurgia: vocês não devem sair dela com prazer, mas com dor.

Pois vocês não estão com saúde sadia quando entram: um tem o ombro deslocado, outro tem um abscesso, um terceiro uma fístula, e um quarto uma dor de cabeça.

Então eu me sento e profiro

" Da Apologia de Sócrates, de Platão.

Aulo Gélio v. 1. Sêneca, Ep. 52, Upton.

EPICTETO.

seus pequenos pensamentos e exclamações, para que me louvem e vão embora, um com o ombro na mesma condição em que entrou, outro com a cabeça ainda doendo, e um terceiro com sua fístula ou abscesso exatamente como estavam? É para isso então que os jovens hão de deixar o lar, e abandonar seus pais, amigos, parentes e propriedades, para dizer-vos:

"Maravilhoso!" quando estais a proferir vossas exclamações?

Acaso fez Sócrates isso, ou Zenão, ou Cleantes?

Que então? Não existe o estilo exortativo? Quem o nega? Assim como existe o estilo de refutação e o estilo didático.

Quem então jamais contou um quarto estilo com esses, o estilo de exibição? O que é o estilo exortativo? Ser capaz de mostrar tanto a uma pessoa quanto a muitas a luta em que estão engajados, e que pensam mais em qualquer coisa do que naquilo que realmente desejam.

Pois desejam as coisas que conduzem à felicidade, mas as procuram no lugar errado.

Para que isso se faça, mil assentos devem ser colocados e homens devem ser convidados a ouvir, e deveis subir ao púlpito com uma bela veste ou manto e descrever a morte de Aquiles.

Cessai, eu vos suplico pelos deuses, de estragar boas palavras e boas ações tanto quanto puderdes.

Nada pode ter mais poder na exortação do que quando o orador mostra aos ouvintes que ele precisa deles.

Mas dizei-me: quem, ao ouvir-vos ler ou discursar, está ansioso sobre si mesmo ou se volta para refletir sobre si? Ou quando sai, diz: "O filósofo me atingiu bem: não devo mais fazer estas coisas"?

Mas não diz ele, mesmo que tenhais grande reputação, a alguém? "Ele falou finamente sobre Xerxes"; e outro diz: "Não, mas sobre a batalha de Termópilas".

Isso é ouvir um filósofo?

¹ Cícero, de Officiis i. 18: "As coisas feitas com grande ânimo e fortemente e excelentemente, não sei por que, louvamos com boca mais cheia. Daí o campo dos retores sobre Maratona, Salamina, Plateias, Termópilas, Leuctras."

EPICTETO.

CAPÍTULO XXIV.

QUE NÃO DEVEMOS SER MOVIDOS PELO DESEJO DAQUELAS COISAS QUE NÃO ESTÃO EM NOSSO PODER.

Que aquilo que em outro é contrário à natureza não seja um mal para vós: pois não fostes formados pela natureza para serdes deprimidos com outros nem para serdes infelizes com outros, mas para serdes felizes com eles.

Se um homem é infeliz, lembrai-vos de que sua infelicidade é culpa dele mesmo: pois Deus fez todos os homens para serem felizes, para serem livres de perturbações.

Para esse propósito, ele lhes deu meios, algumas coisas a cada pessoa como suas próprias, e outras coisas não como suas próprias: algumas coisas sujeitas a impedimento, coação e privação; e essas coisas não são de um homem como próprias; mas as coisas que não estão sujeitas a impedimentos são suas próprias; e a natureza do bem e do mal, como era adequado que fosse feita por aquele que cuida de nós e nos protege como um pai, ele a tornou nossa própria.

— Mas você diz: separei-me de certa pessoa, e ela está aflita.

— Por que ela considerou como seu próprio aquilo que pertence a outro? Por que, quando olhou para você e se alegrou, não considerou também que você é mortal, que é natural que você se separe dela para um país estrangeiro? Portanto, ela sofre as consequências de sua própria tolice.

Mas por que você se lamenta, ou com que propósito? É porque você também não pensou nessas coisas? Mas, como mulheres pobres que não servem para nada, você desfrutou de todas as coisas nas quais sentia prazer, como se sempre fosse desfrutá-las, tanto lugares quanto homens e conversas; e agora você se senta e chora porque não vê as mesmas pessoas e não vive nos mesmos lugares.

— De fato, você merece isso, ser mais miserável do que corvos e gralhas, que têm o poder de voar para onde quiserem, mudar seus ninhos por outros e cruzar os mares sem lamentar ou sentir saudade de sua condição anterior.

— Sim, mas isso acontece com eles porque são criaturas irracionais.

— A razão foi então dada a nós pelos deuses para

¹ Ver nota de Schweig.

EPICTETO.

o propósito de infelicidade e miséria, para que passemos nossas vidas em desgraça e lamentação? Devem todas as pessoas ser imortais, e nenhum homem deve viajar para o estrangeiro, e nós mesmos não devemos viajar, mas permanecer enraizados como plantas; e se algum de nossos amigos íntimos viaja para o estrangeiro, devemos nos sentar e chorar; e, ao contrário, quando ele retorna, devemos dançar e bater palmas como crianças?

Não devemos agora desapegar-nos e lembrar o que ouvimos dos filósofos? Se não os escutássemos como se fossem prestidigitadores: eles nos dizem que este mundo é uma cidade, e que a substância da qual foi formado é uma só, e que deve haver um certo período, e que algumas coisas devem ceder lugar a outras, que algumas devem ser dissolvidas, e outras vir em seu lugar; algumas permanecer no mesmo lugar, e outras ser movidas; e que todas as coisas estão cheias de amizade, primeiro dos deuses, e depois dos homens que por natureza são feitos para ser de uma mesma família; e alguns devem estar uns com os outros, e outros devem ser separados, regozijando-se com aqueles que estão com eles, e não se entristecendo por aqueles que deles são removidos; e o homem, além de ser por natureza de temperamento nobre e ter desprezo por todas as coisas que não estão no poder de sua vontade, também possui esta propriedade: não estar enraizado nem ser naturalmente fixo à terra, mas ir em diferentes tempos a diferentes lugares, ora pela urgência de certas ocasiões, ora meramente pelo prazer de ver.

Assim foi com Ulisses, que viu

De muitos homens os estados, e aprendeu seus costumes.

E ainda antes, foi a sorte de Hércules visitar todo o mundo habitado,

Vendo os atos sem lei dos homens e suas boas regras de justiça:

expulsando e eliminando sua ilegalidade e introduzindo em seu lugar boas regras de justiça.

E, no entanto, quantos amigos pensais que ele teve em Tebas, quantos em Argos, quantos em Atenas? E quantos pensais que ele conquistou ao peregrinar? E ele também se casou, quando lhe pareceu ocasião apropriada, e gerou filhos, e os deixou sem lamentar ou se arrepender ou deixá-los como órfãos; pois ele sabia que nenhum homem é órfão; mas é o pai que cuida de todos os homens sempre e continuamente.

Pois não foi como mero relato que ele ouviu que Zeus é o pai dos homens, pois ele pensava que Zeus era seu próprio pai, e assim o chamava, e a ele olhava quando fazia o que fazia.

Portanto, ele foi capaz de viver feliz em todos os lugares.

E nunca é possível que a felicidade e o desejo do que não está presente venham juntos.

Pois aquilo que é feliz deve ter tudo o que deseja, deve assemelhar-se a uma pessoa que está saciada de alimento, e não deve ter nem sede nem fome.

— Mas Ulisses sentiu desejo por sua esposa e chorou, sentado sobre uma rocha.

— Você atende a Homero e às suas histórias em tudo? Ou, se Ulisses realmente chorou, o que era ele senão um homem infeliz? E que homem bom é infeliz? Em verdade, tudo está mal administrado, se Zeus não cuida de seus próprios cidadãos para que sejam felizes como ele mesmo.

Mas estas coisas não são lícitas nem justas de se pensar: e se Ulisses chorou e se lamentou, ele não era um homem bom.

Pois quem é bom se não sabe quem é? E quem sabe o que é, se esquece que as coisas que foram feitas são perecíveis, e que não é possível que um ser humano esteja com outro para sempre? Desejar então coisas impossíveis é ter um caráter servil, e é tolice: é próprio de um estranho, de um homem que luta contra Deus da única maneira que pode, por suas opiniões.

Mas minha mãe se lamenta quando não me vê. — Por que ela não aprendeu estes princípios? E não digo isto para que não cuidemos de que ela não se lamente, mas digo que não devemos desejar de toda maneira o que não é nosso.

E a dor de outro é a dor de outro: mas a minha dor é minha.

Eu então deterei minha própria dor por todos os meios, pois está em meu poder: e a dor de outro me esforçarei por deter tanto quanto puder; mas não tentarei fazê-lo por todos os meios;

pois se o fizer, estarei lutando contra Deus, estarei me opondo a Zeus e me colocando contra ele na administração do universo; e a recompensa (a punição) desta luta contra Deus e desta desobediência não apenas os filhos de meus filhos pagarão, mas eu também, tanto de dia quanto de noite, sobressaltado por sonhos, perturbado, tremendo a cada notícia, e tendo minha tranquilidade dependente das cartas de outros.

— Alguma pessoa chegou de Roma.

Apenas espero que não haja mal algum.

Mas que mal pode acontecer a você, onde você não está? — Da Hélade (Grécia) alguém veio: espero que não haja mal algum.

— Desta maneira, todo lugar pode ser a causa de infortúnio para você.

Não vos basta serdes infelizes onde estais, e haveis de o ser também além-mar, e por relato de cartas? É assim que vossos negócios estão em segurança? — Pois bem, suponde que meus amigos morreram em lugares distantes de mim.

— Que mais sofreram eles senão o que é a condição dos mortais? Ou como desejais ao mesmo tempo viver até a velhice e não ver a morte de nenhuma pessoa que amais? Não sabeis que no curso de um longo tempo muitas e variadas espécies de coisas devem acontecer; que uma febre há de dominar um, um ladrão a outro, e um terceiro um tirano? Tal é a condição das coisas ao nosso redor, tais são os que vivem conosco no mundo: o frio e o calor, e modos de vida inadequados, e jornadas por terra, e viagens por mar, e ventos, e várias circunstâncias que nos cercam, destroem um homem, e banem outro, e lançam um em embaixada e outro no exército.

Senta-te então em agitação diante de todas essas coisas, lamentando-te, infeliz, desventurado, dependente de outro, e dependente não de um ou dois, mas de dez mil sobre dez mil.

Ouviste isto quando estavas com os filósofos? Aprendeste isto? Não sabes que a vida humana é uma guerra? Que um homem deve vigiar, outro deve sair como espião, e um terceiro deve lutar? E não é possível que todos estejam em um só lugar, nem é melhor que assim seja. Mas vós, negligenciando cumprir as ordens do general, queixais-vos quando algo mais árduo que o habitual vos é imposto, e não observais o que fazeis o exército se tornar, tanto quanto está em vosso poder; que se todos vos imitarem, ninguém cavará uma trincheira, ninguém erguerá uma muralha, nem vigiará, nem se exporá ao perigo, mas parecerá inútil para os propósitos de um exército.

Novamente, em um navio, se ides como marinheiro, permanecei em um lugar e apegai-vos a ele. E se fordes ordenado a subir ao mastro, recusai; se a correr para a proa do navio, recusai; e que mestre de navio vos suportará? E não vos lançará ao mar como coisa inútil, apenas um impedimento e mau exemplo para os outros marinheiros? E assim é aqui também: a vida de cada homem é uma espécie de guerra, e é longa e diversificada.

Deves observar o dever de um soldado e fazer tudo ao aceno do general; se possível, adivinhando quais são os seus desejos: pois não há semelhança entre aquele general e este, nem em força nem em superioridade de caráter.

Estás colocado em um grande cargo de comando e não em qualquer lugar medíocre; mas és sempre um senador.

Não sabes que tal homem deve dar pouco tempo aos assuntos de sua casa, mas estar frequentemente longe de casa, seja como governador ou como governado, ou desempenhando algum cargo, ou servindo na guerra, ou atuando como juiz? Então me dizes que desejas, como uma planta, estar fixo nos mesmos lugares e estar enraizado? — Sim, pois é agradável.

— Quem diz que não é? Mas uma sopa é agradável, e uma mulher bonita é agradável.

O que mais dizem aqueles que fazem do prazer o seu fim? Não vês de que homens proferiste a linguagem? Que é a linguagem de epicuristas e de catamitas? Em seguida, enquanto fazes o que eles fazem e sustentas as suas opiniões, falas-nos as palavras de Zenão e de Sócrates? Não lançarás fora, tanto quanto puderes, as coisas alheias com que te adornas, embora não te sirvam em nada? Pois o que mais desejam eles senão dormir sem impedimento e livres de compulsão, e, ao se levantarem, bocejar à vontade, e lavar o rosto, depois escrever e ler o que escolherem, e então conversar sobre alguma trivialidade, sendo louvados por seus amigos, digam eles o que disserem, e então sair para um passeio, e, após caminhar um pouco, sentir tédio, e então

EPICTETO.

comer e dormir, tal sono como é o costume de tais homens? Por que precisamos dizer como? Pois facilmente se pode conjecturar.

Vamos, conta também a tua própria maneira de passar o tempo que desejas, tu que és admirador da verdade e de Sócrates e de Diógenes.

O que desejas fazer em Atenas? O mesmo que os outros fazem, ou algo diferente? Por que então te chamas estoico? Bem, mas aqueles que falsamente se chamam cidadãos romanos são severamente punidos; e deveriam aqueles que falsamente reivindicam tão grande e reverendo título e nome escapar impunes? Ou isso não é possível, e esta lei divina, forte e inevitável, que exige as mais severas punições daqueles que cometem os maiores crimes, não se aplica? Pois o que diz esta lei? Aquele que finge possuir o que não lhe pertence, seja um fanfarrão, um homem vanglorioso; aquele que desobedece à administração divina, seja vil e escravo; sofra ele tristeza, seja invejoso, sinta piedade; e, em uma palavra, seja infeliz e lamentável.

Pois bem; queres que eu corteje certa pessoa? Que eu vá à sua porta? — Se a razão exige que isso seja feito pela pátria, pelos parentes, pela humanidade, por que não irias? Não te envergonhas de ir à porta de um sapateiro, quando precisas de sapatos, nem à porta de um jardineiro, quando queres alfaces; e te envergonhas de ir à porta dos ricos quando precisas de algo? — Sim, pois não tenho receio de um sapateiro — Não sintas receio dos ricos — Nem lisonjearei o jardineiro — E não lisonjeies os ricos — Como então obterei o que quero? — Digo-te para ires como se tivesses certeza de obter o que queres? E não te digo apenas que podes fazer o que é digno de ti? Por que então devo ainda ir? Para que tenhas ido, para que tenhas cumprido o dever de cidadão, de irmão, de amigo.

Suetônio (Cláudio, 25) diz: 'Proibiu os homens de condição estrangeira de usurpar nomes romanos, pelo menos os gentílicos. Aos que usurpassem a cidadania romana, decapitou no Campo Esquilino.' Upton.

Esta é uma denúncia do hipócrita.

"'Piedade' talvez signifique que ele sofrerá a perturbação da piedade, quando não deveria senti-la. Não tenho certeza sobre o significado exato."

'O que se segue não tem conexão com o que imediatamente precede; mas pertence ao assunto geral do capítulo. Sra. Carter.'

'A pessoa com quem Epicteto principalmente manteve este discurso parece ter sido instruída por seus amigos a prestar homenagens a algum grande homem em Nicópolis (talvez o procurador, iii. 4. I) e a visitar sua casa.' Schweig.

EPICTETO.

E lembra-te ainda de que foste ao sapateiro, ao vendedor de legumes, que não têm poder em nada grande ou nobre, embora possa vender caro.

Vais comprar alfaces: custam um óbolo (um centavo), mas não um talento.

Assim também aqui.

O assunto vale a pena ir à porta do homem rico — Bem, irei — Vale a pena conversar — Que assim seja; falarei com ele — Mas também deves beijar-lhe a mão e lisonjeá-lo com elogios — Fora com isso, isso vale um talento: não é proveitoso para mim, nem para o Estado, nem para meus amigos, ter feito aquilo que corrompe um bom cidadão e um amigo.

— Mas parecerá que não foste zeloso no assunto, se não tiveres sucesso.

Esqueceste-te novamente por que foste? Não sabes que um homem bom não faz nada por causa da aparência, mas por causa de fazer o certo? — Que vantagem há então para ele em ter feito o certo? — E que vantagem há para um homem que escreve o nome de Díon em escrevê-lo como deve? — A vantagem é tê-lo escrito. — Não há então recompensa? — Procuras uma recompensa maior para um homem bom do que fazer o que é bom e justo? Em Olímpia não desejas nada mais, mas parece-te suficiente ser coroado nos jogos.

Parece-te tão pequena e sem valor a coisa de ser bom e justo?

[Nota de rodapé:]

"A recompensa da virtude está nos atos de virtude.

Os estoicos ensinavam que a virtude é sua própria recompensa.

Quando eu era menino, escrevi isto em cópias, mas não sabia o que significava.

Sei agora que poucas pessoas acreditam nisso; e como o homem aqui, perguntam que recompensa terão por fazer o que devem. Um homem de senso comum não daria outra resposta senão a que Epicteto dá.

Mas isso não satisfará a todos.

Os pagãos devem dar a resposta: 'Pois que mais queres quando fizeste um serviço a um homem? Não estás contente por teres feito algo conforme à tua natureza, e procuras ser pago por isso? Como se o olho exigisse recompensa por ver ou os pés por andar.' Marco Aurélio, ix. 42. Compare com Sêneca, De Vita Beata, c. 9."

feliz? Pois, sendo introduzido pelos deuses nesta cidade (o mundo) para esses fins, e sendo agora teu dever empreender a obra de um homem, ainda queres amas e uma mãezinha, e mulheres tolas, com seu choro, te comovem e te tornam efeminado? Nunca cessarás, então, de ser uma criança tola? Não sabes que quem age como criança, quanto mais velho fica, mais ridículo se torna?

Em Atenas, não viste ninguém indo à sua casa? — Visitei qualquer homem que me aprouve — Aqui também esteja pronto para ver, e verás quem quiseres: apenas que seja sem baixeza, nem com desejo nem com aversão, e teus assuntos serão bem conduzidos.

Mas esse resultado não depende de ir nem de ficar às portas, mas depende do que está dentro, de tuas opiniões.

Quando tiveres aprendido a não valorizar as coisas externas e que não dependem da vontade, e a considerar que nenhuma delas é tua, mas que somente estas coisas são tuas — exercitar bem o julgamento, formar opiniões, mover-se em direção a um objetivo, desejar, afastar-se de uma coisa — onde há ainda lugar para a lisonja, onde para a baixeza? Por que ainda anseias pelo sossego de lá (em Atenas) e pelos lugares aos quais estás acostumado? Espera um pouco e novamente acharás esses lugares familiares: então, se és de natureza tão ignóbil, se também deixares estes, chora e lamenta-te.

Como então me tornarei de temperamento afetuoso? Sendo de disposição nobre e feliz.

Pois não é razoável ser mesquinho de espírito, nem lamentar-se, nem depender de outro, nem jamais culpar Deus ou o homem.

Rogo-te, torna-te uma pessoa afetuosa deste modo, observando estas regras.

Mas se por essa afeição, como a chamas, vais ser escravo e miserável, não há proveito em ser afetuoso.

E o que te impede de amar a outro como alguém sujeito à mortalidade, como alguém que pode partir de ti?

Não amou Sócrates seus próprios filhos? Amou; mas foi como homem livre, como quem se lembrava de que devia primeiro ser amigo dos deuses.

Por isso não violou nada que fosse próprio de um homem bom, nem em sua defesa, nem

EPICTETO.

ao fixar uma pena para si mesmo, nem mesmo na parte anterior de sua vida, quando foi senador ou quando foi soldado.

Mas estamos plenamente supridos de todo pretexto para sermos de temperamento ignóbil, uns por causa de um filho, outros por causa de uma mãe, e outros ainda por causa de irmãos.

Mas não nos convém ser infelizes por causa de qualquer pessoa, e sim felizes por causa de todos, mas principalmente por causa de Deus, que nos fez para este fim.

Bem, será que Diógenes não amava ninguém, ele que era tão bondoso e tão amante de todos que, pela humanidade em geral, empreendeu voluntariamente tamanho trabalho e sofrimentos corporais? Ele amava a humanidade, mas como? Como convém a um ministro de Deus, ao mesmo tempo cuidando dos homens e estando também sujeito a Deus.

Por essa razão, toda a terra era sua pátria, e nenhum lugar particular; e quando foi feito prisioneiro, não lamentou Atenas nem seus associados e amigos de lá, mas até se familiarizou com os piratas e tentou melhorá-los; e, sendo vendido depois, viveu em Corinto como antes em Atenas; e teria se comportado da mesma maneira se tivesse ido ao país dos Perrebos. Assim se adquire a liberdade.

Por essa razão, costumava dizer:

"Desde que Antístenes me libertou, não tenho sido escravo."

Como Antístenes o libertou? Ouça o que ele diz: Antístenes me ensinou o que é meu e o que não é meu; posses não são minhas, nem parentes, domésticos, amigos, nem reputação, nem lugares familiares, nem modo de vida; tudo isso pertence a outros.

"Então o que é seu? O uso das aparências."

Isso ele me mostrou, que possuo isso livre de impedimento e de coação, ninguém pode pôr obstáculo em meu caminho, ninguém pode me forçar a usar as aparências de outra maneira que não a que desejo.

¹ Era costume em Atenas que, quando o tribunal (os dicastas) havia decidido condenar um acusado, em alguns casos ao menos, perguntar-lhe que pena ele propunha que lhe fosse infligida; mas Sócrates recusou-se a fazer isso ou a permitir que seus amigos o fizessem, pois dizia que nomear a pena era o mesmo que admitir sua culpa (Xenofonte, Apologia, 23). Sócrates disse que, se nomeasse uma pena adequada para si mesmo, seria que lhe fosse permitido diariamente jantar no Pritaneu (Platão, Apologia, c. 26; Cícero, De Oratore, i. 54).

² O caráter de Diógenes é descrito de maneira muito diferente por Epicteto daquela que lemos nos livros comuns.

³ Um povo na Tessália entre o rio Peneu e o Monte Olimpo.

É o mesmo que se Epicteto tivesse dito a qualquer país remoto.

EPICTETO.

Quem então tem algum poder sobre mim? Filipe ou Alexandre, ou Pérdicas ou o grande rei? Como têm eles esse poder? Pois se um homem vai ser dominado por outro homem, deve ter sido muito antes dominado pelas coisas.

Se então o prazer não é capaz de subjugar um homem, nem a dor, nem a fama, nem a riqueza, mas ele é capaz, quando escolhe, de cuspir todo o seu pobre corpo na cara de um homem e partir da vida, de quem ainda pode ser escravo? Mas se ele vivesse com prazer em Atenas, e fosse dominado por esse modo de vida, seus assuntos estariam à ordem de qualquer homem; o mais forte teria o poder de afligi-lo.

Como pensas que Diógenes teria lisonjeado os piratas para que o vendessem a algum ateniense, para que algum dia pudesse ver aquele belo Pireu, e os Muros Longos e a Acrópole? Em que condição os verias? Como um cativo, um escravo e um homem vil: e qual seria a utilidade disso para ti? — Não é assim: mas eu os veria como um homem livre — Mostra-me como serias livre.

Observa, alguém te capturou, que te afasta do teu lugar habitual de morada e diz: Tu és meu escravo, pois está em meu poder impedir-te de viver como te agrada, está em meu poder tratar-te com brandura e humilhar-te: quando eu escolho, ao contrário, tu estás alegre e vais exaltado a Atenas.

O que dizes àquele que te trata como escravo? Que meios tens de encontrar alguém que te resgate da escravidão? Ou não podes sequer olhá-lo nos olhos, mas sem dizer mais nada suplicas para ser libertado? Homem, deverias ir alegremente à prisão, apressando-te, indo adiante daqueles que te conduzem para lá.

Então, pergunto-te, não queres viver em Roma e desejas viver na Hélade (Grécia)? E quando tiveres de morrer, também então nos encherás com tuas lamentações, porque não verás Atenas nem caminharás no Liceu? Foste para o estrangeiro por isso? Foi por essa razão que procuraste encontrar alguém de quem pudesses receber benefício? Que benefício? Para que possas¹

¹ Sobre a palavra KufyirtffT-fiv ver as notas na edição de Schweig.

A palavra supõe-se ser formada de Kapiris, Kapcpis, festuca.

EPICTETO.

Resolva silogismos mais facilmente, ou lide com argumentos hipotéticos? E por essa razão você deixou irmão, pátria, amigos, sua família, para que pudesse retornar quando tivesse aprendido essas coisas? Então você não foi para o exterior para obter constância de mente, nem liberdade de perturbação, nem para que, estando seguro contra danos, você nunca se queixe de qualquer pessoa, não acuse ninguém, e nenhum homem possa prejudicá-lo, e assim você possa manter sua posição relativa sem impedimento? Este é um belo comércio que você foi buscar no exterior em silogismos e argumentos sofísticos e hipotéticos: se quiser, tome seu lugar na ágora (mercado ou lugar público) e proclame-os para venda como vendedores de remédios.

Você não negará até mesmo tudo o que aprendeu, para não trazer má reputação aos seus teoremas como inúteis? Que mal a filosofia lhe fez? Em que Crisipo o prejudicou, para que você prove por seus atos que seus trabalhos são inúteis? Os males que você tinha lá (em casa) não eram suficientes, aqueles que eram a causa de sua dor e lamentação, mesmo se você não tivesse ido para o exterior? Você acrescentou mais à lista? E se você novamente tiver outros conhecidos e amigos, terá mais causas para lamentação; e o mesmo também se você tiver afeição por outro país. Por que então você vive para se cercar de outras tristezas sobre tristezas, através das quais você é infeliz? Então, pergunto-lhe, você chama isso de afeição? Que afeição, homem! Se é uma coisa boa, não é causa de nenhum mal; se é ruim, não tenho nada a ver com isso. Sou formado pela natureza para meu próprio bem; não sou formado para meu próprio mal.

Qual é então a disciplina para esse propósito? Primeiro de tudo, a mais alta e a principal, e aquela que está como que na entrada, é esta: quando você se deleita com algo, deleite-se como com uma coisa que não é

uma daquelas que não podem ser tiradas, mas como algo dessa espécie, como um pote de barro, ou uma taça de vidro, que quando se quebra, você pode lembrar o que era, e não se perturbar.

Assim também neste assunto: se você beija seu próprio filho, ou seu irmão ou amigo, nunca dê plena licença à aparência (φαντασία), e não permita que seu prazer vá até onde escolher; mas refreie-o e contenha-o, como aqueles que ficam atrás, nos triunfos dos homens, e os lembram de que são mortais.

Lembre-se também de si mesmo, da mesma maneira, que aquele a quem você ama é mortal, e que o que você ama não é nada seu: foi-lhe dado para o presente, não para que não possa ser tirado de você, nem foi-lhe dado por todo o tempo, mas como um figo é dado a você, ou um cacho de uvas, na estação determinada do ano.

Mas se você deseja essas coisas no inverno, é um tolo.

Assim, se você deseja seu filho ou amigo quando não lhe é permitido, saiba que está desejando um figo no inverno. Pois assim como o inverno é para o figo, assim é cada evento que acontece do universo para as coisas que são tiradas segundo a sua natureza.

E além disso, nos momentos em que você se deleita com uma coisa, coloque diante de si as aparências contrárias.

Que mal há, enquanto você beija seu filho, em dizer com voz balbuciante: "Amanhã você morrerá"; e a um amigo também:

"Amanhã você partirá, ou eu partirei, e nunca mais nos veremos novamente?" — Mas essas são palavras de mau agouro — E alguns encantamentos também são de mau agouro; mas porque são úteis, não me importo com isso; apenas que sejam úteis.

Mas você chama de mau agouro coisas exceto aquelas que são significativas de algum mal? A covardia é uma palavra de mau agouro, e a mesquinhez de espírito, e a tristeza, e o luto, e a falta de vergonha.

Essas palavras são de mau agouro: e, no entanto, não devemos hesitar em proferi-las para nos protegermos contra essas coisas.

Você me diz que um nome que é significativo de qualquer coisa natural é de mau agouro? Diga então que até mesmo as espigas de trigo serem

"Era o costume nos triunfos romanos que um escravo ficasse atrás do general triunfante em sua carruagem e o lembrasse de que ainda era mortal.

Juvenal, x. 41.

'Compare Antonino xi. 33 e 34.

EPICTETO.

ceifadas é de mau agouro, pois significa a destruição das espigas, mas não do mundo.

Dize que a queda das folhas também é de mau agouro, e que o figo seco tome o lugar do figo verde, e que passas sejam feitas das uvas.

Pois todas essas coisas são mudanças de um estado anterior para outros estados; não uma destruição, mas uma certa economia e administração fixa.

Tal é o partir de casa e uma pequena mudança: tal é a morte, uma mudança maior, não do estado que agora é para o que não é, mas para o que não é agora. — Então não existirei mais? — Não existirás, mas serás algo diferente, do qual o mundo agora tem necessidade: pois também vieste à existência não quando escolheste, mas quando o mundo teve necessidade de ti.

Marco Antonino, xi. 35. Comparar Epicteto, iii. 13, 14, e iv. 7. 75.

Upton alterou o texto οὐκέτι οὖν ἔσομαι; Οὐκ ἔσῃ ἀλλ' ἕτερόν τι, οὗ νῦν ὁ κόσμος χρῄζει· οὐκ ἔχῃ para οὐκέτι οὖν ἔσομαι; Ἔσῃ ἀλλ' ἄλλο τι, οὗ νῦν ὁ κόσμος χρῄζει· οὐκ ἔχῃ. Ele diz que fez a alteração sem autoridade de manuscrito, mas que o sentido exige a mudança.

Schweighaeuser não aceita a alteração, nem eu. Schweig. observa que pode haver alguma dificuldade nas palavras οὗ νῦν ὁ κόσμος χρῄζει. Ele primeiro supõe que a palavra 'agora' (νῦν) significa depois da morte de um homem; mas em seguida sugere que ἄλλο τι οὗ significa 'algo diferente daquilo de que o mundo tem agora necessidade.' Um leitor poderia não descobrir que há qualquer dificuldade.

Ele também poderia sugerir que νῦν deveria ser omitido, pois se fosse omitido, o sentido seria ainda mais claro.

Ver iii. 13. 15, e iv. 7. 15.

"Não estou certo se Epicteto usa κόσμος no sentido de 'Universo', o 'universum' dos filósofos. Penso que ele às vezes o usa no sentido comum de mundo, a terra e tudo o que nela há. Epicteto parece ensinar que quando um homem morre, sua existência é terminada. O corpo é dissolvido nos elementos dos quais é formado, e esses elementos são empregados para outros propósitos. Consistentemente com essa doutrina, ele pode ter suposto que os poderes, que chamamos racionais e intelectuais, existem no homem apenas em virtude da organização de seu cérebro, que é superior à de todos os outros animais; e que o que chamamos alma não tem existência independente do corpo. Era uma antiga hipótese grega que na morte o corpo retornava à terra da qual viera, e a alma (πνεῦμα) retornava às regiões superiores, das quais viera."

Não consigo encontrar nenhuma passagem em Epicteto na qual seja ensinada a doutrina de que a alma tem uma existência independente do corpo.

As opiniões de Marco Antonino sobre este assunto estão contidas em seu livro, iv. 14, 21, e talvez em outros lugares: mas são bastante obscuras.

Um escritor recente tentou resolver a questão da existência das almas dos falecidos afirmando que podemos encontrar

EPICTETO.

Portanto, o homem sábio e bom, lembrando-se de quem ele é e de onde veio, e por quem foi produzido, está

nenhum lugar para eles, nem no céu nem no inferno; pois a noção científica moderna, como suponho que deva ser nomeada, não admite a concepção de um lugar céu ou um lugar inferno (Strauss, Der Alte und der Neue Glaube, p. 129).

Podemos nomear Paulo como contemporâneo de Epicteto, pois embora Epicteto possa ter sido o mais jovem, ele vivia em Roma durante o reinado de Nero (d.C. 54-68); e é afirmado, seja corretamente ou não, não me comprometo a dizer, que Paulo escreveu de Éfeso sua primeira epístola aos Coríntios (I Cor. 16, 8) no início de d.C. 56. Epicteto, diz-se, viveu em Roma até a época da expulsão dos filósofos por Domiciano, quando se retirou para Nicópolis, já velho, e ali ensinou.

A primeira epístola de Paulo aos Coríntios (c. 15) contém sua doutrina da ressurreição, que é aceita, creio eu, por todos, ou quase todos, se houver exceções, que professam a fé cristã: mas não é entendida por todos da mesma maneira.

Paulo ensina que Cristo morreu por nossos pecados, que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia; e que após sua ressurreição foi visto por muitas pessoas.

Então ele pergunta: se Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dizer que não há ressurreição dos mortos? 'Mas se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou' (v. 13); e (v. 19), 'se somente nesta vida temos esperança em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens.' Mas ele afirma novamente (v. 20) que 'Cristo ressuscitou e se tornou as primícias dos que dormem.' No v. 32, ele pergunta que vantagens tem de suas lutas em Éfeso, 'se os mortos não ressuscitam: comamos e bebamos, pois amanhã morreremos.' Ele parece não admitir o valor da vida, se não há ressurreição dos mortos; e parece dizer que devemos buscar ou deveríamos buscar apenas os prazeres dos sentidos, porque a vida é curta, se não acreditamos na ressurreição dos mortos.

Pode-se acrescentar que não há qualquer afirmação direta neste capítulo de que Cristo ascendeu ao céu em forma corporal, ou que ascendeu ao céu de qualquer maneira.

Ele então diz (v. 35): "Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E com que corpo vêm?" Ele responde a esta pergunta (v. 36): "Insensato, o que semeias não é vivificado, se não morrer"; e acrescenta que "Deus lhe dá (à semente) um corpo como lhe aprouve, e a cada semente o seu próprio corpo." Todos sabemos que o corpo que é produzido da semente não é o corpo "que há de ser"; e também sabemos que a semente que é semeada não morre, e que se a semente morresse, nenhum corpo seria produzido de tal semente.

Sua conclusão é que o morto "é semeado corpo natural; é ressuscitado corpo espiritual" (σῶμα πνευματικόν). Creio que os comentaristas não concordam acerca deste "corpo espiritual": mas parece claro que Paulo não ensinou que o corpo que ressuscitará será o mesmo que o corpo que é sepultado.

Ele diz (v. 50) que "carne e sangue não podem herdar o reino de Deus." Contudo, no Credo dos Apóstolos pronunciamos nossa crença na "ressurreição do corpo": mas no Credo Niceno está dito que aguardamos "a ressurreição dos mortos", o que é uma coisa diferente ou pode ter um,

EPICTETO.

atento somente a isto, a como possa preencher o seu lugar com a devida regularidade, e obedientemente a Deus.

Ainda desejas que eu exista (viva)? Continuarei a existir como livre, como nobre por natureza, como tu desejaste que eu existisse: pois me fizeste livre de impedimento naquilo que é meu.

Mas não tens mais necessidade de mim? Agradeço-te; e até agora permaneci por tua causa, e por causa de nenhuma outra pessoa, e agora em obediência a ti eu parto.

Como partes? Novamente, digo, como te aprouve, como livre, como teu servo, como alguém que conheceu teus mandamentos e tuas proibições.

E enquanto eu permanecer em teu serviço, quem queres tu que eu seja? Um príncipe ou um homem privado, um senador ou uma pessoa comum, um soldado ou um general, um mestre ou um chefe de família? Qualquer lugar e posição que me atribuas, como diz Sócrates, morrerei dez mil vezes antes de abandoná-los.

E onde queres tu que eu esteja? Em Roma ou Atenas, ou Tebas ou Giaros.

Somente lembra-te de mim onde estou. Se me enviares a um lugar onde não há meios para os homens viverem segundo a natureza, não partirei (da vida) em desobediência a ti, mas como se me estivesses dando o sinal para recuar: não te deixo, longe de mim tal intenção, mas percebo que não tens necessidade de mim. Se me forem permitidos meios de viver segundo a natureza, não buscarei outro lugar senão aquele em que estou, nem outros homens senão aqueles entre os quais estou.

Que estes pensamentos estejam à mão de noite e de dia: estes deves escrever, estes deves ler: sobre estes deves falar contigo mesmo e com os outros.

Pergunta a um homem. Podes ajudar-me de alguma forma para este propósito? E além disso, vai a outro e a outro.

Então, se qualquer coisa for dita contrária ao teu desejo, esta reflexão primeiro te aliviará imediatamente, de que não é inesperado.

Pois é uma grande coisa em todos os casos dizer: Eu sabia que gerei um filho que é mortal. Pois assim também dirás: Eu sabia que sou mortal, sabia que posso deixar minha casa, sabia que posso ser expulso dela, sabia que posso ser levado à prisão.

Então, se te voltares e olhares para ti mesmo, e buscares o lugar de onde vem o que aconteceu, logo recordarás que vem do lugar das coisas que estão fora do poder da vontade, e das coisas que não são minhas.

O que é isso para mim? Então perguntarás, e isto é o principal: E quem é que o enviou? O líder, ou o general, o Estado, a lei do Estado.

Dá-mo então, pois devo sempre obedecer à lei em tudo.

significado diferente de 'a ressurreição do corpo'. Na administração do batismo aos que são de idade madura, pergunta-se à pessoa a ser batizada: 'Crês em Deus Pai Todo-Poderoso', etc., nos termos dos Credos da Igreja, mas em lugar da ressurreição do corpo ou dos mortos, pergunta-se se crê 'na ressurreição da carne'.

As várias opiniões de teólogos da Igreja Inglesa sobre a ressurreição do corpo são expostas por A. Clissold em 'Natureza Prática dos Escritos Teológicos de E. Swedenborg em uma carta a Whately, Arcebispo de Dublin, 1859, 2ª ed.'

EPICTETO.

Então, quando a aparência (das coisas) te causar dor, pois não está em teu poder impedi-la, combate-a com o auxílio da razão, conquista-a: não permitas que ela ganhe força nem que te leve às consequências, erguendo imagens como lhe apraz e como lhe apraz.

Se estiveres em Giaros, não imagines o modo de viver em Roma, e quantos prazeres havia para quem ali vivia e quantos haveria para quem voltasse a Roma: mas fixa tua mente nesta questão: como um homem que vive em Giaros deve viver em Giaros como um homem de coragem.

E se estiveres em Roma, não imagines como é a vida em Atenas, mas pensa somente na vida em Roma.

Então, no lugar de todos os outros prazeres, substitui este: o de teres consciência de que estás obedecendo a Deus, que não em palavras, mas em atos, estás realizando as ações de um homem sábio e bom.

Pois que coisa é para um homem poder dizer a si mesmo: "Agora, tudo o que os demais possam dizer em tom solene nas escolas e que seja julgado como dito de modo contrário à opinião comum (ou de modo estranho), isto eu estou fazendo; e eles estão sentados e discorrendo sobre minhas virtudes, e indagando a meu respeito e me louvando; e disto Zeus quis que eu recebesse de mim mesmo uma demonstração, e que eu mesmo soubesse se ele tem um soldado tal como deve ter, um cidadão tal como deve ter, e se ele escolheu apresentar-me ao resto da humanidade como testemunha das coisas que são independentes da vontade: Vede que temeis sem razão, que desejais tolamente o que desejais: não busqueis o bem nas coisas externas; buscai-o em vós mesmos: se não o fizerdes, não o encontrareis. Para este fim, ele me conduz ora para cá, ora me envia para lá, mostra-me aos homens como pobre, sem autoridade e doente; envia-me a Giaros, leva-me à prisão, não porque me odeia — longe dele tal significado, pois quem odeia o melhor de seus servos? — nem tampouco porque não cuida de mim, pois ele não negligencia nem mesmo as menores coisas; mas ele faz isto com o propósito de me exercitar e de me usar como testemunha para outros.

Sendo designado para tal serviço, ainda me importo com o lugar em que estou, ou com quem estou, ou com o que os homens dizem de mim? E não dirijo inteiramente meus pensamentos a Deus e às suas instruções e mandamentos?

» Sêneca, De Consol. ad Pol. c. 30; Cícero, Tuscul. Disp. iii. 13. Epicteto.

Tendo estas coisas (ou pensamentos) sempre em mãos, e exercitando-as por si mesmo, e mantendo-as prontas, nunca lhe faltará alguém para confortá-lo e fortalecê-lo.

Pois não é vergonhoso ficar sem algo para comer, mas não ter razão suficiente para afastar o medo e a tristeza.

Mas se uma vez você tiver obtido isenção da tristeza e do medo, haverá ainda um tirano para você, ou a guarda do tirano, ou atendentes de César? Ou alguma nomeação para cargos na corte lhe causará dor, ou aqueles que sacrificam no Capitólio por ocasião de serem nomeados para certas funções, causarão dor a você que recebeu tão grande autoridade de Zeus? ® Apenas não faça exibição orgulhosa disso, nem se vanglorie; mas mostre-o por seus atos; e se nenhum homem perceber, fique satisfeito por estar você mesmo em estado saudável e feliz.

Compare i. 12. 2, ii. 14. 11, iii. 26. 28. 'Compare isto com a descrição do cuidado universal da Providência, Mateus, x. 29, 30, e a ocasião em que foi produzido.' Sra. Carter.

" Veja i. 19. 19.

-" Sobre as estranhas palavras opSivaTitov e oittikiois, que ocorrem nesta frase, veja as notas na edição de ScliweigliaLUser.

EPICTETO.

CAPÍTULO XXV.

AOS QUE CAEM (DESISTEM) DE SEU PROPÓSITO.

Considere as coisas que você se propôs no início, quais você garantiu e quais não; e como você fica satisfeito quando recorda umas, e dolorido com outras; e se for possível, recupere as coisas em que falhou.

Pois não devemos recuar quando estamos engajados no maior combate, mas devemos até mesmo receber golpes.

"Pois o combate diante de nós não é na luta livre e no pancrácio, em que tanto o bem-sucedido quanto o mal-sucedido podem ter o maior mérito, ou podem ter pouco, e na verdade podem ser muito afortunados ou muito desafortunados; mas o combate é pela boa fortuna e pela felicidade em si mesmas.

Bem, então, mesmo que tenhamos renunciado à disputa neste assunto (pela boa fortuna e felicidade), ninguém nos impede de renovar o combate novamente, e não somos obrigados a esperar mais quatro anos para que os jogos em Olímpia voltem; mas assim que você se recuperar e se restaurar, e empregar o mesmo zelo, você pode renovar o combate novamente; e se novamente renunciar, pode renová-lo novamente; e se uma vez você obtiver a vitória, você é como aquele que nunca renunciou ao combate.

Somente não comece, por hábito de fazer a mesma coisa (renunciar ao combate), a fazê-lo com prazer, e então, como um mau atleta, ande por aí depois de ser conquistado em todo o circuito dos jogos, como codornizes que fugiram.

A visão de uma bela jovem me domina. Bem,

 Compare iii.

15, 4.

Esses jogos eram celebrados uma vez em quatro anos.

 'Todo o circuito dos jogos' significa o circuito dos jogos Píticos, Ístmicos, Nemeus e Olímpicos.

Um homem que tivesse contendido nesses quatro jogos vitoriosamente era chamado Periodonices, ou Periodontes.

Upton.

Os gregos costumavam colocar codornizes em uma rinha, como aqueles que são velhos o suficiente podem lembrar que costumávamos colocar galos de briga para lutar uns contra os outros.

Schweighaeuser descreve uma maneira de testar a coragem dessas codornizes a partir de Pólux (ix. 101); mas suponho que as aves também lutavam umas com as outras.

EPICTETO.

não fui eu dominado antes? Surge em mim uma inclinação para censurar uma pessoa; pois não a censurei antes? Você fala conosco como se tivesse saído (dessas coisas) ileso, assim como se um homem dissesse ao seu médico que lhe proíbe banhar-se: Não me banhei antes? Se então o médico puder lhe dizer: Bem, e o que aconteceu com você depois do banho? Você não teve febre, não teve dor de cabeça? E quando você censurou uma pessoa recentemente, não praticou o ato de uma pessoa maligna, de um tagarela frívolo; não nutriu esse hábito em si mesmo, acrescentando-lhe os atos correspondentes? E quando você foi dominado pela jovem, saiu ileso? Por que então você fala do que fez antes? Você deveria, penso eu, lembrando-se do que fez, como os escravos lembram dos golpes que receberam, abster-se das mesmas faltas.

Mas um caso não é como o outro; pois no caso dos escravos, a dor causa a lembrança; mas no caso das suas faltas, qual é a dor, qual é o castigo; pois quando você se acostumou a fugir dos atos malignos? Os sofrimentos, então, de caráter provador são úteis para nós, quer escolhamos ou não.

 Upton supôs que as palavras 'Mas um caso não é...' até 'fugir dos atos malignos', na tradução, são ditas pelo adversário de Epicteto, e a Sra.

Carter seguiu Upton na tradução.

Mas então não há sentido na última frase Οἱ ὄνοι ἄρα etc., na tradução, 'Sofrimentos então' etc.

O leitor pode consultar a nota de Schweighaeuser.

Suponho que Epicteto esteja proferindo as palavras 'Mas o primeiro caso' etc.

até o fim do capítulo.

O adversário, que não é punido como um escravo, e não tem dores que o lembrem de suas faltas, supõe-se que até então não tenha sentido as consequências de seus maus atos; mas Epicteto conclui que sofrimentos de caráter doloroso lhe seriam úteis, assim como o são para todas as pessoas que fazem o que não deveriam fazer. Há talvez alguma dificuldade na palavra πειρατηρίων.

Mas penso que Schweig.

explicou corretamente a passagem.

EPICTETO.

CAPÍTULO XXVI.

AOS QUE TEMEM A PENÚRIA.

Não te envergonhas de ser mais covarde e mais mesquinho do que escravos fugitivos? Como eles, quando fogem, deixam seus senhores? De quais propriedades dependem, e em quais servos se apoiam? Não roubam eles um pouco, o suficiente para os primeiros dias, e depois seguem adiante por terra ou por mar, inventando um método após outro para manter suas vidas? E qual escravo fugitivo jamais morreu de fome? Mas tu temes que as coisas necessárias te faltem, e passas noites sem dormir.

Miserável, és tão cego que não vês o caminho para o qual a falta do necessário conduz? — Bem, para onde conduz? — Para o mesmo lugar a que conduz uma febre, ou uma pedra que cai sobre ti: para a morte.

Não disseste tu mesmo isso muitas vezes aos teus companheiros? Não leste muito disso, e não escreveste muito? E quantas vezes te vangloriaste de estar tranquilo quanto à morte?

Sim; mas minha esposa e meus filhos também passam fome. — Bem, então a fome deles conduz a algum outro lugar? Não há a mesma descida para algum lugar também para eles? Não é

 'Compare este capítulo com os belos e comoventes discursos de nosso Salvador sobre o mesmo assunto, Mateus vi. 25-34; Lucas xii.

22-30.' Sra.

Carter.

O primeiro versículo de Mateus começa: 'Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou quanto ao que haveis de beber' etc.

Nenhum cristão segue literalmente o conselho deste e dos versículos seguintes, e ele seria condenado pelo julgamento de todos os homens se o fizesse.

É muito absurdo supor que nenhum escravo fugitivo jamais morreu de fome.

Como poderia Epicteto saber disso?

Ele supõe que o homem que morre de fome também tem esposa e filhos, que sofrerão o mesmo fim terrível.

A consolação, se é que há alguma, é que os ricos, os luxuosos e os reis também morrerão.

O fato é verdadeiro.

A morte é o destino de todos.

Mas uma morte dolorosa por fome não pode ser aliviada pelo fato de um homem saber que todos devem morrer de alguma forma.

Parece que o filósofo esperava que até mesmo mulheres e crianças fossem filósofas, e que o marido, em sua filosofia, contemplasse calmamente a morte da esposa e dos filhos por inanição.

Este é um exemplo do absurdo ao qual até um homem sábio levou sua filosofia; e é indigno do bom senso geral do mestre.

V

EPICTETO.

Não há o mesmo estado abaixo para eles? Não escolhes então olhar para aquele lugar cheio de coragem contra toda necessidade e deficiência, para aquele lugar ao qual tanto os ricos quanto aqueles que ocuparam os mais altos cargos, e os próprios reis e tiranos devem descer? Ou para o qual descerás faminto, se assim acontecer, mas eles estourados por indigestão e embriaguez.

Que mendigo viste dificilmente que não fosse um homem velho, e até de extrema velhice? Mas gelados de frio dia e noite, e deitados no chão, e comendo apenas o absolutamente necessário, aproximam-se da impossibilidade de morrer. Não podes escrever? Não podes ensinar (cuidar de) crianças? Não podes ser um vigia na porta de outra pessoa? — Mas é vergonhoso chegar a tal necessidade.

— Aprende então primeiro quais são as coisas que são vergonhosas, e então dize-nos que és um filósofo: mas no presente, mesmo que qualquer outro homem te chame assim, não o permitas.

Isso é vergonhoso para você o que não é ato seu, aquilo de que você não é a causa, aquilo que lhe veio por acidente, como uma dor de cabeça, como uma febre? Se seus pais eram pobres e deixaram seus bens para outros, e se, enquanto vivem, não o ajudam em nada, isso é vergonhoso para você? É isso que você aprendeu com os filósofos? Você nunca ouviu que o que é vergonhoso deve ser censurado, e que o que é censurável é digno de culpa? A quem você culpa por um ato que não é seu, que ele não praticou ele mesmo? Você então fez seu pai como ele é, ou está em seu poder melhorá-lo? Esse poder lhe foi dado? Então, deveria você desejar as coisas que não lhe são dadas, ou sentir vergonha se não as obtém? E você também se acostumou, enquanto estudava filosofia, a olhar para os outros e a nada esperar de si mesmo? Lamente então, e gema, e coma com medo de que não tenha comida amanhã.

Vemos muitos mendigos velhos que suportam o que outros não poderiam suportar; mas todos morrem por fim, e teriam morrido mais cedo se sua vida de mendicância tivesse começado mais cedo.

Viver ao ar livre e vaguear os ajuda a durar mais; mas a exposição ao frio, à umidade e à falta de alimento apressa seu fim.

A vida de um pobre mendigo velho não é tão longa nem tão confortável quanto a de um homem que tem um bom lar e alimento suficiente, e vive com moderação.

EPICTETO.

Treme por seus pobres escravos, para que não roubem, para que não fujam, para que não morram.

Assim viva, e continue a viver, você que apenas em nome se aproximou da filosofia, e desonrou seus teoremas tanto quanto pode, mostrando-os inúteis e improfícuos para aqueles que os adotam; você que nunca buscou constância, liberdade de perturbação e de paixões; você que não procurou ninguém por causa desse objetivo, mas muitos por causa de silogismos; você que nunca examinou a fundo nenhuma dessas aparências por si mesmo: Sou capaz de suportar, ou não sou capaz de suportar? O que me resta fazer? Mas, como se todos os seus assuntos estivessem bem e seguros, você tem descansado no terceiro tópico, o das coisas serem imutáveis, a fim de possuir imutável — o quê? covardia, mesquinhez, admiração dos ricos, desejo sem alcançar nenhum fim, e evitação (ἔκκλισις) que falha na tentativa? Sobre a segurança nessas coisas você tem estado ansioso.

Ninguém traz algo para comer? E então: "Tirai as mesas, limpai-as": temeis isto, para que não sejais capazes de levar a vida de um doente.

Mas aprendei a vida daqueles que têm saúde, como vivem os escravos, como vivem os trabalhadores, como vivem aqueles que são verdadeiros filósofos; como viveu Sócrates, que tinha esposa e filhos; como viveu Diógenes; e como viveu Cleantes, que atendia à escola e tirava água.

Se escolherdes ter essas coisas, tê-las-eis em toda parte, e vivereis em plena confiança.

Confiando em quê? Naquilo somente em que um homem pode confiar, naquilo que é seguro, naquilo que não está sujeito a impedimento, naquilo que não pode ser tirado, isto é, na vossa própria vontade.

E por que vos tornastes tão inúteis e tão bons para nada, que nenhum homem escolherá receber-vos em sua casa, nenhum homem cuidará de vós? Mas se um utensílio inteiro e útil fosse lançado fora, todo homem que o encontrasse o tomaria e o consideraria um ganho; mas nenhum homem vos tomará, e todo homem vos considerará uma perda.

Não podeis, então, desempenhar o ofício até mesmo de um cão,

Cleantes, o sucessor de Zenão em sua escola, foi um grande exemplo da busca do conhecimento sob dificuldades: durante a noite, costumava tirar água dos poços para o uso dos jardins; durante o dia, empregava-se em seus estudos.

Ele foi o autor de um nobre hino a Zeus, que ainda existe.

EPICTETO.

ou de um galo? Por que, então, escolheis viver por mais tempo, quando sois o que sois?

Algum homem bom teme que lhe falte alimento? Para o cego não falta, para o coxo não falta: faltará para um homem bom? E para um bom soldado não deixa de haver quem lhe pague, nem para o trabalhador, nem para o sapateiro: e para o homem bom faltará tal pessoa? "Deus então negligencia assim as coisas que estabeleceu, seus ministros, suas testemunhas, as quais somente ele emprega como exemplos para os não instruídos, tanto que ele existe, e administra bem o todo, e não negligencia os assuntos humanos, e que para um homem bom não há mal nem quando vive nem quando morre? O que então quando não lhe supre alimento? O que mais faz senão, como um bom general, me deu o sinal de retirada? Obedeço, sigo, assentindo às palavras do comandante, louvando seus atos: pois vim quando lhe agradou, e também partirei quando lhe agradar; e enquanto vivi, foi meu dever louvar a Deus tanto por mim mesmo, como a cada pessoa separadamente e a muitos. Ele não me supre com muitas coisas, nem com abundância, não quer que eu viva luxuriosamente; pois tampouco supriu Hércules, que era seu próprio filho; mas outro (Euristeu) era rei de Argos e Micenas, e Hércules obedecia ordens, e trabalhava, e era exercitado.

E Euristeu era o que era, nem rei de Argos nem de Micenas, pois não era nem mesmo rei de si mesmo; mas Hércules era governante e líder de toda a terra e mar, que purgou a ilegalidade, e introduziu justiça e santidade; e fez essas coisas tanto nu quanto sozinho.

E quando Ulisses

[Nota: Parece estranho que Epicteto faça tais afirmações quando sabemos que não são verdadeiras. Pouco depois ele mesmo fala até do homem bom não sendo suprido com alimento por Deus. — Ver i. 29. 29. A palavra é ἐπιφημί. Compare ἐπιφήμη, Homero, Ilíada I. 22. — Ver i. 16. 15. — Compare Hebreus xi. e xii., nos quais o Apóstolo e Filósofo raciocinam de maneira quase semelhante e até usam os mesmos termos; mas quão superior é o exemplo urgido pelo Apóstolo a Hércules e Ulisses!' Sra. Carter.]

foi lançado fora, naufragado, a necessidade o humilhou, quebrou seu espírito? Mas como ele foi às virgens pedir necessidades, a algo que é considerado mais vergonhoso?

Como um leão criado nas montanhas, confiando em sua força.

— Od. vi 130.

Apoiando-se em quê? Não na reputação, nem na riqueza, nem no poder de um magistrado, mas na sua própria força, isto é, nas suas opiniões sobre as coisas que estão em nosso poder e as que não estão.

Pois estas são as únicas coisas que tornam os homens livres, que os fazem escapar do impedimento, que erguem a cabeça (o pescoço) dos que estão abatidos, que os fazem olhar com olhos firmes para os ricos e para os tiranos.

E este foi (é) o dom dado ao filósofo.

Mas tu não sairás corajoso, mas tremendo por causa das tuas roupas insignificantes e vasos de prata.

Infeliz, desperdiçaste assim o teu tempo até agora?

O que então, se eu ficar doente? Ficarás doente de tal maneira como deves. — Quem cuidará de mim? — Deus; teus amigos — Eu me deitarei numa cama dura — Mas te deitarás como um homem — Não terei um aposento conveniente — Ficarás doente num aposento inconveniente — Quem me proverá o alimento necessário? — Aqueles que provêm também para os outros.

Ficarás doente como Manes.® — E qual será também o fim da doença? Algum outro senão a morte? — Consideras então que isto é o principal de todos os males para o homem e a principal marca de mesquinhez e de covardia, não a morte, mas antes o medo da morte? Contra este medo então te aconselho a exercitar-te: a isto tendam todos os teus raciocínios, os teus exercícios e a tua leitura; e saberás que assim somente os homens são feitos livres.

" A história de Ulisses pedindo ajuda a Nausícaa e suas criadas quando foi lançado nu à terra está na Odisseia, vi. 127.

" Manes é um nome de escravo.

Diógenes tinha um escravo chamado Manes, seu único escravo, que fugiu, e embora Diógenes fosse informado de onde o escravo estava, não achou que valesse a pena mandar trazê-lo de volta.

Ele disse que seria uma vergonha se Manes pudesse viver sem Diógenes, e Diógenes não pudesse viver sem Manes.

booe;" ly.

CAPÍTULO I.

SOBRE A LIBERDADE.

É livre quem vive como deseja viver; quem não está sujeito nem à compulsão nem ao impedimento, nem à força; cujos movimentos para a ação (op/at) não são impedidos, cujos desejos atingem seu propósito, e quem não cai naquilo que evitaria (eKKXib-cts dTre/atTrToxroi). Quem então escolhe viver no erro? Ninguém.

Quem escolhe viver enganado, sujeito ao erro, injusto, desenfreado, descontente, mesquinho? Ninguém.

Nenhum dos maus então vive como deseja; nem é, portanto, livre.

E quem escolhe viver na tristeza, no medo, na inveja, na piedade, desejando e falhando em seus desejos, tentando evitar algo e caindo nisso? Ninguém.

Encontramos então algum dos maus livre da tristeza, livre do medo, que não caia naquilo que evitaria e não obtenha aquilo que deseja? Ninguém; nem encontramos então nenhum homem mau livre.

Se então um homem que foi cônsul duas vezes ouvir isto, se você acrescentar: "Mas você é um homem sábio; isto não lhe diz respeito", ele o perdoará.

Mas se você lhe disser a verdade e disser: "Você não difere em nada daqueles que foram vendidos três vezes quanto a não ser você mesmo um escravo", o que mais você deve esperar senão golpes? Pois ele diz: "O quê, eu um

Cícero, Paradoxo, v. 'Quid est enim libertas? Potestas vivendi ut velis. Quia igitur vivit ut vult, nisi qui recta sequitur,' etc.

προπίπτω', Comp. ii. 1. 10: ἐμπεσεῖν οὖν ἢ προπεσεῖν.

 'Todo aquele que comete pecado é servo do pecado,' João viii. 34. Sra. Carter.

EPICTETO.

escravo, eu cujo pai era livre, cuja mãe era livre, eu a quem ninguém pode comprar? Sou também de posição senatorial, e amigo de César, e fui cônsul, e possuo muitos escravos."

— Em primeiro lugar, ó excelentíssimo homem senatorial, talvez seu pai também fosse escravo no mesmo tipo de servidão, e sua mãe, e seu avô, e todos os seus ancestrais em linha ascendente.

Mas mesmo que eles fossem tão livres quanto é possível, o que isso lhe importa? E se eles fossem de natureza nobre, e você de natureza vil; se eles fossem destemidos, e você um covarde; se eles tivessem o poder de autodomínio, e você não é capaz de exercê-lo?

E o que, você pode dizer, isso tem a ver com ser escravo? Parece-lhe que não é nada fazer algo contra a vontade, com compulsão, com gemidos; isso não tem nada a ver com ser escravo? É algo, você diz; mas quem é capaz de me compelir, exceto o senhor de todos, César? Então até você mesmo admitiu que tem um senhor.

Mas que ele seja o senhor comum de todos, como você diz, não o console em nada; mas saiba que você é um escravo em uma grande família.

Assim também o povo de Nicópolis costumava exclamar: "Pela fortuna de César, somos livres."

Contudo, se lhe agrada, não falemos de César por ora.

Mas dize-me isto: nunca amaste alguma pessoa, uma jovem, escrava ou livre? O que é isso então com respeito a ser escravo ou livre? Nunca foste comandado pela pessoa amada a fazer algo que não desejavas fazer? Nunca lisonjeaste tua pequena escrava? Nunca beijaste seus pés? E, no entanto, se alguém te compelisse a beijar os pés de César, considerarias isso um insulto e uma tirania excessiva.

O que mais é então a escravidão? Nunca saíste à noite para algum lugar aonde não desejavas ir, não gastaste o que não desejavas gastar, não proferiste palavras com suspiros e gemidos, não te submeteste a abusos e a seres excluído? Mas se tens vergonha de confessar teus próprios atos, vê o que Thrasonides¹ diz e faz, ele que, tendo visto tanto serviço militar quanto talvez nem tu tenhas visto, primeiramente saiu à noite, quando Geta (um escravo) não se atreve a sair, mas se fosse compelido por seu senhor, teria gritado muito e teria saído lamentando sua amarga escravidão.

Em seguida, o que diz Thrasonides? "Uma garota sem valor me escravizou, a mim, a quem nenhum inimigo jamais escravizou." Infeliz homem, que és escravo até de uma garota, e de uma garota sem valor.

Por que então ainda te chamas livre? E por que falas de teu serviço no exército? Então ele chama por uma espada e se ira com aquele que, por bondade, a recusa; e envia presentes àquela que o odeia, e suplica e chora, e, por outro lado, tendo tido um pequeno sucesso, fica exaltado.

Mas mesmo então, como? Era ele livre o bastante para nem desejar nem temer?

Agora considera, no caso dos animais, como empregamos a noção de liberdade.

Os homens mantêm leões domesticados enjaulados, e os alimentam, e alguns os levam consigo; e quem dirá que esse leão é livre? Não é fato que quanto mais ele vive à vontade, tanto mais está em condição servil? E quem, se tivesse percepção e razão, desejaria ser um desses leões? Ora, essas aves, quando são capturadas e mantidas enjauladas, quanto sofrem em suas tentativas de escapar? E algumas delas morrem de fome em vez de se submeterem a tal tipo de vida.

E tantas delas quanto vivem, mal vivem e com sofrimento definham; e se alguma vez encontram alguma abertura, fazem sua...

¹ Uma forma usual de juramento.

Ver ii. 20. 29. Upton compara a expressão romana 'Per Genium', como em Horácio, Epp.

i. 7. 94 —

"Quod te per Genium, dextramque, Deosque Penates
Obsecro et obtestor."

EPICTETO.

A exclusão de um amante por sua amada era um tema comum e uma séria causa de queixa (Lucrécio, iv. 1172):

Mas o amante excluído, chorando, muitas vezes cobre a soleira com flores e grinaldas.

Veja também Horácio, Odes, i. 25.

® Thrasonides era um personagem de uma das peças de Menandro, intitulada "Ὁτιούμενοι" ou o Odiado.

' Deve ter sido bastante difícil manejar um leão domesticado; mas lemos sobre tais coisas entre os romanos.

Sêneca, Epp. 41.

A manutenção de pássaros em gaiolas, papagaios e outros, também era comum entre os romanos.

Ovídio (Amor. ii. 6) escreveu uma bela elegia sobre a morte de um papagaio favorito.

EPICTETO.

escape.

Tanto desejam eles sua liberdade natural, e ser independentes, e livres de impedimentos.

E que mal há para você nisso? O que você diz? Fui formado pela natureza para voar para onde escolho, para viver ao ar livre, para cantar quando escolho: você me priva de tudo isso, e diz, que mal há para você? Por esta razão diremos que somente aqueles animais são livres, que não podem suportar a captura, mas assim que são apanhados, escapam do cativeiro pela morte.

Assim também Diógenes, em algum lugar, diz que há apenas um caminho para a liberdade, e esse é morrer contente: e ele escreve ao rei persa: "Você não pode escravizar o estado ateniense mais do que pode escravizar peixes."

Como assim? não posso apanhá-los? Se você os apanha, diz Diógenes, eles imediatamente o deixarão, como fazem os peixes; pois se você apanha um peixe, ele morre; e se esses homens que são apanhados morrerem, de que utilidade é para você a preparação para a guerra? Estas são as palavras de um homem livre que examinou cuidadosamente a coisa e, como era natural, a descobriu. Mas se você a procura em um lugar diferente de onde ela está, que admiração se nunca a encontrar?

O escravo deseja ser libertado imediatamente.

Por quê? Você pensa que ele deseja pagar dinheiro aos coletores de vigésimos? Não; mas porque ele imagina que até agora, por não ter obtido isso, está impedido e infeliz.

Se eu for libertado, imediatamente é toda felicidade, não me importo com ninguém, falo com todos como um igual e semelhante a eles, vou para onde escolho, venho de qualquer lugar que escolho, e vou para onde escolho.

Então ele é libertado; e imediatamente, não tendo onde comer, procura algum homem para lisonjear, alguém com quem possa cear: então ou trabalha com o corpo e suporta as coisas mais terríveis; e se consegue obter uma manjedoura, cai em uma escravidão muito pior que a anterior¹; ou mesmo se enriquece, sendo um homem sem qualquer conhecimento do que é bom, ama uma menina, e em sua infelicidade lamenta e deseja ser escravo novamente.

Ele diz: que mal eu sofri no meu estado de escravidão? Outro me vestia, outro me fornecia sapatos, outro me alimentava, outro cuidava de mim na doença; e eu prestava apenas alguns serviços para ele. Mas agora, homem miserável, que coisas eu sofro, sendo escravo de muitos em vez de um só.

Porém, ele diz, se eu adquirir anéis, então viverei da maneira mais próspera e feliz.

Primeiro, para adquirir esses anéis, ele se submete àquilo que é digno; depois, quando os adquiriu, tudo é novamente o mesmo.

Então ele diz: se eu me engajar no serviço militar, estou livre de todos os males.

Ele obtém o serviço militar.

Ele sofre tanto quanto um escravo açoitado, e no entanto pede um segundo serviço e um terceiro.

Depois disso, quando pôs o toque final (o colofão)² à sua carreira e se tornou senador, então se torna escravo ao entrar na assembleia, então serve a escravidão mais refinada e esplêndida — não a de ser tolo, mas a de aprender o que Sócrates ensinou, qual é a natureza de cada coisa que existe, e que um homem não deve adaptar precipitadamente as preconcepções (προλήψεις) às coisas particulares que são. Pois esta é a causa de todos os males para os homens: a incapacidade de adaptar as preconcepções gerais às coisas particulares.

Mas temos opiniões diferentes (sobre a causa de nossos males). Um homem pensa que está doente: não é assim, porém, mas o fato é que ele não adapta suas preconcepções corretamente.

Outro pensa que é pobre; outro que tem um pai ou uma mãe severos; e outro ainda que César não lhe é favorável.

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¹ Ver ii. 1. 26. Os εικάσται eram os Publicani, homens que arrendavam este e outros impostos. Um imposto de um vigésimo do valor de um escravo quando alforriado foi estabelecido em época antiga (Lívio vii. 16). Parece por esta passagem que o escravo alforriado pagava o imposto de suas economias (peculium). Ver ii. 1. nota 7.

² O leitor pode adivinhar o significado.

Mas tudo isso é uma única coisa: o não saber como adaptar as preconcepções.

Pois quem não tem uma preconcepção daquilo que é mau, de que é prejudicial, de que deve ser evitado, de que deve ser de todas as maneiras guardado? Uma preconcepção não é repugnante a outra, exceto quando se trata da questão da adaptação.

O que é então esse mal, que é tanto prejudicial quanto uma coisa a ser evitada? Ele responde: não ser amigo de César.

— Ele está longe do alvo, errou a adaptação, está embaraçado, busca coisas que não são de todo pertinentes à questão; pois quando ele conseguiu ser amigo de César, mesmo assim falhou em encontrar o que procurava.

Pois o que é aquilo que todo homem busca? Viver seguro, ser feliz, fazer tudo como deseja, não ser impedido nem compelido.

Quando então ele se torna amigo de César, está livre de impedimentos? Livre de compulsão, está tranquilo, está feliz? De quem devemos inquirir? Que testemunha mais confiável temos do que esse próprio homem que se tornou amigo de César? Venha à frente e diga-nos quando você dormiu mais tranquilamente, agora ou antes de se tornar amigo de César? Imediatamente você ouve a resposta.

Pare, eu suplico a você, e não zombe de mim: você não sabe que misérias eu sofro, e o sono não vem a mim; mas um vem e diz: César já está acordado, ele está agora saindo: então vêm problemas e cuidados — Bem, quando você jantou com mais prazer, agora ou antes? Ouça o que ele diz sobre isso também.

Ele diz que se não é convidado, fica magoado: e se é convidado, janta como um escravo com seu senhor, o tempo todo ansioso para não dizer ou fazer algo tolo.

E o que você supõe que ele teme; que seja açoitado como um escravo? Como pode esperar algo tão bom? Não, mas como convém a um homem tão grande, amigo de César, ele teme perder a cabeça.

Um anel de ouro era usado pelos Equites; e, portanto, desejar o anel de ouro é o mesmo que desejar ser elevado à classe equestre.

O colofão.

Ver ii. 14, nota 5. Após as palavras 'escravidão mais esplêndida', é provável que algumas palavras tenham sido omitidas acidentalmente nos manuscritos.

" Compare i 2. 6.

EPICTETO.

E quando você se banhou mais livre de preocupações e fez seus exercícios ginásticos com mais tranquilidade? Em suma, qual tipo de vida você preferia? A sua vida atual ou a sua vida anterior? Posso jurar que nenhum homem é tão estúpido ou tão ignorante da verdade que não lamente suas próprias desgraças quanto mais próximo estiver, por amizade, de César.

Compare i. 22.

EPICTETO.

Visto que nem aqueles que são chamados reis vivem como escolhem, nem os amigos dos reis, quem são, finalmente, os que são livres? Buscai, e encontrareis; pois tendes auxílios da natureza para a descoberta da verdade.

Mas se não sois capazes, por vós mesmos, percorrendo apenas esses caminhos, de descobrir o que se segue, ouvi aqueles que já fizeram a investigação.

O que dizem eles? A liberdade vos parece um bem? O maior dos bens.

É possível, então, que aquele que obtém o maior bem possa ser infeliz ou passar mal? Não. A quem quer que vejais infeliz, desafortunado, lamentando-se, declarai confiantemente que não é livre.

Eu o declaro. Agora, pois, nos afastamos da compra e venda e de tais arranjos acerca de questões de propriedade: pois se assentistes corretamente a estas questões, se o grande rei (o rei persa) é infeliz, ele não pode ser livre, nem um pequeno rei, nem um homem de posição consular, nem alguém que foi cônsul duas vezes.

— Assim seja.

Ainda mais, respondei-me também a esta questão: a liberdade vos parece algo grande, nobre e valioso? — Como não pareceria? É possível, então, que quando um homem obtém algo tão grande, tão valioso e tão nobre, seja vil? — Não é possível — Quando, então, virdes algum homem sujeito a outro ou lisonjeando-o contra a sua própria opinião, afirmai confiantemente que este homem também não é livre; e não somente se ele fizer isso por um jantar, mas também se o fizer por um governo (província) ou por um consulado: e chamai a esses homens de pequenos escravos que, por causa de pequenas questões, fazem essas coisas, e àqueles que o fazem por grandes questões, chamai de grandes escravos, como merecem ser. — Isso também é admitido — Considerais que a liberdade é algo independente e autônomo? — Certamente — A quem quer que esteja no poder de outro impedir e compelir, declarai que não é livre.

E não olhe, eu lhe suplico, para seus avós e bisavós, nem indague se ele foi comprado ou vendido; mas se você o ouvir dizer do fundo do coração e com sentimento: "Senhor", ainda que os doze feixes o precedam (como cônsul), chame-o de escravo.

E se você o ouvir dizer: "Miserável que sou, quanto sofro", chame-o de escravo.

Se, finalmente, você o vir lamentando-se, queixando-se, infeliz,

EPICTETO.

chame-o de escravo, ainda que vista uma pretexta.¹ Se então ele não estiver fazendo nada disso, não diga ainda que é livre, mas aprenda suas opiniões, se estão sujeitas à compulsão, ou se podem produzir impedimento, ou à má fortuna; e se você o encontrar assim, chame-o de escravo que tem feriado nas Saturnais:² diga que seu senhor está fora de casa; ele voltará em breve, e você saberá o que ele sofre.

Quem voltará? Quem tem em si o poder sobre qualquer coisa que é desejada pelo homem, seja para dá-la a ele ou para tirá-la? Assim, então, temos muitos senhores? Temos; pois temos as circunstâncias como senhores anteriores aos nossos senhores atuais; e essas circunstâncias são muitas.

Portanto, é necessariamente verdade que aqueles que têm poder sobre qualquer uma dessas circunstâncias devem ser nossos senhores.

Pois nenhum homem teme o próprio César, mas teme a morte, o exílio, a privação de sua propriedade, a prisão e a desonra.

Nem nenhum homem ama César, a menos que César seja uma pessoa de grande mérito, mas ama a riqueza, o cargo de tribuno, pretor ou cônsul.

Quando amamos, odiamos e tememos essas coisas, é necessário que aqueles que têm poder sobre elas sejam nossos senhores.

Portanto, nós os adoramos como deuses; pois pensamos que o que possui o poder de conferir-nos a maior vantagem é divino.

Então supomos erroneamente (ὑποτασσόμεθα) que uma certa pessoa tem o poder de conferir as maiores vantagens; portanto, ela é algo divino.

Pois se supomos erroneamente³ que uma certa pessoa tem o poder de conferir as maiores vantagens, é uma consequência necessária que a conclusão dessas premissas deva ser falsa.

O que é, então, que torna um homem livre de impedimento e o torna senhor de si mesmo? Pois a riqueza não o faz, nem o consulado, nem o governo de província,

¹ Assim os pretextados referem os costumes de Artaxata.— Juv. ii. 170.

² Ver Epict. i. 2, nota 4.

³ Saturnália.

Ver i. 25, nota 3.

Nesta estação, os escravos tinham liberdade de se divertir e conversar livremente com seus senhores.

Portanto, Horácio diz, Sat.

ii. 74 — Vamos, usa da abundância de Dezembro, já que assim quiseram os maiores.

"Este é um exemplo notável do que os antigos chamavam de προλήψεις παραβῆναι τοὺς ἀνθρώπους οἰήσεις, sobre o qual, veja i. 22, 9, ii. 11, 3, ii. 17, 7." Upton.

EPICTETO.

nem poder real; mas algo mais deve ser descoberto.

O que é então aquilo que, quando escrevemos, nos torna livres de impedimentos e desobstruídos? O conhecimento da arte de escrever.

O que é então tocar lira? A ciência de tocar lira.

Portanto, também na vida, é a ciência da vida.

Ouvistes então de modo geral: mas examinai a coisa também em suas partes.

É possível que aquele que deseja alguma das coisas que dependem de outros seja livre de impedimentos? Não — É possível que ele seja desobstruído? Não — Portanto, ele não pode ser livre.

Considerai então: será que não temos nada que esteja somente em nosso próprio poder, ou temos todas as coisas, ou algumas coisas estão em nosso próprio poder e outras no poder de outros?

— O que queres dizer? — Quando desejas que o corpo esteja íntegro (são), está em teu poder ou não? — Não está em meu poder — Quando desejas que ele seja saudável? — Nem isto está em meu poder.

— Quando desejas que ele seja belo? — Nem isto — Vida ou morte? — Nem isto está em meu poder. — Teu corpo então é de outro, sujeito a todo homem mais forte do que tu — É — Mas tua propriedade, está em teu poder tê-la quando quiseres, e pelo tempo que quiseres, e tal como quiseres? — Não — E teus escravos? — Não — E tuas roupas? — Não — E tua casa? — Não — E teus cavalos? — Nenhuma dessas coisas — E se desejas por todos os meios que teus filhos vivam, ou tua esposa, ou teu irmão, ou teus amigos, está em teu poder? — Isto também não está em meu poder.

Tens então nada que esteja em teu próprio poder, que dependa somente de ti e que não possa ser tirado de ti, ou tens algo do tipo? — Não sei — Olha então a coisa assim e examina-a. É algum homem capaz de fazer-te assentir ao que é falso? — Nenhum homem — Na questão do assentimento então és livre.

8 Schweighaeuser observa que a morte está em nosso poder, como ensinaram os estoicos; e Epicteto frequentemente nos diz que a porta está aberta.

Ele sugere que a leitura correta pode ser καὶ οὐκ ἀποθανεῖν.

Penso que o texto está correto.

Epicteto pergunta se 'vida ou morte' está em nosso poder.

Ele não quer dizer mais do que se tivesse dito apenas vida.

"Ho significa aquilo que te parece ser falso.

Ver iii.

22, 42.

" Quanto à questão do assentimento, então": este é o terceiro TtJTros ou 'lugar' ou divisão em filosofia (iii.

2, 1-5). Quanto à Vontade, compare i. 17, nota

304: EPICTETO.

de impedimento e obstrução.

— Concedido — Bem; e pode um homem forçar-te a desejar mover-te em direção àquilo que não escolhes? — Pode, pois quando ele me ameaça com morte ou grilhões, ele me obriga a desejar mover-me em direção a isso. Se então desprezas a morte e os grilhões, ainda dás alguma importância a ele? — Não — Então, o desprezar a morte é um ato teu ou não é teu? — É meu ato — É teu ato também, então, desejar mover-te em direção a uma coisa: ou não é assim? — É meu ato — Mas desejar afastar-te de uma coisa, de quem é esse ato? Isso também é teu ato — Que então, se eu tentei caminhar, suponha-

10. Epicteto afirma que um homem não pode ser compelido a assentir, isto é, a admitir, a permitir, ou, para usar outra palavra, a crer naquilo que lhe parece ser falso, ou, para usar a mesma palavra novamente, a crer naquilo em que não crê.

Quando o cristão usa os dois credos, que começam com as palavras 'Creio etc.', ele sabe ou deveria saber que não pode compelir um descrente a aceitar a mesma crença.

Ele pode, por dores e penalidades de vários tipos, compelir algumas pessoas a professar ou a expressar a mesma crença: mas assim como nenhuma dor ou penalidade poderia compelir alguns cristãos a negar sua crença, suponho que talvez haja homens que não poderiam ser compelidos a expressar essa crença quando não a têm.

O caso do crente e do descrente, no entanto, não é o mesmo.

O crente pode ser fortalecido em sua crença pela convicção de que será de alguma forma punido por Deus, se negar aquilo em que crê.

O descrente não terá o mesmo motivo ou razão para não expressar seu assentimento àquilo em que não crê.

Ele crê que lhe será indiferente, com respeito a Deus, quer dê seu assentimento àquilo em que não crê, quer recuse seu assentimento.

Nada resta então para perturbá-lo se ele expressa seu assentimento àquilo em que não crê, exceto a opinião daqueles que sabem que ele não crê, ou suas próprias reflexões sobre expressar seu assentimento àquilo em que não crê; ou, em outras palavras, sua publicação de uma mentira, que provavelmente não fará mal a nenhum homem ou de nenhuma maneira.

Creio que alguns homens são suficientemente fortes, ao menos sob certas circunstâncias, para recusar seu assentimento a qualquer coisa em que não creem; mas não afirmo que o fariam sob todas as circunstâncias.

Para voltar à matéria em consideração, um homem não pode ser compelido por nenhum poder a aceitar voluntariamente uma coisa como verdadeira, quando crê que ela não é verdadeira; e esse ato seu é bastante independente da questão de saber se sua descrença é bem fundada ou não.

Ele não crê porque não pode crer.

Contudo, está dito (Marcos xvi. 16) no texto recebido, tal como agora se apresenta: "Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado". A causa, como se chama, dessa descrença é explicada por alguns teólogos; mas nem todos os homens admitem que a explicação seja suficiente; e isso não concerne ao presente assunto.

EPICTETO.

Suponha que outro me impeça — O quê, que parte de você ele impede? Impede ele a faculdade do assentimento? — Não: mas meu pobre corpo — Sim, como faria com uma pedra — Concedido; mas eu não ando mais — E quem lhe disse que andar é ato seu, livre de impedimento? Pois eu disse que somente isto era livre de impedimento: o desejar mover-se; mas onde há necessidade do corpo e de sua cooperação, você já ouviu há muito tempo que nada é seu.

— Concedido também isto — E quem pode compelir você a desejar o que não quer? — Ninguém — E a propor ou intentar, ou, em suma, a fazer uso das aparências que se apresentam, pode alguém compelir você? — Isso ele não pode; mas ele me impedirá, quando eu desejar, de obter o que desejo.

— Se você deseja alguma coisa que é sua, e uma das coisas que não podem ser impedidas, como ele o impedirá? — Ele não pode de modo algum — "Quem então lhe diz que aquele que deseja as coisas que pertencem a outro está livre de impedimento?

Devo então não desejar a saúde? De modo algum, nem qualquer outra coisa que pertença a outro: pois o que não está em seu poder adquirir ou conservar quando quiser, isso pertence a outro.

Mantenha então longe dela não apenas suas mãos, mas, mais que isso, até mesmo seus desejos.

Se não o fizer, você se entregou como escravo; você submeteu seu pescoço, se admira qualquer coisa que não é sua, a tudo que depende do poder de outros e é perecível, ao que você concebeu afeição.

— Não é minha mão minha? — É uma parte do teu próprio corpo; mas é por natureza terra, sujeita a impedimentos, compulsão, e escrava de tudo o que é mais forte.

E por que digo tua mão? Deves possuir teu corpo inteiro como um pobre asno carregado, enquanto for possível, enquanto te for permitido.

Mas se houver uma requisição, e

A palavra "admirar" é Qavixiaris no original.

A palavra é frequentemente usada por Epicteto, e Horácio usa "admirari" nesse sentido estoico.

Ver i. 29. 2, nota.

Ver nota de Schweig. sobre fiepos.

A palavra é ayyapfla, uma palavra de origem persa (Heródoto, viii. 98). Significa aqui a apreensão de animais para fins militares quando necessário.

Upton refere-se a Mateus 5, v. 41, Marcos 15, c. 21 para usos semelhantes do verbo iyyaptiu

X

EPICTETO.

um soldado a agarre, solta-a, não resistas, não murmures; se o fizeres, receberás golpes, e ainda assim perderás também o asno.

Mas quando deves sentir assim com respeito ao corpo, considera o que resta a fazer acerca de tudo o mais, que é provido por causa do corpo.

Quando o corpo é um asno, todas as outras coisas são arreios pertencentes ao asno, albardas, ferraduras, cevada, forragem.

Deixa também estas irem: livra-te delas mais rápida e prontamente do que do asno.

Quando tiveres feito esta preparação, e tiveres praticado esta disciplina, para distinguir o que pertence a outro do que é teu, as coisas que estão sujeitas a impedimento das que não estão, para considerar as coisas livres de impedimento como de tua preocupação, e as que não são livres como fora de tua preocupação, para manter teu desejo firmemente fixo nas coisas que realmente te concernem, e afastado das coisas que não te concernem; ainda temes algum homem? Ninguém.

Pois sobre o que terás medo? Sobre as coisas que são tuas, nas quais consiste a natureza do bem e do mal? E quem tem poder sobre essas coisas? Quem pode tirá-las? Quem pode impedi-las? Ninguém pode, assim como ninguém pode impedir a Deus.

Mas você terá medo do seu corpo e das suas posses, das coisas que não são suas, das coisas que de modo algum lhe dizem respeito? E o que mais você tem estudado desde o início senão distinguir entre o que é seu e o que não é seu, as coisas que estão em seu poder e as que não estão, as coisas sujeitas a impedimento e as que não estão? E por que você veio aos filósofos? Foi para que, ainda assim, você seja infeliz e desgraçado? Você então, dessa maneira, como supus que você tenha feito, estará sem medo e sem perturbação.

E o que é o luto para você? Pois o medo vem do que você espera, mas o luto vem do que está presente. Mas o que mais você desejará? Pois das coisas que estão dentro do poder da vontade, como sendo boas e presentes, você tem um desejo próprio e regulado:

5 Aqui ele fala de asnos sendo ferrados.

A tradução latina da palavra (uiroSrjudTta) em Epicteto é 'ferreas calces'.

Suponho que eles não pudessem usar nada além de ferro.

Ver nota de Schweig.

EPICTETO.

mas das coisas que não estão no poder da vontade você não deseja nenhuma, e assim você não dá lugar àquilo que é irracional, impaciente e acima da medida apressado.

Quando então você estiver assim afetado em relação às coisas, que homem pode ainda ser formidável para você? Pois o que tem um homem que seja formidável para outro, seja quando você o vê, seja quando fala com ele, ou finalmente quando convive com ele? Não mais do que um cavalo tem com respeito a outro, ou um cão a outro, ou uma abelha a outra abelha.

As coisas, de fato, são formidáveis para todo homem; e quando um homem é capaz de conferir essas coisas a outro ou de tirá-las, então ele também se torna formidável.

Como então é demolida uma acrópole (uma fortaleza ou cidadela, sede da tirania)? Não pela espada, não pelo fogo, mas pela opinião.

Pois se abolimos a acrópole que está na cidade, podemos abolir também a da febre, e a das belas mulheres? Podemos, em uma palavra, abolir a acrópole que está em nós e expulsar os tiranos que estão dentro de nós, os quais temos diariamente sobre nós, às vezes os mesmos tiranos, em outras ocasiões tiranos diferentes? Mas com isso devemos começar, e com isso devemos demolir a acrópole e expulsar os tiranos, abandonando o corpo, as partes dele, as faculdades dele, as posses, a reputação, os cargos magistrais, as honras, os filhos, os irmãos, os amigos, considerando todas essas coisas como pertencentes a outros.

E se os tiranos foram expulsos de nós, por que ainda me fecho na acrópole com um muro de circunvalação, pelo menos por minha conta; pois se ainda permanece, o que isso me faz? Por que ainda expulso os guardas (do tirano)? Pois onde os percebo? Contra outros eles têm seus feixes, e suas lanças e suas espadas.

Mas nunca fui impedido em minha vontade, nem compelido quando não quis.

E como é isso possível? Coloquei meus movimentos para a ação (hormê) em obediência a Deus. [Nota: Veja a nota de Schweig. Schweig. sugere KaTafieKpLKavev em vez de 6.iroPefi-f)KaiJLev, embora todos os seus MSS. tenham a palavra no texto. Não acho que sua alteração proposta seja uma melhoria. - A palavra é awoTeLxiC, que significa o que traduzi. O propósito da circunvalação era tomar e às vezes também destruir uma fortaleza. Schweig. traduz a palavra por 'destniara', e isso talvez não seja contrário ao significado do texto; mas não é o significado exato da palavra. y. EPICIETUS.]

É sua vontade que eu tenha febre? É minha vontade também.

É sua vontade que eu me mova em direção a alguma coisa? É minha vontade também.

É sua vontade que eu obtenha alguma coisa? É meu desejo também. Ele não quer? Eu não desejo.

É sua vontade que eu morra, é sua vontade que eu seja posto no potro? Então é minha vontade morrer: então é minha vontade ser posto no potro.

Quem então ainda é capaz de me impedir contra meu próprio julgamento, ou de me compelir? Não mais do que ele pode impedir ou compelir Zeus.

Assim também agem os viajantes mais cautelosos.

Um viajante ouviu que a estrada está infestada de ladrões; ele não se aventura a entrar nela sozinho, mas espera pela companhia na estrada de um embaixador, ou de um questor, ou de um procônsul, e quando se ligou a tais pessoas, segue pela estrada em segurança.

Assim no mundo o sábio age.

Há muitas companhias de ladrões, tiranos, tempestades, dificuldades, perdas do que é mais caro.

Onde há algum lugar de refúgio? Como passará sem ser atacado por ladrões? Que companhia esperará para passar em segurança? A quem se ligará? A que pessoa em geral? Ao homem rico, ao homem de posição consular? E que utilidade isso tem para mim? Tal homem é despojado ele mesmo, geme e lamenta.

Mas e se o próprio companheiro de viagem se voltar contra mim e se tornar meu ladrão, o que farei? Serei amigo de César: quando eu for companheiro de César, nenhum homem me fará mal. Em primeiro lugar, para que eu me torne ilustre, que coisas devo suportar e sofrer? Quantas vezes e por quantos deverei ser roubado? Então, se eu me tornar amigo de César, ele também é mortal. E se César, por alguma circunstância, se tornar meu inimigo, para onde é melhor eu me retirar? Para um deserto? Bem, a febre não chega lá? O que se deve fazer então? Não é possível encontrar um companheiro de viagem seguro, um fiel, forte, seguro contra todas as surpresas? Assim ele considera e percebe que, se se apegar a Deus, fará sua jornada em segurança.

Como entendes "apegar-te a Deus"? Neste sentido: que tudo o que Deus quiser, o homem também queira; e o que Deus não quiser, o homem também não queira.

Como então isso se fará? De que outra maneira senão examinando os movimentos (ὁρμάς, os atos) de Deus e a sua administração? O que ele me deu como meu e em meu próprio poder? O que ele reservou para si? Ele me deu as coisas que estão no poder da vontade (τὰ προαιρετικά): ele as colocou em meu poder, livres de impedimento e obstáculo. Como foi ele capaz de tornar o corpo terreno livre de impedimento? [Não pôde], e, portanto, submeteu à revolução do todo (τῇ τῶν ὅλων περιόδῳ) posses, coisas domésticas, casa, filhos, esposa.

Por que então luto contra Deus? Por que quero o que não depende da vontade? Por que quero ter absolutamente o que não me é concedido? Mas como devo querer ter as coisas? Da maneira como são dadas e enquanto são dadas.

Mas aquele que deu, tira. — Por que então resisto? Não digo que serei tolo se usar força contra alguém mais forte, mas serei primeiro injusto.

Pois de onde tive as coisas quando vim ao mundo? —

" 'Schweig.

expressa sua surpresa por Epicteto ter aplicado esta palavra (ὁρμὴ) a Deus.

Ele diz que Wolf a traduziu como 'Dei appetitionem', e Upton como 'impetum'. Ele diz que a traduziu como 'consilium'.

Não é incomum que os homens falem de Deus nas mesmas palavras com que falam do homem.

■ Ver ii. 1. 18. Schweig.

esperava-se que Epicteto tivesse dito 'corpo e posses etc.' Suponho que Epicteto de fato disse 'corpo e posses etc.', e que seu discípulo ou algum copista dos manuscritos omitiu a palavra 'corpo'.

" O Senhor deu e o Senhor tirou. Jó 1:21. Mr. Carter.

EPICTETO.

Meu pai me deu estas coisas — E quem as deu a ele? E quem fez o sol? E quem fez os frutos da terra? E quem as estações? E quem fez a conexão dos homens uns com os outros e sua comunhão?

Então, depois de receber tudo de outro e até a ti mesmo, ficas irado e culpas o doador se ele te tira alguma coisa? Quem és tu, e com que propósito vieste ao mundo? Não foi ele (Deus) que te introduziu aqui, não foi ele que te mostrou a luz, não te deu ele companheiros de trabalho, e percepções e razão? E como quem te introduziu aqui? Não te introduziu como sujeito à morte, e como alguém que deve viver na terra com um pouco de carne, e observar a sua administração, e unir-te a ele no espetáculo e na festa por um curto tempo? Não irás então, enquanto te foi permitido, depois de ver o espetáculo e a solenidade, quando ele te conduzir para fora, partir com adoração a ele e gratidão pelo que ouviste e viste? — Não; mas eu ainda quero desfrutar da festa.

— Os iniciados também desejariam permanecer mais tempo na iniciação: e talvez também aqueles em Olímpia desejassem ver outros atletas; mas a solenidade terminou: vai-te embora como um homem grato e modesto; dá lugar a outros: outros também devem nascer, como tu nasceste, e, tendo nascido, devem ter um lugar, e casas e coisas necessárias.

E se os primeiros não se retirarem, o que resta? Por que sois insaciáveis? Por que não estais contentes? Por que contraís o mundo? — Sim, mas eu gostaria de ter meus filhinhos comigo e minha esposa — O quê, são teus? Não pertencem eles ao doador, e àquele que te fez? Então não cederás o que pertence a outros? Não darás lugar àquele que é superior? — Por que então ele me introduziu no mundo sob estas condições? — E se as condições não te convêm, parte. Ele não tem necessidade de um espectador que

Os iniciados (/xucrrai) são aqueles que foram introduzidos com cerimônias solenes em algum grande corpo religioso.

Estas cerimônias são descritas por Dion Prus.

Orat.

xii., citado por Upton.

"E é esta toda a consolação", dirá todo leitor sério, "que um dos melhores filósofos, em um de seus mais nobres discursos, pode dar ao homem bom sob severa aflição? 'Ou dize a ti mesmo que o sofrimento presente, vazio de esperança futura, não é um mal, ou renuncia à tua existência e mistura-te com os elementos do Universo'! Inexprimivelmente mais racional e mais digno da infinita bondade é o nosso bendito

EPICTETO.

3J

não está satisfeito.

Ele quer aqueles que se juntam à festa, aqueles que tomam parte no coro, para que antes aplaudam, admirem e celebrem com hinos a solenidade.

Mas aqueles que não podem suportar nenhum incômodo, e os covardes, ele não verá com relutância ausentes da grande assembleia (■TravyyvpL'i); pois eles, quando presentes, não se comportaram como deviam numa festa nem preencheram seu lugar adequadamente, mas lamentaram, acharam defeitos na divindade, na fortuna, em seus companheiros; não vendo tanto o que tinham, quanto seus próprios poderes, que receberam para propósitos contrários, os poderes da magnanimidade, de uma mente generosa, espírito viril, e o que agora estamos investigando, a liberdade. — Para que propósito então recebi estas coisas? — Para usá-las — Por quanto tempo? — Enquanto aquele que as emprestou escolher.

— E se forem necessárias para mim? — Não te apegues a elas e não serão necessárias: não digas a ti mesmo que são necessárias, e então não são necessárias.

Este estudo deves praticar de manhã à noite, começando com as menores coisas e aquelas mais sujeitas a dano, com um pote de barro, com uma taça.

Então proceda desta maneira a uma túnica, a um cãozinho, a um cavalo, a uma pequena propriedade de terra: depois a você mesmo, ao seu corpo, às partes do seu corpo, aos seus filhos, à sua esposa, aos seus irmãos.

Olhe ao redor e lance de si essas coisas (que não são suas).

Purifique suas opiniões, de modo que nada se apegue a você das coisas que não são suas, que nada cresça em você, que nada lhe cause dor quando for arrancado de você, e diga, enquanto

Exortação do Mestre ao cristão perseguido: 'Alegrai-vos e exultai, pois grande é a vossa recompensa nos céus.'" Sra.

Carter.

Não creio que a Sra.

Carter tenha representado corretamente o ensinamento de Epicteto.

Ele se dirige a homens que não eram cristãos, mas que, como ele supõe, acreditavam em Deus ou nos deuses, e seu argumento é que o homem deve se contentar com as coisas como são, porque elas vêm de Deus.

Se ele não pode se contentar com as coisas como são e tirar o melhor delas, o filósofo nada mais pode dizer ao homem.

Ele lhe diz para partir.

O que mais poderia dizer a um resmungão, que também é crente em Deus? Se ele não é crente, Epicteto poderia dizer o mesmo a ele também.

O caso está além de ajuda ou conselho.

A doutrina cristã, da qual provavelmente Epicteto nada sabia, é muito diferente.

Ela promete felicidade futura sob certas condições aos cristãos, mas somente aos cristãos, se a compreendo corretamente.

Veja a nota de Schweig.

sobre esta passagem.

EPICTETO.

enquanto você se exercita diariamente como faz ali (na escola), não que esteja filosofando, pois esta é uma expressão arrogante (ofensiva), mas que está apresentando um defensor da liberdade, pois isto é realmente liberdade.

Para esta liberdade Diógenes foi chamado por Antístenes, e ele disse que não poderia mais ser escravizado por homem algum.

Por essa razão, quando foi feito prisioneiro, como se comportou com os piratas? Chamou algum deles de senhor? E não falo do nome, pois não temo a palavra, mas do estado de espírito pelo qual a palavra é produzida.

Como os repreendeu por alimentarem mal seus cativos? Como foi vendido? Procurou um senhor? Não; mas um escravo.

E quando foi vendido, como se comportou com seu senhor? Imediatamente disputou com ele e disse ao seu senhor que não devia ser vestido como estava, nem barbeado de tal maneira; e sobre as crianças, disse-lhes como ele deveria criá-las. E o que havia de estranho nisso? Pois se seu senhor tivesse comprado um mestre de exercícios, tê-lo-ia empregado nos exercícios da palestra como servo ou como mestre? E assim, se tivesse comprado um médico ou um arquiteto.

E assim, em toda matéria, é absolutamente necessário que aquele que tem habilidade seja superior àquele que não a tem.

Quem então, de modo geral, possui a ciência da vida, o que mais deve ser senão mestre? Pois quem é mestre em um navio? O homem que governa o leme? Por quê? Porque aquele que não lhe obedecer sofre por isso. Mas um mestre pode me dar açoites.

Pode ele fazê-lo então sem sofrer por isso? Assim também eu costumava pensar.

Mas porque ele não pode fazê-lo sem sofrer por isso, por essa razão não está em seu poder: e nenhum homem pode fazer o que é injusto sem sofrer por isso. E qual é a pena para aquele que acorrenta seu próprio escravo? O que pensas que é? O próprio fato de acorrentar o escravo: — e tu também admitirás isto,

¹ A palavra é Καπηρίττην διδούς. Ver iii.

24. 76 e a nota 15: também a nota de Upton sobre esta passagem.

Schweig.

diz que não compreende bem por que Epicteto aqui diz διδόναι καπηρίστην, 'dar um vingador' ou 'defensor', em vez de dizer 'vindicar-se em liberdade'.

² Ver iii.

24. 66, ii. 13. 24.

³ Ver a mesma história em Aulo Gélio (ii. c. 18), que diz que Xeniades, um coríntio, comprou Diógenes, libertou-o e o fez mestre de seus filhos.

⁴ Ver a nota 15 de Schweig.

EPICTETO.

se escolheres manter a verdade, que o homem não é um animal selvagem, mas um animal domesticável.

Pois quando uma videira está indo mal? Quando está em condição contrária à sua natureza.

Quando um galo? Exatamente o mesmo.

Portanto, um homem também o é. Qual é então a natureza do homem? Morder, chutar, lançar na prisão e decapitar? Não; mas fazer o bem, cooperar com os outros, desejar-lhes o bem.

Naquele tempo então ele está em má condição, quer escolhas admitir ou não, quando age de forma insensata.

Sócrates então não passou mal? — Não; mas seus juízes e seus acusadores passaram.

— Nem Helvídio em Roma passou mal? — Não; mas seu assassino passou.

Como assim? — O mesmo que você diz quando afirma que um galo não se saiu mal quando, tendo obtido a vitória, foi gravemente ferido; mas que o galo se saiu mal quando foi derrotado e está ileso; nem chama de afortunado um cão que não persegue a caça nem se esforça, mas quando o vês suando, quando o vês em dor e ofegando violentamente após a corrida.

Que paradoxo (coisa incomum) proferimos se dizemos que o mal em cada coisa é aquilo que é contrário à natureza da coisa? Isso é um paradoxo? Pois não dizes isso no caso de todas as outras coisas? Por que então, no caso do homem apenas, pensas de modo diferente? Mas porque dizemos que a natureza do homem é mansa (gentil) e social e fiel, não dirás que isso é um paradoxo? Não é — O que então é um paradoxo dizer que um homem não é ferido quando é açoitado, ou posto em correntes, ou decapitado? Não é verdade que, se ele sofre nobremente, ele sai até com vantagem e proveito aumentados? Mas não é ferido aquele que sofre de maneira mais lastimável e vergonhosa, aquele que, em vez de homem, torna-se um lobo, ou víbora, ou vespa?

Pois bem, recapitulamos as coisas que foram acordadas. O homem que não está sob restrição é livre, para quem as coisas estão exatamente no estado em que ele deseja que estejam; mas aquele que pode ser restringido ou compelido ou impedido, ou lançado em quaisquer circunstâncias contra sua vontade, é um escravo.

Mas quem está livre de restrição? Aquele que não deseja nada que pertença a (esteja no poder de) outros.

E quais são as coisas que pertencem a outros? Aquelas que não estão em nosso poder ter ou não ter, ou ter de certa qualidade ou de certa maneira. Portanto, o corpo pertence a outro, as partes do corpo pertencem a outro, a posse (propriedade) pertence a outro.

Se então te afeiçoas a alguma dessas coisas como tua, pagarás a pena que é própria para aquele que deseja o que pertence a outro.

Este caminho conduz à liberdade, este é o único modo de escapar da escravidão: poder dizer por fim com toda a tua alma:

Conduze-me, ó Zeus, e tu, ó Destino,

Pelo caminho que por vós me é ordenado seguir.

Mas o que você diz, filósofo? O tirano convoca-te a dizer algo que não te convém.

Dirás ou não dirás? Responde-me — Deixa-me considerar — Considerarás agora? Mas quando estavas na escola, o que era aquilo que costumavas considerar? Não estudaste o que são as coisas boas e o que são as más, e o que não é nem uma nem outra coisa? — Estudei.

— Qual era então a nossa opinião? — Que os atos justos e honrosos eram bons; e que os atos injustos e vergonhosos (torpes) eram maus.

— A vida é uma coisa boa? — Não. — A morte é uma coisa má? — Não. — A prisão? — Não. — Mas o que pensávamos sobre palavras mesquinhas e infiéis, e a traição de um amigo, e a adulação de um tirano? — Que são más.

— Pois bem, tu não estás considerando, nem consideraste, nem deliberaste.

Pois qual é a matéria para consideração? É se me convém, quando tenho em meu poder assegurar para mim os maiores bens, e não assegurar para mim (isto é, não evitar) os maiores males? Uma bela investigação, na verdade, e necessária, e que exige muita deliberação.

Homem, por que zombas de nós? Tal investigação nunca é feita.

Se realmente

 Como observa Upton, Epicteto está se referindo às quatro categorias dos estoicos.

 Epicteto, Encheiridion, c. 52. M. Antonino, Gatak.

2ª ed. 1697, Anot.

p. 96.

EPICTETO.

imaginasses que as coisas vis eram más e as coisas honrosas eram boas, e que todas as outras coisas não eram nem boas nem más, tu não terias sequer te aproximado dessa investigação, nem terias chegado perto dela; mas imediatamente serias capaz de distingui-las pelo entendimento, como farias (em outros casos) pela visão.

Pois quando perguntas se as coisas pretas são brancas, se as coisas pesadas são leves, e não compreendes a evidência manifesta dos sentidos? Como então agora dizes que estás considerando se as coisas que não são nem boas nem más devem ser evitadas mais do que as coisas que são más? Mas tu não possuis essas opiniões; e nem essas coisas te parecem ser nem boas nem más, mas pensas que são os maiores males; nem consideras aquelas outras coisas (palavras mesquinhas e infiéis, etc.) como males, mas assuntos que não nos concernem de forma alguma.

Pois assim desde o início te acostumaste.

Onde estou? Nas escolas: e há alguém me ouvindo? Estou discursando entre filósofos.

Mas eu saí da escola.

Fora com essa conversa de eruditos e tolos. Assim, um amigo é dominado pelo testemunho de um filósofo: assim, um filósofo torna-se um parasita; assim, ele se aluga por dinheiro: assim, no senado, um homem não diz o que pensa; em privado (na escola), ele proclama suas opiniões. Você é uma opinião fria e miserável, suspensa de palavras ociosas como de um fio. Mas mantenha-se forte e apto para os usos da vida e iniciado pelo exercício na ação.

Como você ouve (o relato)? — Eu não digo que seu filho está morto — pois como você poderia suportar isso? — mas que seu azeite foi derramado, seu vinho foi bebido. Você age de tal maneira que, alguém de pé ao seu lado enquanto você faz um grande barulho, possa dizer apenas isto: Philo-Stoicus occidit Bareum, delator amicum, Dibcipulumque oenex. Juvenal, iii. 116.

Epicteto supostamente alude ao crime de Egnatius Celer, que acusou Barea Soraima em Kuinc no reinado de Nero (Tácito, Anais, xvi, 32).

A Sra. Carter diz que 'há muita obscuridade e alguma variedade de leitura em várias linhas do original.' Mas veja as notas de Schweighäuser.

Epicteto está mostrando que falar sobre filosofia é inútil: a filosofia deve ser prática.

Epicteto. Bopher, você diz algo diferente na escola. Por que nos engana? Por que, quando você é apenas um verme, diz que é um homem? Eu gostaria de estar presente quando algum dos filósofos estiver deitado com uma mulher, para ver como ele se esforça, e que palavras profere, e se ele se lembra de seu título de filósofo, e das palavras que ouve, diz ou lê. E o que isso tem a ver com a liberdade? Nada mais do que isto: se você, que é rico, escolhe ou não. — E quem é sua evidência para isso? — Quem mais senão vocês mesmos? Que têm um mestre poderoso (César), e que vivem em obediência ao seu aceno e movimento, e que desmaiam se ele apenas olhar para vocês com um semblante carrancudo; vocês que cortejam velhas e velhos, e dizem: não posso fazer isso: não está em meu poder. Por que não está em seu poder? Você não contendia comigo recentemente e dizia que era livre? Mas Aprulla me impediu? Diga a verdade então, escravo, e não fuja de seus mestres, nem negue, nem se atreva a produzir alguém para afirmar sua liberdade (KapinaT-v), quando você tem tantas evidências de sua escravidão.

E, de fato, quando um homem é compelido pelo amor a fazer algo contrário à sua opinião (juízo), e ao mesmo tempo vê o melhor, mas não tem força para segui-lo, poder-se-ia considerá-lo ainda mais digno de desculpa, como sendo retido por um certo poder violento e, de certo modo, divino." Mas quem poderia suportar a vós que estais

Horácio, Sát.

ii. 5.

Aprulla é um nome de mulher romana.

Significa alguma velha que é cortejada por seu dinheiro.

" Compare Platão (O Banquete, p. 206): 'Todos os homens concebem tanto quanto ao corpo como quanto à alma, e quando chegaram a uma certa idade, a nossa natureza deseja procriar.

Mas não pode procriar no que é feio, mas no que é belo.

Pois a conjunção do homem e da mulher é geração; mas este ato é divino, e isto no animal que é mortal é divino, concebendo e gerando.' Veja o que é dito em ii. 23, nota 10 sobre o casamento.

Em certo sentido, a procriação de filhos é um dever e, consequentemente, o provimento para eles também é um dever.

É o cumprimento da vontade e do propósito da Divindade povoar a terra; e portanto o ato de procriação é divino.

Assim, o dever de um homem é laborar de alguma forma e, se necessário, ganhar a vida e sustentar a vida que recebeu; e isto também é um ato divino.

A opinião de Paulo sobre o casamento está contida em Cr. i. 7. Alguns de seus ensinamentos sobre esta matéria foram justamente condenados.

Ele não tem concepção da verdadeira natureza do casamento; ao menos não mostra que a tenha.

EPICTETO.

apaixonado por velhas e velhos, e limpar o nariz das velhas, e lavá-las e dar-lhes presentes, e também servi-las como um escravo quando estão doentes, e ao mesmo tempo desejar que morram, e questionar os médicos se estão doentes até a morte? E novamente, quando para obter essas grandes e muito admiradas magistraturas e honras, beijais as mãos desses escravos de outros, e assim não sois escravo nem mesmo de homens livres.

Então caminhais diante de mim com ar solene, um pretor ou um cônsul.

Não sei eu como vos tornastes pretor, por que meios conseguistes vosso consulado, quem vo-lo deu? Eu nem escolheria viver, se tivesse de viver com a ajuda de Felicion e suportar sua arrogância e insolência servil: pois sei o que é um escravo, que é afortunado, como pensa, e inchado de orgulho.

Então, alguém pode dizer: és livre? Desejo, pelos Deuses, e rogo para ser livre; mas ainda não sou capaz de enfrentar meus senhores, ainda valorizo meu pobre corpo, valorizo muito a sua preservação íntegra, embora não o possua íntegro. Mas posso apontar-te um homem livre, para que não procures mais um exemplo.

Diógenes era livre.

Como era ele livre? — não porque nascera de pais livres, mas porque ele próprio era livre, porque havia lançado fora todas as alças da escravidão, e não era possível a nenhum homem aproximar-se dele, nem tinha qualquer homem os meios de agarrá-lo para escravizá-lo.

Ele tinha tudo facilmente solto, tudo apenas pendurado nele.

Se lhe agarrasses a propriedade, ele a teria antes deixado ir e ser tua, do que te teria seguido por ela; se lhe agarrasses a perna, ele teria soltado a perna; se a todo o corpo, todo o seu pobre corpo; os seus íntimos, amigos, pátria, exatamente o mesmo.

Pois ele sabia

este capítulo.

O seu ensino é impraticável, contrário ao de Epicteto, e à natureza e constituição do homem; e é rejeitado pelo bom senso dos cristãos que afetam receber o seu ensino; exceto, suponho, pelo corpo supersticioso de cristãos, que recomendam e louvam a chamada vida religiosa e celibatária.

Felicion.

Ver i. 19, p. 62.

' Epicteto alude à sua claudicação: comparar i. 8. 14, i. 16. 20, e outras passagens.

Upton.

' Schweig.

duvida se as palavras ov yap -u, que omiti, são genuínas, e dá as suas razões para a dúvida.

EPICTETO.

de onde ele as tinha, e de quem, e sob que condições.

Seus verdadeiros pais, na verdade, os Deuses, e a sua real pátria, ele nunca teria desertado, nem teria cedido a qualquer homem na obediência a eles e às suas ordens, nem qualquer homem teria morrido pela sua pátria mais prontamente.

Pois ele não estava acostumado a indagar quando deveria ser considerado como tendo feito algo em favor do todo das coisas (o universo, ou todo o mundo), mas lembrava-se de que tudo o que é feito provém de lá e é feito em favor daquela pátria e é ordenado por aquele que a administra. Portanto, vede o que o próprio Diógenes diz e escreve: — "Por esta razão, diz ele, Diógenes, está em teu poder falar tanto com o Rei dos Persas quanto com Arquidamo, rei dos Lacedemônios, como te aprouver." Foi porque ele nascera de pais livres? Suponho que todos os atenienses e todos os lacedemônios, por terem nascido de escravos, não podiam falar com eles (esses reis) como desejavam, mas temiam-nos e lhes prestavam vassalagem.

Por que então ele diz que está em seu poder? Porque não considero o pobre corpo como meu, porque nada quero, porque a lei é tudo para mim, e nada mais o é. Essas eram as coisas que lhe permitiam ser livre.

E para que não penseis que vos apresento o exemplo de um homem solitário, que não tem nem esposa nem filhos, nem pátria, nem amigos nem parentes, pelos quais pudesse ser curvado e arrastado em várias direções, tomai Sócrates e observai que ele tinha esposa e filhos, mas não os considerava como seus; que tinha uma pátria, enquanto era conveniente tê-la, e de tal maneira que era conveniente; amigos e parentes também, mas mantinha todos em sujeição à lei e à obediência devida a ela. Por essa razão, ele foi o primeiro a sair como soldado, quando era necessário, e na guerra expôs-se ao perigo

Schweig.

tem uma nota sobre esta passagem difícil, que é bastante obscura.

"O sentido de 'lei' (b vóixos) pode ser coligido do que se segue.

Compare o discurso de Sócrates sobre a obediência à lei.

(Críton, cap. 11, &c.)

Vede a nota de Schweig. sobre hntepiarirov.

EPICTETO.

da maneira mais impiedosa; e quando foi enviado pelos tiranos para capturar Leão, ele nem sequer deliberou sobre o assunto, porque pensou que era uma ação vil, e sabia que deveria morrer (por sua recusa), se assim acontecesse. E que diferença isso fazia para ele? Pois ele pretendia preservar outra coisa, não sua pobre carne, mas sua fidelidade, seu caráter honrado.

Essas são coisas que não podiam ser atacadas nem subjugadas.

Então, quando foi obrigado a falar em defesa de sua vida, comportou-se como um homem que tivesse filhos, que tivesse esposa? Não, mas comportou-se como um homem que não tem nem uma coisa nem outra.

E o que fez quando lhe foi ordenado beber o veneno, e quando teve o poder de escapar da prisão, e quando Críton lhe disse: "Foge por causa de teus filhos", o que disse Sócrates? Considerou o poder de escapar como um ganho inesperado? De modo algum: considerou o que era conveniente e próprio; mas o resto nem sequer olhou ou levou em conta.

Pois não escolheu, disse ele, salvar seu pobre corpo, mas salvar aquilo que é aumentado e salvo pela prática do que é justo, e é prejudicado e destruído pela prática do que é injusto.

Sócrates não salvará sua vida por um ato vil; ele que não quis submeter à votação dos atenienses quando estes clamavam que o fizesse, ele que recusou obedecer aos tiranos, ele que discursou de tal maneira sobre a virtude e o comportamento correto. Não é possível salvar a vida de tal homem por atos vis, mas ele é salvo morrendo, não fugindo.

¹ Sócrates lutou em Potideia, Anfípolis e Délio. Diz-se que obteve o prêmio de coragem em Délio. Foi um bravo soldado além de filósofo, uma união de qualidades não comum. (Apologia de Platão.)

² Sócrates, com outros, foi ordenado pelos Trinta Tiranos, que naquele tempo governavam Atenas, a prender Leão na ilha de Salamina e trazê-lo para ser executado. Mas Sócrates recusou obedecer à ordem. Poucos homens teriam feito o que ele fez sob tais circunstâncias. (Apologia de Platão; M. Antonino, vii. 66.) Cícero, Tuscul. Disp. i. 29.

³ O Diálogo de Platão, chamado Críton, contém os argumentos usados por seus amigos para persuadir Sócrates a escapar da prisão, e a resposta de Sócrates.

⁴ Isto alude ao comportamento de Sócrates quando recusou submeter à votação a questão dos generais atenienses e seu comportamento após a batalha naval de Arginusas. A violência do tempo impediu os comandantes de recolher e honradamente sepultar aqueles que caíram na batalha; e os atenienses, segundo seu costume apressado, quiseram que todos os comandantes fossem condenados à morte. Mas Sócrates, que estava em cargo público nessa época, resistiu ao clamor injusto do povo. Xenofonte, Helênicas, 1. c. 7, 15; Platão, Apologia; Xenofonte, Memoráveis, i. 1, 18. EPICTETO.

Pois também o bom ator preserva seu personagem ao parar quando deve parar, melhor do que quando continua atuando além do tempo apropriado.

O que então farão os filhos de Sócrates? "Se", disse Sócrates, "eu tivesse ido para a Tessália, teríeis cuidado deles; e se eu partir para o mundo inferior, não haverá homem algum para cuidar deles?" Vede como ele dá à morte um nome suave e zomba dela. Mas se eu e vós estivéssemos em seu lugar, teríamos imediatamente respondido como filósofos que aqueles que agem injustamente devem ser pagos na mesma moeda, e teríamos acrescentado: "Serei útil a muitos, se minha vida for poupada, e se eu morrer, não serei útil a ninguém". Pois, se tivesse sido necessário, teríamos escapado esgueirando-nos por um pequeno buraco.

E como, nesse caso, teríamos sido úteis a alguém? Pois onde teriam eles então permanecido? Ou, se fôssemos úteis aos homens enquanto vivos, não teríamos sido muito mais úteis a eles morrendo quando deveríamos morrer, e como deveríamos? E agora Sócrates, morto, não menos útil aos homens, e até mais útil, é a lembrança daquilo que ele fez ou disse enquanto vivo.

O original é ἢ ποῦ γὰρ ἂν ἦμεν ἐκεῖνοι; isto parece significar: se tivéssemos escapado e deixado o país, onde teriam estado aqueles a quem poderíamos ter sido úteis? Eles teriam ficado para trás, e nada poderíamos ter feito por eles.

Esta é a conclusão sobre Sócrates, a quem Epicteto muito estimava: a lembrança do que Sócrates fez e disse é ainda mais útil do que sua vida.

"A vida dos mortos", diz Cícero a respeito de Sérvio Sulpício, o grande jurista romano e amigo de Cícero, "repousa na lembrança dos vivos." Epicteto nos contou alguns dos atos de Sócrates, que o provam ter sido um homem corajoso e honesto. Ele não nos diz aqui o que Sócrates disse, o que significa o que ele ensinou; mas ele sabia o que era.

Escritores modernos expuseram o assunto longamente, e de uma forma que Epicteto não teria ou não poderia ter usado.

— Sócrates deixou aos outros as questões relativas ao mundo material, e ele primeiro ensinou, como nos é dito, as coisas que concernem à vida cotidiana do homem e ao seu convívio com outros homens: em outras palavras, ele ensinou a Ética (os princípios da moralidade). Campos e árvores, disse ele, nada me ensinarão, mas o homem em seu estado social ensinará; e o homem é então o assunto próprio da filosofia de Sócrates.

O começo deste conhecimento era, como ele disse, conhecer a si mesmo, segundo

EPICTETO.

Pensa nestas coisas, nestas opiniões, nestas palavras: olha para estes exemplos, se queres ser livre, se desejas a coisa segundo o seu valor.

E que admiração há se compras tão grande coisa pelo preço de coisas tão numerosas e tão grandes? Por causa daquilo que se chama liberdade, alguns se enforcam, outros se lançam de precipícios, e às vezes até cidades inteiras pereceram: e não devolverás a Deus, quando ele os exige, os bens que ele te deu, pela causa da verdadeira e inabalável e segura liberdade? Não estudarás, como diz Platão, não apenas a morrer, mas também a suportar tortura, e exílio, e açoite, e, numa palavra, a renunciar a tudo o que não é teu? Se não quiseres, serás

ao preceito do oráculo de Delfos.

Conhece-te a ti mesmo (γνῶθι σεαυτόν): e o objeto de sua filosofia era compreender a natureza do homem como ser moral em todas as relações; e entre estas, a relação do homem com Deus como pai de todos, criador e governante de todos, como Platão o expressa. Sócrates ensinou que o que chamamos morte não é o fim do homem; a morte é apenas o caminho para outra vida.

A morte de Sócrates foi conforme à sua vida e ao seu ensinamento.

"Sócrates morreu não apenas com a mais nobre coragem e tranquilidade, mas também recusou, como nos é dito, escapar da morte, que as leis do estado permitiam, indo para o exílio ou pagando uma multa, porque, como ele disse, se ele próprio tivesse consentido numa multa ou permitido que outros a propusessem (Xenofonte, Apol. 22), tal ato teria sido uma admissão de sua culpa.

Ambos (Sócrates e Jesus) se ofereceram com a mais firme resolução por uma causa santa, que estava tão longe de se perder através de sua morte que apenas serviu antes para torná-la a causa geral da humanidade." (Das Christliche des Platonismus oder Socrates und Christus, de F. C. Baur.)

Este ensaio de Baur é muito engenhoso.

Talvez haja alguns leitores que discordem dele em muitos pontos na comparação de Sócrates e Cristo.

Contudo, o ensaio vale bem a pena o trabalho de ler.

A opinião de Rousseau em sua comparação de Jesus e Sócrates é, em alguns aspectos, mais justa do que a de Baur, embora o saber do francês seja muito pequeno quando comparado com o do alemão.

"Que preconceitos, que cegueira deve ter um homem," diz Rousseau, "quando ousa comparar o filho de Sófronisco com o filho de Laví! — A morte de Sócrates, filosofando tranquilamente com seus amigos, é a mais suave que um homem poderia desejar; a de Jesus, expirando em tormentos, insultado, zombado, amaldiçoado por todo um povo, é a mais horrível que um homem poderia temer.

Sócrates, tomando a taça envenenada, abençoa aquele que lha apresenta e chora; Jesus, em seu horrível suplício, ora por seus selvagens carrascos.

Sim, se a vida e a morte de Sócrates são as de um sábio, a vida e a morte de Jesus são as de um Deus." (Rousseau, Emílio, vol.

iii.

p. 166. Amsterdã, 1765.)

EPICTETO.

Escravo entre escravos, ainda que sejas dez mil vezes cônsul; e se abrires caminho até o Palácio (a residência de César), não deixarás de ser escravo; e sentirás que talvez os filósofos proferem palavras contrárias à opinião comum (paradoxos), como também disse Cleanto, mas não palavras contrárias à razão.

Pois saberás por experiência que as palavras são verdadeiras, e que não há proveito nas coisas que são valorizadas e ansiosamente buscadas para aqueles que as obtiveram; e para aqueles que ainda não as obtiveram, há uma imaginação (phantasia), de que quando essas coisas chegarem, todo o bem virá com elas; então, quando chegam, a sensação febril é a mesma, o agitar de um lado para o outro é o mesmo, a saciedade, o desejo das coisas que não estão presentes; pois a liberdade não é adquirida pela posse plena das coisas desejadas, mas pela remoção do desejo.

E para que saibas que isto é verdade, assim como trabalhaste por aquelas coisas, transfere teu labor para estas; sê vigilante com o propósito de adquirir uma opinião que te tornará livre; corteja um filósofo em vez de um velho rico: sê visto às portas de um filósofo: não te desonrarás por seres visto; não sairás vazio nem sem proveito, se fores ao filósofo como deves, e se não (se não tiveres sucesso), tenta ao menos: a tentativa (a tentação) não é desonrosa.

CAPÍTULO II.

SOBRE A INTIMIDADE FAMILIAR.

A isto antes de tudo deves atender, que nunca estejas tão estreitamente ligado a qualquer de teus antigos íntimos ou amigos que venhas a descer aos mesmos atos que ele. Se não observares esta regra, arruinar-te-ás.

Mas se o pensamento surgir em tua mente: "Parecerei desobrigado para com ele, e ele não terá os mesmos sentimentos para comigo", lembra-te de que nada se faz sem-

Ele quer dizer que não deves fazer como ele faz, simplesmente porque ele pratica este ou aquele ato.

O conselho é, em substância: Não faças como teu amigo faz, simplesmente porque ele é teu amigo.

EPICTETO.

8

custo, nem é possível a um homem, se não fizer as mesmas coisas, ser o mesmo homem que era.

Escolhe, então, qual das duas coisas queres: ser igualmente amado por aqueles por quem eras antes amado, sendo o mesmo que eras antes; ou, sendo superior, não obter de teus amigos o mesmo que obtinhas antes.

Pois, se isto é melhor, volta-te imediatamente para isso, e não deixes que outras considerações te arrastem em direção diferente.

Pois nenhum homem é capaz de progredir (melhorar) quando vacila entre coisas opostas; mas, se preferiste isto (uma coisa) a todas as outras, se escolheres atender somente a isto, trabalhar somente nisto, abandona todo o resto.

Mas, se não fizeres isto, tua vacilação produzirá ambos estes resultados: não melhorarás como deves, nem obterás o que antes obtinhas.

Pois antes, por desejares claramente as coisas que nada valiam, agradavas aos teus companheiros.

Mas não podes sobressair em ambas as espécies, e é necessário que, na medida em que participas de uma, fiques aquém na outra.

Não podes, quando não bebes com aqueles com quem costumavas beber, ser-lhes agradável como eras antes.

Escolhe, então, se queres ser um beberrão e agradável aos teus antigos companheiros, ou um homem sóbrio e desagradável para eles.

Não podes, quando não cantas com aqueles com quem costumavas cantar, ser igualmente amado por eles.

Escolhe, então, também neste assunto, qual das duas coisas queres.

Pois, se é melhor ser modesto e ordenado do que um homem dizer: "Ele é um sujeito alegre", abandona o resto, renuncia a isso, afasta-te disso, não tenhas nada a ver com tais homens.

Mas, se este comportamento não te agradar, volta-te inteiramente para o oposto: torna-te um catamita, um adúltero, e age de acordo, e obterás o que desejas.

E salta no teatro e grita em louvor do dançarino.

Mas personagens tão diferentes não podem ser misturados: não se pode representar ao mesmo tempo Tersites e Agamemnon. Se você pretende ser Tersites, deve ser corcunda e calvo; se Agamemnon, deve ser alto e belo, e amar aqueles que estão colocados em obediência a você.

» Ver Ilíada, ii. 216; e para a descrição de Agamemnon, Ilíada, iii.

167.

Y

EPICTETO: s.

CAPÍTULO III.

QUE COISAS DEVEMOS TROCAR POR OUTRAS COISAS.

Mantenha este pensamento em prontidão, quando você perder qualquer coisa externa, o que você adquire em lugar dela; e se valer mais, nunca diga: tive uma perda; nem se você obteve um cavalo em lugar de um asno, ou um boi em lugar de uma ovelha, nem uma boa ação em lugar de um pouco de dinheiro, nem em lugar de conversa ociosa tal tranquilidade como convém a um homem, nem em lugar de conversa licenciosa se você adquiriu modéstia.

Se você se lembrar disso, sempre manterá seu caráter tal como deve ser. Mas se não o fizer, considere que os tempos de oportunidade estão perecendo, e que quaisquer esforços que você faça sobre si mesmo, você vai desperdiçá-los todos e derrubá-los.

E são necessárias apenas poucas coisas para a perda e a derrubada de tudo, a saber, um pequeno desvio da razão.

Pois para o timoneiro de um navio virá-lo, ele não tem necessidade dos mesmos meios que tem necessidade para salvá-lo: mas se ele o virar um pouco contra o vento, está perdido; e se não o fizer de propósito, mas tiver negligenciado um pouco o seu dever, o navio está perdido.

Algo do tipo acontece também neste caso: se você apenas cair em um pequeno descuido, tudo o que você até este tempo coletou está perdido.

Atenda, portanto, às aparências das coisas, e vigie sobre elas; pois aquilo que você tem de preservar não é pequena matéria, mas é modéstia e fidelidade e constância, liberdade das afecções, um estado de espírito imperturbado, liberdade do medo, tranquilidade, em uma palavra, liberdade.

Pois por que você venderia essas coisas? Veja qual é o valor das coisas que você obterá em troca destas.

— Mas não obterei eu tal coisa por isso? — Veja, e se você em retorno obtiver aquilo, veja o que você recebe em lugar disso. Eu possuo decência, ele possui um tribunato: ele possui uma pretoria, eu possuo modéstia.

Mas não faço aclamações onde não é conveniente: não me levantarei onde não devo;

' Ver nota de Schweig.

' O texto é obscuro, e talvez haja algo errado. Schweighaeuser tem uma longa nota sobre a passagem.

Ele alude às facções nos teatros, iii. 4, 4; iv. 2-9. Upton.

EPICTETO.

pois sou livre e amigo de Deus, e assim obedeço-lhe de bom grado.

Mas não devo reivindicar (buscar) nenhuma outra coisa, nem corpo, nem possessão, nem magistratura, nem boa reputação, nem, de fato, qualquer coisa.

Pois ele (Deus) não me permite reivindicá-las (buscá-las): pois se ele tivesse escolhido, tê-las-ia tornado boas para mim; mas não o fez, e por essa razão não posso transgredir seus mandamentos. Preserva aquilo que é o teu próprio bem em tudo; e quanto a qualquer outra coisa, como é permitido, e na medida em que te comportes de modo consistente com a razão em relação a elas, contenta-te somente com isso.

Se não o fizeres, serás infeliz, falharás em todas as coisas, serás obstruído, serás impedido.

Estas são as leis que foram enviadas de lá (de Deus); estas são as ordens.

Dessas leis um homem deve ser um expositor; a elas deve submeter-se, não às de Masúrio e Cássio.

CAPÍTULO IV.

AOS QUE DESEJAM PASSAR A VIDA NA TRANQUILIDADE.

Lembra-te de que não apenas o desejo de poder e de riquezas nos torna mesquinhos e sujeitos aos outros, mas até mesmo o desejo de tranquilidade, e de lazer, e de viajar para o estrangeiro, e de aprender.

Pois, para falar claramente, seja qual for a coisa externa, o valor que lhe atribuímos nos coloca em sujeição aos outros.

Qual é, então, a diferença entre desejar ser senador ou não desejar sê-lo; qual é a diferença entre desejar poder ou contentar-se com uma posição privada; qual é a diferença entre dizer: "Sou infeliz, não tenho nada a fazer, mas estou preso aos meus livros como um cadáver"; ou dizer: "Sou infeliz, não tenho lazer para ler"? Pois, assim como as saudações e o poder são coisas externas e independentes da vontade, assim também é um livro.

Ver i. 25, nota 1; iv. 7. 17.

"Masúrio Sabino foi um grande jurisconsulto romano nos tempos de Augusto e Tibério.

Às vezes é nomeado apenas Masúrio (Pérsio, v. 90). C. Cássio Longino foi também jurista e, diz-se, descendente do Cássio que foi um dos assassinos do ditador C. Júlio César.

Viveu desde o tempo de Tibério até o de Vespasiano.

' ἀκριταφφξοι.

Ver este capítulo mais adiante.

EPICTETO.

Para que propósito escolhes ler? Dize-me. Pois se diriges teu propósito apenas a ser entretido ou a aprender algo, és um tolo e incapaz de suportar o trabalho. Mas se referes a leitura ao fim adequado, que outra coisa é este senão uma vida tranquila e feliz (eudaimonia)? Mas se a leitura não te assegura uma vida feliz e tranquila, de que serve ela? Mas ela assegura isto, responde o homem, e por essa razão estou aflito por ser privado dela. — E o que é esta vida tranquila e feliz, que qualquer homem pode impedir, não digo César ou o amigo de César, mas um corvo, um flautista, uma febre, e trinta mil outras coisas? Mas uma vida tranquila e feliz não contém nada tão seguro quanto a continuidade e a liberdade de obstáculos.

Agora sou chamado a fazer algo: irei então com o propósito de observar as medidas (regras) que devo manter, de agir com modéstia, firmeza, sem desejo e aversão às coisas externas; e então para que eu atenda aos homens, o que dizem, como são movidos; e isto não com qualquer disposição ruim, ou para que eu tenha algo a censurar ou ridicularizar; mas volto-me a mim mesmo, e pergunto se também cometo as mesmas faltas.

Como então devo

Ver as observações do Bispo Butler no Prefácio aos seus Sermões, vol. ii. Ele fala do 'modo ocioso de ler e considerar as coisas: por este meio, o tempo mesmo na solidão é felizmente dissipado sem a dor da atenção: nem qualquer parte dele é mais atribuída à ociosidade, quase não se pode deixar de dizer, é gasta com menos pensamento do que grande parte daquela que é gasta na leitura.'

Mas aprender os verdadeiros números e modos da vida. Hor. Epp. ii. 2. 144. M. Antoninus, iii. 1.

'Os leitores talvez se cansem de ser tantas vezes informados do que acharão muito difícil de acreditar. Que porque as coisas externas não estão em nosso poder, elas nada são para nós. Mas em desculpa por esta repetição frequente, deve-se considerar que os estoicos se reduziram a uma necessidade de insistir nesta consequência, por mais extravagante que seja, ao rejeitar auxílios mais fortes.

Não se pode de fato evitar admirar profundamente os pouquíssimos que tentaram emendar e elevar a si mesmos sobre este fundamento.

Ninguém talvez jamais levou a tentativa tão longe na prática, e ninguém jamais falou tão bem em apoio ao argumento quanto Epicteto.

No entanto, apesar de suas grandes habilidades e da força de seu exemplo, encontra-se ele queixando-se fortemente da falta de sucesso; e vê-se, tanto por essa circunstância quanto por outras nos escritos estoicos.

Que a virtude não pode ser mantida no mundo sem a esperança de uma recompensa futura. Sra. Carter.

Compare Horácio, Sat. i. 4. 133: Neque enim cum lectulus etc.

EPICTETO.

deixar de cometê-las? Antigamente eu também agia mal, mas agora não mais: graças a Deus.

Vamos, quando você fez essas coisas e as atendeu, praticou uma ação pior do que quando leu mil versos ou escreveu outros tantos? Pois, quando comes, ficas aflito porque não estás lendo? Não te contentas em comer segundo o que aprendeste pela leitura, e assim também com o banho e com o exercício? Por que então não ages de modo consistente em todas as coisas, tanto quando te aproximas de César, quanto quando te aproximas de qualquer pessoa? Se te manténs livre de perturbação, livre de alarme e firme; se olhas antes para as coisas que são feitas e acontecem do que para ti mesmo; se não invejas os que são preferidos a ti; se as circunstâncias circundantes (phantasiai) não te causam medo ou admiração, o que queres? Livros? Como ou para que propósito? Pois não é isto (a leitura de livros) uma preparação para a vida? E a própria vida (o viver) não é composta de outras coisas além disto? Isto é como se um atleta chorasse ao entrar no estádio, porque não está se exercitando fora dele. Era para esse propósito que costumavas praticar exercícios; para esse propósito eram usados os halteres (pesos), a poeira, os jovens como antagonistas; e procuras essas coisas agora, quando é o momento da ação? Isto é como se, no tópico (matéria) do assentimento, quando as aparências se apresentam, algumas das quais podem ser compreendidas, e outras não podem ser compreendidas, não escolhêssemos distingui-las, mas escolhêssemos ler o que foi escrito sobre a compreensão (katalepsis).

Qual é então a razão disto? A razão é que nunca lemos para esse propósito, nunca escrevemos para esse propósito, para que em nossas ações usemos de maneira conforme à natureza as aparências que se nos apresentam; mas terminamos nisto, em aprender o que é dito, e em poder expô-lo a outro, em resolver um silogismo, e em lidar com o silogismo hipotético.

Pois

« Ver i. 4, nota 5, iii. 15, 4; e i. 24. 1, i. 29. 34. Os atletas eram untados, mas costumavam esfregar-se com poeira para poderem agarrar uns aos outros.

M. Antonino, i. 17, agradece aos Deuses por não ter desperdiçado seu tempo na resolução de silogismos.

EPICTETO.

por essa razão, onde está nosso estudo (propósito), aí somente está o impedimento.

Quereis por todos os meios as coisas que não estão em vosso poder? Sede então impedidos, obstados, malogrados em vosso propósito.

Mas se lemos o que está escrito sobre a ação (esforços, óρμή), não para vermos o que se diz sobre a ação, mas para agirmos bem: se lemos o que se diz sobre o desejo e a aversão (evitar coisas), a fim de que não falhemos em nossos desejos, nem caiamos naquilo que tentamos evitar; se lemos o que se diz sobre o dever (ofício), a fim de que, lembrando as relações (das coisas entre si), não façamos nada irracionalmente nem contrário a essas relações; não ficaríamos vexados por sermos impedidos em nossas leituras, mas ficaríamos satisfeitos por praticarmos os atos que são conformes (às relações), e não estaríamos calculando o que até agora costumávamos calcular: Hoje li tantos versos, escrevi tantos; mas (diríamos), Hoje empreguei minha ação como é ensinado pelos filósofos; não empreguei meu desejo; usei a aversão (ἔκκλισις) somente com respeito às coisas que estão dentro do poder da minha vontade; não temi tal pessoa, não fui persuadido pelas súplicas de outro; exerci minha paciência, minha abstinência, minha cooperação com os outros; e assim deveríamos agradecer a Deus por aquilo que devemos agradecer-lhe.

Mas agora não sabemos que também nós, de outra maneira, somos como a maioria.

Outro homem teme que não terá poder: vós temeis que tereis.

Não façais assim, meu homem; mas assim como ridicularizais aquele que teme que não terá poder, ridicularizai também a vós mesmos.

Pois não faz diferença se estais sedento como um homem com febre, ou se tendes pavor da água como um homem que está louco.

Ou como ainda podereis dizer como Sócrates: Se assim agrada a Deus, que assim seja? Pensais que Sócrates, se tivesse ansiado por passar seu lazer no Liceu ou na Academia e discursar diariamente com os jovens, teria servido prontamente na milícia?

Ver iii. c. 2.

Ver Aulo Gélio xvii. »

19, onde ele cita Epicteto sobre o que Gélio expressa por 'intolerantia' e 'incontinentia'. Compare com M. Antonino (y. 33) sobre o preceito 'Ἀνίκητος εἶναι' (ser invencível).

EPICTETO.

expedições tantas vezes como ele fez; e não teria ele lamentado e gemido: "Desgraçado que sou; devo agora ser miserável aqui, quando poderia estar me aquecendo ao sol no Liceu?" Por que era esse o teu propósito, aquecer-te ao sol? E não é o teu propósito ser feliz, ser livre de impedimentos, livre de obstáculos? E poderia ele ainda ter sido Sócrates, se tivesse lamentado dessa maneira: como teria ele ainda sido capaz de escrever peãs em sua prisão?'

Em suma, lembra-te disto: aquilo que valorizares para além da tua vontade, nessa medida destruíste a tua vontade.

Mas essas coisas estão fora do poder da vontade, não apenas o poder (autoridade), mas também uma condição privada: não apenas a ocupação (negócio), mas também o lazer.

— Agora, então, devo viver neste tumulto? — Por que dizes tumulto? — Quero dizer, entre muitos homens.

— Bem, qual é a dificuldade? Supõe que estás em Olímpia: imagina que é uma panegíris (assembleia pública), onde um está gritando uma coisa, outro está fazendo outra, e um terceiro está empurrando outra pessoa: nos banhos há uma multidão: e quem de nós não se agrada com essa assembleia, e a deixa com relutância? Não sejas difícil de agradar nem melindroso quanto ao que acontece.

— Vinagre é desagradável, pois é azedo; mel é desagradável, pois perturba o meu hábito corporal.

Não gosto de vegetais.

Assim também não gosto do lazer; é um deserto: não gosto da multidão; é confusão.

— Mas se as circunstâncias tornarem necessário viveres sozinho ou com poucos, chama a isso quietude, e usa a coisa como deves: fala contigo mesmo, exercita as representações (que te são apresentadas), trabalha as tuas noções prévias. Se caíres numa multidão, chama a isso uma celebração de jogos, uma panegíris, uma festa: procura desfrutar da festa com os outros homens.

Pois o que é uma visão mais agradável para aquele que ama a humanidade do que um número de homens? Vemos com prazer manadas de cavalos ou bois: ficamos encantados quando vemos muitos navios: quem se aflige ao ver muitos homens? — Mas eles me ensurdecem com seus gritos.

— Então a tua audição está impedida.

O que é isso para ti? Então o poder de usar as representações é impedido? E quem te impede

" Platão no Fédon (c. 4) diz que Sócrates em sua prisão escreveu um hino a Apolo.

" L 22.

EPICTETO.

de usar segundo a natureza a inclinação para uma coisa e a aversão dela; e o movimento em direção a uma coisa e o movimento para longe dela? Que tumulto (confusão) é capaz de fazer isso?

Acaso tens apenas em mente as regras gerais: o que é meu, o que não é meu; o que me é dado (permitido); o que Deus quer que eu faça agora? O que ele não quer? Pouco antes ele quis que estivesses em lazer, que falasses contigo mesmo, que escrevesses sobre estas coisas, que lesses, que ouvisses, que te preparasses.

Tiveste tempo suficiente para isso.

Agora ele te diz: Vem agora para a contenda, mostra-nos o que aprendeste, como praticaste a arte atlética.

Por quanto tempo serás exercitado sozinho? Agora é a oportunidade para aprenderes se és um atleta digno da vitória, ou um daqueles que percorrem o mundo e são derrotados.

Por que então te afliges? Nenhuma contenda é sem confusão.

Deve haver muitos que se exercitam para a contenda, muitos que clamam àqueles que se exercitam, muitos mestres, muitos espectadores.

— Mas meu desejo é viver tranquilamente.

— Lamenta então e geme, como mereces. Pois qual outra punição maior do que esta há para o homem não instruído e para aquele que desobedece aos mandamentos divinos: afligir-se, lamentar, invejar, em uma palavra, ser decepcionado e ser infeliz? Não te libertarias dessas coisas? — E como me libertarei? — Não ouviste muitas vezes que deves remover inteiramente o desejo, aplicar a aversão (o afastar-se) somente àquelas coisas que estão dentro do teu poder, que deves abandonar tudo: corpo, propriedade, fama, livros, tumulto, poder, posição privada? Pois para qualquer lado que te voltes, és escravo, estás sujeito, és impedido, és compelido, estás inteiramente no poder dos outros.

Mas guarda as palavras de Cleantes em prontidão.

Conduze-me, ó Zeus, e tu, necessidade.

É tua vontade que eu vá a Roma? Irei a Roma.

A Gyara? Irei a Gyara.

A Atenas? Eu

¹ Comparar com Encheiridion, 52. Cleantes foi um filósofo estoico, que também escreveu alguma poesia.

Ver p. 292, nota.

EPICTETO.

irei a Atenas.

À prisão? Irei à prisão.

Se uma vez disseres: "Quando irá um homem a Atenas?", estás perdido.

É uma consequência necessária que este desejo, se não for realizado, deve tornar-te infeliz; e se for realizado, deve tornar-te vaidoso, pois te exaltas com coisas com as quais não deverias exaltar-te; e, por outro lado, se fores impedido, deve tornar-te miserável, porque caís naquilo em que não cairias.

Abandona, então, todas essas coisas.

— Atenas é um bom lugar.

— Mas a felicidade é muito melhor; e estar livre das paixões, livre da perturbação, para que os teus assuntos não dependam de nenhum homem.

Há tumulto em Roma e visitas de saudação. Mas a felicidade é um equivalente para todas as coisas problemáticas.

Se então chega o tempo para essas coisas, por que não removes o desejo de evitá-las? Que necessidade há de carregar um fardo como um asno, e de ser espancado com um bastão? Mas se não o fizeres, considera que deves ser sempre escravo daquele que tem o poder de efetuar a tua libertação, e também de te impedir, e deves servi-lo como um gênio maligno.

Há apenas um caminho para a felicidade, e que esta regra esteja pronta tanto pela manhã quanto durante o dia e pela noite: a regra é não olhar para as coisas que estão fora do poder da nossa vontade, pensar que nada é nosso, entregar todas as coisas à Divindade, à Fortuna; torná-las as supervisoras dessas coisas, as quais Zeus também fez assim; pois um homem deve observar apenas aquilo que é seu, aquilo que não pode ser impedido; e quando lemos, referir a nossa leitura somente a isso, e a nossa escrita e a nossa audição.

Por essa razão, não posso chamar o homem de industrioso, se ouço somente isto, que ele lê e escreve; e mesmo que um homem acrescente que lê a noite toda, não posso dizê-lo, se ele não sabe a que deve referir a sua leitura.

Pois nem tu dizes que um homem é industrioso se ele fica acordado por uma garota; nem eu. Mas se ele o faz (lê e escreve) por reputação, digo que ele é um amante da reputação.¹

¹ Ele alude à prática de dependentes que fazem visitas formais pela manhã nas casas dos grandes e poderosos em Roma. Upton refere-se a Virgílio, Geórgicas, ii. 461.

² Compare i. 19. 6.

³ Compare Horácio, Sátiras, i. 5. 83.

EPICTETO.

E se o faz por dinheiro, digo que é amante do dinheiro, não amante do trabalho; e se o faz por amor ao aprendizado, digo que é amante do aprendizado. Mas se refere o seu labor ao seu próprio princípio governante (ἡγεμονικόν), para mantê-lo em um estado conforme à natureza e passar a vida nesse estado, então somente digo que é diligente.

Pois nunca elogie um homem por causa daquelas coisas que são comuns a todos, mas por causa de suas opiniões (princípios); pois estas são as coisas que pertencem a cada homem, que tornam as suas ações más ou boas.

Lembrando destas regras, alegra-te com o que está presente e contenta-te com as coisas que vêm na estação própria. Se vires alguma coisa que aprendeste e investigaste ocorrendo-te no curso da vida (ou oportunamente aplicada por ti aos atos da vida), regozija-te com isso. Se tiveres deixado de lado ou diminuído a má disposição e o hábito de injuriar; se o fizeste com temperamento precipitado, palavras obscenas, pressa, indolência; se não és movido pelo que antes eras, e não da mesma maneira que outrora, podes celebrar um festival diariamente — hoje porque te comportaste bem em um ato, e amanhã porque te comportaste bem em outro.

Quão maior é esta razão para fazer sacrifícios do que um consulado ou o governo de uma província? Estas coisas vêm a ti de ti mesmo e dos deuses.

Lembra-te disso, quem dá estas coisas e a quem, e com que propósito.

Se te nutrires destes pensamentos, ainda achas que faz alguma diferença onde serás feliz, onde agradarás a Deus? Não estão os deuses igualmente distantes de todos os lugares? Não veem eles de todos os lugares igualmente o que se passa?

¹ Ver Antonino, vi. 2; e ix. 6: "Tua presente opinião fundada no entendimento, e tua presente conduta dirigida ao bem social, e tua presente disposição de contentamento com tudo o que acontece — isso é suficiente."

² Compare a nota de Upton sobre ἀιτέχουσι, e a versão de Schweig., e o Index Graecitatis. Estes comentadores não parecem estar bastante certos sobre o significado do texto.

EPICTETO.

CAPÍTULO V.

CONTRA OS BRIGUENTOS E FEROZES.

O homem sábio e bom não luta com ninguém, nem permite que outro o faça, tanto quanto possa evitar. E um exemplo disso, assim como de todas as outras coisas, nos é proposto na vida de Sócrates, que não apenas evitava brigas (discussões) em todas as ocasiões, mas não permitia que outros brigassem.

Vejam no Banquete de Xenofonte quantas brigas ele resolveu, como ele suportou Trasímaco, Pólo e Cálicles; como tolerou sua esposa, e como tolerou seu filho que tentava refutá-lo e contestá-lo.

Pois ele lembrava bem que nenhum homem tem em seu poder o princípio dominante de outro.

Ele desejava, portanto, nada além do que era seu.

E o que é isso? Não que este ou aquele homem aja conforme a natureza; pois isso pertence a outro; mas que, enquanto outros fazem seus próprios atos, como escolhem, ele possa, não obstante, estar em uma condição conforme à natureza e viver nela, fazendo apenas o que é seu, para que também os outros estejam em um estado conforme à natureza.

Pois este é o objetivo sempre proposto diante dele pelo homem sábio e bom.

É comandar um exército? Não; mas se lhe é permitido, seu objetivo é neste assunto manter seu próprio princípio dominante.

É casar? Não; mas se o casamento lhe é permitido, neste assunto seu objetivo é manter-se em uma condição conforme à natureza.

Mas se ele quisesse que seu filho não errasse ou sua esposa, ele desejaria que o que pertence a outro não pertencesse a outro; e ser instruído é isto: aprender quais coisas são de um homem e quais pertencem a outro.

Como então resta lugar para brigas (discussões) a um homem que tem esta opinião (que deveria ter)? Ele se surpreende com algo que acontece, e isso lhe parece novo? Ele não espera que o que vem dos maus seja pior e mais grave do que o que realmente lhe acontece? E não considera como ganho puro tudo o que eles (os maus) possam fazer que fique aquém da extrema maldade? Tal pessoa te insultou. Grande gratidão a ele por não ter te batido. Mas ele também me bateu. Grande gratidão por não ter te ferido. Mas ele também me feriu. Grande gratidão por não ter te matado.

Ver ii. 12. 15.

Ver Xenofonte, Memorabilia, ii. 2.

A palavra ffrparriyriffai pode ser traduzida de qualquer maneira.

EPICTETO.

Pois quando aprendeu ele, ou em que escola, que o homem é um animal domesticado, que os homens se amam uns aos outros, que um ato de injustiça é um grande dano para quem o pratica? Visto que ele não aprendeu isso e não está convencido disso, por que não seguirá aquilo que parece ser do seu próprio interesse? O teu vizinho atirou pedras.

Tens tu, então, feito algo de errado? Mas as coisas da casa foram quebradas.

És tu, então, um utensílio? Não; mas um livre poder de vontade. O que te é dado (a fazer) em resposta a isso? Se és como um lobo, deves morder em retorno e atirar mais pedras.

Mas se consideras o que é próprio de um homem, examina o teu depósito, vê com quais faculdades vieste ao mundo.

Tens a disposição de uma fera, tens a disposição de vingança por uma injúria? Quando é que um cavalo é infeliz? Quando é privado das suas faculdades naturais, não quando não pode cantar como um galo, mas quando não pode correr.

Quando é que um cão é infeliz? Não quando não pode voar, mas quando não pode rastrear a sua caça.

É então também um homem infeliz desta maneira, não porque não pode estrangular leões ou abraçar estátuas, pois ele não veio ao mundo na posse de certos poderes da natureza para esse propósito, mas porque perdeu a sua probidade e a sua fidelidade? As pessoas deveriam encontrar-se e lamentar tal homem pelas desgraças nas quais ele caiu; não, de fato, para lamentar porque um homem nasceu ou morreu, mas porque lhe aconteceu, em sua vida, ter perdido as coisas que são suas, não aquilo que recebeu de seu pai, não a sua terra e casa, e a sua estalagem, e os seus escravos; pois nenhuma dessas coisas é própria de um homem, mas todas pertencem a outros, são servis e sujeitas a prestação de contas, em diferentes momentos dadas a diferentes pessoas por aqueles que as têm em seu poder: mas refiro-me às coisas que lhe pertencem como homem, as marcas (estampas) na sua mente com as quais veio ao mundo, tais como procuramos também nas moedas, e se as encontramos, aprovamos as moedas, e se não encontramos as marcas, rejeitamo-las.

Qual é a marca neste Sestércio? A marca de Trajano.

Apresente-a. É a marca de Nero.

Jogue-a fora: não pode ser aceita, é falsa. Assim também neste caso: Qual é

A alusão é a uma passagem (um fragmento) no Cresfontes de Eurípides, traduzido por Cícero para jâmbicos latinos (Tusc.

Disp.

i. 48) —

eSet yap yuSs aiWoyov iroiovixivovs  rhv fWTa 6pT)ve7u els '6ff' epxTai KaKa.

thv Saii dav6vra kuI ir6vb)v Tzeiravfiivov  Xo-ipovras, €V(pr)fj.ovvTas fKirefjiireiv SSficav.

Heródoto (v. 4) diz sobre os Trausos, uma tribo trácia: quando uma criança nasce, os parentes sentam-se ao redor dela e lamentam todos os males que ela deverá sofrer ao vir ao mundo e enumeram todas as calamidades da humanidade; mas quando alguém morre, eles o escondem na terra com alegria e prazer, considerando todos os males dos quais ele agora está livre e na posse de toda a felicidade.'

A palavra é ■irav5oK€7ov, que Schweig.

diz que não entende.

Ele supõe que a palavra seja corrupta; a menos que a tomemos como significando a estalagem em que vive um homem que não tem lar.

Não entendo a palavra aqui.

" Veja a nota de Schweig.

sobre a palavra rerpaffarapov no texto.

" Isso não significa, diz-se, que Nero emitiu moedas falsas, pois existem muitas moedas de Nero que tanto na forma quanto na pureza do metal são completas.

Um erudito numismata, Francis Wise, membro do Trinity College de Oxford, em uma carta a Upton, diz que não consegue descobrir nenhuma razão para as moedas de Nero serem rejeitadas nas transações comerciais após sua morte, exceto o fato de o tirano ter sido declarado pelo Senado como inimigo da Comunidade.

(Suetônio, Nero, c. 49.) Quando Domiciano foi assassinado, o Senado ordenou que seus bustos fossem retirados, como os franceses fazem agora após uma revolução, e que todos os memoriais dele fossem destruídos (Suetônio, Domiciano, c. 23). Dion também relata (lx.) que quando Calígula foi

EPICTETO.

a marca de suas opiniões? É a gentileza, uma disposição sociável, um temperamento tolerante, uma disposição para a afeição mútua.

Produza essas qualidades.

Eu as aceito: considero este homem um cidadão, aceito-o como vizinho, um companheiro em minhas viagens.

Apenas veja que ele não tenha a marca de Nero.

Ele é apaixonado, está cheio de ressentimento, procura defeitos? Se o capricho o domina, ele quebra a cabeça daqueles que cruzam seu caminho? (Se sim), então por que você disse que ele é um homem? Tudo é julgado (determinado) pela mera forma? Se é assim, diga que a forma em cera é uma maçã e tem o cheiro e o sabor de uma maçã.

Mas a figura externa não é suficiente: nem então o nariz e os olhos são suficientes para fazer o homem, mas ele deve ter as opiniões de um homem.

Aqui está um homem que não ouve a razão, que não sabe quando é refutado: ele é um asno: em outro homem o senso de vergonha está morto: ele não serve para nada, ele é tudo menos um homem.

Este homem procura quem possa encontrar para chutar ou morder, de modo que ele não é nem uma ovelha nem um asno, mas uma espécie de fera selvagem.

Então? Você quer que eu seja desprezado? — Por quem? Por aqueles que o conhecem? E como aqueles que o conhecem desprezarão um homem que é gentil e modesto? Talvez você queira dizer por aqueles que não o conhecem? O que isso importa para você? Pois nenhum outro artesão se importa com a opinião daqueles que não conhecem sua arte.

— Mas eles serão mais hostis a mim por essa razão. — Por que você diz 'mo'? Pode algum homem ferir sua vontade, ou impedi-lo de usar de maneira natural as aparências que são apresentadas a

assassinado, foi ordenado que toda a moeda de bronze que trazia sua imagem fosse derretida e, suponho, cunhada novamente.

Há mais sobre este assunto na 'Carta de Wise'.

Não acredito que moedas genuínas seriam recusadas em transações comerciais pelas razões que Wise dá, pelo menos não recusadas em partes distantes de Roma.

Talvez Epicteto queira dizer que algumas pessoas não tocariam nas moedas do detestável Nero.

'- Ele diz rh Kripivoy, que a Sra. Carter traduz como 'um pedaço de cera'. Talvez signifique 'um pedaço de cera em forma de maçã'.

A palavra é iirKpvnffomat, cuja forma não é grega. Schweig não tem observação sobre ela e traduz a palavra por 'adorientur'. A forma deveria ser iirKpiffovTai. Veja o Léxico de Stephens sobre a palavra xiwo/toi. Provavelmente a palavra está corrompida.

EPICTETO.

você? De modo algum ele pode. Por que então você ainda está perturbado e por que escolhe mostrar-se com medo? E por que você não se apresenta e proclama que está em paz com todos os homens, seja o que for que eles façam, e ri principalmente daqueles que pensam que podem lhe causar dano? Esses escravos, você pode dizer, não sabem nem quem eu sou, nem onde está meu bem ou meu mal, porque não têm acesso às coisas que são minhas.

Dessa maneira também aqueles que ocupam uma cidade forte zombam dos sitiantes (e dizem): Que trabalho esses homens estão tendo agora em vão: nosso muro é seguro, temos comida por muito tempo, e todos os outros recursos.

Essas são as coisas que tornam uma cidade forte e inexpugnável: mas nada além de suas opiniões torna a alma de um homem inexpugnável.

Pois que muro é tão forte, ou que corpo é tão duro, ou que posse é tão segura, ou que honra (posição, caráter) tão livre de ataque (quanto as opiniões de um homem)? Todas as (outras) coisas em toda parte são perecíveis, facilmente tomadas por assalto, e se algum homem de alguma forma está apegado a elas, ele deve ser perturbado, esperar o que é mau, deve temer, lamentar, ver seus desejos frustrados, e cair em coisas que ele evitaria.

Então não escolhemos tornar seguros os únicos meios de segurança que nos são oferecidos, e não escolhemos nos afastar daquilo que é perecível e servil e trabalhar nas coisas que são imperecíveis e por natureza livres; e não nos lembramos de que nenhum homem fere outro ou faz bem a outro, mas que a opinião de um homem sobre cada coisa é o que o fere, é o que o derruba; isto é luta, isto é discórdia civil, isto é guerra? O que tornou Etéocles e Polinices inimigos não foi nada além dessa opinião que eles tinham sobre o poder real, sua opinião sobre o exílio, de que um é o extremo dos males, o outro o maior bem.

Agora esta é a natureza de

¹ A Sra. Carter traduz poPep6u por 'formidável', e na tradução latina é traduzido como 'formidabilem', mas esse não pode ser o significado da palavra aqui.

² Etéocles e Polinices eram filhos do infeliz Édipo, que brigaram pelo reinado de Tebas e se mataram um ao outro. Essa briga é o assunto de Os Sete contra Tebas, de Ésquilo, e das Fenícias, de Eurípides.

³ Ver ii. 22. nota 3.

7.

EPICTETO.

que todo homem busque o bem, evite o mal; e considere aquele que nos priva de um e nos envolve no outro como inimigo e traiçoeiro, ainda que seja irmão, filho ou pai.

Pois nada nos é mais afim do que o bem: portanto, se estas coisas (externas) são boas e más, nem um pai é amigo dos filhos, nem um irmão de um irmão, mas todo o mundo está por toda parte cheio de inimigos, homens traiçoeiros e sicofantas.

Mas se a vontade (προαίρεσις, o propósito, a intenção), sendo o que deve ser, é o único bem; e se a vontade, sendo o que não deve ser, é o único mal, onde há contenda, onde há injúria? Sobre quê? Sobre as coisas que não nos concernem? E contenda com quem? Com os ignorantes, os infelizes, com aqueles que estão iludidos acerca das coisas principais?

Lembrando-se disso, Sócrates administrava sua própria casa e suportava uma esposa de temperamento muito difícil e um filho tolo (ingrato?). Pois em que ela mostrava seu mau temperamento? Em derramar água sobre sua cabeça tanto quanto queria, e em pisar no bolo (enviado a Sócrates). E o que é isso para mim, se eu penso que essas coisas nada são para mim? Mas isto é meu negócio; e nem tirano impedirá minha vontade, nem senhor; nem a multidão me impedirá, a mim que sou um só, nem o mais forte me impedirá, a mim que sou o mais fraco; pois este poder de estar livre de impedimento (obstáculo) é dado por Deus a todo homem.

Pois estas opiniões fazem amor numa casa (família),

" 'Todo homem, em tudo o que faz, age naturalmente com a previsão e apreensão de evitar o mal ou obter o bem.' Up. Butler, Analogy, Cap.

2. O 'naturalmente' do bispo é o φύσις de Epicteto.

" A esposa de Sócrates, Xântipe, é acusada por seu filho mais velho, Lâmprocles, de ter um temperamento tão ruim que é insuportável (Xenofonte, Memorab.

ii. 2, 7). Xenofonte, neste capítulo, relatou a conversa de Sócrates com seu filho sobre esse assunto.

Diógenes Laércio (ii.) conta a história de Xântipe derramando água sobre a cabeça de Sócrates, e água suja, como diz Sêneca (De Constantia, c. 18). Élio (xi. 12) relata que Alcibíades enviou a Sócrates um bolo grande e bom, que Xântipe pisoteou.

Sócrates apenas riu e disse: "Bem, então você não terá sua parte dela." O filósofo mostrou que sua filosofia era prática ao suportar o tormento de uma esposa de temperamento muito difícil, uma das maiores calamidades que podem acontecer a um homem, e o problema de um filho desobediente.

EPICTETO.

concordam num estado, entre as nações paz, e gratidão a Deus; elas tornam o homem em todas as coisas alegre (confiante) nas coisas externas, como acerca das coisas que pertencem a outros, como acerca das coisas que não têm valor. — "Nós, de fato, somos capazes de escrever e ler estas coisas, e de elogiá-las quando são lidas, mas nem sequer nos aproximamos de estar convencidos delas."

Portanto, o que se diz dos Lacedemônios, "Leões em casa, mas em Éfeso raposas", se aplicará também ao nosso caso: "Leões na escola, mas fora dela raposas."

CAPÍTULO VI.

CONTRA OS QUE SE LAMENTAM POR SEREM OBJETO DE PIEDADE.

Estou aflito, diz um homem, por ser objeto de piedade.

Então, o fato de seres objeto de piedade é algo que te concerne a ti ou àqueles que têm piedade de ti? — Bem, está em teu poder impedir essa piedade? — Está em meu poder, se eu lhes mostrar que não necessito de piedade.

— E então, estás tu na condição de não merecer (necessitar) piedade, ou não estás nessa condição? — Penso que não estou; mas essas pessoas não têm piedade de mim pelas coisas pelas quais, se devessem ter piedade, seria apropriado, quero dizer, pelas minhas faltas; mas têm piedade de mim pela minha pobreza, por não possuir cargos honrosos, por doenças e mortes e outras coisas tais. — Então, estás preparado para convencer a maioria de que nenhuma dessas coisas é um mal, mas que é possível para um homem que é pobre e não tem cargo (ἄρχοντι) e não goza de honra ser feliz; ou para te mostrares a eles como rico e no poder? Pois a segunda dessas coisas pertence a um homem vaidoso, tolo e bom para nada.

E considera por que meios a pretensão deve ser sustentada.

Será necessário que você contrate escravos e possua alguns vasos de prata, e os exiba em público, se possível, embora sejam muitas vezes os mesmos, e tente ocultar o fato de que são os mesmos, e tenha vestes esplêndidas e todas as outras coisas para exibição, e mostre que você é um homem honrado pelos grandes, e procure cear em suas casas, ou ser suposto cear lá, e quanto à sua pessoa, empregue algumas artes mesquinhas, para que pareça ser mais belo e mais nobre do que é.

Essas coisas você deve maquinar, se escolher seguir o segundo caminho, para não ser compadecido.

Mas o primeiro caminho é tanto impraticável quanto longo: tentar exatamente aquilo que Zeus não foi capaz de fazer, convencer todos os homens sobre quais coisas são boas e más. Esse poder é dado a você? Apenas isto é dado a você: convencer a si mesmo; e você não se convenceu.

Então eu lhe pergunto: você tenta persuadir outros homens? E quem viveu tanto tempo com você quanto você consigo mesmo? E quem tem tanto poder de convencê-lo quanto você tem de convencer a si mesmo? E quem é mais bem disposto e mais próximo de você do que você é de si mesmo? Como então você ainda não se convenceu para aprender? No presente, as coisas não estão de cabeça para baixo? É isto o que você tem se empenhado em fazer: aprender a estar livre de aflição e livre de perturbação, e não ser humilhado (abjeto), e ser livre? Não ouviu então que há apenas um caminho que conduz a esse fim: abandonar (dispensar) as coisas que não dependem da vontade, afastar-se delas e admitir que pertencem a outros? Pois, para outro homem ter uma opinião sobre você, de que tipo é? — É uma coisa independente.

Aqui está implícito que há coisas que Deus não pode fazer. Talvez ele queira dizer que, assim como Deus deu ao homem certos poderes de vontade e, portanto, de ação, ele não pode ao mesmo tempo exercer os poderes contraditórios de forçar a vontade e a ação do homem; pois isso seria ao mesmo tempo dar poder e retirá-lo.

Butler observa (Analogy, cap. 5) "o presente está tão longe de provar, no evento, uma disciplina de virtude para a generalidade dos homens que, ao contrário, eles parecem fazer dela uma disciplina de vício." De fato, todos os homens não são convencidos e não podem ser convencidos na presente constituição das coisas 'quais coisas são boas e más.'

Algo está talvez errado no texto aqui.

Ver a nota de Schweig.

EPICTETO.

da vontade — Então isso não é nada para você? — Não é nada — Quando então você ainda se irrita e se perturba com isso, pensa que está convencido sobre o bem e o mal?

Não quererá então, deixando os outros de lado, ser para si mesmo tanto discípulo quanto mestre? — O resto da humanidade cuidará disso, se é de seu interesse ser e passar suas vidas em um estado contrário à natureza: mas para mim ninguém está mais próximo do que eu mesmo.

O que significa então isto, que eu ouvi as palavras dos filósofos e assinto a elas, mas na prática não me tornei de modo algum mais aliviado (mais contente)? Sou tão estúpido? E, no entanto, em todas as outras coisas que escolhi, não fui considerado muito estúpido; mas aprendi rapidamente as letras, e a lutar, e a geometria, e a resolver silogismos.

Não me convenceu então a razão? e, de fato, nenhuma outra coisa desde o início eu aprovei e escolhi tanto (como as coisas que são racionais): e agora eu leio sobre estas coisas, ouço sobre elas, escrevo sobre elas; até agora não descobri nenhuma razão mais forte do que esta (viver segundo a natureza). Em que então sou deficiente? As opiniões contrárias não foram erradicadas de mim? As noções (opiniões) em si mesmas não foram exercitadas nem usadas para serem aplicadas à ação, mas, como armaduras, foram postas de lado e enferrujaram e não podem me servir? E, no entanto, nem nos exercícios da palestra, nem ao escrever ou ler, estou satisfeito com o aprendizado, mas revolvo e reviro os silogismos que são propostos, e faço outros, e também silogismos sofísticos. Mas os teoremas necessários, a partir dos quais um homem pode tornar-se livre da dor, do medo, das paixões (afetos), do impedimento, e um homem livre, estes eu não exercito em mim nem pratico neles o devido estudo (prática). Então eu me importo com o que os outros dirão de mim, se parecerei a eles digno de nota, se parecerei feliz.

—

Homem miserável, não verás o que dizes sobre ti mesmo? O que pareces a ti mesmo ser? Em tuas opiniões, em teus desejos, em tuas aversões às coisas (ei/ T3 cKKXiVeii/), em teus movimentos (propósitos, eV opfjiy), em tua preparação (para qualquer coisa), em teus...

Planos (projetos), e em outros atos adequados a um homem? Mas você se preocupa com isto, se os outros têm pena de você? — Sim, mas sou compadecido não como deveria ser. — Então você se aflige com isso? E quem se aflige é objeto de compaixão? — Sim — Então como você é compadecido não como deveria ser? Pois pelo próprio ato de você sentir (sofrer) por ser compadecido, você se torna digno de compaixão.

Que diz então Antístenes? Não ouviste? 'É coisa régia, ó Ciro, fazer o bem (corretamente) e ser mal falado.' Minha cabeça está sã, e todos pensam que tenho dor de cabeça.

Que me importa isso? Estou livre de febre, e as pessoas se compadecem de mim como se eu tivesse febre, (e dizem). Pobre homem, por tanto tempo você não cessou de ter febre.

Eu também digo com semblante pesaroso, Em verdade já é há muito tempo que estou doente.

Que acontecerá então? Como Deus quiser: e ao mesmo tempo rio secretamente daqueles que me compadecem. Que impede então que o mesmo seja feito neste caso também? Sou pobre, mas tenho uma opinião correta sobre a pobreza.

Por que então me importo se eles me compadecem pela minha pobreza? Não estou no poder (não sou magistrado); mas outros estão: e tenho a opinião que deveria ter sobre ter e não ter poder.

Que olhem para isso aqueles que me compadecem; mas eu não estou com fome nem sede, nem sofro frio; mas porque eles estão com fome ou sede, pensam que eu também estou. Que farei então por eles? Irei por aí proclamar e dizer.

Não vos enganeis, homens, estou muito bem, não me preocupo com a pobreza, nem com a falta de poder, nem em uma palavra com qualquer outra coisa senão com as opiniões corretas.

Estas tenho livres de restrição, não me importo com nada.

— Que conversa tola é essa? Como possuo opiniões corretas quando não estou contente com o que sou, mas estou inquieto sobre o que sou suposto ser?

Mas você diz, outros obterão mais e serão preferidos a mim — Que é mais razoável do que aqueles que trabalharam por alguma coisa terem mais naquilo em que trabalharam? Eles trabalharam pelo poder, você trabalhou pelas opiniões; e eles trabalharam pela riqueza, você pelo uso adequado das aparências.

M. Antoninus, vii.

3G.

 itfiovTM.

Ver L 4, nota 4.

EPICTETO.

Veja se eles têm mais do que você naquilo em que você se esforçou e que eles negligenciam; se eles concordam melhor do que você com as regras (medidas) naturais das coisas; se eles se decepcionam menos do que você em seus desejos; se eles caem menos em coisas que evitariam do que você; se em suas intenções, se nas coisas que propõem a si mesmos, se em seus propósitos, se em seus movimentos em direção a um objeto, eles miram melhor; se eles observam melhor um comportamento adequado, como homens, como filhos, como pais, e assim por diante quanto aos outros nomes pelos quais expressamos as relações da vida.

Mas se eles exercem poder, e você não, não escolherá dizer a verdade a si mesmo, que você nada faz por causa disso (do poder), e eles fazem tudo? Mas é muito irracional que aquele que cuida de algo obtenha menos do que aquele que não cuida disso.

Não é assim: mas, como me importo com opiniões corretas, é mais razoável que eu tenha poder.

— Sim, na questão sobre a qual você se importa, nas opiniões.

Mas numa questão em que eles se importaram mais do que você, ceda a eles.

O caso é exatamente o mesmo que se, por ter opiniões corretas, você pensasse que no uso do arco deveria acertar o alvo melhor do que um arqueiro, e no trabalho com metal deveria ter mais sucesso do que um ferreiro.

Abandone então sua seriedade quanto às opiniões e ocupe-se com as coisas que deseja adquirir; e então lamente, se não tiver sucesso; pois você merece lamentar.

Mas agora você diz que está ocupado com outras coisas, que está cuidando de outras coisas; mas a maioria diz isso com verdade, que um ato não tem comunidade com outro. Quem se levantou de manhã procura a quem (da casa de César) saudará, a quem dirá algo agradável, a quem enviará um presente, como agradará o dançarino, como por mau comportamento com um poderá agradar a outro.

Quando ora, ora sobre

Schweig.

diz que não observou que este provérbio seja mencionado por qualquer outro escritor, e que não vê bem o significado dele, a menos que seja o que ele expressa na versão latina (iv. 10. 24), 'alteram opus cum altero nihil commune habet'. Penso que o contexto o explica: se você deseja obter um fim particular, empregue os meios adequados, e não os meios que não conduzem a esse fim.

EPICTETO.

estas coisas; quando ele sacrifica, sacrifica pelas coisas mais elevadas: o dito de Pitágoras

Que o sono não venha sobre teus olhos lânguidos

ele transfere para estas coisas.

Onde falhei nas questões relativas à adulação? O que fiz? Algo digno de um homem livre, algo digno de um homem de nobre caráter? E se encontra algo do tipo, censura e acusa a si mesmo: "Por que disseste isto? Não estava em teu poder mentir? Até os filósofos dizem que nada nos impede de dizer uma mentira." Mas tu, se de fato não te importaste com nada além do uso correto das aparências, assim que te levantares pela manhã reflete: "O que me falta para estar livre da paixão (afetos) e livre da perturbação? O que sou eu? Sou um pobre corpo, uma propriedade, uma coisa da qual algo se diz? Não sou nada disso.

Mas o que sou? Sou um animal racional.

O que então se exige de mim?" Reflete sobre teus atos.

Onde omiti as coisas que conduzem à felicidade (eupoia)? O que fiz que seja ou hostil ou antissocial? O que não fiz quanto a estas coisas que deveria ter feito?

Sendo tão grande, então, a diferença em desejos, ações, anseios, quererias ainda ter a mesma parte com os outros naquelas coisas pelas quais não te esforçaste, e eles se esforçaram? Então te surpreendes se eles têm piedade de ti, e te irritas? Mas eles não se irritam se tu tens piedade deles.

Por quê? Porque estão convencidos de que têm aquilo que é bom, e tu não estás convencido.

Por esta razão não estás satisfeito com o que é teu, mas desejas o que eles têm; mas eles estão satisfeitos com o que é seu, e não desejam o que tens: pois se estivesses realmente convencido de que, com respeito ao que é bom, és tu quem o possui e que eles o perderam, não terias sequer pensado no que eles dizem sobre ti.

' Ver iii.

L nota 2. Epicteto está fazendo uma paródia dos versos de Pitágoras.

Ver as observações de Schweig. sobre as palavras 'Aquele que se levantou etc.' Necessariamente traduzi kukortBiadfifnos em sentido ativo; mas se isto está correto, não entendo como a palavra é usada assim.

EPICTETO.

CAPÍTULO VII.

SOBRE A LIBERDADE DO MEDO.

O que torna o tirano formidável? Os guardas, dizes, e suas espadas, e os homens da câmara e aqueles que excluem os que entrariam.

Por que então, se você leva um menino (criança) ao tirano quando ele está com seus guardas, ele não tem medo; ou será porque a criança não compreende essas coisas? Se então algum homem compreende o que são guardas e que eles têm espadas, e vai ao tirano precisamente com esse propósito, porque deseja morrer devido a alguma circunstância e busca morrer facilmente pela mão de outro, ele tem medo dos guardas? Não, pois ele deseja aquilo que torna os guardas formidáveis.

Se então algum homem, não desejando morrer nem viver por todos os meios, mas apenas como for permitido, aproxima-se do tirano, o que o impede de aproximar-se do tirano sem medo? Nada.

Se então um homem tem a mesma opinião acerca de sua propriedade que o homem que citei tem acerca de seu corpo; e também acerca de seus filhos e de sua esposa — e, em uma palavra, é afetado por alguma loucura ou desespero a ponto de não se importar se os possui ou não, mas, como crianças que brincam com conchas, importam-se (discutem) pelo jogo, mas não se preocupam com as conchas, assim também ele não atribuiu valor aos materiais (coisas), mas valoriza o prazer que tem com eles e a ocupação, que tirano é então formidável para ele, ou que guardas, ou que espadas?

Então, por loucura, é possível a um homem estar assim disposto em relação a essas coisas, e os galileus por hábito, e é possível que nenhum homem possa aprender pela razão?

Ver nota de Schweig. sobre o texto.

Pelos galileus é provável que Epicteto se refira aos cristãos, cuja obstinação Antonino também menciona (xi. 3). Epicteto, contemporâneo de São Paulo, sabia pouco sobre os cristãos, e conhecia apenas alguns exemplos de sua adesão obstinada à nova fé e do comportamento fanático de alguns dos convertidos.

Que havia fanáticos selvagens entre os primeiros cristãos é provado por autoridade indubitável; e também que sempre houve tais, e agora há tais.

O abuso de quaisquer doutrinas ou opiniões religiosas é, de fato, nenhum argumento contra tais doutrinas ou opiniões religiosas; e é um fato bastante consistente com a experiência que as melhores coisas estão sujeitas a serem pervertidas, mal compreendidas e mal utilizadas.

EPICTETO.

e da demonstração de que Deus fez todas as coisas no universo, e o próprio universo, completamente livres de impedimento e perfeitos, e as partes dele para o uso do todo? Todos os outros animais, de fato, são incapazes de compreender a administração disso; mas o homem, animal racional, tem faculdades para a consideração de todas essas coisas, e para entender que é uma parte, e que tipo de parte é, e que é justo que as partes sejam subordinadas ao todo.

E além disso, sendo por natureza nobre, magnânimo e livre, o homem vê que das coisas que o cercam, algumas são livres de impedimento e estão em seu poder, e as outras estão sujeitas a impedimento e estão no poder de outros; que as coisas livres de impedimento estão no poder da vontade; e aquelas sujeitas a impedimento são as coisas que não estão no poder da vontade.

E por essa razão, se ele pensa que seu bem e seu interesse estão somente nessas coisas que são livres de impedimento e em seu próprio poder, ele será livre, próspero, feliz, livre de dano, magnânimo, piedoso, grato a Deus por todas as coisas; em nenhuma circunstância achando defeito em qualquer das coisas que não foram postas em seu poder, nem culpando qualquer delas. Mas se ele pensa que seu bem e seu interesse estão nas coisas externas e nas coisas que não estão no poder de sua vontade, ele deve necessariamente ser impedido, ser obstruído, ser escravo daqueles que têm poder sobre as coisas que ele admira (deseja) e teme; e deve necessariamente ser ímpio porque pensa que é prejudicado por Deus, e deve ser injusto porque sempre reivindica mais do que lhe pertence; e deve necessariamente ser abjeto e mesquinho.

O que impede um homem, que claramente separou (compreendeu) essas coisas, de viver com o coração leve e suportar facilmente as rédeas, esperando tranquilamente tudo o que pode acontecer, e suportando o que já aconteceu? Você quer que eu suporte a pobreza? Vem e saberás o que é a pobreza quando ela encontrar alguém que possa representar bem o papel de um homem pobre. Você quereria

¹ Isto concorda com Efésios v. 20: "Dando sempre graças por todas as coisas a Deus." — Sra. Carter.

As palavras são as mesmas em ambos, exceto que o Apóstolo tem εὐχαριστοῦντες, e Epicteto tem χαρίζεσθαι.

Ver nota de Schweig.

EPICTETO.

Tenha-me para possuir poder? Deixe-me ter poder, e também o trabalho dele. Bem, exílio? Onde quer que eu vá, lá estará bem comigo; pois aqui também onde estou, não foi por causa do lugar que estava bem comigo, mas por causa das minhas opiniões, que levarei comigo: pois nem mesmo qualquer homem pode privar-me delas; mas as minhas opiniões são as únicas coisas que são minhas, e não podem ser tiradas de mim, e estou satisfeito enquanto as tenho, onde quer que eu esteja e o que quer que eu esteja fazendo.

Mas agora é tempo de morrer.

Por que dizes morrer? Não faças disso um espetáculo trágico, mas fala disso como é: é agora tempo de a matéria (do corpo) ser resolvida nas coisas das quais foi composta.

E o que há de formidável nisso? O que vai perecer das coisas que estão no universo? Que coisa nova ou maravilhosa vai acontecer? É por essa razão que um tirano é formidável? É por essa razão que os guardas parecem ter espadas que são grandes e afiadas? Dize isso a outros; mas eu considerei todas essas coisas; nenhum homem tem poder sobre mim. Fui feito livre; conheço os seus comandos, nenhum homem pode agora levar-me como escravo.

Tenho uma pessoa adequada para afirmar a minha liberdade; tenho juízes adequados.

(Digo) não és tu o senhor do meu corpo? O que é isso para mim? Não és tu o senhor da minha propriedade? O que é isso para mim? Não és tu o senhor do meu exílio ou das minhas cadeias? Bem, de todas essas coisas e do próprio corpo pobre, parto à tua ordem, quando quiseres.

Faz prova do teu poder, e saberás até onde ele alcança.

A quem, então, posso ainda temer? Aqueles que estão sobre o quarto de dormir? Para que não façam, o quê? Trancar-me para fora? Se eles descobrirem que desejo entrar, que me tranquem para fora.

Por que então vais às portas? Porque penso que me convém, enquanto a peça (o jogo) dura, participar dela. Como então não és trancado para fora? Porque, a menos que alguém

Ele diz que o corpo será resolvido nas coisas das quais é composto: nenhuma delas perecerá.

A alma, como ele disse em outro lugar, irá para aquele que a deu (iii. 13. nota 4). Mas não suponho que ele queira dizer que a alma existirá como tendo uma consciência separada.

KapTTKTT'fiv, ver iv. 1. 113. Ver i. 19. nota G.

EPICTETO.

Um me permite entrar, eu não escolho entrar, mas estou sempre contente com o que acontece; pois penso que o que Deus escolhe é melhor do que o que eu escolho. Ligar-me-ei a ele como ministro e seguidor; tenho os mesmos movimentos (buscas) que ele tem, tenho os mesmos desejos; em uma palavra, tenho a mesma vontade (a-wdeXw). Não há exclusão para mim, mas para aqueles que forçariam sua entrada. Por que então não forço minha entrada? Porque sei que nada de bom é distribuído dentro para aqueles que entram.

Mas quando ouço algum homem ser chamado afortunado porque é honrado por César, digo: o que ele por acaso obtém? Uma província (o governo de uma província). Ele também obtém uma opinião tal como deveria? O cargo de Prefeito.

Obtém ele também o poder de usar bem seu cargo? Por que ainda me esforço para entrar (na câmara de César)? Um homem espalha figos secos e nozes: as crianças os agarram e brigam entre si; os homens não, pois os consideram coisa pequena.

Mas se um homem atirar conchas, até as crianças não as agarram.

Províncias são distribuídas: que as crianças cuidem disso.

Dinheiro é distribuído: que as crianças cuidem disso.

Pretorados, consulados são distribuídos: que as crianças disputem por eles, que sejam excluídas, espancadas, beijem as mãos do doador, dos escravos: mas para mim estes são apenas figos secos e nozes.

Que então? Se você não os obtém, enquanto César os espalha, não se perturbe: se um figo seco cair em seu colo, pegue-o e coma-o; pois até aí você pode valorizar até um figo.

Mas se eu me curvar e virar outro, ou for virado por outro, e adular aqueles que entraram (na câmara de César), nem um figo seco vale o trabalho, nem qualquer outra coisa das coisas que não são boas, que os filósofos me persuadiram a não considerar boas.

Mostre-me as espadas dos guardas.

Vejam como são grandes, e como são afiadas.

Que então fazem estas espadas grandes e afiadas? Elas matam.

E o que faz uma febre? Nada mais.

E o que mais uma telha (que cai)? Nada mais.

' Contudo, não como eu quero, mas como tu queres,' Mateus xxvi. 39, Sra. Carter.

' Nossa resignação à vontade de Deus pode ser dita perfeita, quando nossa vontade é perdida e resolvida na dele; quando descansamos em sua vontade como nosso fim, como sendo ela mesma mais justa e reta e boa.' Bispo Butler, Sermão sobre o Amor de Deus.

EPICTETO.

Então quererias que eu me admirasse dessas coisas e as adorasse, e andasse como escravo de todas elas? Espero que isso não aconteça; mas, quando eu tiver aprendido que tudo o que veio à existência também deve sair dela, para que o universo não pare nem seja impedido, não considero mais qualquer diferença se uma febre o fará, ou uma telha, ou um soldado.

Mas, se um homem deve fazer uma comparação entre essas coisas, sei que o soldado o fará com menos incômodo (para mim) e mais rápido.

Quando então não temo nada que um tirano possa me fazer, nem desejo nada que ele possa dar, por que ainda olho com admiração? Por que ainda estou confuso? Por que temo os guardas? Por que fico satisfeito se ele me fala de maneira amigável e me recebe, e por que conto aos outros como ele me falou? É ele um Sócrates, é um Diógenes, para que seu elogio seja uma prova do que sou? Tenho estado ansioso para imitar seus costumes? Mas mantenho a peça e vou até ele, e o sirvo enquanto ele não me ordenar fazer algo tolo ou irracional.

Mas se ele me diz: Vai e traz Leão de Salamina, digo a ele: Procura outro, pois não estou mais representando.

(O tirano diz): Leva-o (para a prisão). Eu sigo; isso faz parte da peça.

Mas tua cabeça será cortada — A cabeça do tirano permanece sempre onde está, e as cabeças de vós que o obedecem? Mas serás lançado fora sem sepultamento? Se o cadáver sou eu, serei lançado fora; mas se eu sou diferente do cadáver, fala mais propriamente conforme o fato é, e não penses em me assustar. Essas coisas são formidáveis para crianças e tolos.

Mas se algum homem entrou uma vez numa escola de filosofia e não sabe o que é, merece estar cheio de medo e lisonjear aqueles a quem depois costumava lisonjear; (e) se ainda não aprendeu que não é carne, nem ossos, nem tendões, mas é aquilo que faz uso dessas partes do corpo e as governa e segue (compreende) as aparências das coisas.

Sim, mas essa conversa nos faz desprezar as leis — E que tipo de conversa torna os homens mais obedientes às leis que empregam tal conversa? E as coisas que estão no poder de um tolo não são lei. E, no entanto, vede como essa conversa nos dispõe como deveríamos estar, mesmo para com esses homens (tolos); pois ela nos ensina a reivindicar contra eles nenhuma das coisas em que eles são capazes de nos superar. Essa conversa nos ensina, quanto ao corpo, a entregá-lo; quanto à propriedade, a entregá-la também; quanto aos filhos, pais, irmãos, a nos afastarmos deles, a renunciar a tudo; ela apenas faz exceção das opiniões, que até Zeus quis que fossem a propriedade exclusiva de cada homem.

Que transgressão das leis há aqui, que loucura? Onde és superior e mais forte, aí eu cedi a ti; por outro lado, onde sou superior, cede tu a mim; pois eu estudei (cuidei) disso, e tu não.

É teu estudo viver em casas com pisos formados de várias pedras, como teus escravos e dependentes te servirão, como usarás roupas finas, terás muitos caçadores, tocadores de alaúde e atores trágicos.

Reivindico eu alguma dessas coisas? Estudaste tu as opiniões e a tua própria faculdade racional? Sabes de que partes ela é composta, como são reunidas, como

¹ Aqui Epicteto admite que há algum poder no homem que usa o corpo, o dirige e o governa. Ele não diz qual é esse poder nem o que supõe que seja. "Em suma, então, nossos órgãos dos sentidos e nossos membros são certamente instrumentos, dos quais as pessoas vivas, nós mesmos, nos servimos para perceber e mover." Butler's Analogy, cap. i.

² A vontade de um tolo não faz lei, diz ele. Infelizmente, ela faz, se usarmos a palavra lei no sentido estrito de lei: pois lei é uma ordem geral de uma pessoa, um rei absoluto, por exemplo, que tem poder de impô-la àqueles a quem a ordem é dirigida, ou, se não de impô-la, de punir a desobediência a ela. Esse uso estrito da palavra 'lei' é independente da qualidade da ordem, que pode ser sábia ou tola, boa ou má.

Mas Epicteto não usa a palavra 'lei' no sentido estrito.

³ A palavra é ψηφοστρωτοῖς, que significa o que chamamos de pisos ou pavimentos mosaicos.

A palavra λιθόστρωτον é usada em João xix. 13, e traduzida em nossa versão por 'pavimento'.

EPICTETO.

estão conectadas, que poderes tem, e de que espécie? Por que então te aborreces, se outro que fez disso seu estudo tem vantagem sobre ti nessas coisas? Mas essas coisas são as maiores.

E quem te impede de te ocupares dessas coisas e de cuidares delas? E quem tem melhor provisão de livros, de lazer, de pessoas para te ajudar? Apenas volta tua mente, enfim, para essas coisas, atende, ainda que por pouco tempo, à tua própria faculdade diretriz (rjyefiovLKov): considera o que é isto que possuis, e de onde veio, isto que usa todas as outras (faculdades), e as examina, e seleciona e rejeita.

Mas enquanto te ocupares das coisas externas, possuirás essas (externas) como nenhum outro homem as possui; mas terás esta (a faculdade diretriz) tal como escolheres tê-la, sórdida e negligenciada.

CAPÍTULO VIII.

CONTRA AQUELES QUE SE LANÇAM PRECIPITADAMENTE NO USO DO TRAJE FILOSÓFICO.

Nunca louves nem culpes um homem por causa das coisas que são comuns (a todos, ou à maioria), e não lhe atribuas qualquer habilidade ou falta de habilidade; e assim estarás livre da precipitação e da malevolência.

Este homem se banha muito rapidamente. Faz ele então algo errado? Certamente não.

Mas o que ele faz? Ele se banha muito

¹ Este termo (rh riyftoviKSv) tem sido frequentemente usado por Epicteto (i. 26. 15. etc), e por M. Antonino.

Aqui Epicteto dá uma definição ou descrição disso: é a faculdade pela qual refletimos e julgamos e determinamos, uma faculdade que nenhum outro animal tem, uma faculdade que em muitos homens é negligenciada, e fraca porque é negligenciada; mas ainda assim deve ser o que sua constituição a forma a ser, uma faculdade que "claramente traz em si marcas de autoridade sobre todas as demais, e reivindica a direção absoluta de todas elas, para permitir ou proibir sua gratificação" (Bp. Butler, Prefácio aos seus Sermões). As palavras no texto (k- ef6fjLe'ov, airfKey6nti'ov, seleção e rejeição) são expressas por Cícero (De Fin.

ix. ii. 11) por 'eligere' e 'rejioere.'

Ver iv. 4. 44.

EPICTETO.

rapidamente.

Todas as coisas são então bem feitas? De modo algum: mas os atos que procedem de opiniões corretas são bem feitos; e aqueles que procedem de opiniões más são mal feitos.

Mas tu, até que conheças a opinião da qual um homem faz cada coisa, nem louves nem culpes o ato.

Mas a opinião não é facilmente descoberta pelas coisas externas (atos). Este homem é um carpinteiro.

Por quê? Porque ele usa um machado.

Que é isto, então, para a questão? Este homem é músico porque canta.

E que significa isso? Este homem é filósofo.

Porque usa um manto e cabelos longos.

E o que usa um saltimbanco? Por essa razão, se alguém vê um filósofo agindo indecentemente, imediatamente diz: Vede o que o filósofo está fazendo; mas deveria, por causa do comportamento indecente do homem, antes dizer que ele não é filósofo.

Pois se esta é a noção preconcebida (πρόληψις) de um filósofo e o que ele professa, usar um manto e cabelos longos, os homens diriam bem; mas se o que ele professa é antes isto, manter-se livre de faltas, por que não tiramos dele, antes, o nome de filósofo, porque ele não cumpre o que professa? Pois assim fazemos no caso de todas as outras artes.

Quando alguém vê outro manejando um machado mal, não diz: qual é a utilidade da arte do carpinteiro? Vede quão mal os carpinteiros fazem seu trabalho; mas diz justamente o contrário.

Este homem não é carpinteiro, pois usa o machado mal.

Da mesma maneira, se alguém ouve outro cantando mal, não diz: Vede como os músicos cantam; mas antes: Este homem não é músico.

Mas é somente na questão da filosofia que as pessoas fazem isso.

Quando veem um homem agindo contrariamente à profissão de filósofo, não lhe retiram o título, mas assumem que ele é filósofo, e, derivando de seus atos o fato de que ele se comporta indecentemente, concluem que não há utilidade na filosofia.

Qual é, então, a razão disso? Porque atribuímos valor à noção (πρόληψις) de carpinteiro, e à de músico, e à noção de outros artesãos de igual maneira, mas não à de filósofo, e julgamos apenas pelos externos que é uma coisa confusa e mal definida.

E que outra arte tem um nome derivado do

EPICTETO.

vestuário e do cabelo; e não tem tanto teoremas quanto uma matéria e um fim? Qual é, então, a matéria (matéria) do filósofo? É um manto? Não, mas a razão.

Qual é o seu fim? É usar um manto? Não, mas possuir a razão em estado reto.

De que tipo são seus teoremas? São aqueles sobre o modo como a barba se torna grande ou o cabelo longo? Não, mas antes o que Zenão diz: conhecer os elementos da razão, que tipo de coisa cada um deles é, e como se ajustam uns aos outros, e o que lhes é consequente.

Não vereis então primeiro se ele faz o que professa quando age de maneira inconveniente, e só então censurareis o seu estudo (busca)? Mas agora, quando vós mesmos agis de forma sóbria, dizeis em consequência do que ele vos parece estar fazendo errado.

Olhai para o filósofo, como se fosse próprio chamar de filósofo aquele que faz estas coisas; e além disso.

Esta é a conduta de um filósofo.

Mas vós não dizeis.

Olhai para o carpinteiro, quando sabeis que um carpinteiro é adúltero ou o vedes ser glutão; nem dizeis, Vede o músico.

Assim, até certo ponto, até vós percebeis (compreendeis) a profissão de um filósofo, mas vos afastais da noção, e ficais confusos por falta de cuidado.

Mas até os próprios filósofos, como são chamados, perseguem a coisa (filosofia) começando por coisas que são comuns a eles e a outros: assim que assumem um manto e deixam crescer a barba, dizem, Eu sou um filósofo. Mas nenhum homem dirá, Eu sou um músico, se comprou um plectro (palheta) e um alaúde: nem dirá, Eu sou um ferreiro, se vestiu um gorro e um avental.

Mas a vestimenta é adequada à arte; e eles tomam seu nome da arte, e não da vestimenta.

Por essa razão, Eufrates costumava dizer bem: Por muito tempo me esforcei para ser um filósofo sem que as pessoas o soubessem; e isto, dizia ele, foi útil para mim: pois primeiro eu sabia que quando fazia algo bem, não o fazia

 Compare Horácio, Ep. i. 19, 12 etc.

Quid, si quis vultu torvo feras et pede nudo
Exiguaeque togae simulet textore Catonem,
Virtutemne repraesentet moresque Catonis?
» Ver iii. 15. 8.

2f

EPICTETO

para o bem dos espectadores, mas para o meu próprio bem: eu comia bem para o meu próprio bem; eu mantinha meu semblante bem composto e meu andar: tudo para mim mesmo e para Deus.

Então, assim como eu lutava sozinho, também sozinho eu estava em perigo: em nenhum aspecto por minha causa, se eu fizesse algo baixo ou inconveniente, a filosofia era posta em perigo; nem eu prejudicava a muitos por fazer algo errado como filósofo.

Por essa razão, aqueles que não conheciam meu propósito costumavam se admirar de como era que, enquanto eu conversava e vivia inteiramente com todos os filósofos, eu mesmo não era um filósofo.

E qual era o dano para mim em ser conhecido como filósofo pelos meus atos e não por marcas exteriores? Vê como como, como bebo, como durmo, como suporto e tolero, como coopero, como emprego o desejo, como emprego a aversão (afastando-me das coisas), como mantenho as relações (com as coisas), aquelas que são naturais ou aquelas que são adquiridas, quão livre de confusão, quão livre de impedimento.

Julga-me por isso, se puderes.

Mas se és tão surdo e cego que não podes conceber nem mesmo Hefesto como um bom ferreiro, a menos que vejas o barrete em sua cabeça, que dano há em não ser reconhecido por um juiz tão tolo?

Assim, Sócrates não era conhecido como filósofo pela maioria das pessoas; e elas costumavam vir a ele e pedir para serem apresentadas aos filósofos.

Ficava ele então vexado como nós, e dizia: "Não achais que eu sou um filósofo?" Não, mas ele as tomava e as apresentava, satisfeito com uma única coisa: com ser filósofo; e, comprazendo-se também em não ser tido por filósofo, não se aborrecia; pois pensava na sua própria ocupação.

Qual é a obra de um homem honrado e bom? Ter muitos discípulos? De modo algum.

Aqueles que são sinceros quanto a isso cuidarão desse assunto. Mas era seu negócio examinar cuidadosamente teoremas difíceis? Outros cuidarão também dessas questões. Em quê, então, estava ele, e quem era ele, e quem desejava ser? Ele estava naquilo (empregado naquilo) em que havia dano e vantagem.

Se alguém pode me danificar, diz ele, nada estou fazendo; se espero que outro homem me faça bem, nada sou.

Se desejo alguma coisa, e ela não acontece, sou infeliz.

A tal contenda ele convidava todo homem, e não creio que tivesse recusado a contenda com qualquer um. O que supondes? Era proclamando e dizendo: "Eu sou tal homem"? Longe disso, mas sendo tal homem.

Pois, além disso, é próprio de um tolo e de um fanfarrão dizer: "Estou livre de paixões e perturbações". Não sejais ignorantes, meus amigos: enquanto vos inquietais e vos perturbais com coisas de nenhum valor, eu sozinho estou livre de toda agitação.

Não vos basta, então, não sentir dor, a menos que proclameis: "Reuni-vos, todos os que sofrem de gota, dores de cabeça, febre, vós, coxos e cegos, e observai que eu estou são (livre) de todo mal" — Isso é vazio e desagradável de ouvir, a menos que, como Asclépio, sejais capazes de mostrar imediatamente por que espécie de tratamento eles também ficarão imediatamente livres da doença, e a menos que mostreis vossa própria saúde como exemplo.

Pois tal é o Cínico que é honrado com o cetro e o diadema por Zeus, e diz:

"Para que vejais, ó homens, que buscais a felicidade e a tranquilidade não onde elas estão, mas onde não estão, eis que sou enviado a vós por Deus como exemplo, eu que não tenho propriedade nem casa, nem esposa nem filhos, nem sequer um leito, nem manto nem utensílio doméstico; e vede quão saudável sou: provai-me, e se virdes que estou livre de perturbações, ouvi os remédios e como fui curado (tratado)". Isso é ao mesmo tempo filantrópico e nobre.

Mas vede de quem é a obra, a obra de Zeus, ou daquele que ele julgar digno deste serviço, para que nunca exiba nada à multidão pelo que anule o seu próprio testemunho, pelo qual dá testemunho à virtude e testemunha contra as coisas externas:

Seu belo rosto não empalidece, nem de suas faces
Ele enxuga uma lágrima.

— Odisseia, XI, 528.

E não apenas isso, mas ele nem deseja nem busca coisa alguma, nem homem, nem lugar, nem diversão, como as crianças buscam a vindima ou as festas; sempre fortificado pela modéstia, como outros são fortificados por muros, portas e porteiros.

Mas agora (esses homens), sendo apenas movidos à filosofia, como aqueles que têm o estômago fraco são movidos a certos tipos de alimento que logo enjoam, imediatamente (correm) para o cetro e para o poder real.

Deixam crescer o cabelo, vestem o manto, mostram o ombro descoberto, discutem com aqueles que encontram; e se veem um homem com um casaco grosso de inverno, discutem com ele.

Homem, primeiro exercita-te no tempo de inverno: observa os teus movimentos (inclinações) para que não sejam os de um homem com mau estômago ou os de uma mulher ansiosa.

Primeiro esforça-te para que não se saiba o que és: sê um filósofo para ti mesmo (ou, filosofa para ti mesmo) por um curto tempo.

O fruto cresce assim: a semente deve ser enterrada por algum tempo, escondida, crescer lentamente para que possa chegar à perfeição.

Mas se produz a espiga antes do caule articulado, é imperfeita, um produto do jardim de Adônis." Tal planta pobre és tu também: floresceste cedo demais; o tempo frio te queimará. Vê o que os lavradores dizem sobre as sementes quando há tempo quente cedo demais.

Eles temem que as sementes sejam demasiado luxuriantes, e então uma única geada as agarre e mostre que são precoces.

Considera também tu, meu homem: brotaste cedo demais, apressaste-te para uma pequena fama antes da estação própria: pensas que és algo, um tolo entre tolos: serás apanhado pela geada, e antes que percebas, foste queimado pela geada na raiz abaixo, mas as tuas partes superiores ainda florescem um pouco, e por essa razão pensas que ainda estás vivo e florescente.

Deixa-nos amadurecer de forma natural: por que nos expões? por que nos forces? ainda não somos capazes de suportar o ar.

Deixa a raiz crescer, depois adquire a primeira junta, depois a segunda, e então a terceira: dessa forma o fruto naturalmente se forçará para fora, mesmo que eu não queira.

I. Pois quem, estando grávido e cheio de tão grandes princípios, não percebe também os seus próprios poderes e não se move em direção aos atos correspondentes? Um touro não ignora a sua própria natureza e os seus poderes, quando uma fera selvagem se mostra, nem espera que alguém o incite; nem um cão, quando vê um animal selvagem.

Mas, se eu tenho os poderes de um homem bom, esperarei que me prepares para os meus próprios atos (adequados)? No presente, não os tenho, acredita em mim. Por que então desejas que eu seja mirrado antes do tempo, assim como tu foste mirrado?

CAPÍTULO IX.

A UMA PESSOA QUE SE TORNARA UM CARÁTER SEM VERGONHA.

Quando vês outro homem na posse do poder (magistratura), opõe a isso o fato de que não tens a necessidade (desejo) do poder; quando vês outro rico, vê o que possuis em lugar das riquezas: pois, se nada possuis em lugar delas, és miserável; mas, se não tens a necessidade das riquezas, sabe que possuis mais do que esse homem possui e o que vale muito mais.

Outro homem possui uma bela mulher (esposa): tu tens a satisfação de não desejar uma bela esposa. Essas coisas te parecem pequenas? E quanto dariam essas pessoas, esses mesmos homens que são ricos, e na posse do poder, e vivem com belas mulheres, para poderem desprezar as riquezas, e o poder, e essas mesmas mulheres que amam e desfrutam? Não sabes então o que é a sede de um homem que tem febre? Ele possui algo que em nada se assemelha à sede de um homem saudável: pois o homem saudável cessa de ter sede depois de beber; mas o doente, sendo agradado por um curto tempo, sente náusea, converte a bebida em bile, vomita, é atormentado por cólicas, e tem mais sede.

Tal coisa é ter desejo de riquezas e possuir riquezas, desejo de poder e possuir poder, desejo de uma bela mulher e dormir com ela: a isso se acrescentam o ciúme, o medo de ser privado daquilo que amas, palavras indecentes, pensamentos indecentes, atos inconvenientes.

E o que perco? dirás.

Meu homem, tu eras modesto, e já não o és mais.

Você não perdeu nada? Em lugar de Crisipo e Zenão, você lê Aristides e Eveno; não perdeu nada? Em lugar de Sócrates e Diógenes, você admira aquele que é capaz de corromper e seduzir a maioria das mulheres.

Você deseja parecer belo e se esforça para tornar-se assim, embora não o seja.

Você gosta de exibir roupas esplêndidas para atrair mulheres; e se encontra algum óleo fino (para o cabelo), imagina que é feliz.

Mas outrora você não pensava em nada disso, mas apenas onde houvesse conversa decente, um homem digno e uma concepção genial.

Portanto, você dormia como um homem, caminhava como um homem, usava vestes viris e costumava falar de modo condizente com um bom

Aristides era um grego, mas seu período não é conhecido.

Ele foi o autor de uma obra chamada Milesiaca ou Histórias Milesianas.

Tudo o que sabemos da obra é que era de natureza licenciosa, amatória e libertina.

Foi traduzida para o latim por L. Cornélio Sisenna, contemporâneo do ditador Sula; e é mencionada por Plutarco (Vida de Crasso, c. 32), e várias vezes por Ovídio (Tristia ii. 413 etc.). Eveno era talvez um poeta.

Não sabemos nada deste Eveno, mas podemos conjecturar, por estar aqui associado a Aristides, qual era seu caráter.

Veja a nota de Schweig. sobre a palavra fivpafitiov, que ele tem em seu texto.

Deveria ser (j.vpaoiplou, se a palavra existe.

EPICTETO.

homem; então você me diz: não perdi nada? Assim os homens não perdem nada além de moedas? A modéstia não é perdida? O comportamento decente não é perdido? Aquele que perdeu essas coisas não sofreu perda alguma? Talvez você pense que nenhuma dessas coisas é uma perda.

Mas houve um tempo em que você considerava isso a única perda e dano, e estava ansioso para que nenhum homem o perturbasse dessas (boas) palavras e ações.

Observe, você é perturbado dessas boas palavras e ações por ninguém, mas por si mesmo.

Lute consigo mesmo, restaure-se à decência, à modéstia, à liberdade.

Se algum homem alguma vez vos dissesse isto a meu respeito, que uma pessoa me força a ser adúltero, a usar uma veste como a vossa, a perfumar-me com óleos, não teríeis ido e com vossas próprias mãos matado o homem que assim me caluniou? Agora não vos ajudareis a vós mesmos? E quanto mais fácil é essa ajuda? Não há necessidade de matar homem algum, nem de pô-lo a ferros, nem de tratá-lo com injúrias, nem de ir ao Fórum (aos tribunais de justiça), mas é apenas necessário que faleis convosco mesmo, que sereis mais facilmente persuadido, e com quem nenhum homem tem mais poder de persuasão do que vós mesmos.

Primeiramente, condenai o que estais fazendo; e então, quando o tiverdes condenado, não desespereis de vós mesmo, e não estejais na condição daqueles homens de espírito mesquinho que, uma vez tendo cedido, entregam-se completamente e são arrastados como por uma torrente.

Mas vede o que fazem os treinadores de meninos. Caiu o menino? Pois então, dizem eles, luta novamente até que te tornes forte.

Fazei vós também algo do mesmo tipo: pois sabei bem que nada é mais tratável do que a alma humana.

Deveis exercitar a Vontade, e a coisa está feita, está corrigida; como, por outro lado, basta apenas assentir com a cabeça (ser descuidado), e a coisa está perdida: pois de dentro vem a ruína e de dentro vem a ajuda.

Então (dizeis) que bem obtenho eu? E

O original é εὐξασθαι, Sêneca (Ep. 80): "Quid tibi opus est ut sis bonus? Velle." Upton.

O poder da Vontade é um princípio fundamental com Epicteto.

A vontade é forte em alguns, mas muito fraca em outros; e às vezes, como a experiência parece mostrar, é incapaz de resistir ao poder de velhos hábitos.

EPICTETO.

que bem maior buscais do que este? De um homem sem vergonha tornar-vos-eis um homem modesto, de um desordeiro tornar-vos-eis um homem ordenado, de um infiel tornar-vos-eis um homem fiel, de um homem de hábitos desenfreados um homem sóbrio.

Se buscais algo mais do que isto, continuai fazendo o que estais fazendo: nem mesmo um Deus pode agora ajudar-vos.

CAPÍTULO X.

QUE COISAS DEVEMOS DESPREZAR, E QUE COISAS DEVEMOS VALORIZAR.

As dificuldades de todos os homens são acerca das coisas externas; sua impotência é acerca das coisas externas.

Que farei, como será, como terminará, acontecerá isto, acontecerá aquilo? Todas essas são palavras daqueles que se voltam para coisas que não estão no poder da vontade.

Pois quem diz: Como não hei de assentir ao que é falso? Como não hei de me afastar da verdade? Se um homem for de tão boa disposição que se preocupe com essas coisas, lembrá-lo-ei disto: Por que te preocupas? A coisa está em teu próprio poder: fica tranquilo; não sejas precipitado em assentir antes de aplicares a regra natural.

Por outro lado, se um homem está ansioso (inquieto) acerca do desejo, temendo que ele falhe em seu propósito e erre seu fim, e com respeito à evitação das coisas, temendo cair naquilo que desejaria evitar, primeiro o beijarei (amarei), porque ele lança fora as coisas pelas quais outros estão agitados (desejam) e temem, e emprega seus pensamentos acerca de seus próprios assuntos e de sua própria condição.

Então lhe direi: se não escolhes desejar aquilo que não obterás, nem tentar evitar aquilo em que cairás, não desejes nada que pertença (que esteja no poder) de outros, nem tentes evitar qualquer das coisas que não estão em teu poder.

Se não observares esta regra, necessariamente falharás em teus desejos e cairás naquilo que desejarias evitar.

Onde está a dificuldade aqui? Onde há espaço para as palavras: Como será? e Como se resolverá? e acontecerá isto ou aquilo?

Ora, o que há de acontecer não é independente da vontade? Sim.

E a natureza do bem e do mal não está nas coisas que estão dentro do poder da vontade? Sim.

Está então em teu poder tratar segundo a natureza tudo o que acontece? Pode alguém impedir-te? Ninguém.

Não me digas então: Como será? Pois seja como for, tu o disporás bem, e o resultado para ti será afortunado.

O que teria sido Hércules se dissesse:

"Como não me aparecerá um grande leão, ou um grande javali, ou homens selvagens?" E o que isso te importa? Se um grande javali aparecer, você travará uma luta maior; se homens maus aparecerem, você livrará a terra dos maus.

Suponha então que eu perca a vida dessa maneira.

Você morrerá um homem bom, realizando um ato nobre.

Pois, já que certamente devemos morrer, necessariamente um homem deve ser encontrado fazendo algo, seja seguindo a ocupação de um lavrador, ou cavando, ou negociando, ou servindo em um consulado, ou sofrendo de indigestão ou de diarreia.

O que então você deseja estar fazendo quando for encontrado pela morte? Eu, por minha parte, desejaria ser encontrado fazendo algo que pertence a um homem, benéfico, adequado ao interesse geral, nobre.

Mas se eu não puder ser encontrado fazendo coisas grandes, eu desejaria ser encontrado fazendo ao menos aquilo que

¹ Veja uma passagem em Plutarco sobre a Tranquilidade, de Eurípides, o grande depósito de pensamentos nobres, do qual os escritores antigos extraíam muita boa matéria; e talvez seja uma das razões pelas quais tantas de suas peças e fragmentos foram preservados.

Não devemos brigar com as coisas que são,
Pois elas não se importam comigo,
Mas aquele que sente o peso delas,
Se dispõe bem das coisas, passa bem.

EPICTETO.

não pode ser impedido de fazer aquilo que me é permitido fazer: corrigir-me, cultivar a faculdade que se serve das aparências, trabalhar pela liberdade das afecções (trabalhar pela tranquilidade da mente), dar às relações da vida o que lhes é devido; se eu avançar até esse ponto, também (eu seria encontrado) tocando (avançando para) o terceiro tópico (ou cabeça): a segurança na formação dos juízos sobre as coisas. Se a morte me surpreender enquanto estou ocupado com essas coisas, basta-me se puder estender as mãos a Deus e dizer: Os meios que recebi de ti para ver a tua administração (do mundo) e segui-la, não os negligenciei: não te desonrei pelos meus atos: vê como usei as minhas percepções, vê como usei as minhas preconcepções: alguma vez te culpei? fiquei descontente com alguma coisa que acontece, ou desejei que fosse de outro modo? desejei transgredir as relações (estabelecidas) (das coisas)? Que me deste a vida, agradeço-te pelo que me deste: enquanto usei as coisas que são tuas, estou contente; toma-as de volta e coloca-as onde quiseres; pois tuas eram todas as coisas, tu mas deste — Não é suficiente partir neste estado de mente, e que vida é melhor e mais digna do que a de um homem que está neste estado de mente? e que fim é mais feliz?

¹ Ver iii. c. 2.

² "Tuas eram, e tu mas deste." João xvii. 6. Sra. Carter.

³ 'Eu desejaria que fosse possível atenuar a ostentação desta passagem, aplicando-a ao caráter perfeito ideal: mas é de modo geral que Epicteto propôs tal discurso de morte, que não pode, sem arrogância chocante, ser proferido por qualquer um nascido para morrer. Não misturado, como está, com qualquer reconhecimento de faltas ou imperfeições, no presente, ou com qualquer sentimento de culpa pelo passado, deve dar a todo leitor sóbrio uma opinião muito desvantajosa de alguns princípios da filosofia sobre a qual se funda, como contraditórios à voz da consciência, e formados sobre absoluta ignorância ou negligência da condição e circunstâncias de tal criatura como o homem.' Sra. Carter.

Estou inclinado a pensar que Epicteto se refere ao 'caráter perfeito ideal'; mas outros podem não entendê-lo dessa maneira. Quando a Sra.

Carter diz "mas é em um discurso de despedida geral", ela dificilmente pode supor, como suas palavras parecem significar, que Epicteto propôs tal discurso de despedida para todo homem ou mesmo para muitos homens, pois ele sabia e nos disse quão maus muitos homens são, e quão poucos são bons segundo sua medida e regra: de fato, seu significado está claramente expresso.

Tim

EPICTETO.

Mas para que isso possa ser feito (para que tal declaração possa ser feita), um homem deve suportar (carregar) não pequenas coisas, nem são pequenas as coisas que ele deve perder (dispensar). Você não pode desejar ser cônsul e ter essas coisas (o poder de fazer tal discurso de despedida), e estar ansioso por ter terras, e também essas coisas; e estar solícito acerca de escravos e acerca de si mesmo.

Mas se você deseja qualquer coisa que pertence a outro, aquilo que é seu está perdido.

Esta é a natureza da coisa: nada é dado ou obtido de graça. E onde está a maravilha? Se você deseja ser cônsul, deve permanecer acordado, correr de um lado para outro, beijar mãos, esgotar-se de exaustão às portas de outros homens, dizer e fazer muitas coisas indignas de um homem livre, enviar presentes a muitos, presentes diários a alguns.

E qual é a coisa que se obtém? Doze feixes de varas (os fasces consulares), sentar-se três ou quatro vezes no tribunal, exibir os jogos no Circo e dar ceias em pequenos cestos. Ou, se você

o discurso de despedida pode ser ainda mais forte no sentido em que a Sra. Carter o entende, em minha tradução, onde traduzi uma passagem no texto pelas palavras 'não te desonrei por meus atos', que ela traduz como 'até onde em mim estava, não te desonrei;' o que aparentemente significa, 'até onde pude, não te desonrei.' A tradução latina 'quantum in me fuit,' parece-me bastante ambígua.

Há uma confissão geral de pecados no livro de orações da Igreja da Inglaterra, parte da qual Epicteto não teria rejeitado, penso eu.

Naturalmente, as palavras que formam o caráter peculiarmente cristão da confissão teriam sido ininteligíveis para ele.

É uma confissão que se supõe que todas as pessoas de todas as condições façam.

Se todas as pessoas fizessem a confissão com sinceridade, ela deveria produzir um comportamento correspondente e tornar os homens mais dispostos a serem bondosos uns com os outros, pois todos os que a usam confessam que falham em seu dever, e isso deveria diminuir o orgulho e banir a arrogância do comportamento daqueles que, em riqueza e condição, estão elevados acima da multidão.

Mas já vi dito em algum lugar, não me lembro onde, mas dito em espírito nada amigável à oração cristã, que alguns homens, tanto sacerdotes quanto leigos, prostram-se em humildade diante de Deus e se indenizam com arrogância para com o homem.

» Ver iv. 2. 2.

" Estes eram o que os romanos chamavam de 'sportulae', nas quais os ricos costumavam dar alguns alimentos aos dependentes pobres que vinham prestar seus respeitos aos grandes em hora matinal.

Nunc sportula primo
Limine parva sedet turbae rapienda togatae.

Juvenal, Sát.
i. 95.

364: EPICTETO.

não concordam com isso, que alguém me mostre o que há além dessas coisas.

Para assegurar então a liberdade das paixões (apatheia), a tranquilidade, dormir bem quando dormis, estar realmente desperto quando estais desperto, não temer nada, não estar ansioso por nada, não gastareis nada e não dareis trabalho algum? Mas se algo que vos pertence for perdido enquanto estais assim ocupados, ou for desperdiçado mal, ou outro obtiver o que vós deveríeis ter obtido, ficareis imediatamente vexados com o que aconteceu? Não levareis em conta, por outro lado, o que recebeis e por quê, quanto por quanto? Esperais ter de graça coisas tão grandes? E como podeis? Uma obra (coisa) não tem comunidade com outra.

Não podeis ter tanto as coisas externas, após dedicar-lhes cuidado, quanto a vossa faculdade dominante: mas se quereis aquelas, abandonai esta. Se não o fizerdes, não tereis nem uma nem outra, enquanto sois puxados em direções diferentes para ambas. O azeite será derramado, os utensílios domésticos perecerão: (que seja), mas eu serei livre das paixões (tranquilo) — Haverá um incêndio quando eu não estiver presente, e os livros serão destruídos: mas eu tratarei as aparências segundo a natureza — Bem; mas não terei nada para comer.

Se sou tão desafortunado, a morte é um porto; e a morte é o porto para todos; este é o lugar de refúgio; e por essa razão nenhuma das coisas da vida é difícil: assim que escolheres, estás fora de casa, e não és mais molestado." — Por que então te inquietas, por que perdes o sono, por que não dizes imediatamente, após considerar onde está o teu bem e o teu mal:

Ambos estão em meu poder? Nenhum homem pode privar-me do bem, nem envolver-me no mal contra a minha vontade.

Por que não me deito e ronco? Pois tudo o que tenho está seguro.

Quanto às coisas que pertencem a outros, aquele que as obtém cuidará delas, conforme possam ser dadas por aquele que tem o poder.

Quem sou eu que desejo tê-las desta ou daquela maneira? Foi-me dado o poder de escolhê-las? Alguma pessoa me fez dispensador delas? Aquelas coisas me bastam sobre as quais tenho poder: devo administrá-las o melhor que puder; e todo o resto, como o senhor delas (Deus) escolher.

Quando um homem tem essas coisas diante dos olhos, ele permanece acordado e se revolve de um lado para o outro? O que ele desejaria, ou do que se arrependeria, de Pátroclo, Antíloco ou Menelau? Pois quando supôs que algum de seus amigos fosse imortal, e quando não teve diante dos olhos que no dia seguinte ou no outro ele ou seu amigo deveria morrer? Sim, diz ele, mas pensei que ele sobreviveria a mim e criaria meu filho.

— Foste tolo por essa razão, e pensavas no que era incerto.

Por que então não te culpas a ti mesmo, e te sentas chorando como meninas? — Mas ele costumava pôr a minha comida diante de mim. — Porque ele estava vivo, tolo, mas agora não pode; mas Automedonte a porá diante de ti, e se Automedonte também morrer, encontrarás outro.

Mas se a panela, na qual tua carne era cozida, se quebrasse, deves tu morrer de fome?

São Paulo, pelo contrário, consola os enlutados sobreviventes; ordenando-lhes que não se entristeçam, como aqueles que não têm esperança; mas lembrem que a morte das pessoas boas é apenas um sono; do qual logo despertarão para uma imortalidade feliz." Sra. Carter.

Epicteto não diz: 'valorize seu amigo falecido como um pote quebrado.' Aquiles lamenta ter perdido os serviços de seu amigo à mesa, um tipo vulgar de queixa: ele está pensando em sua própria perda, em vez de seu amigo.

A resposta é que tal perda como ele lamenta é facilmente reparada: a perda de tal amigo é tão facilmente reparada quanto a perda de um utensílio de cozinha.

A Sra. Carter, em seu zelo para contrastar o ensinamento do Apóstolo com o de Epicteto, parece esquecer por um momento que Epicteto, até onde sabemos, não aceitava ou não ensinava a doutrina de uma vida futura.

Quanto ao que ele pensava sobre amizade, se era uma amizade real, tal como podemos conceber, tenho certeza de que ele não pensava nisso como a Sra. Carter diz que ele pensava; pois a verdadeira amizade implica muitas das virtudes que Epicteto ensinou e praticou.

Ele tem um capítulo sobre Amizade, ii. 22, que suponho que a Sra. Carter não considerou quando escreveu esta nota.

EPICTETO.

fome, porque você não tem o pote ao qual está acostumado? Você não manda comprar um pote novo? Ele diz:

Nenhum mal maior do que este poderia cair sobre mim. (Ilíada, seis. 321.)

Por que isso é o seu mal? Você então, em vez de removê-lo, culpa sua mãe (Tétis) por não ter previsto isso para você, para que você continuasse sofrendo desde então? O que você pensa? Você não supõe que Homero escreveu isso para que aprendamos que aqueles de nascimento mais nobre, os mais fortes e os mais ricos, os mais belos, quando não têm as opiniões que deveriam ter, não são impedidos de serem os mais miseráveis e infelizes?

CAPÍTULO XI. SOBRE A PUREZA (limpeza).

Algumas pessoas levantam a questão de saber se o sentimento social está contido na natureza do homem; e ainda assim penso que essas mesmas pessoas não teriam dúvida de que o amor pela pureza está certamente contido nela, e que se o homem se distingue dos outros animais por alguma coisa, é por isso.

Quando, então, vemos qualquer outro animal a limpar-se, costumamos falar do ato com surpresa e acrescentar que o animal está agindo como um homem; e, por outro lado, se um homem censura um animal por ser sujo, imediatamente, como se estivéssemos a desculpá-lo, dizemos que, naturalmente, o animal não é uma criatura humana.

Assim, supomos que há algo de superior no homem, e que o recebemos primeiramente dos Deuses.

Pois, uma vez que os Deuses, por sua natureza, são puros e livres de corrupção, na medida em que os homens se aproximam deles pela razão, nessa medida se apegam à pureza e ao amor (hábito)

A palavra é rh koivwvmov.

Compare i. 23, 1, it 10, 14, ii. 20, 6.

EPICTETO.

da pureza.

Mas, como é impossível que a natureza do homem (ovo-ta) seja totalmente pura, sendo misturada (composta) de tais materiais, a razão é aplicada, tanto quanto é possível, e a razão se esforça para fazer a natureza humana amar a pureza.

A primeira e mais alta pureza, então, é a que está na alma; e o mesmo dizemos da impureza.

Ora, não poderias descobrir a impureza da alma como descobririas a do corpo; mas, quanto à alma, que mais poderias encontrar nela senão aquilo que a torna imunda em relação aos atos que lhe são próprios? Ora, os atos da alma são movimento em direção a um objeto ou movimento para longe dele, desejo, aversão, preparação, desígnio (propósito), assentimento.

O que é, então, que nesses atos torna a alma imunda e impura? Nada mais do que seus próprios juízos errôneos (/cpt/xara). Consequentemente, a impureza da alma são as más opiniões da alma; e a purificação da alma é o plantar nela opiniões adequadas; e a alma é pura a que tem opiniões adequadas, pois só a alma, em seus próprios atos, está livre de perturbação e poluição.

Ora, devemos trabalhar em algo semelhante também no corpo, tanto quanto pudermos.

Era impossível que as defluxões do nariz não corressem, quando o homem tem tal mistura em seu corpo.

Por essa razão, a natureza fez as mãos e as próprias narinas como canais para conduzir os humores.

Se, então, um homem suga as defluxões, digo que ele não está praticando um ato de homem.

Era impossível que os pés de um homem não se enlameassem e não se sujassem de todo ao passar por lugares sujos.

Por essa razão, a natureza (Deus) fez a água e as mãos.

Era impossível que alguma impureza não permanecesse nos dentes por causa da alimentação: por isso, ela diz, lava os dentes.

Por quê? Para que sejas um homem e não uma fera selvagem ou um porco.

Era impossível que, do suor e da pressão das roupas, não permanecesse alguma impureza no corpo que exija ser limpa.

Por essa razão, água, óleo, mãos,

"No texto há duas palavras, Ka6ap6s, que significa 'puro', e KaOdptos, que significa 'de natureza pura', 'amante da pureza'."

3C8 EPICTETO.

toalhas, raspadores (estrégilos), nitro, às vezes todos os outros tipos de meios são necessários para limpar o corpo.

Tu não ages assim: mas o ferreiro removerá a ferrugem dos instrumentos de ferro, e terá ferramentas preparadas para esse fim, e tu mesmo lavas o prato quando vais comer, se não fores completamente impuro e sujo: mas não lavarás o corpo nem o tornarás limpo? Por quê? — ele responde.

Dir-te-ei novamente: em primeiro lugar, para que pratiques os atos de um homem; depois, para que não sejas desagradável àqueles com quem convives.

Fazes algo desse tipo até mesmo nessa questão, e não o percebes: pensas que mereces feder.

Que assim seja: mereces feder. Pensas que também aqueles que se sentam ao teu lado, os que se reclinam à mesa contigo, que aqueles que te beijam merecem o mesmo? Ou vai para um deserto, para onde mereces ir, ou vive sozinho, e cheira a ti mesmo.

Pois é justo que tu sozinho desfrutes da tua própria impureza.

Mas quando estás numa cidade, comportar-te tão inconsiderada e tolamente, a que caráter pensas que isso pertence? Se a natureza te tivesse confiado um cavalo, tê-lo-ias negligenciado e descuidado? E agora pensa que te foi confiado o teu próprio corpo como um cavalo; lava-o, enxuga-o, cuida para que nenhum homem se afaste dele, para que ninguém se desvie por causa dele. Mas quem não se desvia de um homem sujo, de um homem fedorento, de um homem cuja pele é imunda, mais do que se desvia de um homem coberto de esterco? Aquele odor vem de fora, é-lhe imposto; mas o outro odor é

"A σπύρα, como Epicteto a nomeia, era a 'strigilis' romana, que era usada para raspar e limpar o corpo no banho. Pérsio (v. 126) escreve —

'I, puer, et strigiles Crispini ad balnea defer.'

Os estrégilos eram de bronze ou ferro, de várias formas.

Eram aplicados ao corpo de maneira muito semelhante à que vemos um pedaço de arco aplicado a um cavalo suado." Pompeia, editado pelo Dr. Dyer.

Veja a nota de Schweig.

Veja a nota de Schweig.

Se o texto está correto, a forma de expressão é inexata e não exprime claramente o significado; mas o significado pode ser facilmente descoberto.

I

EPICTETO.

3C

por falta de cuidado, de dentro, e de certo modo de um corpo em putrefação.

Mas Sócrates lavava-se raramente — Sim, mas seu corpo era limpo e belo; e era tão agradável e doce que os mais belos e os mais nobres o amavam e desejavam sentar-se ao seu lado, em vez de ao lado daqueles que tinham as formas mais elegantes.

Estava em seu poder não usar o banho nem lavar-se, se assim escolhesse; e, no entanto, o uso raro da água produzia um efeito.

[Se não escolheres lavar-te com água morna, lava-te com água fria.] Mas Aristófanes diz:

Aqueles que são pálidos, descalços, é a esses que me refiro.

(Nuves V. 102.)

Pois Aristófanes diz de Sócrates que ele também andava pelo ar e roubava roupas da palestra. Mas todos os que escreveram sobre Sócrates dão exatamente o testemunho contrário a seu favor; dizem que ele era agradável não apenas de ouvir, mas também de ver. Por outro lado, escrevem o mesmo sobre Diógenes. Pois não devemos, nem mesmo pela aparência do corpo, afastar a multidão da filosofia; mas, assim como em outras coisas, um filósofo deve mostrar-se alegre e tranquilo, também deve nas coisas que se relacionam ao corpo: Vede, homens, que nada tenho, que nada me falta; vede como estou sem casa, e sem cidade, e exilado, se assim acontece, e sem lar vivo mais livre de preocupações e mais feliz do que todos os de nascimento nobre e do que os ricos.

Mas olhai também para meu pobre corpo e observai que ele não é prejudicado pelo meu modo de vida austero — Mas se um homem me diz isso, que tem a aparência (vestimenta) e o rosto de um condenado, que Deus me persuadirá a aproximar-me da filosofia, se ela torna os homens tais? Longe disso; eu não escolheria fazê-lo, mesmo que

 Veja o que é dito sobre esta passagem na parte final deste capítulo.

 Aristófanes, Nubes, v. 225, e v. 179.

 Xenofonte, Memorab. iii. 12. » Ver iii. 22, 88.

» Diógenes, diz-se, foi expulso de sua cidade natal, Sinope, na Ásia, sob a acusação de ter desvalorizado ou falsificado a moeda. — Upton.

É provável que isso seja falso.

" Sobre a palavra wo-re veja a nota de Schwäig.

B.

EPICTETO.

eu fosse tornar-me um homem sábio.

Eu preferiria, de fato, que um jovem, dando seus primeiros passos em direção à filosofia, viesse a mim com os cabelos bem aparados do que sujos e desgrenhados, pois nele se vê uma certa noção (aparência) de beleza e um desejo (tentativa) daquilo que é conveniente; e onde ele supõe que isso esteja, ali também se esforça para que assim seja. Basta apenas mostrar-lhe (o que é) e dizer: Jovem, tu buscas a beleza, e fazes bem: deves saber então que ela (se produz) cresce naquela parte de ti onde tens a faculdade racional: procura-a ali onde tens os movimentos em direção às coisas e os afastamentos delas, onde tens os desejos em direção às coisas e a aversão delas: pois isto é o que tens em ti de natureza superior; mas o pobre corpo é naturalmente apenas terra: por que te afadigas com ele em vão? Se nada mais aprenderes, aprenderás com o tempo que o corpo não é nada.

Mas se um homem vem a mim besuntado de imundície, sujo, com um bigode que desce até os joelhos, o que posso dizer-lhe, por que tipo de semelhança posso conduzi-lo? Pois com o que ele se ocupou que se assemelhe à beleza, para que eu possa transformá-lo e dizer:

A beleza não está nisto, mas naquilo? Queres que eu lhe diga que a beleza não consiste em estar besuntado de lama, mas que reside na parte racional? Tem ele algum desejo de beleza? Tem ele alguma forma dela em sua mente? Vai falar com um porco, e dize-lhe que não se revolva na lama.

Por essa razão, as palavras de Xenócrates tocaram também Polemon, pois ele era um amante da beleza, pois entrou (na sala) tendo em si certos estímulos (ivava-fjiaTa) para o amor da beleza, mas a procurava no lugar errado. Pois a natureza não tornou sujos nem mesmo os animais que convivem com o homem.

Um cavalo alguma vez se revolve na lama, ou um cão bem-educado? Mas o porco, e os gansos sujos, e os vermes e as aranhas o fazem, que são os mais afastados do convívio humano.

Tu então, sendo homem, escolhes não ser como um dos animais que convivem com o homem, mas antes um verme ou uma aranha? 

" Quanto a Polemon, ver iii. c. 1, 14.

EPICTETO.

Você não se lavará em algum lugar, em algum momento, da maneira que escolher? Não lavará a sujeira do seu corpo? Não se purificará para que aqueles com quem convive tenham prazer em estar com você? Mas você vai conosco até mesmo aos templos em tal estado, onde não é permitido cuspir ou assoar o nariz, sendo um monte de saliva e de muco?

"Então o quê? Algum homem (isto é, eu) exige que você se enfeite? Longe disso; exceto para ornamentar aquilo que realmente somos por natureza, a faculdade racional, as opiniões, as ações; mas quanto ao corpo, apenas até o ponto da pureza, apenas até o ponto de não causar ofensa.

Mas se lhe disserem que você não deve vestir roupas tingidas de púrpura, vá e lambuze seu manto com esterco ou rasgue-o. Mas como terei um manto asseado? Homem, você tem água; lave-o. Eis um jovem digno de ser amado, eis um velho digno de amar e ser amado em retorno, uma pessoa adequada para que um homem lhe confie a instrução de um filho, a quem filhas e jovens virão, se a oportunidade assim ocorrer, para que o mestre ministre suas lições a eles sobre uma esterqueira. Que isso não seja assim: todo desvio vem de algo que está na natureza do homem; mas este (desvio) está próximo de ser algo que não está na natureza do homem.

Foi sugerido que as palavras a. 19, [se você não escolher lavar-se com água morna, lave-se com água fria, p. 369] pertencem a este lugar.

;

" Esta é a tradução literal: mas significa, 'você irá, etc., rasgá-lo?'

" 'O jovem, provavelmente, significa o estudante, que negligencia a asseio; e o velho, o tutor, que não lhe dá preceito ou exemplo disso.' Sra. Carter.

" O grego é eyri ras rx{Aas. Cícero usa o latim scholaa habere, 'manter disputas filosóficas:' Tusc. Disp. j 4. Upton.

B

EPICTETO.

CAPÍTULO XU

SOBRE A ATENÇÃO

Quando você tiver relaxado sua atenção por um curto período de tempo, não imagine isto, que a recuperará quando escolher; mas deixe este pensamento estar presente em você: que em consequência da falta cometida hoje, seus negócios devem estar em pior condição para tudo o que se segue.

Pois primeiro, e o que causa mais transtorno, um hábito de não prestar atenção é [formado em você]; depois, um hábito de adiar sua atenção.

E continuamente, de tempos em tempos, você afasta, adiando, a felicidade da vida, o comportamento adequado, o ser e o viver conforme a natureza. Se então a procrastinação da atenção é proveitosa, a omissão completa da atenção é mais proveitosa; mas se não é proveitosa, por que você não mantém sua atenção constante? — Hoje escolho jogar — Bem, então, não deveria você jogar com atenção? — Escolho cantar — "O que então o impede de fazê-lo com atenção? Há alguma parte da vida à qual a atenção não se estenda? Pois você fará algo (qualquer coisa na vida) pior usando atenção, e melhor não atendendo de modo algum? E o que mais, das coisas da vida, é feito melhor por aqueles que não usam atenção? Aquele que trabalha em madeira trabalha melhor por não prestar atenção? O capitão de um navio o gerencia melhor por não prestar atenção? E algum dos atos menores é feito melhor pela desatenção? Você não vê que, quando solta sua mente, ela não está mais em seu poder para ser reconvocada, seja à conveniência, seja à modéstia, seja à moderação: mas você faz tudo o que vem à mente, em obediência às suas inclinações.

A que coisas então devo atender? Primeiro àquelas gerais (princípios) e tê-las prontas, e sem elas não dormir, não levantar, não beber, não comer, não conversar (associar-se) com homens; que nenhum homem é senhor da vontade de outro homem, mas que somente na vontade estão o bem e o mal.

Nenhum homem então tem o poder de me proporcionar qualquer bem ou de me envolver em qualquer mal, mas eu sozinho, sobre mim mesmo, tenho poder nessas coisas.

Quando então essas coisas estão asseguradas para mim, por que preciso me perturbar com coisas externas? Que tirano é formidável, que doença, que pobreza, que ofensa (de qualquer homem)? Bem, não agradei a certa pessoa.

É ele então (o agradar-lhe) meu trabalho, meu julgamento? Não. Por que então deveria me preocupar com ele? — Mas ele é suposto ser alguém (de importância) — Ele cuidará disso ele mesmo; e aqueles que assim pensam também o farão.

Mas tenho alguém a quem devo agradar, a quem devo submeter-me, a quem devo obedecer: Deus e aqueles que estão próximos dele. Ele me colocou comigo mesmo, e pôs minha vontade em obediência somente a mim, e me deu regras para o uso correto dela; e quando sigo essas regras em silogismos, não me importo com nenhum homem que diga qualquer coisa diferente: em argumento sofístico, não me importo com ninguém.

Por que então, em questões maiores, aqueles que me censuram me incomodam? Qual é a causa dessa perturbação? Nada mais senão porque neste assunto (tópico) não sou disciplinado.

Pois todo conhecimento (ciência) despreza a ignorância e os ignorantes; e não apenas as ciências, mas até as artes.

Apresente qualquer sapateiro que você queira, e ele ridiculariza a multidão em relação ao seu próprio trabalho (ofício). Apresente qualquer carpinteiro.

Primeiro, então, devemos ter essas (regras) em prontidão, e não fazer nada sem elas, e devemos manter a alma direcionada a este alvo: não buscar nada externo, e nada que pertença a outros (ou que esteja no poder de outros), mas fazer como aquele que tem o poder determinou; devemos buscar inteiramente as coisas que estão no poder da vontade, e todas as outras coisas conforme for permitido.

Em seguida, devemos lembrar quem somos, e qual é o nosso nome, e nos esforçar para direcionar nossos deveres conforme o caráter (natureza) de nossas várias relações (na vida) desta maneira: qual é a estação para cantar, qual é a estação para o jogo, e na presença de quem; qual será a consequência do ato; se nossos companheiros nos desprezarão, se nós os desprezaremos; quando zombar, e a quem ridicularizar; e em que ocasião ceder e com quem; e finalmente, ao ceder, como manter nosso próprio caráter. Mas onde quer que você tenha se desviado de qualquer uma dessas regras, há dano imediato, não de qualquer coisa externa, mas da própria ação.

Que então? É possível estar livre de faltas (se fizerdes tudo isto)? Não é possível; mas isto é possível: dirigir vossos esforços incessantemente para serdes irrepreensível.

Pois devemos contentar-nos se, nunca relaxando essa atenção, escaparmos ao menos a alguns erros.

Mas agora, quando tiverdes dito: "Amanhã começarei a prestar atenção", deveis ser informado de que estais dizendo isto: "Hoje serei sem-vergonha, desatento ao tempo e ao lugar, mesquinho; estará no poder dos outros causar-me dor; hoje serei apaixonado e invejoso."

Vede quantas coisas más estais permitindo a vós mesmo fazer. Se é bom usar de atenção amanhã, quanto melhor é fazê-lo hoje? Se amanhã é do vosso interesse prestar atenção, muito mais o é hoje, para que possais fazê-lo também amanhã, e não o adieis novamente para o terceiro dia.

"Quid sumus, aut quidnam victuri gignimur." Persius, Sat. iii. 67.

Schweig. pensa que o texto será melhor traduzido segundo a noção de Upton e a de H. Stephen (fora de propósito) por "Quid sit ab re futurum", "o que estará fora de propósito". Talvez ele tenha razão.

Schweig. diz que o sentido da passagem, como a traduzi, exige a leitura καταφρονήσουσιν; e assim é, pelo menos nos melhores escritores gregos.

¹ Ver iii. 14, 7; i. 29, 64.

² Comparar Antonino, viii. 22: "Atende à matéria que está diante de ti, seja uma opinião, um ato ou uma palavra. Sofres isto justamente, pois preferes tornar-te bom amanhã a ser bom hoje."

EPICTETO.

CAPÍTULO XIII.

CONTRA OU PARA AQUELES QUE PRONTAMENTE CONTAM SEUS PRÓPRIOS ASSUNTOS.

Quando um homem nos pareceu ter falado com simplicidade (candura) sobre seus próprios assuntos, como é que, por fim, nós também somos induzidos a descobrir-lhe nossos próprios segredos, e pensamos que isto é comportamento cândido? Em primeiro lugar, porque parece injusto que um homem tenha ouvido os assuntos de seu vizinho e não lhe comunique também, em troca, os nossos próprios assuntos; em segundo lugar, porque pensamos que não apresentaremos a eles a aparência de homens cândidos quando silenciamos sobre nossos próprios assuntos.

De fato, os homens costumam dizer: "Contei-lhe todos os meus assuntos; você não me contará nada dos seus?" Onde isso se faz? — Além disso, temos também esta opinião: que podemos confiar com segurança naquele que já nos contou seus próprios assuntos; pois surge em nossa mente a noção de que esse homem jamais divulgaria os nossos assuntos, porque teria cuidado de que nós também não divulgássemos os dele.

Dessa maneira também os incautos são capturados pelos soldados em Roma.

Um soldado senta-se ao seu lado em uma taverna comum e começa a falar mal de César; então você, como se tivesse recebido uma garantia de sua fidelidade pelo fato de ele ter começado o insulto, profere também o que pensa, e então é levado em correntes.

Algo desse tipo também nos acontece geralmente.

Agora, já que este homem confiou seus assuntos a mim com confiança, devo eu também fazê-lo a qualquer homem que encontrar? (Não).

'Schweig.

escreve *irus nore*, etc., e traduz 'excitamur quodara- modo et ipsi,' etc.

Ele dá o sentido, mas o *irus nore* é propriamente uma pergunta.

O homem, fosse soldado ou não, era um informante, um daqueles homens vis que exerciam esse vergonhoso ofício sob o império.

Ele era o que Juvenal chama de 'delator'. Upton, que se refere à vida de Adriano por Élio Esparciano, fala até de esse imperador empregar soldados chamados Frumentários para descobrir o que era dito e feito em casas particulares.

João Batista (Lucas iii.

14), em resposta à pergunta dos soldados: 'E nós, que faremos?', disse-lhes: 'A ninguém trateis mal, nem acuseis falsamente; e contentai-vos com o vosso soldo.' Upton.

EPICTETO.

Pois quando ouvi, guardo silêncio, se sou de tal disposição; mas ele sai e conta a todos os homens o que ouviu.

Então, se eu ouvir o que foi feito, se eu for um homem como ele, resolvo vingar-me, divulgo o que ele me contou; perturbo os outros e sou perturbado eu mesmo.

Mas se eu me lembrar de que um homem não prejudica a outro, e que os atos de cada um prejudicam e beneficiam a si mesmo, asseguro isto: que não faço nada como ele, mas ainda assim sofro o que sofro por minha própria conversa tola.

Verdade: mas é injusto que, tendo você ouvido os segredos do seu vizinho, por sua vez não lhe comunique nada.

— Pedi eu os teus segredos, meu homem? Comunicaste tu os teus assuntos sob certas condições, para que em troca ouvisses também os meus? Se és um tagarela e pensas que todos os que te encontram são amigos, queres que eu também seja como tu? Mas por que, se fizeste bem em confiar-me os teus assuntos, e não me é bom confiar-te os meus, queres que eu seja tão imprudente? É exatamente o mesmo que se eu tivesse um tonel que é estanque, e tu um com um furo, e viesses depositar comigo o teu vinho para que eu o colocasse no meu tonel, e então te queixasses de que eu também não confiasse o meu vinho a ti, pois tens um tonel com um furo. Como então há aqui igualdade? Confiaste os teus assuntos a um homem que é fiel e modesto, a um homem que pensa que somente as suas próprias ações são prejudiciais e (ou) úteis, e que nada externo o é. Quererias que eu confiasse os meus a ti, um homem que desonrou a sua própria faculdade da vontade, e que deseja obter um pouco de dinheiro ou algum cargo ou promoção na corte (palácio do imperador), mesmo que fosses assassinar os teus próprios filhos, como Medeia? Onde (em quê) está essa igualdade (justiça)? Mas mostra-te a mim como fiel, modesto e firme: mostra-me que tens opiniões amigáveis; mostra que o teu tonel não tem furo; e verás como não esperarei que confies em mim os teus assuntos, mas eu mesmo irei a ti e te pedirei que ouças os meus.

Pois quem não escolhe fazer uso de um bom vaso? Quem não valoriza um conselheiro benevolente e fiel? Quem não receberá de bom grado um homem

EPICTETO.

que está pronto a compartilhar, por assim dizer, a dificuldade das suas circunstâncias, e por esse próprio ato aliviar o fardo, tomando uma parte dele.

Verdade: mas eu confio em ti; tu não confias em mim. — Em primeiro lugar, nem mesmo confias em mim, mas és um tagarela, e por essa razão não podes reter nada; pois, de fato, se é verdade que confias em mim, confia os teus assuntos somente a mim; mas agora, sempre que vês um homem desocupado, sentas-te junto a ele e dizes: Irmão, não tenho amigo mais benevolente nem mais querido do que tu; rogo-te que ouças os meus assuntos.

E fazes isso até mesmo com aqueles que não te são absolutamente conhecidos.

Mas se realmente confias em mim, é evidente que confias em mim porque sou fiel e modesto, não porque contei os meus assuntos a ti.

Permite-me então ter a mesma opinião sobre ti.

Mostre-me que se um homem conta seus assuntos a outro, aquele que os conta é fiel e modesto.

Pois se assim fosse, eu andaria contando meus assuntos a todo homem, se isso me tornasse fiel e modesto.

Mas a coisa não é assim, e requer opiniões (princípios) não comuns. Se então vês um homem que está ocupado com coisas que não dependem de sua vontade e sujeitando sua vontade a elas, deves saber que esse homem tem dez mil pessoas para compelir e impedir.

Ele não precisa de piche ou da roda para compelir a declarar o que sabe: mas um aceno de uma menina, se assim acontecer, o moverá, a lisonja de alguém que pertence à corte de César, o desejo de uma magistratura ou de uma herança, e coisas sem fim dessa espécie.

Deves lembrar então, entre os princípios gerais, que discursos secretos (discursos sobre assuntos secretos) requerem fidelidade e opiniões correspondentes.

Mas onde podemos encontrar isso facilmente agora? Ou se não podes responder a essa pergunta, que alguém me aponte um homem que possa dizer: "Só me importo com as coisas que são minhas, as coisas que não estão sujeitas a impedimento, as coisas que são por natureza livres."

Isto considero ser a natureza do bem: mas deixe todas as outras coisas serem como são permitidas; não me preocupo com elas.

A roda e o piche eram instrumentos de tortura para extrair confissões.

Ver ii. G, 18, e a nota de Sciiweig lá.

O ENCHEIRIDION, OU MANUAL/

I.

Das coisas, algumas estão em nosso poder, e outras não.

Em nosso poder estão a opinião (vTróripsis), o movimento em direção a uma coisa (hormé), o desejo, a aversão (ekklisis, afastar-se de uma coisa); e, em uma palavra, tudo o que são nossos próprios atos: não em nosso poder estão o corpo, a propriedade, a reputação, os cargos (poder magistral); e, em uma palavra, tudo o que não são nossos próprios atos.

E as coisas em nosso poder são por natureza livres, não sujeitas a restrição nem impedimento: mas as coisas que não estão em nosso poder são fracas, servis, sujeitas a restrição, no poder de outros.

Lembre-se, então, de que, se você considerar livres as coisas que por natureza são servis, e considerar suas as coisas que estão no poder de outros, você será impedido, você se lamentará, você ficará perturbado, você culpará tanto os deuses quanto os homens; mas, se você considerar seu apenas o que é seu, e se considerar que o que é de outro, como realmente é, pertence a outro, nenhum homem jamais o compelirá, nenhum homem o impedirá, você nunca culpará ninguém, não acusará ninguém, não fará nada involuntariamente (contra a sua vontade), nenhum homem o prejudicará, você não terá inimigo, pois não sofrerá dano algum.

Se então você deseja (almeja) coisas tão grandes, lembre-se de que não deve (tentar) alcançá-las com um pequeno esforço; mas deve deixar de lado algumas coisas inteiramente, e adiar outras por enquanto.

Mas se você deseja também estas coisas (tais grandes coisas), e poder (cargo) e riqueza, talvez você não obtenha nem mesmo essas próprias coisas (poder e riqueza), porque você almeja também aquelas primeiras coisas (tais grandes coisas); certamente você falhará naquelas coisas através das quais somente a felicidade e a liberdade são asseguradas.

Então, imediatamente, pratique dizer a toda aparência dura: Você é uma aparência, e de nenhuma maneira o que parece ser. Em seguida, examine-a pelas regras que você possui, e por esta primeira e principalmente: se ela se relaciona às coisas que estão em nosso poder ou às coisas que não estão em nosso poder; e se ela se relaciona a algo que não está em nosso poder, esteja pronto a dizer que isso não lhe diz respeito.

II.

Lembre-se de que o desejo contém em si a promessa (esperança) de obter aquilo que se deseja; e a promessa (esperança) na aversão (afastar-se de uma coisa) é que você não cairá naquilo que tenta evitar; e aquele que falha em seu desejo é infeliz; e aquele que cai naquilo que evitaria é desditoso.

Se então você tentar evitar apenas as coisas contrárias à natureza que estão dentro do seu poder, você não se envolverá em nenhuma das coisas que evitaria.

Mas se você tentar evitar a doença, a morte ou a pobreza, você será infeliz.

Afasta, pois, a aversão de todas as coisas que não estão em nosso poder, e transfere-a para as coisas contrárias à natureza que estão em nosso poder.

Mas destrói completamente o desejo, por ora.

Pois, se desejas algo que não está em nosso poder, serás infeliz; mas, das coisas que estão em nosso poder, e que seria bom desejar, nada ainda se apresenta diante de ti.

Mas emprega apenas o poder de mover-se em direção a um objeto e de retirar-se dele; e esses poderes, na verdade, apenas ligeiramente, e com exceções, e com remissão.

' Esta passagem será obscura no original, a menos que seja bem examinada.

Segui a explicação de Simplício, iv. (i. 4.)

As aparências são denominadas 'ásperas' ou 'rudes' quando são 'contrárias à razão e excessivamente excitantes e, de fato, tornam a vida rude (acidentada) pela falta de simetria e pela desigualdade nos movimentos.

Simplício, v. (i. 5.)

' Veja as notas na edição de Schweig.

EPICTETO.

III.

Em tudo o que agrada à alma, ou supre uma necessidade, ou é amado, lembra-te de acrescentar isto à (descrição, noção); qual é a natureza de cada coisa, começando pela menor? Se amas um vaso de barro, dize que é um vaso de barro que amas; pois, quando for quebrado, não te perturbarás.

Se estás beijando teu filho ou tua esposa, dize que é um ser humano que estás beijando; pois, quando a esposa ou o filho morrer, não te perturbarás.

IV.

Quando estiveres prestes a empreender qualquer ato, lembra-te de que tipo de ato é. Se vais tomar banho, coloca diante de ti o que acontece no banho: alguns salpicando a água, outros empurrando-se uns aos outros, outros insultando-se, e alguns roubando; e assim, com mais segurança, empreenderás a questão, se disseres a ti mesmo: agora pretendo tomar banho e manter minha vontade de maneira conforme à natureza.

E assim farás em todo ato; pois, assim, se qualquer obstáculo ao banho acontecer, que este pensamento esteja pronto: não era somente isto que eu pretendia, mas pretendia também manter minha vontade de maneira conforme à natureza; e não a manterei assim, se me afligir com o que acontece.

V.

Os homens não são perturbados pelas coisas que acontecem, mas pelas opiniões sobre as coisas: por exemplo, a morte não é nada terrível, pois, se o fosse, teria parecido assim a Sócrates; pois a opinião sobre a morte, de que é terrível, é a coisa terrível.

Quando, pois, somos impedidos, perturbados ou afligidos, nunca culpemos os outros, mas a nós mesmos, isto é, às nossas opiniões.

É ato de homem mal instruído culpar os outros por sua própria má condição; é ato de quem começou a ser instruído culpar a si mesmo; e de quem tem a instrução completa, não culpar nem a outro, nem a si mesmo.

VI.

Não te envaideças de qualquer vantagem (excelência) que pertença a outro.

Se um cavalo, envaidecido, dissesse: "Sou belo", poder-se-ia tolerar. Mas quando te envaideces e dizes: "Tenho um belo cavalo", deves saber que te envaideces por teres um bom cavalo. O que é, então, teu? O uso das aparências.

Consequentemente, quando no uso das aparências estiveres conforme à natureza, então te envaidece, pois então te envaidecerás de algo bom que é teu.

VII.

Como numa viagem, quando o navio chegou a um porto, se sais para buscar água, é um passatempo pelo caminho colher um marisco ou algum bolbo, mas teus pensamentos devem estar voltados para o navio, e deves estar constantemente vigiando se o capitão chama, e então deves lançar fora todas essas coisas, para que não sejas amarrado e atirado ao navio como ovelha; assim também na vida, se te forem dados, em vez de um pequeno bolbo e um marisco, uma esposa e um filho, nada impedirá (que os tomes). Mas se o capitão chamar, corre ao navio, e deixa todas essas coisas sem lhes dar atenção.

Mas se fores velho, nem sequer te afastes muito do navio, para que, quando fores chamado, não faltes.

VIII.

Não busques que as coisas que acontecem aconteçam como desejas; mas deseja que as coisas que acontecem sejam como são, e terás um fluxo tranquilo de vida.

IX.

A doença é um impedimento para o corpo, mas não para a vontade, a menos que a própria vontade assim o escolha.

A claudicação é um impedimento para a perna, mas não para a vontade.

E acrescenta esta reflexão por ocasião de tudo o que acontece; pois acharás que é um impedimento para outra coisa, mas não para ti mesmo.

Upton propõe ler 'linrov ayad' em vez de 'iirirf aya6f'. O significado então será 'envaidecido de algo bom que está no cavalo'. Creio que ele tem razão.

O texto tem rit yfvdntva: mas deveria ser tc ytv6f(va. Ver nota de Upton.

EPICTETO.

X.

Na ocasião de todo acidente (evento) que te sobrevenha, lembra-te de voltar-te para ti mesmo e indagar que poder tens para utilizá-lo.

Se vires um homem belo ou uma mulher bela, descobrirás que o poder de resistir é a temperança (continência). Se o trabalho (dor) te for apresentado, descobrirás que é a resistência.

Se forem palavras abusivas, descobrirás que é a paciência.

E se tiveres sido assim formado ao hábito (próprio), as aparências não te arrastarão consigo.

XI.

Nunca digas sobre qualquer coisa: eu a perdi, mas dize: eu a restituí. Teu filho morreu? Foi restituído.

Tua esposa morreu? Foi restituída.

Tua propriedade foi-te tomada? Não foi então também isto restituído? Mas aquele que a tomou de mim é um homem mau.

Mas que te importa por cujas mãos o doador a reclamou de volta? Enquanto ele te permitir, cuida dela como de uma coisa que pertence a outro, como os viajantes fazem com sua estalagem.

XII.

Se pretendes melhorar, lança fora pensamentos como estes: se eu negligenciar meus negócios, não terei meios de viver; se eu não castigar meu escravo, ele será mau.

Pois é melhor morrer de fome e assim ser liberto da dor e do medo do que viver em abundância com perturbação; e é melhor que teu escravo seja mau do que tu sejas infeliz. Começa então pelas coisas pequenas.

O azeite foi derramado? Um pouco de vinho foi roubado? Dize na ocasião: por tal preço se vende a liberdade da perturbação; por tal preço se vende a tranquilidade, mas nada se obtém sem custo.

E quando chamares teu escravo, considera que é possível que ele não ouça; e se ouvir, que

Ele quer dizer.

Não castigues teu escravo enquanto estiveres em paixão, para que, enquanto tentas corrigi-lo, e é muito duvidoso se terás sucesso, não caias num vício que é a grande e única calamidade do homem.

Schweig.

EriCTETUs.

ele não fará nada do que desejas.

Mas as coisas não estão tão bem com ele, mas inteiramente bem contigo, que esteja em seu poder que tu sejas perturbado.

XIII.

Se quiseres melhorar, submete-te a ser considerado sem senso e tolo com respeito às coisas externas.

Deseja ser considerado como quem nada sabe: e se pareceres a alguns ser pessoa de importância, desconfia de ti mesmo.

Pois deves saber que não é fácil manter a tua vontade em condição conforme à natureza e (assegurar) as coisas externas; mas se um homem é cuidadoso com uma, é absoluta necessidade que negligencie a outra.

XIV.

Se desejas que teus filhos, tua esposa e teus amigos vivam para sempre, és tolo; pois quererias que as coisas que não estão em teu poder estivessem em teu poder, e que as coisas que pertencem a outros fossem tuas.

Assim, se desejas que teu escravo seja livre de faltas, és um tolo; pois quererias que a maldade não fosse maldade, mas algo diferente. Mas se desejas não falhar em teus desejos, isso está ao teu alcance.

Pratica, então, aquilo que és capaz de fazer. Ele é o senhor de todo homem que tem poder sobre as coisas que outra pessoa deseja ou não deseja, o poder de concedê-las a ele ou de retirá-las.

Quem, portanto, deseja ser livre, que não deseje nada nem evite nada que dependa de outros; se não observar esta regra, deve ser escravo.

A passagem parece significar que teu escravo não tem o poder de te perturbar, porque tens o poder de não ser perturbado.

Ver a nota de Upton sobre o texto.

"Qeeiv" é usado aqui, como frequentemente entre os Estoicos, para "desejar absolutamente", "querer". Quando Epicteto diz "quererias que a maldade não fosse maldade", ele quer dizer que a "maldade" está na vontade daquele que a possui, e como desejas submetê-la à tua vontade, és um tolo.

É teu dever, tanto quanto puderes, melhorar o escravo; podes desejar isso.

É dever dele obedecer à tua instrução; isso é o que ele deve desejar fazer; mas que ele queira fazer isso, isso está nele mesmo, não em ti.

Schweig.

EPICTETO.

XV.

Lembra-te de que na vida deves te comportar como em um banquete.

Supõe que algo é passado ao redor e está diante de ti.

Estende a mão e toma uma porção com decência.

Supõe que passa por ti.

Não o detenhas. Supõe que ainda não chegou a ti.

Não envies teu desejo adiante para ele, mas espera até que esteja diante de ti.

Faze assim com respeito aos filhos, assim com respeito à esposa, assim com respeito aos cargos magistrais, assim com respeito à riqueza, e serás algum dia um digno participante dos banquetes dos deuses.

Mas, se você não aceitar nenhuma das coisas que são postas diante de ti, e até as desprezares, então não serás apenas um companheiro de banquete com os deuses, mas também um parceiro deles em poder.

Pois, agindo assim, Diógenes e Heráclito e aqueles como eles foram merecidamente divinos, e assim foram chamados.

XVI.

Quando vires uma pessoa chorando de tristeza, seja quando um filho parte para o estrangeiro, seja quando morre, ou quando o homem perdeu seus bens, cuida para que a aparência não te arraste consigo, como se ele estivesse sofrendo em coisas externas. Mas imediatamente faz uma distinção em tua própria mente, e esteja pronto para dizer: não é o que aconteceu que aflige este homem, pois não aflige a outro, mas é a opinião sobre esta coisa que aflige o homem.

Portanto, quanto às palavras, não sejas relutante em mostrar-lhe compaixão, e mesmo que assim aconteça, em lamentar com ele.

Mas cuida para que não lamentes também internamente.

Isto é obscuro.

'É verdade que o homem é miserável, não por causa das coisas externas que lhe aconteceram, mas pelo fato de permitir-se ser afetado tanto por coisas externas que estão fora de seu poder.' Schweig.

Objetou-se a Epicteto que ele não expressa simpatia com aqueles que sofrem tristeza.

Mas aqui ele te diz para mostrar simpatia.

Coisa que conforta a maioria das pessoas.

Mas seria contrário ao seu ensinamento, se ele te dissesse para sofrer mentalmente com outro.

EPICTETO.

XVII.

Lembra-te de que és um ator em uma peça, de tal tipo como o mestre (autor) possa escolher; se curta, de uma curta; se longa, de uma longa: se ele deseja que representes o papel de um homem pobre, vê que representes o papel naturalmente; se o papel de um coxo, de um magistrado, de uma pessoa privada, (faze o mesmo). Pois este é o teu dever, representar bem o papel que te é dado; mas selecionar o papel pertence a outro.

XVIII.

Quando um corvo tiver crocitado de mau agouro, não deixes que a aparência te arraste consigo; mas imediatamente faz uma distinção em tua mente e dize.

Nenhuma dessas coisas é significada para mim, mas ou para meu pobre corpo, ou para minha pequena propriedade, ou para minha reputação, ou para meus filhos, ou para minha esposa: mas para mim todas as significações são auspiciosas se eu escolher.

Pois seja qual for o resultado dessas coisas, está em meu poder extrair benefício disso.

XIX.

Podes ser invencível, se não entrares em nenhum combate no qual não esteja em teu poder conquistar.

Cuide então, quando observares um homem honrado diante dos outros, ou possuidor de grande poder, ou altamente estimado por qualquer razão, de não supor que ele seja feliz, e não te deixes levar pela aparência.

Pois se a natureza do bem está em nosso poder, nem a inveja nem o ciúme terão lugar em nós. Mas tu mesmo não desejarás ser um general ou senador (Trpvravis) ou cônsul, mas um homem livre: e há apenas um caminho para isso, desprezar (não te importar com) as coisas que não estão em nosso poder.

XX.

Lembra-te de que não é quem te injuria ou te golpeia que te insulta, mas é a tua opinião sobre essas coisas como sendo insultantes.

Quando então um homem te irrita, deves saber que é a tua própria opinião que

 Compare Antoninus, xi. 6, xii.

36.

 Nota, ed. Schweig.

EPICTETO.

te irritou.

Portanto, especialmente, procura não ser levado pela aparência. Pois se uma vez ganhares tempo e demora, dominar-te-ás mais facilmente.

XXI.

Que a morte e o exílio e toda outra coisa que parece terrível estejam diariamente diante dos teus olhos; mas sobretudo a morte: e nunca pensarás em nada vil nem desejarás nada extravagantemente.

XXII.

Se desejas a filosofia, prepara-te desde o início para ser ridicularizado, para esperar que muitos zombem de ti e digam: Ele voltou de repente para nós como um filósofo; e de onde tira esse olhar arrogante para nós? Não mostres um olhar arrogante; mas mantém-te firme nas coisas que te parecem melhores, como alguém designado por Deus para esta posição.

E lembra-te de que, se permaneceres nos mesmos princípios, esses homens que primeiro ridicularizaram depois te admirarão; mas se fores vencido por eles, atrairás sobre ti uma dupla ridicularização.

XXIII.

Se alguma vez te acontecer voltares-te para as coisas externas a fim de agradar a alguma pessoa, deves saber que perdeste o teu propósito na vida. Contentai-vos então em tudo com ser filósofo; e se quiseres parecer também a alguma pessoa ser filósofo, aparece assim a ti mesmo, e serás capaz de fazer isso.

XXIV.

Não deixes que estes pensamentos te aflijam: viverei sem honra e serei ninguém em lugar nenhum.

Pois se a falta de honra (ἀτιμία) é um mal, não podes estar em mal por meio (culpa) de outro, assim como não podes estar envolvido em algo vil.

É então teu negócio obter a posição de magistrado, ou ser recebido num banquete? De modo algum.

Como então pode isto ser falta de

'Se eu ainda agradasse aos homens, não seria servo de Cristo.' Gálatas i. 10. Sra. Carter.

C

EPICTETO,

honra (desonra)? E como você será ninguém em lugar nenhum, quando deveria ser alguém somente naquelas coisas que estão em seu poder, nas quais de fato lhe é permitido ser um homem do maior valor? Mas seus amigos ficarão sem assistência! O que você quer dizer com sem assistência? Eles não receberão dinheiro de você, nem você os tornará cidadãos romanos. Quem então lhe disse que essas estão entre as coisas que estão em nosso poder, e não no poder de outros? E quem pode dar a outro o que ele mesmo não tem? Adquira dinheiro então, dizem seus amigos, para que nós também tenhamos algo.

Se eu posso adquirir dinheiro e ao mesmo tempo manter-me modesto, fiel e magnânimo, mostre-me o caminho, e eu o adquirirei. Mas se você me pede para perder as coisas que são boas e minhas, para que você possa ganhar as coisas que não são boas, veja quão injusto e tolo você é. Além disso, o que você preferiria ter, dinheiro ou um amigo fiel e modesto? Para esse fim, então, ajude-me antes a ser tal homem, e não me peça para fazer aquilo pelo qual perderei esse caráter.

Mas minha pátria, você diz, naquilo que depende de mim, ficará sem minha ajuda. Pergunto novamente: que ajuda você quer dizer? Ela não terá pórticos ou banhos por seu intermédio. E o que isso significa? Pois ela não é provida de sapatos por meio de um ferreiro, nem de armas por meio de um sapateiro.

Mas basta que cada homem cumpra plenamente a obra que é sua; e se você lhe proporcionasse outro cidadão fiel e modesto, não seria útil a ela? Sim.

Então você também não pode ser inútil a ela. Que lugar então, você diz, ocuparei na cidade? Qualquer um que você puder, se mantiver ao mesmo tempo sua fidelidade e modéstia.

Mas se, quando você deseja ser útil ao estado, perder essas qualidades, que proveito poderia você lhe trazer, se fosse feito desavergonhado e infiel?

XXV.

Algum homem foi preferido a você em um banquete, ou ao ser saudado, ou ao ser convidado para uma consulta? Se essas coisas são boas, você deve alegrar-se de que ele as tenha obtido; mas se são más, não se aflija porque você não as obteve; e lembre-se de que você não pode, se não fizer as mesmas coisas para obter o que não está em nosso próprio poder, ser considerado digno das mesmas (iguais) coisas.

como pode um homem obter uma parte igual com outro quando não visita as portas de um homem como esse outro faz, quando não o acompanha quando ele sai, como o outro faz; quando não o elogia (adula) como outro faz? Serás então injusto e insaciável, se não cederes o preço, em troca do qual essas coisas são vendidas, e se desejas obtê-las de graça.

Bem, qual é o preço das alfaces? Um óbolo talvez.

Se então um homem dá o óbolo e recebe as alfaces, e se tu não dás o óbolo e não obténs as alfaces, não suponhas que recebes menos do que aquele que tem as alfaces; pois assim como ele tem as alfaces, tu tens o óbolo que não deste.

Da mesma forma, então, na outra questão também não foste convidado para o banquete de um homem, pois não deste ao anfitrião o preço pelo qual a ceia é vendida; mas ele a vende por elogio (adulação), vende-a por atenção pessoal.

Dá então o preço, se for do teu interesse, pelo qual ela é vendida.

Mas se desejas tanto não dar o preço quanto obter as coisas, és insaciável e tolo.

Não tens então nada em lugar da ceia? Tens sim, tens o não adular aquele a quem não escolheste adular; tens o não suportar o homem quando ele entra na sala.

XXVI.

Podemos aprender a vontade (desejo) da natureza a partir das coisas em que não diferimos uns dos outros: por exemplo, quando o escravo do teu vizinho quebrou o seu copo, ou qualquer outra coisa, estamos prontos a dizer imediatamente que é uma das coisas que acontecem.

Deves saber então que quando o teu copo também se quebra, deves pensar como pensaste quando o copo do teu vizinho se quebrou.

Transfere essa reflexão também para coisas maiores.

Morreu o filho ou a esposa de outro homem? Não há quem não diga: isto

A sexta parte de uma dracma.

'Preço' aqui é o διάφορον.

Ver a nota de Schweig.

EPICTETO.

é um acontecimento próprio do homem.

Mas quando o próprio filho ou esposa de um homem morre, imediatamente ele exclama: Ai de mim, como sou infeliz. Mas devemos lembrar como nos sentimos quando ouvimos que isso aconteceu a outros.

XXVII.

Assim como um alvo não é colocado para se errar o objetivo, também a natureza do mal não existe no mundo.

XXVIII.

Se alguma pessoa pretendesse colocar o teu corpo sob o poder de qualquer homem que encontrasses no caminho, ficarias indignado; mas, se colocas o teu entendimento sob o poder de qualquer homem que encontres, de modo que, se ele te injuriar, ele se perturba e se agita, não te envergonhas disso?

XXIX.

Em cada ato, observa as coisas que vêm primeiro e aquelas que o seguem; e então procede ao ato.

Se não o fizeres, a princípio te aproximarás dele com alacridade, sem ter pensado nas coisas que se seguirão; mas depois, quando certas coisas vis (feias) se mostrarem, ficarás envergonhado.

Um homem deseja vencer nos Jogos Olímpicos.

Eu também desejo, pois é

¹ Esta passagem é explicada no comentário de Simplício (xxxii., na ed. de Schweig. xxvii.

p. 261), e Schweighaeuser concorda com a explicação, que é esta: Nada no mundo (universo) pode existir ou ser feito (acontecer) que, em seu sentido próprio, em si mesmo e em sua natureza, seja mau; pois tudo é e é feito pela sabedoria e vontade de Deus e para o propósito que Ele intentou: mas errar o alvo é falhar em uma intenção; e como um homem não estabelece um alvo, ou não forma um propósito, com o propósito de errar o alvo ou o propósito, é absurdo (inconsistente) dizer que Deus tem um propósito ou desígnio, e que Ele propôs ou desenhou qualquer coisa que, em si mesma e em sua natureza, seja má.

O comentário de Simplício vale a pena ser lido.

Mas quantos o lerão? Talvez um em um milhão.

² Compare iii. 15, de onde toda esta passagem foi transferida para o Encheiridion pelos copistas.' Upton.

Sobre o que Schweighaeuser observa: 'Por que não deveríamos dizer por Arriano, que compôs o Encheiridion a partir dos Discursos de Epicteto?' Veja as notas de Upton e Schweig.

sobre algumas diferenças nas leituras da passagem em iii.

15, e nesta passagem.

EPICTETO.

é uma coisa bela.

Mas observa tanto as coisas que vêm primeiro quanto as que seguem; e então começa o ato.

Deves fazer tudo segundo a regra, comer segundo ordens estritas, abster-te de iguarias, exercitar-te como te é ordenado em tempos determinados, no calor, no frio; não deves beber água fria, nem vinho como escolheres; em uma palavra, deves entregar-te ao mestre de exercícios como te entregas ao médico, e então proceder ao combate.

E, às vezes, você forçará a mão, deslocará o tornozelo, engolirá muita poeira, às vezes será açoitado e, depois de tudo isso, será derrotado.

Quando você tiver considerado tudo isso, se ainda assim escolher, vá para a competição; se não, você se comportará como crianças, que ora brincam de lutadores, ora de flautistas, ora de gladiadores, depois de trompetistas, depois de atores trágicos: assim também você será ora atleta, ora gladiador, depois retórico, depois filósofo, mas com toda a sua alma não será nada; mas, como um macaco, imita tudo o que vê, e uma coisa após outra lhe agrada.

Pois você não empreendeu nada com consideração, nem o examinou bem; mas descuidadamente e com desejo frio.

Assim, alguns que viram um filósofo e ouviram um falar, como fala Eufrates — e quem pode falar como ele? — desejam também eles próprios ser filósofos.

Meu homem, primeiro de tudo considera que tipo de coisa é; e então examina tua própria natureza, se és capaz de sustentar o papel.

Desejas ser um pentatleta ou um lutador? Olha para teus braços, tuas coxas, examina teus lombos.

Pois homens diferentes são formados pela natureza para coisas diferentes.

Pensas que, se fizeres essas coisas, poderás comer da mesma maneira, beber da mesma maneira e, da mesma maneira, detestar certas coisas? Deves passar noites sem dormir, suportar o trabalho árduo, afastar-te de teus parentes, ser desprezado por um escravo, em tudo ter a parte inferior, em honra, em cargo, nos tribunais de justiça, em cada pequena questão.

Considera estas coisas, se queres trocá-las pela liberdade das paixões, pela liberdade, pela tranquilidade.

Se não, cuida para que, como criancinhas, não sejas ora filósofo, ora servo dos publicanos, ora retórico, ora procurador (administrador) de César.

Essas coisas não são consistentes.

Tu deves

EPICTETO.

ser um homem, seja bom ou mau.

Deves ou cultivar tua própria faculdade diretriz para as coisas externas; deves ou exercitar tua habilidade nas coisas internas ou nas externas; isto é, deves ou manter a posição de filósofo ou a de uma pessoa comum.

XXX.

Os deveres são universalmente medidos pelas relações. Um homem é pai? O preceito é cuidar dele, ceder a ele em todas as coisas, submeter-se quando ele repreende, quando ele desfere golpes.

Mas suponha que ele seja um mau pai.

Foste então por natureza aparentado a um bom pai? Não; mas a um pai.

Um irmão te prejudica? Mantém então a tua própria posição em relação a ele, e não examines o que ele está fazendo, mas o que tu deves fazer para que a tua vontade seja conforme à natureza.

Pois outro não te prejudicará, a menos que tu escolhas; mas tu serás prejudicado então, quando pensares que és prejudicado.

Deste modo, então, descobrirás o teu dever a partir da relação de um vizinho, da de um cidadão, da de um general, se estiveres acostumado a contemplar as relações.

XXXI.

Quanto à piedade para com os Deuses, deves saber que isto é o principal: ter opiniões corretas acerca deles, pensar que eles existem e que administram o Todo bem e justamente; e deves fixar-te neste princípio (dever), de obedecer-lhes, e de ceder a eles em tudo o que acontece, e de seguir voluntariamente isso como sendo realizado pela mais sábia inteligência.

Pois, se assim fizeres, nunca culparás os Deuses, nem os acusarás de te negligenciarem.

E não é possível que isso seja feito de outra maneira senão afastando-te das coisas que não estão em nosso poder, e colocando o bem e o mal somente naquelas coisas que estão em nosso poder.

Pois, se pensares que qualquer das coisas que não estão em nosso poder é boa ou má, é absolutamente necessário que, quando não obtiveres o que desejas, e quando caíres naquelas coisas que não desejas, encontres falhas e odeies aqueles que são a causa delas; pois todo animal é formado pela natureza para isto: fugir e afastar-se das coisas que parecem nocivas e das coisas que são a causa do dano, mas seguir e admirar as coisas que são úteis e as causas do útil.

É impossível, então, para uma pessoa que pensa que é prejudicada, deleitar-se com aquilo que ela pensa ser a causa do dano, como também é impossível agradar-se do próprio dano.

Por esta razão, também, um pai é injuriado por seu filho, quando não dá ao filho parte alguma das coisas que são consideradas boas; e foi isto que tornou Polinices e Etéocles inimigos: a opinião de que o poder real era um bem.

É por esta razão que o cultivador da terra injuria os Deuses, por esta razão o faz o marinheiro, e o mercador, e por esta razão aqueles que perdem suas esposas e seus filhos.

Pois onde está o útil (o vosso interesse), aí está também a piedade. Consequentemente, aquele que cuida de desejar como deve e de evitar (ἐκκλίνειν) como deve, ao mesmo tempo também cuida da piedade.

Mas fazer libações, sacrificar e oferecer primícias segundo o costume de nossos pais, pura e não mesquinhamente, nem descuidadamente, nem parcamente, nem acima de nossa capacidade, é algo que a todos pertence fazer.

XXXII.

"Quando recorreres à adivinhação, lembra-te de que não sabes como o resultado será, mas que vieste indagar do adivinho.

Mas de que espécie é, sabes quando vens, se de fato és um filósofo.

Pois se é alguma das coisas que não estão em nosso poder, é absolutamente necessário que não seja nem boa nem má.

Não leves, pois, ao adivinho desejo ou aversão (ἔκκλισιν): se o fizeres, aproximar-te-ás dele com temor. Mas, tendo determinado em tua mente que tudo o que vier a resultar é indiferente e não te concerne, e seja o que for, pois estará em teu poder usá-lo bem, e nenhum homem impedirá isso, vem então com confiança aos Deuses como teus conselheiros.

E quando algum conselho tiver sido dado, lembra-te de quem tomaste como conselheiros e a quem terás negligenciado, se não lhes obedeceres.

E vai à adivinhação, como Sócrates disse que deves, acerca daquelas questões em que toda a investigação tem referência ao resultado, e em que meios não são dados nem pela razão nem por qualquer outra arte para conhecer a coisa que é o objeto da investigação."

Portanto, quando devemos compartilhar o perigo de um amigo ou o de nossa pátria, não deves consultar o adivinho se deves compartilhá-lo. Pois ainda que o adivinho te diga que os sinais das vítimas são de mau agouro, é evidente que isso é um presságio de morte, mutilação de parte do corpo ou exílio.

Mas a razão prevalece que, mesmo com esses riscos, devemos compartilhar os perigos de nosso amigo e de nossa pátria.

Portanto, atende ao maior adivinho, o Deus Pítico, que expulsou do templo aquele que não assistiu seu amigo quando este estava sendo assassinado.

XXXIII.

Prescreve imediatamente para ti mesmo algum caráter e alguma forma, que observarás tanto quando estiveres só quanto quando te encontrares com homens.

E que o silêncio seja a regra geral, ou que se diga apenas o que for necessário, e em poucas palavras.

E raramente, e quando a ocasião o exigir, falaremos algo; mas sobre nenhum dos assuntos comuns, nem sobre gladiadores, nem corridas de cavalos, nem sobre atletas, nem sobre comer ou beber, que são os assuntos usuais; e

A história é contada por Eliano (iii.

c. 44), e por Simplício em seu comentário sobre o Encheiridion (p. 411, ed. Schweig.). Upton.

EPICTETO.

especialmente não sobre homens, como censurando-os ou elogiando-os, ou comparando-os.

Se então puderes, atrai pela tua conversa a conversa de teus companheiros para aquilo que é próprio; mas se te encontrares confinado à companhia de estranhos, permanece em silêncio.

Não seja o teu riso muito, nem em muitas ocasiões, nem excessivo.

Recusa totalmente fazer juramento, se for possível; se não for, recusa tanto quanto puderes.

Evita banquetes dados por estranhos e por pessoas ignorantes.

Mas se alguma vez houver ocasião de participar deles, que tua atenção esteja cuidadosamente fixa, para que não deslizes para os modos do vulgo (os não instruídos). Pois deves saber que, se teu companheiro for impuro, também aquele que convive com ele deverá tornar-se impuro, ainda que por acaso seja puro.

Toma (aplica) as coisas relativas ao corpo apenas até o uso simples, como alimento, bebida, vestuário, casa e escravos; mas exclui tudo o que for para ostentação ou luxo.

Quanto ao prazer com mulheres, abstém-te tanto quanto puderes antes do casamento; mas, se te permitires tal indulgência, faze-o de maneira conforme ao costume. Não sejas, porém, desagradável com aqueles que se entregam a esses prazeres, nem os repreendas; e não te gabes com frequência de que tu mesmo não te entregas a eles.

Se alguém te houver relatado que certa pessoa fala mal de ti, não te defendas (respondas) ao que te foi dito; mas replica: "O homem não conhecia o resto dos meus defeitos, pois não teria mencionado apenas estes."

Não é necessário ir aos teatros com frequência; mas, se houver alguma ocasião própria para ir, não te mostres partidário de ninguém, exceto de ti mesmo, isto é, deseja apenas que se faça o que se faz, e que somente obtenha o prêmio aquele que o obtém; pois, dessa maneira, não encontrarás obstáculo algum.

Mas abstém-te inteiramente de gritos e risadas diante de qualquer coisa (ou pessoa), e de emoções violentas.

E, ao saíres, não fales muito sobre o que se passou no palco, exceto sobre aquilo que possa levar ao teu próprio aperfeiçoamento.

Pois é evidente que, se falares muito, admiras-te do espetáculo (mais do que deverias).

Não vás ouvir as recitações de certas pessoas, nem as visites com frequência. Mas, se compareceres, observa gravidade e serenidade, e evita também tornar-te desagradável.

Quando fores encontrar-te com qualquer pessoa, e particularmente com alguém considerado em condição superior, coloca diante de ti o que Sócrates ou Zenão teriam feito em tais circunstâncias, e não terás dificuldade em fazer uso adequado da ocasião.

Quando fores visitar algum daqueles que estão em grande poder, coloca diante de ti que não encontrarás o homem em casa, que serás excluído, que a porta não te será aberta, que o homem não se importará contigo. E se, apesar de tudo isso, for teu dever visitá-lo, suporta o que acontecer, e nunca digas a ti mesmo que não valeu a pena o esforço.

Pois isso é tolice, e marca o caráter de um homem que se ofende com as coisas externas.

Em companhia, cuide para não falar muito e excessivamente sobre seus próprios atos ou perigos; pois, assim como é agradável para você fazer menção de seus próprios perigos, não é tão agradável para os outros ouvir o que aconteceu a você. Cuide também para não provocar risos; pois este é um caminho escorregadio para hábitos vulgares, e também é adequado para diminuir o respeito de seus vizinhos.

É também um hábito perigoso aproximar-se de conversa obscena.

Quando, então, qualquer coisa desse tipo acontecer, se houver uma boa oportunidade, repreenda o homem que procedeu a essa conversa; mas se não houver oportunidade, pelo menos pelo seu silêncio, e corando, e expressando descontentamento em seu semblante, mostre claramente que você está desagradado com tal conversa.

Admirar (davfidCeiv) é contrário ao preceito de Epicteto; i. 29, ii. G, iii. 20. Upton.

Tais recitações eram comuns em Roma, quando autores liam suas obras e convidavam pessoas para assistir. Essas recitações são frequentemente mencionadas nas cartas de Plínio, o Jovem. Ver Epicteto, iii. 23.

EPICTETO.

XXXIV.

Se você recebeu a impressão (avrao-u v) de qualquer prazer, guarde-se contra ser arrastado por ela; mas deixe que a coisa espere por você, e permita-se um certo atraso de sua parte.

Então pense em ambos os tempos: no tempo em que você desfrutará do prazer, e no tempo após o desfrute do prazer, quando você se arrependerá e se repreenderá.

E ponha contra essas coisas como você se alegrará se tiver se abstido do prazer, e como você se elogiará.

Mas se lhe parecer oportuno empreender (fazer) a coisa, cuide para que o encanto dela, e o prazer, e a atração dela não o conquistem; mas ponha do outro lado a consideração de quanto melhor é estar consciente de que você ganhou essa vitória.

XXXV.

Quando você decidiu que uma coisa deve ser feita e a está fazendo, nunca evite ser visto fazendo-a, ainda que muitos formem uma opinião desfavorável sobre isso. Pois se não é certo fazê-la, evite fazer a coisa; mas se é certo, por que você tem medo daqueles que a criticarão injustamente?

XXXVI.

Assim como a proposição "ou é dia ou é noite" é de grande importância para o argumento disjuntivo, mas para o conjuntivo não tem valor algum, da mesma forma, num simpósio (entretenimento), escolher a porção maior é de grande valor para o corpo, mas para a manutenção do sentimento social não vale nada.

Quando então estiveres comendo com outro, lembra-te de olhar não apenas para o valor para o corpo das coisas postas diante de ti, mas também para o valor do comportamento para com o anfitrião, que deve ser observado.

' Compare i. 25, 11, etc.

' Veja a nota de Schweig.

sobre xxxvi.

EPICTETO.

XXXVII.

Se assumiste um caráter acima de tua força, agiste tanto de maneira inconveniente neste assunto, quanto negligenciaste aquilo que poderias ter cumprido.

XXXVIII.

Ao caminhar, assim como tomas cuidado para não pisar num prego ou torcer o pé, toma cuidado também para não danificar tua própria faculdade diretriz; e se observarmos esta regra em cada ato, empreenderemos o ato com mais segurança.

XXXIX.

A medida da posse (propriedade) é para cada homem o corpo, assim como o pé é a medida do sapato. Se então te firmas nesta regra (as exigências do corpo), manterás a medida; mas se ultrapassá-la, serás então necessariamente precipitado como que por um abismo.

Assim também no caso do sapato, se fores além das (necessidades do) pé, o sapato se dourará, depois se tornará de cor púrpura, depois bordado; pois não há limite para aquilo que uma vez passou da verdadeira medida.

XL.

As mulheres, desde a idade de catorze anos, são chamadas pelos homens de senhoras (Kvpiai, dominae). Portanto, como veem que não há nada mais que possam obter, senão apenas o poder de se deitar com homens, começam a se enfeitar e a depositar todas as suas esperanças nisso.

' Não convém o que não se ajusta, como o sapato, outrora,
Se o pé for maior, subverterá; se menor, queimará.

Horácio.
Epp. i. 10, 42, e Epp. i. 7, 98.

' A palavra ie ksvti)t6v 'aca picfum,' ornamentado com bordados.

' Catorze era considerada a idade da puberdade nos homens romanos, mas nas mulheres a idade de doze (Justin. Inst. I. tit. 22). Compare Gaius, i. 196.

EPICTETO.

Vale a pena, então, cuidar para que saibam que são valorizadas (pelos homens) por nada além de parecerem (serem) decentes, modestas e discretas.

XLI.

É marca de capacidade medíocre gastar muito tempo com as coisas que concernem ao corpo, como muito exercício, muito comer, muito beber, muito aliviar o corpo, muita cópula.

Mas essas coisas devem ser feitas como coisas subordinadas: e que todo o teu cuidado seja dirigido à mente.

XLIX.

Quando alguma pessoa te trata mal ou fala mal de ti, lembra-te de que ela faz isso ou diz isso porque pensa que é seu dever.

Não é possível, então, que ela siga o que te parece certo a ti, mas o que lhe parece certo a ela mesma.

Assim, se ela está errada em sua opinião, é ela quem é prejudicada, pois é ela quem foi enganada; pois se um homem supuser que a verdadeira conjunção é falsa, não é a conjunção que é impedida, mas o homem que foi enganado acerca dela. Se procederes então dessas opiniões, serás de temperamento brando para com aquele que te injuria: pois dize em cada ocasião: Assim lhe pareceu.

XLIII.

Toda coisa tem duas alças, uma pela qual pode ser suportada, a outra pela qual não pode.

Se teu irmão age injustamente, não pegues o ato por aquela alça pela qual ele age injustamente, pois esta é a alça que não pode ser suportada: mas pega pela outra, que ele é teu irmão, que foi criado contigo, e pegarás a coisa por aquela alça pela qual ela pode ser suportada.

Ver a nota da Sra. C., na qual ela diz 'Epicteto parece estar em parte enganado aqui', etc.; e penso que está.

τὸ ἀξίωμα συνηρτημένον é traduzido no latim por 'verum conjunctura.' A Sra. Carter o traduz por 'uma proposição verdadeira', que suponho ser o significado.

EPICTETO.

XLIV.

Estes raciocínios não se coadunam: sou mais rico do que tu, portanto sou melhor do que tu; sou mais eloquente do que tu, portanto sou melhor do que tu.

Ao contrário, estes antes se coadunam: sou mais rico do que tu, portanto minhas posses são maiores do que as tuas: sou mais eloquente do que tu, portanto meu discurso é superior ao teu.

Mas tu não és nem posse nem discurso.

XLV.

Banha-se um homem rapidamente (cedo)? não digas que ele se banha mal, mas que se banha rapidamente.

Bebe um homem muito vinho? não digas que ele faz isso mal, mas dize que ele bebe muito.

Antes de teres determinado a opinião, como sabes se ele age errado? Assim, não te acontecerá compreender algumas aparências que são capazes de ser compreendidas, mas assentir a outras.

XLVI.

Em nenhuma ocasião te chames de filósofo, e não fales muito entre os ignorantes sobre preceitos (regras filosóficas, mandamentos); mas faze o que deles decorre.

Por exemplo, num banquete não digas como um homem deve comer, mas come como deves comer.

Pois lembra-te de que assim também Sócrates evitava totalmente a ostentação: pessoas costumavam vir a ele e pedir para serem recomendadas por ele a filósofos, e ele as levava aos filósofos; tão facilmente ele se submetia a ser ignorado.

Portanto, se alguma conversa surgir entre pessoas ignorantes sobre qualquer preceito, geralmente permanece em silêncio; pois há grande perigo de que vomites imediatamente o que não digeriste.

E quando um homem te disser que nada sabes, e não te irritares, então tem certeza de que começaste a obra (da filosofia). Pois até as ovelhas não vomitam sua grama e mostram aos pastores quanto comeram; mas quando digeriram internamente o pasto, produzem externamente lã e leite.

Tu também não mostres teus preceitos aos ignorantes, mas mostra os atos que vêm de sua digestão.

XLVII.

Quando a baixo custo fores suprido com tudo para o corpo, não te orgulhes disso; nem, se beberes água, digas em toda ocasião: bebo água.

Mas considera primeiro quanto mais frugais são os pobres do que nós, e quanto mais resistentes ao trabalho.

E se alguma vez desejares exercitar-te no trabalho e na resistência, faze-o por ti mesmo, e não pelos outros: não abrace estátuas. Mas se alguma vez estiveres muito sedento, toma um gole de água fria, e cospe-o, e não digas a ninguém.

XLVIII.

A condição e característica de uma pessoa ignorante é esta: ela nunca espera de si mesma proveito (vantagem) nem dano, mas de coisas externas.

A condição e característica de um filósofo é esta: ele espera toda vantagem e todo dano de si mesmo.

Os sinais (marcas) daquele que está progredindo são estes: ele não censura ninguém, não elogia ninguém, não culpa ninguém, não acusa ninguém, não diz nada sobre si mesmo como se fosse alguém ou soubesse algo; quando é impedido ou obstruído de qualquer forma, culpa a si mesmo; se alguém o elogia, ridiculariza o elogiador consigo mesmo; se alguém o censura, não faz defesa alguma; ele anda como pessoas fracas, tendo cuidado para não mover nenhuma das coisas que estão colocadas, antes de estarem firmemente fixadas; ele remove todo desejo de si mesmo, e transfere a aversão (iKKXunv) apenas para aquelas coisas, dentre as que estão em nosso poder, que são contrárias à natureza; ele emprega um movimento moderado em relação a tudo; quer seja considerado tolo ou ignorante, não se importa; e, em uma palavra, ele vigia a si mesmo como se fosse um inimigo em emboscada.

Ver iii. 12.

D

EPICTETO.

XLIX.

Quando um homem se orgulha porque pode compreender e explicar os escritos de Crisipo, diga a si mesmo: Se Crisipo não tivesse escrito obscuramente, este homem não teria nada do que se orgulhar. Mas o que é que eu desejo? Compreender a natureza e segui-la. Procuro, portanto, quem é o intérprete; e quando ouço que é Crisipo, vou até ele (o intérprete). Mas não entendo o que está escrito e, portanto, busco o intérprete.

E até aqui ainda não há nada do que se orgulhar. Mas quando eu tiver encontrado o intérprete, o que resta é usar os preceitos (as lições). Isso em si é a única coisa da qual se orgulhar. Mas se eu admirar a exposição, o que mais me tornei senão um gramático em vez de um filósofo? Exceto em uma coisa: que estou explicando Crisipo em vez de Homero.

Quando então alguém me diz: "Lê Crisipo para mim", eu antes me envergonho, quando não posso mostrar meus atos semelhantes e consistentes com suas palavras.

Quaisquer que sejam as coisas (regras) que são propostas a você [para a conduta da vida], permaneça nelas, como se fossem leis, como se você fosse culpado de impiedade se transgredisse qualquer uma delas.

E o que quer que qualquer homem diga sobre você, não dê atenção a isso; pois isso não é assunto seu.

Por quanto tempo ainda adiareis considerar-vos dignos das melhores coisas e, em nenhuma questão, transgredir a razão distintiva? Aceitastes os teoremas (regras) aos quais era vosso dever concordar, e concordastes com eles? Que mestre ainda esperais, a quem adieis a correção de vós mesmos? Não sois mais um jovem, mas já um homem maduro.

Se então sois negligente e indolente, e continuamente fazeis procrastinação após procrastinação, e proposta (intenção) após proposta, e fixais dia após dia, após o qual cuidareis de vós mesmo, não sabereis que não estais progredindo, mas permanecereis ignorante (sem instrução) tanto enquanto viverdes como até morrerdes. Imediatamente então considerai certo viver como um homem maduro e que está progredindo, e que tudo o que vos parecer ser o melhor seja para vós uma lei que não deve ser transgredida.

E se algo laborioso, ou agradável, ou glorioso, ou inglório for apresentado a vós, lembrai-vos de que agora é a contenda, agora são os Jogos Olímpicos, e eles não podem ser adiados; e que depende de uma única derrota e de uma única concessão que o progresso seja perdido ou mantido. Sócrates deste modo tornou-se perfeito, melhorando-se em todas as coisas, não atendendo a nada exceto à razão. Mas vós, embora ainda não sejais um Sócrates, deveis viver como alguém que deseja ser um Sócrates.

O primeiro e mais necessário lugar (parte, topos) na filosofia é o uso dos teoremas (preceitos, theoremata), por exemplo, que não devemos mentir: a segunda parte é a das demonstrações, por exemplo, como se prova que não devemos mentir: a terceira é a que é confirmatória destas duas e explicativa, por exemplo.

Isto pode significar 'o que é proposto a vós pelos filósofos', e especialmente neste pequeno livro. Schweighaeuser pensa que pode significar 'o que propusestes a vós mesmos', mas ele está inclinado a entender simplesmente 'o que é proposto acima, ou ensinado acima'.

τὴν διαφέροντα λόγον.

'Entendo esta partição da razão, como disse no início: que algumas coisas estão em nosso poder, outras não.' Wolf.

EPICTETO.

Como é isto uma demonstração? Pois o que é demonstração, o que é consequência, o que é contradição, o que é verdade, o que é falsidade? A terceira parte (tópico) é necessária por causa da segunda, e a segunda por causa da primeira; mas a mais necessária, e aquela em que devemos nos apoiar, é a primeira.

Mas fazemos o contrário.

Pois gastamos nosso tempo no terceiro tópico, e todo o nosso empenho é acerca dele: mas negligenciamos inteiramente o primeiro.

Portanto, mentimos; mas a demonstração de que não devemos mentir está pronta à mão.

D

EPICTETO.

LIT.

Em toda coisa (circunstância) devemos ter estas máximas prontas à mão:

Conduze-me, ó Zeus, e tu, ó Destino,  
Pelo caminho que por vós me é ordenado:  
~ ~ ' ~ ~ não escolho,  
ainda assim devo seguir.

O caminho que por vós me é ordenado  
Seguir estou pronto.  
Se eu não ~~ ' ~~ me torno um miserável, e

Mas quem nobremente se rende à necessidade,

Nós o consideramos sábio, e versado nas coisas divinas.'

E também a terceira: Ó Críton, se assim agrada aos Deuses, assim seja; Ânito e Meleto podem, de fato, matar-me, mas não podem prejudicar-me.

Os primeiros quatro versos são do estoico Cleantes, discípulo de Zenão, e mestre de Crisipo.

Ele era natural de Assos, na Mísia; e Simplício, que escreveu seu comentário sobre o Encheirídio no século VI d.C., viu ainda nesse período tardio em Assos uma bela estátua de Cleantes erguida por decreto do senado romano em honra deste excelente homem.

(Simplício, ed. Schweig.

p. 522.)

Os dois segundos versos são de uma peça de Eurípides, um escritor que forneceu mais versos para citações do que qualquer tragediógrafo antigo.

A terceira citação é do Críton de Platão.

Sócrates é o orador.

A última parte é da Apologia de Platão, e Sócrates também é o orador.

As palavras 'e também a terceira', diz Schweighaeuser, foram introduzidas a partir do comentário de Simplício.

Simplício conclui seu comentário assim: Epicteto conecta o fim com o começo, o que nos lembra o que foi dito no início, que o homem que coloca o bem e o mal entre as coisas que estão em nosso poder, e não nas externas, não será compelido por nenhum homem nem jamais prejudicado.

FRAGMENTOS DE EPICTETO.

Estes Fragmentos são intitulados "Epicteti Fragmenta maxima ex loanne Stobaeo, Antonio, et Maximo collecta" (ed. Schweig.). Há algumas notas e emendas sobre os Fragmentos; e uma breve dissertação sobre eles por Schweighaeuser.

Nada se sabe sobre Estobeu nem sobre sua época, exceto o fato de que ele preservou alguns extratos de natureza ética do neoplatônico Hierocles, que viveu por volta de meados do século V d.C.; e conclui-se, portanto, que Estobeu viveu depois de Hierocles.

Os fragmentos atribuídos a Epicteto são preservados por Estobeu em sua obra intitulada 'AvoXoyiov, ou Florilégio ou Sermones.

Antônio Monarca, um monge grego, também compôs um Florilégio, intitulado Melissa (a abelha). Sua data é incerta, mas certamente é muito posterior à época de Estobeu.

Máximo, também chamado de monge, e reverenciado como santo, diz-se ter sido natural de Constantinopla, e nascido por volta de 580 d.C.

Alguns dos Fragmentos contidos na edição de Schweighaeuser certamente não são de Epicteto.

Muitos dos fragmentos são obscuros; mas estão traduzidos com a maior precisão que posso traduzi-los, e o leitor deve atribuir-lhes o sentido que puder.

EPICTETO.

I.

A vida que está implicada com a fortuna (depende da fortuna) é como uma torrente de inverno: pois é turbulenta, e cheia de lama, e difícil de atravessar, e tirânica, e ruidosa, e de curta duração.

II.

Uma alma que é versada na virtude é como uma fonte que sempre flui, pois é pura e tranquila e potável e doce e comunicativa (social), e rica e inofensiva e livre de maldade.

III.

Se desejas ser bom, primeiro acredita que és mau.

IV.

É melhor errar raramente e reconhecê-lo, e agir corretamente na maior parte das vezes, do que raramente admitir que erraste e errar com frequência.

V.

Vigia (pune) tuas paixões (wa), para que não sejas punido por elas.

VI.

Não te envergonhes tanto daquilo (desgraça) que provém da opinião dos homens, mas foge daquilo que vem da verdade.

VII.

Se desejas ser bem falado, aprende a falar bem (dos outros): e quando tiveres aprendido a falar bem deles, procura agir bem, e assim colherás o fruto de seres bem falado.

VIII.

Liberdade e escravidão, uma é o nome da virtude, e a outra do vício: e ambas são atos da vontade.

Mas onde não há vontade, nenhuma delas toca (afeta) estas coisas.

Pois a alma está acostumada a ser senhora do corpo, e as coisas que pertencem ao corpo não têm parte na vontade.

Pois nenhum homem é escravo daquele que é livre em sua vontade.

IX.

É uma cadeia maligna, a fortuna (uma cadeia) do corpo, e o vício da alma.

Pois aquele que está solto (livre) no corpo, mas preso na alma é um escravo: mas, ao contrário, aquele que está preso no corpo, mas livre (desatado) na alma, é livre.

X.

O vínculo do corpo é afrouxado pela natureza através da morte, e pelo vício através do dinheiro: mas o vínculo da alma é afrouxado pelo aprendizado, e pela experiência e pela disciplina.

XI.

Se desejas viver sem perturbação e com prazer, procura ter bons todos os que habitam contigo.

E os terás bons, se instruíres os dispostos, e despedires os que não estão dispostos (a ser ensinados): pois voarão para longe juntamente com os que fugiram tanto a maldade quanto a escravidão; e ficará com os que permanecerem contigo a bondade e a liberdade.

XII.

É uma vergonha que aqueles que adoçam a bebida com os dons das abelhas, pela maldade amargurem a razão, que é o dom dos deuses.

XIII.

Nenhum homem que ama o dinheiro, e ama o prazer, e ama a fama, também ama a humanidade, mas somente aquele que ama a virtude.

¹ Ver nota de Schweig.

² Ele não diz isto 'que é mau se um homem pelo dinheiro devesse redimir-se dos vínculos', mas ele quer dizer que 'mesmo um homem mau, se tiver dinheiro, pode redimir-se dos vínculos do corpo e assim assegurar sua liberdade.' Schweig.

EPICTETO.

XIV.

Assim como não escolherias navegar em um grande navio decorado e carregado de ouro (ou navio ornamentado com ouro), e te afogar; assim não escolhas habitar em uma grande e custosa casa e ser perturbado (por preocupações).

XV.

Quando fomos convidados para um banquete, tomamos o que é posto diante de nós: mas se um convidado pedisse ao anfitrião que lhe servisse peixe ou bolos doces, seria considerado um sujeito irracional.

Mas no mundo pedimos aos Deuses o que eles não dão; e fazemos isto embora sejam muitas as coisas que eles deram.

XVI.

São sujeitos divertidos, disse ele (Epicteto), os que se orgulham das coisas que não estão em nosso poder.

Um homem diz, sou melhor que tu, pois possuo muita terra, e tu estás a definhar de fome.

Outro diz, sou de posição consular.

Outro diz, sou um Procurador (επίτροπος). Outro, tenho cabelo cacheado.

Mas um cavalo não diz a um cavalo, sou superior a ti, pois possuo muito forragem, e muita cevada, e meus freios são de ouro e meus arreios são bordados: mas ele diz, sou mais veloz que tu.

E todo animal é melhor ou pior por seu próprio mérito (virtude) ou por sua própria maldade.

Não há, então, virtude apenas no homem? E devemos olhar para o cabelo, e para as nossas roupas e para os nossos ancestrais?

XVII.

Os doentes se irritam com o médico que não lhes dá conselho algum, e pensam que ele perdeu a esperança neles.

Mas por que não haveriam eles de sentir o mesmo em relação ao filósofo, e pensar que ele perdeu a esperança de que cheguem a um são estado de espírito, se ele não diz nada que seja útil ao homem?

EPICTETO.

XVIII.

Aqueles que são bem constituídos no corpo suportam tanto o calor quanto o frio; e assim aqueles que são bem constituídos na alma suportam tanto a ira quanto a tristeza e a alegria excessiva e os outros afetos.

XIX.

Examina-te a ti mesmo se desejas ser rico ou ser feliz.

Se desejas ser rico, deves saber que isso não é uma coisa boa nem está de todo em teu poder; mas se desejas ser feliz, deves saber que isso é tanto uma coisa boa quanto está em teu poder, pois uma é um empréstimo temporário da fortuna, e a felicidade vem da vontade.

XX.

Assim como quando vês uma víbora ou um áspide ou um escorpião numa caixa de marfim ou de ouro, não o amas nem o consideras feliz por causa do custo do material, mas, porque a sua natureza é perniciosa, te afastas dele e o abominas; assim também, quando vires o vício habitando na riqueza e na plenitude inchada da fortuna, não sejas impressionado pelo esplendor do material, mas despreza o falso caráter dos costumes.

XXI.

"A riqueza não é uma das coisas boas; o grande dispêndio é uma das coisas más; a moderação (σωφροσύνη) é uma das coisas boas.

E a moderação convida à frugalidade e à aquisição de coisas boas; mas a riqueza convida ao grande dispêndio e nos afasta da moderação.

É difícil, então, para um homem rico ser moderado, ou para um homem moderado ser rico.

'Quão dificilmente entrarão os que têm riquezas no reino de Deus.' Marcos 10:23 (Sra. Carter). Esta expressão em Marcos expõe o perigo das riquezas, fato que todos os homens que usam a sua observação conhecem.

No versículo seguinte, a verdade é expressa nesta forma: 'Quão difícil é para os que confiam nas riquezas entrar no reino de Deus.' Os estoicos viam a riqueza entre as coisas indiferentes, nem boas nem más.

EPICTETO.

XXII.

Como se tivesses sido gerado ou nascido em um navio, não terias pressa de ser o mestre dele (κυβερνήτης), assim —. Pois nem lá (no navio) o navio estará naturalmente ligado a ti, nem a riqueza no outro caso; mas a razão está em toda parte naturalmente ligada a ti.

Assim como a razão é uma coisa que naturalmente te pertence e nasce em ti, considera também isto como especialmente teu e cuida disso.

XXIII.

Se tivesses nascido entre os persas, não terias desejado viver na Hélade (Grécia), mas ter vivido na Pérsia feliz: assim, se nasceste na pobreza, por que buscas enriquecer, e por que não permaneces na pobreza e és feliz?

O outro membro da comparação foi omitido por algum acidente nos manuscritos.

Wolf, em sua versão latina, supriria por conjectura a omissão desta maneira: 'assim também na terra as riquezas não te devem ser desejadas.' Schweig.

Para algumas pessoas, a comparação não parecerá adequada.

Também a noção de que todo homem deveria ser ensinado a elevar-se acima da condição em que nasceu é, na opinião de algumas pessoas, um ensinamento melhor. Penso que não é.

Poucas pessoas têm os talentos e o caráter que lhes permitem elevar-se de uma condição humilde; e a lição apropriada para elas é permanecer na condição em que nasceram e contentar-se com ela. Aqueles que têm o poder de se elevar de uma condição humilde elevar-se-ão, quer sejam aconselhados a tentá-lo ou não: e geralmente não poderão elevar-se sem fazer algo útil à sociedade.

Aqueles que têm habilidade suficiente para se elevarem de uma condição humilde, e ao mesmo tempo o fazem em detrimento da sociedade, são talvez poucos, mas certamente existem tais pessoas.

Elas se elevam pela habilidade, pelo uso da fraude, por meios ruins quase inumeráveis.

Ganham riqueza, preenchem altos cargos, perturbam a sociedade, são pragas e pestes, e o mundo às vezes observa com estúpida admiração até que a morte remova a imagem deslumbrante e enganosa, e os homens honestos respirem livremente novamente.

No Catecismo da Igreja da Inglaterra há duas respostas (a duas perguntas, uma sobre nosso dever para com Deus, a outra sobre nosso dever para com o próximo).

Ambas as respostas seriam aceitas por Epicteto, exceto algumas poucas palavras que não eram aplicáveis às circunstâncias de sua época.

A segunda resposta termina com as palavras: "aprender e trabalhar para ganhar meu próprio sustento e cumprir meu dever naquele estado de vida para o qual aprouver a Deus chamar-me."

EPICTETO.

4di

XXIV.

Assim como é melhor estar comprimido em um leito estreito e ser saudável do que ser atormentado pela doença em um amplo divã, também é melhor contrair-se dentro de uma pequena competência e ser feliz do que ter uma grande fortuna e ser miserável.

XXV.

Não é a pobreza que produz tristeza, mas o desejo; nem a riqueza liberta do medo, mas a razão (o poder de raciocinar, λογισμός). Se então adquirires esse poder de raciocinar, não desejarás riqueza nem te queixarás da pobreza.

XXVI.

Nem o cavalo se exalta nem se orgulha de sua manjedoura, de seus arreios e coberturas, nem a ave de seus farrapos de pano e de seu ninho: mas ambos se orgulham de sua velocidade, um da velocidade dos pés, e o outro das asas.

Tu também, então, não te orgulhes grandemente de tua comida e vestimenta e, em suma, de quaisquer coisas externas, mas orgulha-te de tua integridade e de tuas boas ações (εὐποιΐα).

XXVII.

Viver bem difere de viver extravagantemente: pois o primeiro provém da moderação, da suficiência (αὐταρκείας), da boa ordem, da propriedade e da frugalidade; mas o outro provém da intemperança, do luxo, da falta de ordem e da falta de propriedade.

E o fim (a consequência) de um é o verdadeiro elogio, mas do outro, a censura.

Se então desejas viver bem, não procures ser louvado por gastos pródigos.

XXVIII.

Seja a medida para ti de toda comida e bebida a primeira satisfação do desejo; e sejam a comida e o prazer o próprio desejo (apetite): e não tomarás mais do que o necessário, nem precisarás de cozinheiros, e te contentarás com a bebida que vier ao teu encontro.

EPICTETO.

XXIX.

Faze teu modo de comer nem luxuoso nem sombrio, mas vivaz e frugal, para que a alma não seja perturbada por ser enganada pelos prazeres do corpo, e para que os despreze; e para que a alma não seja prejudicada pela fruição do luxo presente, e o corpo não venha a sofrer depois com a doença.

XXX.

Cuida para que o alimento que colocas no estômago não te engorde (nutra), mas a alegria da mente: pois o alimento se transforma em excremento e é expelido, e a urina também flui ao mesmo tempo; mas a alegria, mesmo que a alma seja separada, permanece sempre incorrupta.

XXXI.

Em banquetes, lembra-te de que recebes dois hóspedes, corpo e alma: e tudo o que tiveres dado ao corpo, logo o expeles; mas o que tiveres dado à alma, guardas para sempre.

XXXII.

Não mistures a ira com gastos excessivos e os sirvas aos teus convidados. A profusão que enche o corpo logo se vai; mas a ira penetra na alma e permanece por muito tempo. Considera, então, que não sejas transportado pela ira e insultes teus convidados com grande despesa; antes, agrada-lhes com frugalidade e comportamento gentil.

' A Sra. Carter diz: "Não traduzi este fragmento, porque não o entendo." Schweighaeuser também diz que não o entende. Dei o que pode ser o significado; mas não é uma tradução exata, o que no estado atual do texto não é possível. Este fragmento está talvez mais corrompido que o XXIX. Veja a nota de Schweig. Não vejo sentido em *ewainos*, e usei a palavra *ovpos*, que é uma leitura possível. A conclusão parece bastante ininteligível. Veja a nota de Schweig.

EPICTETO.

XXXIII.

Em teus banquetes (refeições), cuida para que aqueles que servem (teus escravos) não sejam mais numerosos do que os que são servidos; pois é tolice que muitas almas (pessoas) esperem por poucos leitos (assentos).

XXXIV.

É melhor se, mesmo nos preparativos para um banquete, participares de parte do trabalho, e no desfrute da comida, enquanto banquetear, compartilhares com aqueles que servem as coisas que estão diante de ti. Mas se tal comportamento for inadequado para a ocasião, lembra-te de que és servido quando não estás trabalhando por aqueles que trabalham, quando estás comendo por aqueles que não comem, quando estás bebendo por aqueles que não bebem, enquanto falas por aqueles que se calam, enquanto estás à vontade por aqueles que estão sob constrangimento; e se te lembrares disso, nem, aquecido pela ira, serás culpado de qualquer absurdo, nem, irritando a outro, causarás algum mal.

XXXV.

Brigas e contendas são sempre tolas, e especialmente em conversas durante o vinho são inconvenientes: pois um homem bêbado não poderia ensinar um homem sóbrio, nem, por outro lado, um homem bêbado poderia ser convencido por um homem sóbrio.

Mas onde não há sobriedade, parecerá que em vão labutaste pelo resultado da persuasão.

XXXVI.

As cigarras (cicadae) são musicais; os caracóis não têm voz.

Os caracóis têm prazer na umidade, mas as cigarras na secura.

Em seguida, o orvalho convida os caracóis para fora, e por isso eles rastejam; mas, ao contrário, o sol, quando está quente, desperta as cigarras, e elas cantam ao sol.

Portanto, se desejas ser um homem musical

¹ Não tenho certeza sobre o significado exato da conclusão.

Ver a nota de Schweig.

Isto não é uma tradução da conclusão.

Talvez seja algo como o significado.

Ver a nota de Schweig.

EPICTETO.

e harmonizar bem com os outros, quando sobre as taças a alma está embriagada com vinho, nesse momento não permitas que a alma saia e seja poluída; mas quando em companhia (festas) ela é inflamada pela razão, então ordena-lhe que profira palavras oraculares e cante os oráculos da justiça.

XXXVII.

Examina de três maneiras aquele que fala contigo, como superior, ou como inferior, ou como igual: e se ele é superior, deves ouvi-lo e ser convencido por ele; mas se é inferior, deves convencê-lo; se é igual, deves concordar com ele; e assim nunca serás culpado de ser briguento.

XXXVIII.

É melhor, assentindo à verdade, conquistar a opinião, do que, assentindo à opinião, ser conquistado pela verdade.

XXXIX.

Se buscas a verdade, não buscarás por todos os meios obter a vitória; e se encontraste a verdade, terás o ganho de não ser derrotado.

XL.

A verdade conquista por si mesma; mas a opinião conquista entre aqueles que são externos.

XLI.

É melhor viver com um homem livre e estar sem medo e livre, do que ser escravo com muitos.

XLII.

O que evitas sofrer, não tentes fazer os outros sofrerem.

Evitas a escravidão: cuida para que outros não sejam teus escravos.

Pois se toleras ter um escravo, pareces ser tu mesmo escravo primeiro.

Pois o vício não tem comunidade com a virtude, nem a liberdade com a escravidão.

¹ Isto não está claro.

EPICTETO.

XLIII.

XLIV.

Quem quer que sejas tu, que desejas não estar entre o número dos escravos, liberta-te da escravidão: e serás livre, se te libertares do desejo.

Pois nem Aristides, nem Epaminondas, nem Licurgo, por serem ricos e servidos por escravos, foram chamados um justo, o outro deus, e o terceiro salvador, mas porque [eram pobres] e libertaram a Hélade (Grécia) da escravidão.

XLV.

Se desejas que a tua casa seja bem administrada, imita o espartano Licurgo.

Pois assim como ele não cercou a sua cidade com muralhas, mas fortificou os habitantes pela virtude e preservou a cidade sempre livre; assim também tu não coloques ao redor (da tua casa) um grande pátio nem ergas torres altas, mas fortalece os moradores pela boa vontade, pela fidelidade e pela amizade, e então nada de nocivo entrará nela, nem mesmo se toda a hoste da maldade se arregimentar contra ela.

XLVI.

Não pendures a tua casa com tábuas e pinturas, mas adorna-a com a moderação (sophrosyne): pois uma é de espécie estranha (imprópria) e um engano temporário dos olhos; mas a outra é um ornamento natural, indelével e perpétuo da casa.

Observa-se que o termo 'justo' se aplica a Aristides; o termo 'deus' foi dado a Licurgo pela Pítia ou oráculo de Delfos; o nome 'salvador' foi dado pelos seus próprios cidadãos a Epaminondas.

Schweig.

cita Políbio ix. 10, 1, 'uma cidade não é adornada por coisas externas, mas pela virtude daqueles que nela habitam.' Alceu, frag. 22, Bergk, Poetae Lyrici Graeci, 1843, —

οὐ λίθοι τοίχος ἀρήξει

EPICTETO.

XLVII.

Em vez de um rebanho de bois, esforça-te por reunir rebanhos de amigos na tua casa.

XLVIII.

Assim como o lobo se assemelha ao cão, assim tanto o lisonjeador, como o adúltero e o parasita se assemelham ao amigo.

Toma cuidado, então, para que, em vez de cães de guarda, não deixes entrar, sem o saber, lobos perniciosos.

XLIX.

Desejar que a tua casa seja admirada por ser caiada com gesso é marca de um homem sem gosto: mas realçar (adornar) os nossos costumes pela bondade da nossa comunicação (hábitos sociais) é marca de um homem que é amante da beleza e amante do homem.

Se você começa admirando as pequenas coisas, não será considerado digno das grandes; mas se desprezar as pequenas, será grandemente admirado.

LI.

Nada é mais insignificante (mesquinho) do que o amor ao prazer, o amor ao ganho e o orgulho.

Nada é superior à magnanimidade, à gentileza, ao amor à humanidade e à beneficência.

LII.

Eles apresentam (mencionam, citam) os filósofos rabugentos (os estoicos), cuja opinião é que o prazer não é algo conforme à natureza, mas é algo que decorre das coisas que são conformes à natureza, como a justiça, a temperança, a liberdade.

O que então? A alma é agradada e tranquilizada pelos prazeres do corpo, que são menores, como diz Epicuro; e não é agradada com seus próprios bens, que são os maiores? E, de fato, a natureza me deu a modéstia, e eu coro muito quando penso em dizer algo vil (indecente). Esse movimento (sentimento) não me permite fazer (considerar) do prazer o bem e o fim (propósito) da vida.

LIII.

Em Roma, as mulheres têm em suas mãos a Política (a República) de Platão, porque ela permite (aconselha) que as mulheres sejam comuns, pois elas atendem apenas às palavras de Platão, não ao seu significado.

Ora, ele não recomenda o casamento e que um homem coabite com uma mulher, e então que as mulheres sejam comuns; mas ele elimina tal casamento e introduz outro tipo de casamento.

E, em suma, os homens se comprazem em encontrar desculpas para suas faltas.

Contudo, a filosofia diz que não devemos estender nem mesmo um dedo sem uma razão.

LIV.

Dos prazeres, aqueles que ocorrem mais raramente proporcionam o maior deleite.

LV.

Se um homem transgredir a moderação, as coisas que proporcionam o maior deleite se tornarão as coisas que proporcionam o menor.

LVI.

É justo elogiar Agrippino por esta razão: embora fosse um homem do mais alto valor, ele nunca se elogiava; mas, mesmo se outra pessoa o elogiasse, ele coraria.

E ele era um homem tal (disse Epicteto) que escreveria em louvor de qualquer coisa desagradável que lhe acontecesse; se fosse uma febre, escreveria sobre a febre; se fosse desonrado, escreveria sobre a desonra; se fosse banido, escreveria sobre o banimento.

E em certa ocasião (mencionou), quando ia jantar, um mensageiro

¹ Ver nota de Schweig.

² Ver nota de Schweig.

K

EPICTETO.

trouxe-lhe a notícia de que Nero ordenava que ele fosse para o exílio; ao que Agripino disse: Pois bem, então jantaremos em Arícia.

LVII.

Diógenes dizia que nenhum trabalho era bom, a menos que o fim (propósito) dele fosse a coragem e a força (tonos) da alma, e não a do corpo.

LVIII.

Assim como uma balança verdadeira não é corrigida por uma balança verdadeira nem julgada por uma balança falsa, também um juiz justo não é corrigido por juízes justos nem é julgado (condenado) por juízes injustos.

LIX.

Assim como aquilo que é reto não necessita daquilo que é reto, tampouco o justo necessita daquilo que é justo.

LX.

Não profiras julgamento em um tribunal (de justiça) antes de teres sido tu mesmo julgado perante a justiça.

LXI.

Se desejas tornar teus julgamentos justos, não ouças (não consideres) nenhum daqueles que são partes (no processo), nem aqueles que pleiteiam nele, mas ouve a própria justiça.

LXII.

Errarás (tropeçarás) menos em teus julgamentos, se tu mesmo errares (tropeçares) menos em tua vida.

LXIII.

É melhor, quando julgas com justiça, ser censurado imerecidamente por aquele que foi condenado do que, quando julgas injustamente, ser justamente censurado por (diante da) natureza.

¹ Ver i. 1, notas 13 e 14.

² Antes obscuro, diz Schweig.

³ Comparar Frag. lviii. e lxvi.

⁴ Comparar lviii.

⁵ Schweig.

⁶ Ver nota de Schweig.

EPICTETO.

4SS

LXIV.

Assim como a pedra que testa o ouro não é de modo algum testada pelo ouro, assim também acontece com aquele que possui a faculdade de julgar.¹

LXV.

É vergonhoso para o juiz ser julgado por outros.

LXVI.

Assim como nada é mais reto do que aquilo que é reto, nada é mais justo do que aquilo que é justo.

LXVII.

"Quem entre nós não admira o ato de Licurgo, o Lacedemônio? Pois depois que foi mutilado em um de seus olhos por um dos cidadãos, e o jovem lhe foi entregue pelo povo para que o punisse como escolhesse, Licurgo o poupou: e após instruí-lo e torná-lo um homem bom, levou-o ao teatro.

Quando os Lacedemônios expressaram sua surpresa, Licurgo disse: Recebi de vós este jovem quando era insolente e violento: devolvo-o a vós gentil e bom cidadão.

LXVIII.

Pitaco, após ter sido injustiçado por certa pessoa e tendo o poder de puni-la, deixou-a ir, dizendo: "O perdão é melhor que a vingança; pois o perdão é sinal de uma natureza gentil, mas a vingança, sinal de uma natureza selvagem."

' Schweig.

sugere que & 6yos foi omitido antes das palavras

TO KpiT'flpl.OV IXOJV.

Vejam o fragmento de Chilon sobre a pedra que prova o ouro.

Bergk, *Poetae Lyrici Graeci*, ed. 1, p. 568.

Vejam a nota de Schweig.

Pitaco foi um dos sete sábios, como são nomeados. Algumas autoridades afirmam que ele viveu no século VII a.C. Com esta máxima, ele antecipou uma das doutrinas cristãs em seis séculos.

E

EPICTETO.

LXIX.

Mas antes de tudo, este é o ato da natureza: unir e ajustar o movimento em direção à aparência daquilo que se torna (adequado) e útil.

LXX.

Supor que seremos facilmente desprezados pelos outros, se não causarmos de todas as maneiras algum dano àqueles que primeiro nos mostram sua hostilidade, é marca de homens muito ignóbeis e tolos; pois (assim) afirmamos que o homem é considerado desprezível por sua incapacidade de causar dano; mas muito mais é um homem considerado desprezível por sua incapacidade de fazer o bem (o útil).

LXXI.

Quando você atacar (ou for atacar) qualquer pessoa violentamente e com ameaças, lembre-se de dizer a si mesmo primeiro que você é (por natureza) manso (gentil); e se você não fizer nada selvagem, continuará a viver sem arrependimento e sem culpa.

LXXII.

Um homem deve saber que não é fácil para ele ter uma opinião (ou princípio fixo), se ele não disser diariamente as mesmas coisas, e ouvir as mesmas coisas, e ao mesmo tempo aplicá-las à vida.

LXXIII.

[Nícias era tão amante do trabalho (assíduo) que frequentemente perguntava a seus escravos se ele havia se banhado e se havia jantado.]

Vejam a nota da Sra. Carter, que só pôde traduzir parte deste fragmento; e a emendação e nota de Schweig.

LXXIII.-LXXV.

— Schweig. colocou estes três fragmentos entre [ ]. Eles não são de Epicteto, mas do tratado de Plutarco *περὶ φιλοπλουτίας* (sobre a avareza).

EPICTETO.

LXXIV.

[Os escravos de Arquimedes costumavam arrastá-lo à força de sua mesa de diagramas e untá-lo; e então Arquimedes desenhava suas figuras em seu próprio corpo quando este havia sido untado.]

LXXV.

LXXVI.

Tendo Sólon sido perguntado por Periandro durante a bebida (παρὰ πότον), como aconteceu de ele permanecer em silêncio, se estava calado por falta de palavras ou por ser tolo, respondeu: Nenhum tolo é capaz de permanecer em silêncio durante a bebida.

LXXVII.

Em toda ocasião, procura prover nada tanto quanto aquilo que é seguro: pois o silêncio é mais seguro do que falar.

E omite falar o que quer que seja sem sentido e sem razão.

LXXVIII.

Assim como as luzes de fogo nos portos, com alguns poucos pedaços de madeira seca, elevam uma grande chama e dão ajuda suficiente aos navios que vagam no mar; assim também um homem ilustre num estado que é agitado por tempestades, enquanto ele próprio se contenta com poucas coisas, presta grandes serviços aos seus cidadãos.

LXXIX.

Assim como se tentasses manejar um navio, certamente aprenderias completamente a arte do timoneiro, [assim, se quiseres administrar um estado, aprende a arte de administrar um estado]. Pois estará em teu poder, como no primeiro caso manejar todo o navio, assim também no segundo caso manejar todo o estado.

[Ver nota de Schweig.]

[Ver nota de Schweig.]

Há evidentemente algo omitido no texto, cuja omissão é suprida pelas palavras incluídas entre colchetes [ ]. Schweig.

propõe mudar Κυρνὰν para Κνισσᾶν.

Ver sua observação sobre κασσᾶν... νόιν. Talvez ele esteja certo.

EPICTETO.

LXXX.

Se propões adornar tua cidade pela dedicação de oferendas (monumentos), primeiro dedica a ti mesmo (decora-te com) a mais nobre oferenda de gentileza, e justiça e beneficência.

LXXXI.

Prestarás os maiores serviços ao estado, se elevares não os telhados das casas, mas as almas dos cidadãos: pois é melhor que grandes almas habitem em pequenas casas do que escravos vis se escondam em grandes casas.

LXXXII.

Não decores as paredes de tua casa com as pedras preciosas da Eubeia e de Esparta; mas adorna as mentes (peitos) dos cidadãos e daqueles que administram o estado com a instrução que vem da Hélade (Grécia). Pois os estados são bem governados pela sabedoria (discernimento) dos homens, e não por pedra e madeira.

LXXXIII.

Assim como, se desejasses criar leões, não te importarias com o custo de seus covis, mas com os hábitos dos animais; assim também, se tentas presidir teus cidadãos, não sejas tão ansioso quanto ao custo dos edifícios, mas sim cuidadoso quanto ao caráter viril daqueles que neles habitam.

LXXXIV.

Assim como um hábil domador de cavalos não alimenta (apenas) os bons potros e deixa morrer de fome os que lhe são desobedientes, mas alimenta a ambos igualmente, e castiga o mais

 Os mármores de Cáristo, na Eubeia, e os mármores de Tênaro, perto de Esparta, eram usados pelos romanos, e talvez também pelos gregos, para decoração arquitetônica.

(Estrabão, x. 446, e viii. 367, ed. Cas.) Compare Horácio, Carm. ii. 18: "Não é marfim nem ouro que reluz em meu teto, etc."

 Este fragmento contém uma lição para a administração de um estado. Os bons devem ser protegidos, e os maus devem ser melhorados pela disciplina e punição.

EPICTETO.

e o força a se igualar ao outro: assim também um homem cuidadoso e hábil no poder político tenta tratar bem aqueles cidadãos que têm bom caráter, mas não quer que aqueles de caráter contrário sejam arruinados de imediato; e de nenhuma maneira lhes nega o alimento, mas ensina e urge com mais veemência aquele que resiste à razão e à lei.

LXXXV.

Assim como um ganso não se assusta com o grasnido, nem uma ovelha com o balido, não deixes que o clamor de uma multidão insensata te alarme.

LXXXVI.

Assim como uma multidão, quando sem razão exige de ti algo que é teu, não te desconcerta, não sejas movido de teu propósito nem mesmo por uma turba quando injustamente tenta te mover.

LXXXVII.

O que é devido ao estado, paga o mais rápido que puderes, e nunca te será cobrado o que não é devido.

LXXXVIII.

Assim como o sol não espera por preces e encantamentos para se induzir a nascer, mas imediatamente brilha e é saudado por todos: assim também tu não esperes por palmas, gritos e louvores para te induzir a fazer o bem, mas sê um fazedor do bem voluntariamente, e serás amado tanto quanto o sol.

LXXXIX.

Nem um navio deve confiar em uma única âncora pequena, nem a vida deve repousar em uma única esperança.

XC.

Devemos estender nossas pernas e estender nossas esperanças apenas até o que é possível.

 Não tenho certeza do que significa μυεῖν. Ver no Índice de Grecidade a palavra συνασκεῖν.

EPICTETO.

Quando Tales foi perguntado o que é mais universal, respondeu: a esperança, pois a esperança permanece com aqueles que não têm mais nada.

XCII.

É mais necessário curar a alma do que o corpo, pois morrer é melhor do que viver uma vida má.

XCIII.

Pirro costumava dizer que não há diferença entre morrer e viver; e um homem lhe disse: Por que então não morres? Pirro respondeu: Porque não há diferença.

XCIV.

Admirável é a natureza e, como diz Xenofonte, amante dos seres animados.

O corpo então, que é de todas as coisas a mais desagradável e a mais sórdida (suja), nós amamos e cuidamos; pois se fôssemos obrigados por apenas cinco dias a cuidar do corpo do nosso próximo, não seríamos capazes de suportá-lo. Considera então o que seria levantar-se de manhã e esfregar os dentes de outro, e, após fazer algumas das necessárias funções, lavar essas partes.

Em verdade, é maravilhoso que amemos uma coisa à qual prestamos tais serviços todos os dias.

Encho este saco e depois o esvazio; o que é mais trabalhoso? Mas devo agir como servo de Deus.

Por essa razão permaneço (aqui), e suporto lavar este miserável corpo, alimentá-lo e vesti-lo. Mas quando eu era mais jovem, Deus impôs-me também outra coisa, e eu me submeti a ela. Por que então não te submetes, quando a Natureza, que nos deu este corpo, o retira? Amo o corpo, podes dizer.

Bem, como disse agora há pouco, a Natureza deu-te também este amor pelo corpo; mas a Natureza diz: Deixa-o agora, e não tenhas mais preocupação (com ele).

XCV.

Quando um homem morre jovem, ele culpa os deuses.

Quando envelhece e não morre, ele culpa os deuses porque sofre quando já deveria ter cessado de sofrer.

E, no entanto, quando a morte se aproxima, deseja viver, e envia ao médico e suplica-lhe que não omita cuidado ou esforço algum.

Admiráveis, disse ele, são os homens, que nem querem viver nem morrer.—

XCVI.

À vida mais longa e pior, a vida mais curta, se for melhor, deve por todos os meios ser preferida.

XCVII.

Quando somos crianças, nossos pais nos entregam a um pedagogo para cuidar de que em todas as ocasiões não soframos dano algum.

Mas quando nos tornamos homens, Deus nos entrega à nossa consciência inata (crwetSTjcrei) para cuidar de nós. Esta tutela, portanto, não devemos de modo algum desprezar, pois desagradaremos a Deus e seremos inimigos de nossa própria consciência.

XCVIII.

[Devemos usar a riqueza como matéria para algum ato, não para todo ato igualmente.]

Vede a excelente nota de Scliweig. sobre este fragmento.

Há manifestamente um defeito no texto, o qual a nota de Schweig. supre.

A Sra.

Carter sugere que airdpfo-Toy no texto deveria ser dndpecTToi: e assim Schweig.

o tem.

EncTETUs.

XCIX.

[A virtude então deve ser desejada por todos os homens mais do que a riqueza, que é perigosa para os tolos; pois a maldade dos homens é aumentada pela riqueza.

E quanto mais um homem é desprovido de senso, mais violento é ele no excesso, pois tem os meios de satisfazer seu desejo louco por prazeres.]

C.

O que não devemos fazer, nem deveríamos pensar em fazer.

CI.

Delibera muito antes de dizer ou fazer qualquer coisa, pois não terás o poder de recordar o que foi dito ou feito.

CII.

Todo lugar é seguro para aquele que vive com justiça.

CIII.

Os corvos devoram os olhos dos mortos, quando os mortos já não têm necessidade deles.

Mas os aduladores destroem as almas dos vivos e cegam seus olhos.

CIV.

A ira de um macaco e as ameaças de um adulador devem ser consideradas como a mesma coisa.

CV.

Ouve aqueles que desejam aconselhar o que é útil, mas não aqueles que estão ansiosos para adular em todas as ocasiões; pois os primeiros realmente veem o que é útil, mas os segundos olham para aquilo que concorda com a opinião daqueles que possuem poder, e imitando as sombras dos corpos, assentem ao que é dito pelos poderosos.

EPICTETUS.

CVI.

O homem que dá conselho deve primeiro ter consideração pela modéstia e caráter (reputação) daqueles a quem aconselha; pois aqueles que perderam a capacidade de corar são incorrigíveis.

CVII.

Admoestar é melhor do que reprovar: pois a admoestação é suave e amigável, mas a reprovação é áspera e insultuosa; e a admoestação corrige aqueles que estão errando, mas a reprovação apenas os condena.

CVIII.

Dai do que tendes aos estrangeiros (ξένοις) e aos que necessitam: pois aquele que não dá a quem precisa, não receberá ele próprio quando precisar.

CIX.

Um pirata havia sido lançado à terra e perecia por causa da tempestade.

Um homem pegou roupas e deu-lhas, e trouxe o pirata para sua casa, e supriu-o com tudo o mais que era necessário.

Quando o homem foi repreendido por uma pessoa por fazer bondade aos maus, ele respondeu: "Mostrei esta consideração não ao homem, mas à humanidade."

CX.

Um homem deve escolher (buscar) não todo prazer, mas o prazer que conduz ao bem.

CXI.

É próprio do homem sábio resistir aos prazeres, mas do homem tolo ser escravo deles.

*Mrs. Carter em suas notas frequentemente se refere aos preceitos cristãos, mas ela nada diz aqui.

O fragmento não é de Epicteto; mas, seja a história verdadeira ou não, é um exemplo do comportamento de um homem sábio e bom.

† Ver a interpretação e emenda de Schweig. Duvido que ele esteja certo.

EPICTETO.

CXII.

O prazer, como uma espécie de isca, é lançado diante (em frente) de tudo o que é realmente mau, e facilmente atrai almas gananciosas ao anzol da perdição.

CXIII.

Escolhe antes punir teus apetites do que ser punido através deles.

CXIV.

Nenhum homem é livre que não é senhor de si mesmo.

CXV.

A videira produz três cachos de uvas: o primeiro é o do prazer, o segundo o da embriaguez, o terceiro o da violência.

CXVI.

Sobre o teu vinho, não fales muito para exibir tua erudição; pois proferirás coisas biliosas.

CXVII.

Está embriagado aquele que bebe mais de três taças; e se não está embriagado, excedeu a moderação.

CXVIII.

Que a tua conversa sobre Deus seja renovada todos os dias, mais do que a tua comida.

CXIX.

Pensa em Deus com mais frequência do que respiras.

CXX.

Se sempre te lembrares de que, tudo o que estás fazendo na alma ou no corpo, Deus está presente como um inspetor, nunca errarás (farás o mal) em todas as tuas orações e em todos os teus atos, mas terás Deus habitando contigo.

* (ἁμαρτήσῃ γὰρ δι' ὅλου. Ver a nota de Schweig.)

† Esta é a doutrina de Deus no homem.

Ver o Índice.

EPICTETO.

CXXI.

CXXII.

A lei, na verdade, pretende prestar serviço à vida humana, mas não o pode quando os homens não escolhem aceitar os seus serviços; pois é somente naqueles que lhe são obedientes que ela manifesta a sua virtude especial.

CXXIII.

Assim como os médicos são salvadores para os doentes, assim também o são as leis para aqueles que sofrem injustiça.

CXXIV.

As leis mais justas são aquelas que são as mais verdadeiras.

CXXV.

Ceder à lei, ao magistrado e àquele que é mais sábio do que você é algo conveniente.

CXXVI.

As coisas que são feitas contra a lei são o mesmo que coisas que não são feitas.

CXXVII.

Na prosperidade, é muito fácil encontrar um amigo; mas na adversidade, é a coisa mais difícil de todas.

CXXVIII.

O tempo alivia os tolos da tristeza, mas a razão alivia os sábios.

CXXIX.

Sábio é aquele que não se aflige pelas coisas que não tem, mas se alegra pelas que possui.

* Comparar com Lucrécio, livro II, início.

EPICTETO.

CXXX.

Perguntaram a Epicteto como um homem deveria causar dor ao seu inimigo; ele respondeu: preparando-se para viver a melhor vida que puder.

CXXXI.

Que nenhum homem sábio se oponha a assumir o cargo de magistrado (τὸ ἄρχειν): pois é ímpio para um homem afastar-se de ser útil àqueles que necessitam dos nossos serviços, e é ignóbil ceder aos indignos; pois é tolice preferir ser mal governado a governar bem.

CXXXII.

Nada é mais conveniente para aquele que governa do que não desprezar ninguém e não demonstrar arrogância, mas presidir a todos com igual cuidado.

CXXXIII.

[Na pobreza, qualquer homem vive (pode viver) feliz, mas muito raramente na riqueza e no poder (ἀρχαῖς). O valor da pobreza excede tanto que nenhum homem justo (νόμιμος) trocaria a pobreza por uma riqueza desonrosa, a menos que, de fato, o mais rico dos atenienses, Temístocles, filho de Neocles, fosse melhor do que Aristides e Sócrates, embora fosse pobre em virtude.

Mas a riqueza de Temístocles e o próprio Temístocles pereceram e não deixaram nome algum.

Pois todas as coisas morrem com a morte no homem mau, mas o bem é eterno.]

CXXXIV.

Lembre-se de que tal era, e é, e será a natureza do universo, e que não é possível que as coisas que vêm a ser possam vir a ser de outra maneira senão como agora o fazem; e que não apenas os homens participaram dessa mudança e transmutação, e todos os outros seres vivos que estão sobre a terra, mas também as coisas que são divinas.

E, de fato, os próprios quatro elementos são mudados e transmutados para cima e para baixo, e a terra torna-se água, e a água torna-se ar, e o ar, por sua vez, é transmutado em outras coisas, e a mesma maneira de transmutação ocorre de cima para baixo.

Se um homem tenta voltar sua mente para esses pensamentos, e persuadir-se a aceitar com disposição aquilo que é necessário, ele passará pela vida com completa moderação e harmonia.

CXXXV.

Aquele que está insatisfeito com as coisas presentes e com o que é dado pela fortuna é um homem ignorante (ἀμαθής) na vida; mas aquele que as suporta nobremente e racionalmente, e as coisas que delas procedem, é digno de ser considerado um homem bom.

CXXXVI.

Todas as coisas obedecem e servem ao mundo (o universo), a terra e o mar e o sol e o restante dos astros, e as plantas da terra e os animais.

E nosso corpo também lhe obedece, tanto na doença quanto na saúde, quando (o universo) assim o escolhe, tanto na juventude quanto na velhice, e quando está passando pelas outras mudanças.

O que é razoável, então, e está em nosso poder, é isto: que nosso julgamento não seja a única coisa que resista a ele (o universo); pois ele é forte e superior, e determinou melhor acerca de nós, administrando (governando) a nós também juntamente com o todo.

E, além disso, essa oposição também é irracional e não faz nada além de nos fazer atormentar inutilmente e cair em dor e tristeza.

Os fragmentos que se seguem são atribuídos em parte a Epicteto, em parte a outros.

CXXXVII.

O contentamento, por ser um caminho curto e agradável, tem grande deleite e pouco trabalho.

EPICTETO.

CXXXVIII.

Fortifique-se com o contentamento, pois esta é uma fortaleza inexpugnável.

CXXXIX.

Que nada seja mais valorizado do que a verdade: nem mesmo a seleção de uma amizade que esteja fora da influência das afecções, pelas quais (afecções) a justiça é tanto confundida (perturbada) quanto obscurecida.

CXL.

A verdade é uma coisa imortal e perpétua, e nos dá uma beleza que não se desvanece com o tempo, nem nos tira a liberdade de expressão que procede da justiça; mas nos dá o conhecimento do que é justo e lícito, separando deles o injusto e refutando-o.

CXLI.

Não deveríamos ter nem uma faca cega nem uma liberdade de expressão mal administrada.

CXLII.

A natureza deu aos homens uma língua, mas dois ouvidos, para que ouçamos dos outros o dobro do que falamos.

CXLIII.

Nada é realmente agradável ou desagradável por natureza, mas todas as coisas se tornam assim através do hábito (costume).

CXLIV.

Escolhe a melhor vida, pois o costume (hábito) a tornará agradável.

CXLV.

Tem o cuidado de deixar teus filhos bem instruídos em vez de ricos, pois as esperanças do instruído são melhores do que a riqueza do ignorante.

O significado da segunda parte é confuso e incerto.

Ver a nota de Schweig.

Em lugar de *afairei* a Sra. Carter propõe ler *diapherei*.

Ver a nota de Schweig.

EPICTETO.

CXLVI.

Uma filha é uma posse para seu pai que não lhe pertence.

CXLVII.

A mesma pessoa aconselhava a deixar a modéstia aos filhos em vez de ouro.

CXLVIII.

A repreensão de um pai é um remédio agradável, pois contém mais do que é útil do que daquilo que causa dor.

CXLIX.

Aquele que foi afortunado num genro encontrou um filho; mas aquele que foi desafortunado perdeu também uma filha.

CL.

O valor da educação (conhecimento), como o do ouro, é valorizado em todo lugar.

CLI.

Aquele que exercita a sabedoria exercita o conhecimento que é acerca de Deus.

CLII.

Nada entre os animais é tão belo quanto um homem adornado pelo aprendizado (conhecimento).

CLIII.

Devemos evitar a amizade dos maus e a inimizade dos bons.

CLIV.

A necessidade das circunstâncias prova os amigos e detecta os inimigos.

CLV.

Quando nossos amigos estão presentes, devemos tratá-los bem; e quando estão ausentes, falar bem deles.

Ver a nota de Schweig.

F

EPICTETO.

CLVI.

Que nenhum homem pense que é amado por alguém quando ele não ama ninguém.

CLVII.

Deves escolher tanto o médico quanto o amigo não pelo mais agradável, mas pelo mais útil.

CLVIII.

Se desejas viver uma vida livre de tristeza, pensa no que vai acontecer como se já tivesse acontecido.

CLIX.

CLX.

Liberta-te do sofrimento não pela insensibilidade, como os animais irracionais, nem pela falta de pensamento, como os tolos, mas como um homem virtuoso, tendo a razão como consolação do sofrimento.

CLXI.

Aqueles que são menos perturbados em mente pelas calamidades e, na ação, mais lutam contra elas, esses são os melhores homens nos Estados e na vida privada.

CLXII.

Aqueles que foram instruídos, como os que foram treinados na palestra, ainda que tenham caído, levantam-se de sua desgraça rápida e habilmente.

CLXIII.

Devemos convocar a razão, como um bom médico, como auxílio na desgraça.

CLXIV.

Um tolo, tendo desfrutado da boa fortuna como da embriaguez em grande quantidade, torna-se mais tolo.

CLXV.

A inveja é a antagonista do afortunado.

EPICTETO.

CLXVI.

Quem tem em mente o que é o homem nunca será perturbado por qualquer coisa que aconteça.

CLXVII.

Pois para fazer uma boa viagem são necessários um piloto (mestre) e vento; e para a felicidade, razão e arte.

CLXVIII.

Devemos desfrutar da boa fortuna enquanto a temos, como os frutos do outono.

CLXIX.

É irracional quem se aflige (perturba) com as coisas que acontecem pela necessidade da natureza.

Alguns Fragmentos de Epicteto omitidos por Upton e por Meibomius.

CLXX.

Das coisas que existem, Deus colocou algumas em nosso poder, e outras não.

Em nosso próprio poder ele colocou o que é o melhor e o mais importante, aquilo através do qual ele próprio é feliz: o uso das representações (φαντασιῶν). Pois quando esse uso é corretamente empregado, há liberdade, felicidade, tranquilidade, constância; e isso é também justiça, lei, temperança e toda virtude.

Mas todas as outras coisas ele não colocou em nosso poder.

Por isso, também nós devemos estar em uníssono com Deus e, fazendo essa divisão das coisas, cuidar daquelas que estão em nosso poder; e das coisas que não estão em nosso poder, confiá-las ao Universo (τῷ κόσμῳ), e quer ele exija nossos filhos, nossa pátria, nosso corpo ou qualquer outra coisa, entregá-las voluntariamente.

¹ Este é um fragmento valioso e, creio eu, um fragmento genuíno de Epicteto.

Há claramente um defeito no texto, que Schweighaeuser supriu judiciosamente.

F

EPICTETO.

CLXXI.

Quando um jovem se vangloriava no teatro e dizia: "Sou sábio, pois conversei com muitos sábios", Epicteto disse: "Eu também conversei com muitos ricos, mas não sou rico."

A mesma pessoa disse: Não é bom para quem foi bem instruído falar entre os não instruídos, assim como não é certo para quem está sóbrio falar entre os que estão bêbados.

CLXXII.

Perguntaram a Epicteto:

Que homem é rico? Respondeu:

Aquele que está contente (que tem o suficiente).

CLXXIII.

Xantipa repreendia Sócrates, porque ele fazia pouca preparação para receber seus amigos: mas Sócrates disse: Se eles são nossos amigos, não se importarão com isso; e se não são, nós não nos importaremos nada com eles.

CLXXIV.

Quando Arquelau mandava chamar Sócrates para torná-lo rico, Sócrates disse aos mensageiros que levassem esta resposta: Em Atenas, quatro medidas (quenices) de farinha são vendidas por um óbolo (a sexta parte de uma dracma), e as fontes correm com água: se o que tenho não é suficiente para mim, contudo eu sou suficiente para o que tenho, e assim isso se torna suficiente para mim. Não vedes que não foi com voz mais nobre que Pólo representou o papel de Édipo como rei do que de Édipo como andarilho e mendigo em Colono? Então o homem bom parecerá inferior a Pólo, e incapaz de representar bem todo caráter (personagem) imposto a ele pela Divindade? E não imitará Ulisses, que mesmo em trapos não fez pior figura do que no suave manto púrpura?

* Ver a nota de Schweig sobre este fragmento; e sua observação sobre as palavras οὐδὲν μικρότερον οὐδέν, e sua emenda proposta.

EPICTETO.

CLXXV.

Que me importa, diz ele (Epicteto), se todas as coisas são compostas de átomos (ἀτόμων), ou de partes semelhantes (ὁμοιομερῶν), ou de fogo e terra? Pois não basta conhecer a natureza do bem e do mal, e as medidas (μέτρα) dos desejos e das aversões (ἐκκλίσεων), e também os movimentos em direção às coisas e para longe delas; e usando estas como regras para administrar os assuntos da vida, mas não nos preocuparmos com as coisas que estão acima de nós? Pois estas coisas são talvez incompreensíveis para a mente humana: e se alguém as supor mesmo no mais alto grau compreensíveis, qual é então o proveito delas, se forem compreendidas? E não devemos dizer que aqueles homens têm trabalho desnecessário que atribuem estas coisas como necessárias ao discurso do filósofo? É então também o preceito escrito em Delfos supérfluo, que é Conhece-te a ti mesmo? Não é assim, diz ele.

Qual é, então, o significado disso? Se um homem desse a um coreuta (membro do coro) o preceito de conhecer a si mesmo, não teria ele observado no preceito que deve dirigir sua atenção para si mesmo?

CLXXVI

Você é uma pequena alma que carrega um corpo morto, como disse Epicteto.

CLXXVII

Ele (Epicteto) disse que descobriu uma arte em dar assentimento; e no tópico (matéria) dos movimentos descobriu que devemos observar a atenção, para que os movimentos sejam sujeitos à exceção (μεθ' ὑπεξαιρέσεως), que sejam sociais, que sejam conforme o valor de cada coisa; e que devemos nos abster inteiramente do desejo, e empregar a aversão (ἐκκλίσει) a nenhuma das coisas que não estão em nosso poder.

¹ Veja a nota de Schweig., e sua observação sobre a última linha do texto.

² Veja M. Antoninus, iv. 41.

³ Veja a tradução de M. Antoninus, xi. 37; onde traduzi esta passagem um pouco diferentemente da presente tradução. O significado é o mesmo. Não sei qual é a melhor tradução.

EPICTETO.

CLXXVIII

Sobre nenhuma coisa comum, disse ele, é a disputa (contenda), mas sobre estar louco ou não.

CLXXIX

AUL. Gélio, xiii. 19.

Ouvi Favorino dizer que o filósofo Epicteto afirmara que 'a maioria daqueles que parecem filosofar são filósofos deste tipo, ἄνευ τοῦ πράττειν, μέχρι τοῦ λέγειν.'² Isso significa: longe dos feitos, apenas nas palavras.

Mas é mais veemente aquilo que Arriano registrou por escrito nos livros que compôs sobre suas Dissertações, que ele costumava repetir.

Pois, 'quando,' diz ele, 'observava um homem que, tendo perdido a vergonha, com indústria importuna, costumes corrompidos, audaz, confiante na língua, e cuidando de todas as outras coisas exceto da alma; a um homem desse tipo,' diz ele, 'quando o via também tocar nos estudos e disciplinas da filosofia, e abordar a física e meditar a dialética, e suspeitar e investigar muitos teoremas dessa espécie, invocava a fé dos deuses e dos homens, e frequentemente, entre os clamores, o repreendia com estas palavras: "Ὦ ἄνθρωπε, ποῦ φέρῃς; σκόπει εἰ κεκάθαρται τὸ ἀγγεῖον. ἂν γὰρ εἰς τὴν οἴησιν βάλλῃς, ἀπώλου."'³

r/v (pois, de fato, o que poderia ser mais grave, ou o que seria pior do que isso? Nada, certamente, há de mais grave, nada mais verdadeiro do que estas palavras, pelas quais o maior dos filósofos declarava que 'as letras e as doutrinas da Filosofia, quando teriam influxido num homem mau e degenerado, como num vaso impuro e poluído, se voltam, se mudam, se corrompem, e (como ele mesmo diz, o que é mais vil) tornam-se urina, ou algo mais imundo do que a urina.' Além disso, o mesmo Epicteto, conforme ouvimos do mesmo Favorino, costumava dizer: 'dois são os vícios, de todos os mais graves e mais hediondos: a intolerância e a incontinência, quando não toleramos nem suportamos as injúrias que devem ser suportadas, ou não nos contemos daquelas coisas e prazeres dos quais devemos nos conter.

Portanto,' dizia ele, 'se alguém tiver estas duas palavras no coração, e cuidar delas, impondo-as a si mesmo e observando-as, esse será, na maioria das vezes, sem culpa e viverá uma vida tranquilíssima. Estas duas palavras ele dizia: 'Suporta e abstém-te.'

CLXXX.

AULO GÉLIO, XIX.

1.

Um filósofo celebrado na disciplina estoica... tirou de sua bagagem um livro do filósofo Epicteto, o quinto das Diatribes: as quais, compostas por Arriano, não há dúvida de que concordam com os escritos de Zenão e de Crisipo.

Nesse livro, escrito em língua grega, lemos esta sentença: 'As representações da alma,' que os filósofos chamam de *phantasias*, 'pelas quais a mente do homem é atingida, desde a primeira aparência da coisa que incide sobre a alma, não são voluntárias nem arbitrárias, mas impõem-se aos homens para serem conhecidas por uma certa força própria.

Mas os assentimentos, que chamam de *synkatatheseis*, pelos quais essas mesmas representações são conhecidas e julgadas, são voluntários e ocorrem por arbítrio dos homens.

Por isso, quando algum som, ou do céu, ou de uma ruína, ou um [repentino] anunciador de perigo, ou algo outro desse tipo acontece, é necessário que também o ânimo do sábio se mova por um pouco, se contraia e empalideça, não por ter recebido a opinião de algum mal, mas por certos movimentos rápidos e inconsultos que se antecipam ao ofício da mente e da razão.

Mas logo o sábio, ali mesmo, não aprova tais *phantasias*, isto é, essas representações terríficas de sua alma: isto é, não dá assentimento (*ou synkatathetai*) nem as admite, mas as rejeita e as repele, e não parece que nelas haja nada a temer.'

E, dizem que nisto difere o ânimo do insensato e do sábio: que o insensato, quais as coisas que ao primeiro impulso de seu ânimo pareceram cruéis e ásperas, tais as julga serem verdadeiramente, e aprova com seu próprio assentimento os mesmos intentos como se devessem ser temidos por direito, e προσεπιτιθεται (pois desta palavra usam os Estóicos quando sobre esta matéria discorrem). O sábio, porém, quando brevemente e de modo estrito foi movido na cor e no semblante, ου συγκατατιθεται, mas conserva o estado e o vigor de sua sentença, que sempre teve acerca de tais visões, como das que são minimamente temíveis, mas que aterram com falso semblante e vão temor.

EPICTETO.

CLXXXI.

ARNÓBIO, CONTRA OS GENTIOS, FIM DO LIVRO NONO.

Quando se trata da salvação das almas e do respeito a nós mesmos; 'algo deve ser feito também sem razão', como aprovam que Epicteto disse, segundo Árriano.

'Pois onde a razão falta, aí somente a confiança em Deus deve ser depositada e, com obediência à Sua vontade por Ele declarada, em lugar de súdito, deve-se agir.' Schweig.

Ver Encheirídio, xxxii.

( 441 )

ÍNDICE.

Acadêmicos, os,

, a tolice dos, 171,

, os, não podem cegar seus próprios

sentidos embora o tenham tentado,

Aquiles,

Ato, todo, considera o que é, 381
Atos que dão testemunho às

palavras de um homem, 94
— — , indolência e indiferença quanto

a, Epicteto censura, 130
Ator em uma peça, o homem é um, 386
Admeto, pai de, 242
Administrador de todas as coisas, a

prova de que há um, 144
Adônis, jardins de, 356
Adultério,

Afeto, um, como é produzido, 202
Afeição, natural, 37
Afetuoso, como tornar-se, 277
Agamêmnon e Aquiles, disputa

de, 191
Αναφέρω, uma prensa, 305
Agripino, Pacônio, 7, 9, 417
Alcibíades, 200
Alexandre e Menelau,

e Heféstion,

Arte alíptica, a, 136
Anaxágoras, 114
Ανεχου και Απεχου, 439
Animais, para que são feitos, 50
Anonae, Prefeito, 35
Antípatro, 136
Antístenes, Xenofonte e Platão,

157,

, nobre dito de,

tornou Diógenes livre,

Ansiedade, sobre,

Ânito e Meleto,

'Αφορμαί,

'Αποτεύγμα.

Aparências, φαντασίαι, uso correto

de, 4, 20, 45, 61:

, e os auxílios a serem providos

contra elas,

, agimos de acordo com,

, a natureza do Bem e também

do Mal está no uso de,

, a faculdade de compreender

o uso de,

, expulsam a razão,

, conduzem; e devem ser resistidas,

, uso correto de, livre de res-

trição,

, frequentemente perturbam e confundem,

, como devemos exercitar-nos

contra,

, devem ser examinadas,

Aqueduto, Marciano, em Roma,

Arquedemo,

Arquelau e Sócrates,

Arquimedes,

Argumentos, sofísticos, 23,

Argumento, aquele que é forte em,

Aristides,

e Eveno,

Aristófanes e Sócrates, 369,

Arnóbio,

Arriano,

Arrogância, presunção, oiriffis,

e desconfiança,

, vanglória, e orgulho, advica

ÍNDICE.

contra, 286, 381 dS7, 394,395,

Assentimento, causa do, 83; àquilo que parece falso

não pode ser compelido, 253; Asnos, calçados, 306; Atenção, sobre, 372; Aversão, skkKktis,

Tagarela, um, 376, 377; Banho, o, 68; Beleza, 195,

, onde está,

Mendigos, observações sobre, 290; Crença não pode ser compelida, 304; Melhores homens, os, 434; Corpo, o, não pôde ser tornado livre

de impedimentos, 309; ■ e espírito devem ser separados,

, o, um instrumento usado por

outro poder, 424; Livros, para que servem,

, poucos melhores que muitos,

Irmandade dos homens,

Butler, Bispo, 3, 134, 198, 326, 33S,

348,

O amigo de César não é feliz,

Gaiolas, pássaros mantidos em, pelos Romanos,

CiU'vstus e Tênaro, mármores de,

Cassiope ou Cassope,

Catecismo da Igreja da Inglaterra,

Cautela sobre o convívio familiar

com homens,

Caráter, sobre assumir um, acima

da tua força,

Caracteres, diferentes, não podem ser

misturados,

Cristianismo, opinião da Sra.

Carter sobre o poder do,

Cristãos, promessa de felicidade futura

a, sob certas condições,

Crisipo, 14, 17, 36, 43, 53, 54,

113,

, o Pseudomenos de,

sobre Possibilidades,

Crisipo sobre a resolução de

silogismos,

 e Antípatro,

e Zenão,

Circunspecção, sobre,

Circunstâncias difíceis, uma lição

para,

mostram o que os homens são,

Limpeza,

Cleantes, 31, 163,

, um exemplo da busca

do conhecimento sob dificuldades,

Codicilo, um,

Colofão, o,

Senso comum,

Companhia, comportamento em, 394, 396,

Presunção de pensar que sabemos

algo,

Cousas, algumas que um homem não

fará,

Confissão, geral, de pecados no

Livro de Oração da Igreja da

Inglaterra,

Conflagração, a grande,

Axioma conjuntivo ou complexo,

Consciência, t rweiS6s, poder da,

Consciência de que nada sabe, um homem que nada sabe deve ter a,

Contenda desigual entre uma encantadora

jovem e um principiante em

filosofia,

Contradições, efeito de demonstrar,

Convencer a si mesmo, um poder dado ao

homem para,

Coragem e cautela, 97,

e cautela, quando são

aplicáveis,

A covardia leva os homens a frequentar a

adivinhação,

Crates, um Cínico, e sua esposa,

Críton, Diálogo de Platão, nomeado,

Cínico, o verdadeiro; seu ofício corresponde ao moderno professor de

religião,

ÍNDICE.

Cínico, um, não deseja esconder

nada:

, o verdadeiro, um mensageiro de

Zeus,

, o pai de todos os homens e
mulheres,

A faculdade diretriz do cínico deve ser pura,

poder de resistência,

O cínico, o, enviado por Deus como exemplo, ?

Cinismo, um homem não deve tentá-lo sem Deus,

, em diante,

Demônio, o de cada homem, 48  Trevas, os homens buscam, para ocultar
seus atos, 249  Morte,

■ , medo da,

 ou dor, e o medo da dor
ou da morte, 98  , o que um homem deveria estar
fazendo quando a morte o surpreende,

, o que é, 230,

, exortação para recebê-la
gratamente, 310  e nascimento, como vistos por uma
tribo selvagem, 335  , a resolução da matéria
do corpo nas coisas das
quais foi composto, 347   , um homem deve ser encontrado fazendo
algo quando ela vem; e
o que deveria ser, 361   , quando ela vem, o que Epicteto
deseja poder dizer a Deus,

é o porto para todos,

deve estar diariamente diante dos olhos
de um homem, 387  Demétrio, um cínico, 75  Demonstração, o que é; e con-
tradição, 189, 190  Lógica Formal de De Morgan, 28  Design, 19  O desejo de coisas impossíveis é
tolo, 272  Desejos, consequências dos,

Desejo e aversão, o que são,

Determinações, apenas as corretas
devem ser mantidas, 145  Desvio, todo, vem de algo
que está na natureza do homem,

Dialética, a ser aprendida por último, 291  Dificuldades, as nossas, são sobre coisas
externas, 360  Diodoro Cronos, 162  Diógenes, 71, 139, 203, 226, 369, 418  , quando lhe pediram cartas de
recomendação,

 e Filipe,

com febre,

amigo de Antístenes,

■ e os cínicos do tempo de Epicteto,

; sua aparência pessoal,

, como ele amava a humanidade,

A opinião de Diógenes sobre a liberdade, 298  Diógenes e Antístenes,

, livre, 317,

e Heráclito,

Dion de Prusa,

Pessoas sujas, não capazes de serem
melhoradas, 370  Disputa ou discussão, 133  Adivinhação, 116, 893  Adivinho, interno, 116  Médicos, viajantes, 280  Domiciano bane os filósofos
de Roma, 71  Porta, a aberta, 72, 99  Dever, o que é o de um homem, 112  para com Deus e para com o nosso próximo,

Deveres da vida descobertos a partir dos nomes,

do casamento, gerar filhos
e outros,

são medidos pelas relações

{σχέσεις),

Educação, Epicteto sabia o que ela
deveria ser, 53,

, o que é,

, qual deveria ser o propósito
da,

ÍNDICE.

ἡγεμονικόν, τὸ, a faculdade
governante, 49. 332
— — , a faculdade diretriz, descrita,

Encheirídio, 1  Fim, o verdadeiro do homem, 20  Fim, tudo o que fazemos deve
ser referido a um, 264  Entimema, 28  Inveja, a noção de; Sócrates e
Bispo Butler, 134  Epaminondas, 41;i  Epafrodito.

6, 62, 78  Epicteto, 1, 2,

, e o estilo dos Evangelhos,

, erro de, 31, mal compreendido, 56,

e o Novo Testamento

■escritores, semelhanças entre,

, afirmação extravagante de,

talvez confunda judeus e

cristãos,

, como ele poderia saber o que Deus

é, 141, qual foi o efeito de seus

ensinamentos, 149, nega conhecimento de certas

coisas, 82,

, seu propósito ao ensinar,

, grande bom senso de, na educa-ção,

, algumas observações imprudentes de, 289,

afirma que um homem não pode ser

compelido a assentir àquilo que

lhe parece falso, 303, aconselha a não fazer como seu

amigo faz simplesmente porque ele é

seu amigo, 322, —, que reflexões ele reco-menda, 344, mal compreendido pela Sra.

Carter,

Conselho de Epicteto sobre causar dor

a um inimigo, 430, Epicteto, ditos sábios de, 436, Epicuro, 69,

, doutrinas de, 65,

— —, as opiniões de,

Epicuro, suas opiniões refutadas,

168,

, sua opinião sobre a honestidade,

, sobre o fim do nosso ser, e

outras obras de, 185, opinião de Epicuro sobre a injustiça, 214, Epicureus e Acadêmicos, 167, Epicureus e catamitas, 274, epicurista, um, 213, Épiro, governador de, 207, Erifila e Anfiarao, 181, Erro, a propriedade do, 192, Erros de outros, não devemos ficar

zangados com os, 56, Etéocles e Polinices, 177, 337, Eucaristia no serviço da Igreja da

Inglaterra, 120, Eufrates, o filósofo, 235, não agiu bem por causa

dos espectadores, 353, Eurípides, 113, 178, 404, Medeia de Eurípides, 83, Eurípides, fragmento de, sobre a morte, 336, , o grande armazém de nobres

pensamentos, 361, Eventos, todos, como usar, 383, Evidência, a afirmação de que todas as

coisas são incapazes de certeza, 167, Mal, a origem do, é o abuso da

racionalidade e da liberdade, 123, , o, em tudo, é aquilo

que é contrário à natureza

da coisa, 313, , a natureza do, não existe

no mundo, 390, para os homens, a causa de todos os seus,

é a incapacidade de adaptar as

preconcepções (προλήψεις) às

várias coisas, 299, Exercício, sobre, 225, Exercitando-se, método de um

homem, 206, Exteriores à vontade, 92, , alguns segundo a natureza, e

outros contrários, 111, , os homens admiram e se ocupam

com,

, julgamento a partir de, falacioso, 3.

coisas, que vantagem pode ser

derivada de,

ÍNDICE.

Rosto, o, não expressa o

caráter oculto, 106, Faculdade, racional,

, diretriz, 236

— —, a diretriz, como restaurada à

autoridade original, 159, , a diretriz, o material para

o homem sábio e bom, 204, Fé e obras, 354, Falso, impossibilidade de assentir a

Aqui está a tradução do trecho para o português do Brasil:

---

ÍNDICE.

Intimidade familiar, sobre, 322  
Faltas, não é possível para um homem estar livre de todas, 374  
Favorino,  
Febre, uma deusa em Roma, 60, 68  
Firmeza no perigo, 109  
Tolo, ii, não pode ser persuadido, 146  
Perdão melhor que vingança, 419  
Fragmentos de Epicteto, 405  
Pessoas livres somente permitidas a serem educadas, 100  
Livre, o que é, 253  
, nenhum homem mau é,  
, quem são, a questão respondida, 301, 302  
A liberdade é obtida não pela satisfação dos desejos, mas pela remoção do desejo,  
■ e escravidão,  
Amizade,  
, o teste de,  
, conselho sobre,  
, do que depende,  
, opiniões de Epicteto sobre,  
Galileus, 126, 345  
Jogos, gregos, 287  
Gélio, A., 438, 439  
Gladiadores,  
Objetos gloriosos na natureza, os, 151  
Deus, o que é,  
— — , natureza de; até que ponto descrito por Epicteto,  
, as obras de,  
, um guia, 117,  
Dons de Deus,  
Deus sabe todas as coisas,  
em homem,  
■ em homem, uma doutrina antiga,  
Deus, o espírito de, em homem, a doutrina de Paulo e de Epicteto, 120,  
habitando com um homem,  
Deus em toda parte, 250  
Lei de Deus sobre o Bem,  
lei de que o mais forte é sempre superior ao mais fraco, 88, 89  
Deus e homem, parentesco de,  
■ e homem, e as opiniões do homem sobre Deus, 141,  
, discurso a,  
— , o discurso do homem sábio e bom a; e sua submissão à vontade de Deus,  
além do entendimento do homem, 21,  
deve ser obedecido,  
, obediência a, o prazer de, 285, 286  
Vontade de Deus, 330  
vontade deve ser a medida de nossos desejos,  
vontade, conformidade absoluta a,  
ensinado por Epicteto, 308,  
vontade, quando a resignação a ela é perfeita, Bispo Butler, 348  
Deus, culpando, 166  
Poder de Deus sobre todas as coisas, 46, 47  
Deus, suposta limitação de seu poder, 340  
, o que um homem deveria ser capaz de dizer a,  
, o pai de todos, 12, 23,  
, um amigo de,  
, sem, nada deveria ser tentado, 256  
, o que ele escolhe é melhor do que o que o homem escolhe, 348  
e sua administração do mundo, aqueles que culpam, 254  
Existência de Deus, negar, e comer seu pão, 172  
Deus somente, olhando para e fixando suas afeições nele somente,  
enviou um homem para mostrar como uma vida sob dificuldades é possível, 254  
fez todas as coisas perfeitas,  
e as partes do universo para o uso do todo, 346  
Deus e os deuses, 12  
Deuses, várias opiniões sobre os, 41, 42  
, ações aceitáveis aos,  
. homem deve aprender a natureza deles, e tentar ser como eles, 141  
■ , pedimos o que eles não dão, 408  
Goethe, 19  
Ouro testado por uma certa pedra, 419  
Bem e mal, cada um um certo tipo

da vontade, 87, mau, e coisas indiferentes,

e o mal consiste na vontade,

intenção, 130 — — não poderia existir sem o mal,

e o mal; Crisipo e Simplício,

■, o, onde está,

, a natureza (oviria) de,

■ homem, um, não infeliz, 272 Preceitos evangélicos que os cristãos

não observam, 289 Gyarus, Gyara, 75 Gyara, 284, 285,

Hábito, como opor-se a ele,

e faculdade, como mantido e aumentado,

158, 159, como enfraquecido e destruído,

160 Hábitos devem ser opostos por hábitos

contrários, 226, 227 Hábito acalentado por atos

correspondentes, 288 Halteres.

15, 327 Beija-mão,

Alças, duas, tudo tem, 399 Felicidade e desejo do que não está

presente nunca se encontram,

, apenas um caminho para,

Harpaston, uma bola,

Audição, quem é apto para ela, move

o orador, 192 Discurso de Heitor a Andrômaca,

Helenos, disputas entre os, Hélvidio, Prisco, 10 Heráclito,

e Zenão,

Hércules, 152, 161, 256,

Hipócrates,

Homero, o que ele quis dizer quando

escreveu certas coisas, 366 Esperança, opinião de Tales sobre, 424 A inteligência humana é uma parte da

divina, 44 raça, a, continuação dela, como

assegurada,

ser, um, definição de

Hipócrita, o, 356 Hipótese (intoQecris),

Ideias inatas, do bem e do mal, 131 Idiotas, t'SiwTTjs, o significado de, 9.

, tJjtTTjy, uma pessoa comum,

Ignorância a causa de fazer o mal;

Homem ignorante, descrição de um, 190 A Ilíada, é apenas aparências e

o uso das aparências, 84 Imortalidade da alma; Sócrates

e Epicteto, 231 Impressões, (pavrafflai, guardar-se

contra, 397 Indiferente, coisas que são, 64 Indiferença das coisas; das coisas

que não são nem boas nem más,

Informantes em Roma, 375 Iniciados, os, fivcrrat, 310 Injustiça, um ato de, um grande dano para

quem o pratica, 334 Estalagem, uma, iravSoKfov, 187 Interesse, próprio; e interesse comum

ou utilidade, 61 , todo animal apegado ao seu

próprio, 178 Invencível, como um homem deve ser, 59 , como um homem pode ser,

Jesus, oração de,

e Sócrates comparados por

Baur, 321 , e de Sócrates, a morte de,

contrastada por Rousseau,

ÍNDICE.

KaXhs Ka hyaOSs,

Conhece-te a ti mesmo, a máxima, 58,

a ti mesmo, o começo do

conhecimento,

Conhece-te a ti mesmo, o preceito escrito

em Delfos, 437 Kifffios, sentido de, 282 Kipios, o uso de,

Lãs,

Laterano, Pláucio,

Laticlávio, o,

Lei da vida é o agir conforme

a natureza,

, a lei divina,

Leis, as, enviadas por Deus,

Lei, o que é,

, natureza da,

Aprender e ensinar, o que eles

significam,

Conferências de Levin, 17, 80,

Liberdade, o que os homens fazem por ela,

Vida e prática do mundo civilizado, a,

, humana, uma guerra, 273,

, a ciência de, :]03,

dos mortos repousa na lembrança dos vivos,

Leões, domesticados,

Lógica é necessária, prova disso,

A arte lógica é necessária,

Amor, um poder divino,

Ama a humanidade, quem,

Amar, só está no poder dos sábios,

Licurgo, 170,

O comportamento generoso de Licurgo,

O homem e outros animais, 5,

e bestas, como se distinguem,

123

um espectador de Deus e suas obras, e um intérprete,

Os poderes do homem, 73, 74, 182

O homem, poderes frequentemente não exercitados,

e uma cegonha, a diferença entre,

, o que é um,

, o que é ele?

O homem é melhorado ou destruído por atos correspondentes,

, um, que cuidou de tudo em vez do que deveria,

O homem supostamente consiste de uma alma e um corpo,

O que é próprio do homem, o que é,

O homem, para que propósito Deus o introduziu no mundo, 310,

, caráter de um, que é um tolo e uma besta,

A natureza do homem é buscar o Bem; e a opinião do Bispo Butler,

, um, as opiniões só tornam sua alma inexpugnável,

grandes faculdades, 31

O homem é esse poder que usa as partes do seu corpo e entende as aparências das coisas,

, um, desprezível quando é incapaz de fazer qualquer bem,

Alforria,

Não casar; e não se envolver em assuntos públicos, eram doutrinas epicuristas,

Casamento,

, o censor romano Metelo sobre,

, a opinião de Paulo sobre; e a opinião diferente de Epicteto,

de um ministro de Deus, na opinião de Epicteto no estado atual das coisas,

, a verdadeira natureza de, não compreendida por Paulo,

Massúrio e Cássio, juristas romanos,

Nossos senhores, aqueles que têm poder sobre as coisas que amamos, odiamos e tememos,

Materiais, D'Aoj, não são nem bons nem maus,

Mateus, cap. vi., 31,

Medida de cada ato,

Medeia,

Meneceu,

ÍNDICE.

Milesíacas,

Dinheiro não é a melhor coisa,

Vasos murrinos,

Nomes, exame de, o começo da educação,

, um homem deve primeiro entender,

Natureza, agir de acordo com, 37,

, poder da,

, seguir; um modo de falar, justo e verdadeiro, Bispo Butler, 19b

, viver de acordo com; princípio de Zenão,

do homem,

de tudo o que agrada ou supre uma necessidade, considere qual é a,

, a vontade de, como conhecida,

, a, do mal não existe no mundo,

Nero,

, moedas de,

Notícias, não se perturbar com,

Nícias,

Nicópolis, 63, 71, 112,

Obstinação, sobre,

Pessoa obstinada que é persuadida a mudar de ideia, exemplo de um,

Opinião, 162,

Opiniões, certas, as consequências da destruição de,

postas em prática que são contrárias às opiniões verdadeiras,

nos perturbam,

sobre coisas independentes da

vontade,

Opinião a causa do agir de um homem,

, quando a necessidade dela surge,

deve estar pronta,

Opiniões, o poder das,

, certo e errado, e suas

consequências,

, não são as coisas que perturbam os homens,

, princípios fixos, como são ad-  quiridos,

Órgãos dos sentidos e membros são ins-  trumentos usados pelo homem vivo, Bispo Butler,

'Op fir],

Ostentação, aqueles que leem e

discutem por, 264  Oixria, 29, 87  , substância ou natureza do Bem,

, A natureza do homem não pode ser

totalmente pura,

Pedagogo, um, 425  Pancrácio, Pentatlo, 195  Paradoxos, paralogismos, 76  Partidário, um inconveniente, 207  Patronus, a palavra romana, 221  Paulo, citação imperfeita de, pela

Sra.

Carter, 243  e Epicteto contemporâneos,

e Epicteto não concordam

sobre o casamento, 317  Penalidades para aqueles que desobedecem à

administração divina, 225  Percepção,

Renovação periódica das coisas, 99  Peripatéticos, os, 165  Pessoas que lhe contam todos os seus assuntos

e desejam saber os seus, 375  Persuasão, um homem tem mais poder

de, consigo mesmo, 359  ojo/iecor, rb : pavTaT'ia, 86  ofTO(ria(, visa animi,

, visa animi, Gellius,

avTaa-la, uma imaginação de coisas

futuras, que trará bem,

Fídias, 21, 121, 122  Filosofia,

, o que ela promete, 49,

, o começo dela, 79,

deve ser prática,

, como saber que temos

feito progresso nela, 400 :

Filósofo, um,

, o trabalho de um, 140,

, primeiro negócio de um,

, um real, descrito,

Filósofos apenas em palavras,

ÍNDICE.

Regras dos filósofos aplicadas à prá-  tica,

Piedade e o interesse de um homem devem  estar na mesma coisa,

, e santidade são coisas boas,

aos Deuses, o que é,

e o interesse de um homem, como

eles estão conectados,

Pirata, como tratado por um sábio e

bom homem,

Ensinamento de Pítaco, que o per-  dão é melhor que a vingança,

Platão e Hipócrates,

diz que toda alma é invo-  luntariamente privada da verdade,

Dito de Platão, 160  doutrina de que toda mente é pri-  vada da verdade involuntariamente,

■ Política lida pelas mulheres em

Lar, 417 Prazer, natureza do, 416 Polemon e Xenocrates, 196 Políbio sobre o estado romano, 170 Polinices e Etéocles, 393 Pobres, se, sejam contentes e felizes, 410 Pobreza e riqueza, 411, 430 Prática em ouvir, necessária para aqueles que vão ouvir filósofos, 189 Precognições (προλήψεις), adaptação das, a casos particulares, 66, 67 Preconcepção, πρόληψις, 8 Preconcepções, como ajustadas às várias coisas, , como adaptá-las aos seus objetos correspondentes, 154 Princípio, o dominante, de um homem mau não pode ser confiável, 180 Princípios, gerais; e sua aplicação, 77 devem estar sempre prontos, 105 Princípio, o, do qual depende todo movimento do homem e de Deus, Princípios, quem tem grandes, conhece seus próprios poderes, 357 Procrastinação perigosa, προαιρετικὴ δύναμις, ou προαίρεσις, no sentido mais amplo, 183 Protágoras e Hípias, 211 Providência, 19, 41, 50, , πρόνοια, , sobre; περὶ προνοίας, Publicanos, εἰκοστῆναι, Pureza, limpeza, um homem se distingue dos outros animais por, 366 Pirro, e os Acadêmicos, Dito de Pirro, 424 Versos dourados de Pitágoras, 222 Pitágoras, 344 Deus Pítio, o, Codornizes, como usadas pelos gregos, 28 Leitura, observações do Bispo Butler sobre , qual deveria ser o propósito de, 326, 331 Razão; raciocínio, o propósito de, 24, 52, 64 , poder de comungar com Deus, , como ela contempla a si mesma, não dada ao homem para o propósito de miséria, 271 Raciocínio, 26 Recitações, casas emprestadas para, em Roma, Reforma dos costumes produzida pelo Evangelho, 149 Relações, três, entre um homem e outras coisas, 141 Ressurreição de Cristo; e a doutrina de Paulo sobre a ressurreição do homem, — — do corpo, várias opiniões de teólogos da Igreja Inglesa sobre, 284 Riquezas e felicidade, 409 Anéis, de ouro, usados pelos Cavaleiros Romanos, 299 Roma, dependentes aguardam grandes homens em, 331 Rufo, C. Musônio, 7, 27, 34, 212, 236, G ÍNDICE. Regra, uma, o valor de, Regras, pelas quais as coisas são testadas, devem ser fixadas; e então as regras podem ser aplicadas, Regras, certas, devem estar prontas, Sagradas são as palavras por si mesmas, dizem os homens, 246 Sarpedão, filho de Zeus, 81 Saturnais, 74, 80, 302 Savigny sobre o livre-arbítrio, 55 Céticos, os, negam o conhecimento e a certeza das coisas, 81 Escolástico, um, 41 Escola, quem vem à, com o propósito de ser melhorado? , a, com que mente deve ser adentrada, , do filósofo, uma cirurgia, Assuntos secretos exigem fidelidade e

opiniões correspondentes, 377  
Parecer ser não é suficiente, 132  
Autoconhecimento, γνῶθι σεαυτόν 256  
Amor próprio, consideração própria, 61  
Doença, como devemos suportar, 222  

Sinal para deixar a vida, de Deus,  
, o, para se aposentar,  
, o, para recuar,  

Simplício,  
, comentário de, sobre o Encheiridion, 390, 404  
Escravo, um, por que deseja ser libertado, 298  
, um, não garante a felicidade ao ser libertado, 298, 299  
Sócrates, 12, 30, 33, 41, 53, 76, 99,  
101, 103, 104, 110, 115, 139, 160,  
227, 228, 233, 237, 251, 267, 268,  
284, 354, 400, 403  
— e seu tratamento pelos atenienses, 88  
 preferiu a morte a dizer e fazer coisas indignas dele,  
■ e o Fédon de Platão,  
■ ensinou que não devemos fazer o mal pelo mal,  

Sócrates, o método de, 134,  
 sabia pelo que a alma racional é movida,  
, o que diz aos seus juízes,  
Sócrates não professava ensinar a virtude,  
, imitadores de,  
■ amava seus filhos, como,  
, Diógenes e Cleantes, como exemplos,  
, o que ensinou,  
, atos heroicos de,  
, um soldado corajoso e um filósofo,  
, lembrança do que fez ou disse em sua vida, ainda mais útil agora,  
 em sua prisão escreveu um hino a Apolo,  
 evitava brigas,  
, como administrava sua casa,  
, por que se lavava raramente,  
' opinião sobre adivinhação,  
— - e Diógenes, 151, 247, 275, 349,  

Solitário, não é, quem vê os grandes objetos da natureza,  
Solidão, sobre,  
Ditos sábios de Sólon,  
Sofistas, contra os,  
Tristeza de outro, até onde Epicteto se esforçaria para impedir,  

Almas, humanas, partes de Deus,  
Alma, corpo e coisas externas relacionam-se ao homem,  
 e corpo, separação de, nenhum mal nisso,  
, existência da, independente do corpo, talvez não ensinada por Epicteto,  
, a provável opinião de Epicteto sobre a,  
, a impureza da, é seus próprios maus julgamentos (opiniões),  

Falar, o poder de,  
Espírito, πνεῦμα,  
Sportulae,  

ÍNDICE.  

estrelas, número de, nem par nem ímpar,  
, número das,  
Stobeu,  
Estoicos, doutrina dos,  
, a linguagem dos, formada muito antes da dos escritores do Novo Testamento,  
Opiniões estoicas, o mero conhecimento de, não faz um homem estoico,  
, quem é um,  
Estoicos ensinaram que um homem deve viver uma vida ativa, e deve casar e gerar filhos,  
, os, dizem uma coisa e fazem outra,  
, ensino prático dos,  
— e os pirrônicos e acadêmicos, disputa entre,  

Sofrimentos úteis, quer escolhamos ou não,  
Suicídio, 32,  
Superiores, a maioria só pode imitar seus,  
Swedenborg, 47, 120,

Simpatia, opinião de Epicteto sobre,

Simpósio de Xenofonte, 135,

Professor, aptidão e ordenação de um,

QavfidCeiy, admirari, supervalorizar,

Qavfjideiv, admirari,

&4etv, BovXfffeai, 308,

Temístocles,

Teopompo,

&fwp7]fiara,

Teoremas, por que se diz que são inúteis,

, o uso de,

Termópilas, os espartanos que morreram em,

Tersites,

Coisas, vínculo de união entre,

— — sob a inspeção de Deus,

— — , o poder de usar e estimar,

Coisas, um homem é dominado por

antes de ser dominado por um

homem, 279, algumas em nosso poder e algumas

não, 378,

não perdidas, mas restauradas,

, algumas, incompreensíveis; e

qual é o uso delas, se

são compreendidas? 437 Trinta tiranos de Atenas, os, 139 Traseia, Peto, 6 Três coisas nas quais um homem deve

exercitar-se, 201 Arte torêutica, 216 Vida tranquila, uma, como assegurada, 382 Tranquilidade, o produto da virtude,

14,

, de,

de mente e liberdade, o homem

deve esforçar-se para alcançar, 152, para aqueles que desejam passar

a vida em, 325 Tesouro, o, onde está, ali

está também o coração, 179 Futilidades nas quais os homens se

ocupavam, 265, 269 Triunfos, romanos, 281 Verdade, na, a natureza do mal e do

bem está,

,

, a natureza de,

Tirania no tempo de Epicteto,

sob os Imperadores Romanos,

Ulisses e Hércules,

e Nausícaa,

Descrentes, o credo dos, 170 Infelicidade é culpa do próprio homem,

Universo,

, a natureza do,

Injusto, o que é, um homem não pode

fazer sem sofrer por isso, 312 Não instruído, o, é uma criança na vida,

Vespasiano, 10 Vitória, figura de,

ÍNDICE.

A recompensa da virtude está nos atos de

virtude, 276 A virtude é sua própria recompensa, 360 Visa animi, Gélio,

Riqueza,

, como adquirida,

O que é um homem?

Vontade, irpoatptais, 6, 16, 23, 40, 45,

—,

agir, 39,

 não pode ser compelida a assentir,

, coisas independentes da, são

nem boas nem más,

, o bem e o mal na, 73,

só a vontade conquista a vontade,

, a, nada superior à faculdade da, 127, a amizade depende da,

179, 180, a faculdade da, e seus

poderes, 182,

, pervertida,

, uma faculdade, e posta sobre as

outras faculdades, 184, quando está correta, usa todas as

outras faculdades, 185, a causa da felicidade, ou da

infelicidade, 186, o Bem está em uma correta determinação da, 205, fazer algo útil para

o exercício da,

Vontade, a, só pode impedir ou danificar

a si mesma, 241 do Cínico e seu uso das

aparências, 263, coisas fora do poder da,

, a, deve ser exercitada,

, do homem, posta por Deus em obediência somente a si mesmo,

de Deus, conformidade a,

Mulher, guerra por uma bela,

Mulheres sendo comuns por natureza;

o que isso significa?

, escravos W), 296,

Mundo, o, uma cidade,

Erro, um homem nunca comete, em uma coisa

e sofre em outra,

Xantipa, a esposa mal-humorada de Sócrates,

e Sócrates,

Xenócrates e Polemon, 370 "Στρίγλα, o estrígil romano,

Zenão, fundador da seita estoica, 65,

e Antígono,

e Sócrates,

Opiniões de Zenão,

Zeus, Deus, 12,

e o resto dos Deuses,

, a ocupação de,

o pai dos homens,

Londres: impresso por William Clowes e Filhos, Stamford Street e Charing Cross.

OBRAS

POR

GEORGE LONG, M.A.

OS PENSAMENTOS DO IMPERADOR M.

AURÉLIO ANTONINO.

Traduzido.

Edição Revisada, Post 8vo., 3s. 6d.

"Minhas citações de Marco Aurélio serão feitas (com permissão) da tradução vigorosa e admiravelmente exata do Sr. Long.

Ao agradecer ao Sr. Long, posso acrescentar que o leitor inglês encontrará em sua versão o melhor meio de se familiarizar com o livro mais puro e nobre da antiguidade." — O Rev.

F. W. Farrar, M.A., em "Seekers after God."

"A reputação do Sr. Long como erudito é garantia suficiente da fidelidade e exatidão geral de sua tradução.

. . . Mas aquilo pelo qual eu e o resto dos não instruídos podemos ousar elogiar o Sr. Long é isto — que ele trata os escritos de Marco Aurélio como trata todos os outros vestígios da antiguidade grega e romana que toca, não como uma matéria morta e seca de erudição, mas como documentos com um lado de aplicabilidade moderna e interesse vivo, e valiosos principalmente na medida em que esse lado neles pode ser esclarecido, que, como em suas notas sobre as 'Vidas Romanas de Plutarco,' ele lida com a época moderna de César e Cícero, não como alimento para estudantes, mas como alimento para homens, e homens engajados na corrente da vida e ação contemporâneas; assim em seus comentários e ensaios sobre Marco Aurélio ele trata este verdadeiramente moderno lutador e pensador não como um herói de dicionário clássico, mas como uma fonte presente da qual extrair 'exemplo de vida e instrução de costumes.' Por que um filho do Dr. Arnold não poderia dizer, o que naturalmente poderia ser dito por qualquer outro crítico, que nesta maneira viva e frutífera de considerar os homens e assuntos da Grécia e Roma antigas o Sr. Long se assemelha ao Dr. Arnold."

... Em geral, a substancialidade, a solidez e a precisão de sua tradução são tão evidentes quanto o espírito vivo com que ele trata a antiguidade; e essas qualidades são particularmente desejáveis no tradutor de uma obra como a de Marco Aurélio, cuja linguagem é frequentemente corrupta, quase sempre difícil e obscura." — "Essays on Criticism", de Matthew Arnold.

EPI.

Obras de George Long, M.A. — continuação.

8vo. 5s.

OS DISCURSOS DE EPICTETO; com o

Encheiridion e Fragmentos, traduzidos com Notas, uma Vida de Epicteto e uma visão de sua Filosofia.

Segunda Edição, com Acréscimos.

PENSAMENTOS DE UM VELHO SOBRE MUITAS

COISAS.

Contendo Capítulos sobre Escolas, Riquezas, Estátuas, Estilo, Livros, Educação, Tributação, etc. 8vo. 6s.

"Sentimos toda a certeza de que este livro se tornará um favorito entre todos os que amam a sabedoria genial transmitida em um estilo feliz e expressivo. Nem será um favorito de momento, mas um amigo e companheiro por anos, a quem o possuidor recorrerá com frequência tanto para conselho quanto para entretenimento." — Daily News.

"Esta obra peculiar e divertida é bem escrita." — Athenaeum.

"O autor é um cavalheiro idoso, astuto e inteligente, bem informado, e que certamente não passou sua longa vida em desvantagem. A gama de assuntos sobre os quais ele pensa é muito ampla, e o que ele diz é de qualidade genuína." — Court Journal.

"Neste livro encontrar-se-á excelente escrita, muitos pensamentos justos e um toque de originalidade vigorosa, rara demais para ser subestimada." — Westminster Review.

"É não sem pesar que somos compelidos a reconhecer que o Velho deve ser considerado como pertencente à escola de genialidade tagarela da qual 'A. K. H. B.' é o representante mais característico e conhecido. Ele é, no entanto, em todos os aspectos, muito superior ao Pároco do Campo; pois sua leitura é evidentemente mais do que usualmente extensa, enquanto, ao mesmo tempo, possui uma boa dose de originalidade e humor." — Spectator.

Obras de George Long, M.A. — continuação.

O DECLÍNIO DA REPÚBLICA ROMANA.

Em 5 vols., 8vo., 14s. cada.

Vol. I. Da Destruição de Cartago ao Fim da Guerra Jugurtina.

Vol. II. Até a Morte de Sertório.

Vol. III. Incluindo a Terceira Guerra Mitridática, a Conspiração de Catilina e o Consulado de Caio Júlio César.

Vol. IV. História das Campanhas Gálicas de César e dos Eventos Contemporâneos em Roma.

V. (Concluindo a Obra.) Da Invasão da Itália por César até sua Morte.

Se alguém pode nos guiar através dos labirintos quase inextricáveis deste dédalo, é o Sr. Long.

Como cronista, possui todo o conhecimento necessário e, o que é quase, senão totalmente, tão importante, a cautela necessária.

Ele nunca tenta explicar o que está irremediavelmente corrompido ou obscuro; não confunde o crepúsculo com a luz do dia; adverte repetidamente o leitor de que está pisando em terreno instável; não tem nenhuma estrutura de teoria na qual force seus fatos." — Saturday Review.

"Quanto ao tom geral do livro, podemos falar com grande elogio.

O Sr. Long está livre daquela admiração por 'sangue e ferro', que macula os brilhantes volumes do Dr. Mommsen.

Ele pode admirar a grandeza de César e, no entanto, como vimos, não está cego à enorme quantidade de sofrimento humano que suas guerras causaram; aponta as fraquezas de Cícero, mas não o trata como um tolo desprezível; está atento às deficiências de Catão, mas não o considera um criminoso por resistir à tentativa de César de se tornar o único senhor do mundo romano.

No geral, pensamos muito bem de sua obra.

Ela poderia, a nosso ver, ter sido ainda mais valiosa do que é; que não seja, deve-se, não a qualquer falta de habilidade no autor, mas à sua própria escolha.

Ele tinha sua própria ideia do modo como deveria ser escrita, e nesse modo é habilmente e fielmente executada.

Sentimos muito ao nos despedir de um estudioso que, no curso de uma longa vida, fez muito pelo aprendizado clássico, que sempre trabalhou honesta e honrosamente, e cujos trabalhos foram tão mediocremente recompensados." — Athenaeum.

Obras de George Long, M.A. — continuação,

ORATÓRIAS DE CÍCERO (Edição Bibliotheca Classica) — Editadas, com um Comentário em Inglês.

Em 4 vols.

Vol. I., 16s. Vol. II., 14s. Vol. III., 16s. Vol. IV., 18s.

M. TULLII CICERONIS, Cato Major sive De Senectute, Lselius sive de Amicitia et Epistolae Selectae.

Editado com Notas em Inglês para Uso Escolar.

Formato oitavo, 4s. 6d.

CESAR DE BELLO GALLICO. Editado com Notas em Inglês.

Formato oitavo, 5s. 6d.

CESAR DE BELLO GALLICO.

Livros I.— III.

Com Notas em Inglês para Classes Juniores.

Nova Edição.

Formato oitavo, 2s. 6d.

LONDRES: GEORGE BELL AND SONS, YORK STREET, COVENT GARDEN.

CATÁLOGO DAS

BIBLIOTECAS DE BOHN.

N.B. — Solicita-se que todos os pedidos sejam acompanhados de pagamento.

Livros são enviados com frete grátis mediante o recebimento do preço publicado em selos ou de outra forma.

As obras às quais as letras N. S. (indicando Novo Estilo) são anexadas são mantidas em encadernações de tecido limpas, de várias cores, bem como no estilo regular de Biblioteca.

Todos os pedidos são executados na nova encadernação, a menos que o contrário seja expressamente declarado.

Conjuntos completos ou volumes separados podem ser obtidos em curto prazo, meio-encadernados em couro ou marroquim.

Novos volumes de Obras Padrão nos diversos ramos da Literatura estão constantemente sendo adicionados a esta Série, que já é inigualável em relação ao número, variedade e barateza das obras nela contidas. Os Editores têm a anunciar os seguintes Volumes como recentemente publicados ou agora em preparação: —

Obras Menores de Sêneca.

Traduzido por Aubrey Stewart, M. A.

[No prelo.

Vida de Shakespeare, por Elze.

Traduzido por L. Dora Schmitz.

[No prelo.

Juliano, o Apóstata.

Pelo Rev.

C. V. King.

[No prelo.

A Riqueza das Nações, de Adam Smith.

Impresso a partir da Quarta Edição, com Introdução de E. Belfort Bax.

Pronto, ver p. 8.

História da Ficção, de Dunlop.

Com Introdução e Suplemento trazendo a obra até os tempos recentes.

Por Henry Wilson.

2 vols.

[No prelo.

Cartas e Obras de Lady Mary Wortley Montagu.

Pronto, ver p. 7.

História Concisa da Pintura, de Heaton.

[No prelo.

Diálogos dos Deuses, dos Deuses do Mar e dos Mortos, de Luciano.

[No prelo.

Vidas das Princesas Tudor e Stuart, de Strickland.

Em um volume.

[No prelo.

Fevereiro, 1888.

BIBLIOTECAS DE BOHN.

BIBLIOTECA PADRÃO.

Vols. a 3s. 6d. cada, exceto aqueles marcados de outra forma.

(56s. por conjunto.)

OBRAS de ADDISON.

Com Notas do Bispo Hurd.

Breve Memória, Retrato e 8 Pranchas de Medalhas.

2 vols.

N. S.

Esta é a edição mais completa das Obras de Addison já publicada.

TRAGÉDIAS de ALFIERI.

Em Verso Inglês.

Com Notas, Argumentos e Introdução, por E. A. Bowring, C.B. 2 vols.

POESIA AMERICANA.

— A Poesia da América.

OBRAS MORAIS e HISTÓRICAS de BACON, incluindo Ensaios, Apotegmas, Sabedoria dos Antigos, Nova Atlântida, Henrique VII, Henrique VIII, Elizabeth, Henrique Príncipe de Gales, História da Grã-Bretanha, Júlio César e Augusto César.

Com Introdução Crítica e Biográfica e Notas por J. Devey, M.A. Retrato.

N. S. Ver também Biblioteca Filosófica.

BALADAS e CANÇÕES do Campesinato da Inglaterra, de Recitação Oral, MSS. Particulares, Folhetos, etc. Editado por R. Bell.

N. S.

BEAUMONT E FLETCHER.

Seleções.

Com Notas e Introdução de Leigh Hunt.

BECKMANN (J.) História das Invenções, Descobertas e Origens.

Com Retratos de Beckmann e James Watt.

vols.

N. S.

BELL (Robert).— Baladas, Chaucer, Green.

BOSWELL'S Vida de Johnson, com o TOUR pelas HÉBRIDAS e JOHNSONIANA.

Nova Edição, com Notas e Apêndices, pelo Rev. A. Napier, M.A., Trinity College, Cambridge, Vigário de Holkham, Editor da Edição de Cambridge das 'Obras Teológicas de Barrow.' Com Frontispício para cada vol.

vols.

N. S.

BREMER (Frederika) Obras.

Trad. por M. Howitt.

Retrato.

vols.

N. S.

BRINK (B. T.) Literatura Inglesa Primitiva (até Wiclif).

Por Bernhard Ten Brink.

Trad. pelo Prof. H. M. Kennedy.

N. S.

POETAS BRITÂNICOS, de Milton a Kirke White.

Edição de Gabinete.

Com Frontispício.

vols.

N. S.

BROWNE (Sir Thomas) Obras.

Edit. por S. Wilkin, com a Vida de Browne por Dr. Johnson.

Retrato.

vols.

BURKE Obras.

vols.

N. S.

Discursos sobre o Impeachment de Warren Hastings; e Cartas.

vols.

N. S.

Vida.

Por J. Prior.

Retrato.

N. S.

BURNS (Robert). Vida de. Por J. G. Lockhart, D.C.L. Uma nova edição ampliada.

Com Notas e Apêndices por W. S. Douglas.

Retrato.

N. S.

BUTLER (Bispo) Analógica da Religião; Natural e Revelada, à Constituição e Curso da Natureza; com Duas Dissertações sobre Identidade e Virtude, e Quinze Sermões.

Com Introduções, Notas e Memória.

Retrato.

N. S.

CAMÕES' Os Lusíadas, ou a Descoberta da Índia.

Um Poema Épico.

Trad. do Português, com Dissertação, Esboço Histórico e Vida, por W. J. Mickle.

5ª edição.

N. S.

CARAFAS (Os) de Maddaloni.

Nápoles sob o Domínio Espanhol.

Trad. por Alfred de Reumont.

Retrato de Massaniello.

CARREL.

A Contrarrevolução na Inglaterra para o Restabelecimento do Papado sob Carlos II e Jaime II, por Armand Carrel; com a História de Jaime II de Fox e a Memória de Jaime II de Lord Lonsdale. Retrato de Carrel.

CARRUTHERS.

— Pope, na Biblioteca Ilustrada.

BOHN'S LIBRARIES.

CARY'S Dante.

A Visão do Inferno, Purgatório e Paraíso.

Trad. pelo Rev. H. V. Cary, M.A. Com Vida, Visão Cronológica de sua Era, Notas e Índice de Nomes Próprios.

Retrato.

N. S. _ _

Esta é a edição autêntica, contendo as últimas correções do Sr. Cary, com notas adicionais.

CELLINI (Benvenuto). Memórias, por ele mesmo.

Com Notas de G. P. Carpani.

Tradução de T. Roscoe.

Retrato.

N. S.

A Galateia, de Cervantes.

Um Romance Pastoral.

Trad. por G. W. J. Gyll.

N. S.

Novelas Exemplares.

Trad. por

W. K. Kelly.

IV. 6.

Dom Quixote de la Mancha.

Tradução de Motteux revisada.

Com a Vida e Notas de Lockhart.

vols.

N. 5.

Obras Poéticas de Chaucer.

Com Poemas anteriormente atribuídos a ele.

Com uma Memória, Introdução, Notas e um Glossário, por R. Bell.

Edição melhorada, com Ensaio Preliminar pelo Rev. W. W. Skeat, M.A. Retrato.

vols.

N. S.

CONTOS CLÁSSICOS, contendo Rasselas, Vigário de Wakefield, Viagens de Gulliver e A Viagem Sentimental.

N. S.

O Amigo, de S. T. Coleridge.

Uma Série de Ensaios sobre Moral, Política e Religião.

Retrato.

N. 6.

Auxílios à Reflexão.

Confissões de um Espírito Inquiridor; e Ensaios sobre a Fé e o Livro de Oração Comum.

Nova Edição, revisada.

N. S.

Table-Talk e Omniana.

Por T. Ashe, B.A. N.S.

Conferências sobre Shakespeare e outros Poetas.

Editado por T. Ashe, B.A. N.S.

Contendo as conferências registradas em 1811-12 por J. P. Collier, e as proferidas em Bristol em 1813.

Biographia Literaria; ou Esboços Biográficos de Minha Vida Literária e Opiniões; com Dois Sermões Leigos.

N.S.

Miscelâneas, Estéticas e Literárias; às quais se acrescenta A Teoria da Vida.

Corrigido e organizado por T. Ashe, B.A. N.S.

COMMINES. — Phm/.

História do Domínio dos Árabes na Espanha, de Condé.

Trad. por Mrs. Foster.

Retrato de Abderahmen ben Moavia.

vols.

Obras Completas de Cowper, Poemas, Correspondência e Traduções.

Editado com Memória por R. Southey.

Gravuras.

vols.

Memórias do Duque de Marlborough, de Coxe.

Com sua Correspondência original, a partir de registros familiares em Blenheim.

Edição revisada.

Retratos.

vols.

» Um Atlas dos planos das campanhas de Marlborough, 4to. 10s. 6d.

História da Casa da Áustria.

Desde a Fundação da Monarquia por Rodolfo de Habsburgo até a Morte de Leopoldo II, 1218-1792. Por Arcd. Coxe.

Com Continuação desde a Ascensão de Francisco I até a Revolução de 1848. 4 Retratos.

vols.

Vidas dos Mais Eminentes Pintores Britânicos, de Cunningham.

Com Notas e 16 novas Vidas por Mrs. Heaton.

vols.

N.S.

Romances e Obras Diversas de Defoe.

Com Prefácios e Notas, incluindo aqueles atribuídos a Sir W. Scott.

Retrato.

vols.

N. S.

A CONSTITUIÇÃO DA INGLATERRA, de De Lolme, na qual é comparada tanto com a forma republicana de governo quanto com as outras monarquias da Europa.

Ed., com Vida e Notas, por J. Macgregor, M.P.

HISTÓRIA DA FICÇÃO, de Dunlop.

Com Introdução e Suplemento adaptando a obra às exigências atuais.

Por Henry Wilson.

vols.

[no prelo.

VIDA DE SHAKESPEARE, de Elze.

Trad. por L. Dora Schmitz.

[no prelo.

OBRAS DE EMERSON.

vols.

Edição mais completa publicada.

N. S.

Vol. I. — Ensaios, Conferências e Poemas.

Vol. II. — Características Inglesas, Natureza e Conduta da Vida.

Vol. III. — Sociedade e Solidão — Cartas e Objetivos Sociais — Artigos Diversos (até agora não coletados) — May-Day, etc.

VIDA E CORRESPONDÊNCIA DE JOHN FOSTER.

Ed. por J. E. Ryland. Retrato.

vols.

N. S.

Conferências na Capela de Broadmead.

Ed. por J. E. Ryland.

vols.

N. S.

Ensaios Críticos contribuídos para a 'Eclectic Review'. Ed. por J. E. Ryland.

vols.

N. S. Ensaios: Sobre a Decisão de Caráter; sobre o escrever Memórias de Si Mesmo; sobre o epíteto Romântico; sobre a aversão dos Homens de Gosto à Religião Evangélica.

N. S.

Ensaios sobre os Males da Ignorância Popular, e um Discurso sobre a Propagação do Cristianismo na Índia.

N. S.

Ensaio sobre o Melhoramento do Tempo, com Notas de Sermões e Outras Peças.

N. S.

Fosteriana: selecionada de periódicos, ed. por H. G. Bohn.

N. S.

BIBLIOTECA PADRÃO.

FOX (Rt. Hon. C. J.) — Correspondência.

DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO, de Gibbon.

Completo e sem abreviações, com Notas variorum; incluindo as de Guizot, Wenck, Niebuhr, Hugo, Neander e outros.

vols. Mapas e Retrato.

N.S.

OBRAS DE GOETHE.

Trad. para o inglês por E. A. Bowring, C.B., Anna Swanwick, Sir Walter Scott, etc. etc. 13 vols.

N. S.

Vols. I. e II. — Autobiografia e Anais.

Retrato.

Vol. III. — Fausto. Completo.

Vol. IV. — Romances e Contos: contendo Afinidades Eletivas, Sofrimentos de Werther, Os Emigrantes Alemães, As Boas Mulheres e uma Novelleta.

Vol. V. — Aprendizagem de Wilhelm Meister.

Vol. VI. — Conversas com Eckermann e Soret.

Vol. VII. — Poemas e Baladas nos metros originais, incluindo Hermann e Dorothea.

Vol. VIII. — Götz von Berlichingen, Torquato Tasso, Egmont, Ifigênia, Clavigo, Amante Volúvel e Cúmplices.

Vol. IX. — Viagens de Wilhelm Meister. Edição Completa.

Vol. X. — Viagem à Itália. Duas Partes.

E Segunda Residência em Roma.

Vol.

XI. — Viagens Diversas, Cartas da Suíça, Campanha na França, Cerco de Mainz e Passeio pelo Reno.

Vol.

XII. — Cartas Iniciais e Diversas, incluindo Cartas a sua Mãe, com Biografia e Notas.

Vol. XIII. — Correspondência com Zelter.

Correspondência com Schiller.

7 vols. — Ver Schiller.

Obras de GOLDSMITH.

Vols. N.S.

Vol. I. — Vida, Vigário de Wakefield, Ensaios e Cartas.

Vol. II. — Poemas, Peças, Abelha, Fantasma de Cock Lane.

Vol. III. — O Cidadão do Mundo, Educação Polida na Europa.

Vol. IV. — Biografias, Críticas, Ensaios Posteriores.

Vol. V. — Prefácios, História Natural, Cartas, Boa e Velha Dois Sapatos, Índice.

GREENE, MARLOWE e BEN JONSON (Poemas de). Com Notas e Memórias por R. Bell.

N.S.

As Evidências, Doutrinas e Deveres da Religião Cristã, do Dr. GREGORY.

Contos Domésticos de GRIMM. Com as Notas Originais. Trad. pela Sra. A. Hunt. Introdução de Andrew Lang, M.A. 2 vols. N.S.

História do Governo Representativo na Europa, de GUIZOT. Trad. por A. R. Scoble.

Revolução Inglesa de 1640. Desde a Ascensão de Carlos I até sua Morte. Trad. por W. Hazlitt. Retrato.

História da Civilização. Desde o Império Romano até a Revolução Francesa. Trad. por W. Hazlitt. Retratos. 3 vols.

Obras e Remanescentes do Rev. Robert HALL. Memória pelo Dr. Gregory e Ensaio por J. Foster. Retrato.

Contos de HAUFF. A Caravana — O Xeque de Alexandria — A Estalagem no Spessart. Traduzidos pelo Prof. S. Mendel. N.S.

Contos de HAWTHORNE. 3 vols. N.S.

Vol. I. — Contos Contados Duas Vezes, e a Imagem de Neve.

Vol. II. — A Letra Escarlate, e a Casa das Sete Torres.

Vol. III. — Transformação, e Romance de Blithedale.

Obras de W. HAZLITT. 4 vols. N.S.

Conversa à Mesa. A Literatura da Era de Elizabeth e Personagens das Peças de Shakespeare. N.S.

Poetas Ingleses e Escritores Cômicos Ingleses. N.S.

O Orador Simples. Opiniões sobre Livros, Homens e Coisas. N.S.

Mesa Redonda. Conversas de James Northcote, R.A.; Características. N.S.

Esboços e Ensaios, e Winterslow. N.S.

Espírito da Era; ou, Retratos Contemporâneos. Aos quais são adicionados Pensamentos Livres sobre Assuntos Públicos, e uma Carta a William Gifford. Nova Edição, por W. Carew Hazlitt. N.S.

Poemas de HEINE. Traduzidos nos metros originais, com Vida por E. A. Bowring, C.B. N.S.

Quadros de Viagem. O Passeio no

Harz, Norderney e Livro de Ideias, juntamente com a Escola Romântica.

Trad. por F. Storr.

Com Mapas e Apêndices.

M.S.

OBRAS DE HOFFMANN.

Os Irmãos Serapião.

Vol. I. Trad. por Ten.-Cel. Ewing.

M.S. {Vol. II. no prelo.

BIBLIOTECAS DE BOHI.

OBRAS DRAMÁTICAS DE HUGO (Victor).

Hernani — Ruy Bias— A Diversão do Rei.

Traduzido por Sra. Newton Crosland e F. L. Slous.

N.S.

Poemas, principalmente Líricos.

Coletados por H. L. Williams.

N.S.

Este volume contém contribuições de F. S. Mahoney, G. W. M. Reynolds, Andrew Lang, Edwin Arnold, Sra. Newton Crosland, Srta. Fanny Kemble, Bispo Alexander, Prof. Dowden, etc.

HUNGRIA: sua História e Revolução, com Memórias de Kossuth.

Retrato.

HUTCHINSON (Coronel). Memórias de. Por sua Viúva, com sua Autobiografia, e o Cerco de Lathom House, Retrato.

N.S.

OBRAS COMPLETAS DE IRVING (Washington).

vols.

N.S.

Vida e Cartas. Por seu Sobrinho, Pierre E. Irving. Com Índice e um Retrato.

vols.

N.S.

VIDA DE RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO, de JAMES (G. P. R.).

Retratos de Ricardo e Filipe Augusto.

vols.

Luís XIV. Retratos. vols.

JAMESON (Sra.) Heroínas de Shakespeare.

Características das Mulheres. Por Sra. Jameson.

N.S.

JEAN PAUL.— Ver Richter.

JONSON (Ben). Volpone.— Ver Greene.

CARTAS DE JÚNIUS. Com Notas de Woodfall. Um Ensaio sobre a Autoria. Fac-símiles de Manuscritos, 2 vols.

N.S.

FÁBULAS DE LA FONTAINE. Em Verso Inglês, com Ensaio sobre os Fabulistas. Por Elizur Wright.

N.S.

OS GIRONDINOS DE LAMARTINE, ou Memórias Pessoais dos Patriotas da Revolução Francesa.

Trad. por H. T. Ryde.

Retratos de Robespierre, Madame Roland e Charlotte Corday.

vols.

— ;- A Restauração da Monarquia na França (uma Sequência de Os Girondinos).

Retratos. vols.

A Revolução Francesa de 1848. Retratos.

ELIA E ELIANA, de LAMB (Charles). Edição Completa. Retrato.

N.S.

■ Amostras de Poetas Dramáticos Ingleses da época de Elizabeth. Notas, com os Extratos das Peças de Garrick.

N.S.

Cartas de Charles Lamb, de Talfourd. Nova Edição, por W. Carew Hazlitt. vols.

N.S.

HISTÓRIA DA PINTURA NA ITÁLIA, de LANZI, desde o Período do Renascimento das Belas Artes até o Fim do Século XVIII.

Com Memórias do Autor. Retratos de Rafael, Ticiano e Correggio, segundo os próprios Artistas.

Trad. por T. Roscoe. vols.

A INGLATERRA SOB OS REIS ANGLO-SAXÕES, de LAPPENBERG, Trad. por B. Thorpe, F.S.A. 2 vols.

N.S.

OBRAS DRAMÁTICAS DE LESSING.

Completas.

Por E. Bell, M.A. Com Biografia de H. Zimmern.

Retrato.

vols.

N. S.

Laocoonte, Notas Dramáticas e

Representação da Morte pelos Antigos.

Frontispício.

N. S.

OBRAS FILOSÓFICAS DE LOCKE, contendo o Entendimento Humano, com o Bispo de Worcester, as Opiniões de Malebranche, Filosofia Natural, Leitura e Estudo.

Com Discurso Preliminar, Análise e Notas, por J. A. St. John.

Retrato.

vols.

Vida e Cartas, com Extratos de seus Livros de Anotações.

Por Lord King.

LOCKHART (J. Q.)—Ver Burns.

LONSDALE (Lord).—Ver Carrel.

CONVERSAS DE MESA DE LUTERO.

Trad. por W. Hazlitt.

Com Vida por A. Chalmers, e o Catecismo de Lutero.

Retrato segundo Cranach.

N. S.

Autobiografia.

— Ver Michelet.

HISTÓRIA DE FLORENÇA DE MAQUIAVEL.

O Príncipe, Savonarola, Tratados Históricos e Biografia.

Retrato.

N. S.

MARLOWE.

Poemas de.—Ver Greene.

HISTÓRIA DA INGLATERRA DE MARTINEAU (Harriet) (incluindo a História da Paz) de 1800-1846. 5 vols.

N.S.

HISTÓRIA DA ALEMANHA DE MENZEL, desde o Período mais Antigo até a Guerra da Crimeia.

Retratos.

vols.

AUTOBIOGRAFIA DE LUTERO POR MICHELET.

Trad. por W. Hazlitt.

Com Notas.

N. S.

A Revolução Francesa até a Fuga do Rei em 1791. N.S.

A REVOLUÇÃO FRANCESA DE MIGNET, de 1789 a 1814. Retrato de Napoleão.

OBRAS EM PROSA DE MILTON.

Com Prefácio, Observações Preliminares por J. A. St. John, e Índice.

vols.

NOSSA ALDEIA DE MITFORD (Miss).

Esboços de Caráter Rural e Paisagem.

Gravuras.

vols.

A 6".

BIBLIOTECA PADRÃO.

OBRAS DRAMÁTICAS DE MOLIÈRE.

Em Prosa Inglesa, por C. H. Wall.

Com uma Vida e um Retrato.

vols.

N. S.

'Não é exagero dizer que temos aqui provavelmente uma tradução de Molière tão boa quanto possível.' — Academy.

CARTAS E OBRAS DE LADY MARY WORTLEY MONTAGU.

Terceira Edição de Lord Wharncliffe.

Editado por W. Moy Thomas.

Com gravuras em aço.

vols.

5s. cada.

N. S.

O ESPÍRITO DAS LEIS DE MONTESQUIEU.

Edição Revista, com a Análise de D'Alembert, Notas e Biografia.

vols.

N. S.

HISTÓRIA DA RELIGIÃO CRISTÃ E DA IGREJA DE NEANDER (Dr. A.).

Trad. por J. Torrey.

Com Breve Biografia.

vols.

A VIDA DE JESUS CRISTO, em sua Conexão e Desenvolvimento Históricos.

N. S.

O PLANTIO E TREINAMENTO DA IGREJA CRISTÃ PELOS APÓSTOLOS.

Com o Antignóstico, ou Espírito de Tertuliano.

Trad. por J. E. Ryland.

vols.

LIÇÕES SOBRE A HISTÓRIA DOS DOGMAS CRISTÃOS.

Trad. por J. E. Ryland.

vols.

Memoriais da Vida Cristã nos

Primórdios e na Idade Média; incluindo Luz nos Lugares Escuros.

Trad. por J. E. Ryland.

OCKLEY (S.) História dos Sarracenos e suas Conquistas na Síria, Pérsia e Egito.

Compreendendo as Vidas de Maomé e seus Sucessores até a Morte de Abdalmelik,

o Décimo Primeiro Califa.

Por Simon Ockley, B.D., Prof. de Árabe na Univ. de Cambridge.

Retrato de Maomé.

PERCY'S Reliques da Poesia Inglesa Antiga, consistindo em Baladas, Canções e outras Peças de nossos Poetas mais antigos, com algumas poucas de data posterior.

Com Ensaio sobre os Menestréis Antigos e Glossário.

vols.

N.S.

PHILIP DE COMMINES.

Memórias

de. Contendo as Histórias de Luís XI e Carlos VIII, e Carlos, o Audaz, Duque da Borgonha.

Com a História de Luís XI, por J. de Troyes.

Com uma Vida e Notas por A. R. Scoble.

Retratos.

vols.

»

PLUTARCO'S VIDAS.

Recém-Traduzidas, com Notas e Vida, por A. Stewart, M.A., ex-Fellow do Trinity College, Cambridge, e G. Long, M.A. 4 vols.

N.S.

POESIA DA AMÉRICA.

Seleções

de Cem Poetas, de 1776 a 1876. Com Revisão Introdutória e Exemplos de Melodia Negra, por W. J. Linton.

Retrato de W. Whitman.

N.S.

RANKE (L.) História dos Papas,

sua Igreja e Estado, e seus Conflitos com o Protestantismo nos séculos XVI e XVII.

Trad. por E. Foster.

Retratos de Júlio II (segundo Rafael), Inocêncio X (segundo Velásquez) e Clemente VII (segundo Ticiano). 3 vols.

N.S.

História da Sérvia.

Trad. por Sra.

Kerr.

À qual é adicionada.

As Províncias Eslavas da Turquia, por Cyprien Robert.

N.S.

História das Nações Latinas e Teutônicas.

1494-1514. Trad. por P. A. Ashworth, tradutor da 'História da Constituição Inglesa' do Dr. Gneist. N.S.

REUMONT (Alfred de).—Ver Carajas.

REYNOLDS' (Sir J.) Obras Literárias.

Com Memória e Observações por H. VV. Beechy.

vols.

N.S.

RICHTER (Jean Paul). Levana,

um Tratado sobre Educação; juntamente com a Autobiografia e uma breve Memória.

N.S.

Flores, Frutos e Espinhos,

ou a Vida Conjugal, Morte e Casamento de Siebenkaes.

Traduzido por Alex.

Ewing.

N.S.

A única tradução completa em inglês.

ROSCOE'S (W.) Vida de Leão X, com Notas, Documentos Históricos e Dissertação sobre Lucrécia Bórgia.

Retratos.

vols.

Lorenzo de' Medici, chamado 'O

Magnífico', com Notas de Direitos Autorais, Poemas, Cartas, etc. Com Memória de Roscoe e Retrato de Lorenzo.

RÚSSIA, História da, desde o Período mais Antigo até a Guerra da Crimeia.

Por W. K. Kelly.

Retratos.

vols.

OBRAS de SCHILLER.

vols.

A. S.

Vol.

1. — Guerra dos Trinta Anos — Revolta nos Países Baixos.

Trad. A. J. W. Morrison, M.A. Retrato.

Vol.

II. — Revolta nos Países Baixos, completada — Wallenstein.

Por J. Churchill e S. T. Coleridge. — Guilherme Tell.

Sir Theodore Martin.

Gravura (após Vandyck).

Vol.

III. — Dom Carlos.

R. D. Boylan — Maria Stuart.

Mellish — A Donzela de Orleães.

Anna Swanwick — A Noiva de Messina.

A. Lodge, M.A. Juntamente com o Uso do Coro na Tragédia (um breve Ensaio). Gravuras.

Estes Dramas são todos traduzidos em metro.

Vol.

IV. — Os Bandoleiros — Fiesco — Amor e Intriga — Demétrio — O Visionário — O Esporte da Divindade.

Os Dramas neste volume estão em prosa.

Vol.

V. — Poemas.

E. A. Bowring, C.B.

Vol.

VI. — Ensaios, Estéticos e Filosóficos, incluindo a Dissertação sobre a Conexão entre o Animal e o Espiritual no Homem.

BIBLIOTECAS DE BOHN.

SCHILLER e GOETHE.

Correspondência entre, de d.C. 1704-1805. Com Breves Notas por L. Dora Schmitz.

vols.

N. S.

SCHLEGEL (F.) Lições sobre a

Filosofia da Vida e a Filosofia da Linguagem.

Por A. J. W. Morrison.

A História da Literatura, Antiga e Moderna.

A Filosofia da História.

Com Memória e Retrato.

História Moderna, com as Lições intituladas César e Alexandre, e O Começo da Nossa História.

Por L. Purcel e R. H. Whitelock.

Obras Estéticas e Diversas, contendo Cartas sobre Arte Cristã, Ensaio sobre Arquitetura Gótica, Observações sobre a Poesia Romântica da Idade Média, sobre Shakespeare, os Limites do Belo, e sobre a Linguagem e Sabedoria dos Indianos.

Por E. J. Millington.

SCHLEGEL (A. W.) Arte Dramática e Literatura.

Por J. Black.

Com Memória por A. J. W. Morrison.

Retrato.

SCHUMANN (Robert), Sua Vida e Obras.

Por A. Reissmann.

Trad. por A. L. Alger.

N. S.

SHAKESPEARE'S Arte Dramática.

A História e o Caráter das Peças de Shakespeare.

Por Dr. H. Ulrici.

Trad. por L. Dora Schmitz.

vols.

N. S.

SHERIDAN'S Obras Dramáticas.

Com Memória e Retrato (após Reynolds). N. S.

SKEAT (Rev. W. W.) — Chaucer.

SISMONDI'S História da Literatura do Sul da Europa.

Com Notas e Memória por T. Roscoe.

Retratos de Sismondi e Dante.

vols.

Os espécimes da Poesia Francesa, Italiana, Espanhola e Portuguesa antigas, em Verso Inglês, por Cary e outros.

SMITH (Adam) A Riqueza das Nações.

Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da. Reimpresso da Sexta Edição.

Com uma Introdução de Ernest Belfort Bax.

vols.

N. S.

SMITH (Adam) Teoria dos Sentimentos Morais; com Ensaio sobre a Primeira Formação das Línguas, e Memória Crítica de Dugald Stewart.

SMYTH (Professor) Lições sobre História Moderna; desde a Irrupção das Nações do Norte até o fim da Revolução Americana.

vols.

— — Lições sobre a Revolução Francesa.

Com Índice.

vols.

SOUTHEY — Cowper, Wesley e Nelson (Biblioteca Ilustrada).

STURM Comunhão Matinal com Deus, ou Meditações Devocionais para Todos os Dias.

Tradução de W. Johnstone, M.A.

SULLY.

Memórias do Duque de, Primeiro-Ministro de Henrique, o Grande.

Com Notas e Introdução Histórica.

Retratos.

vols.

TAYLOR (Bispo Jeremy) Vida Santa e Morte, com Orações, contendo o Dever Completo de um Cristão e as partes da Devoção adaptadas a todas as Ocasiões.

Retrato.

N. S.

THIERRY Conquista da Inglaterra pelos Normandos; suas Causas e suas Consequências na Inglaterra e no Continente.

Por W. Hazlitt.

Com breve Memória.

Retratos.

vols.

N. S.

TROYE (Jean de). — Veja Philippe de Commines.

ULRICI (Dr.) — Veja Shakespeare.

VASARI.

Vidas dos mais Eminentes Pintores, Escultores e Arquitetos.

Por Sra. J. Foster, com Notas selecionadas.

Retrato.

vols.. Vol.

VI. sendo um Volume adicional de Notas por J. P. Richter.

N. S.

WERNER Templários em Chipre.

Tradução de E. A. M. Lewis.

N. S.

WESLEY, a Vida de, e o Surgimento e Progresso do Metodismo.

Por Robert Southey.

Retrato, s. N. S.

WHEATLEY.

Uma Ilustração Racional do Livro de Oração Comum, sendo a Substância de tudo Litúrgico em todos os anteriores Comentadores Ritualistas sobre o assunto.

Frontispício.

N. S.

BIBLIOTECAS HISTÓRICAS E FILOSÓFICAS.

BIBLIOTECA HISTÓRICA.

Volumes a 5s. cada.

(5L s. por série.)

EVELYN Diário e Correspondência, com a Correspondência Privada de Carlos I e Sir Edward Nicholas, e entre Sir Edward Hyde (Conde de Clarendon) e Sir Richard Browne.

Editado dos Manuscritos Originais por W. Bray, F.A.S. 4 vols.

N. S. 45 Gravuras (segundo Vandyke, Lely, Kneller e Jamieson, &c.).

N.B. — Esta edição contém 130 cartas de Evelyn e sua esposa, não contidas em nenhuma outra edição.

PEPYS Diário e Correspondência.

Com Vida e Notas, por Lord Braybrooke.

vols.

N. S. Com Apêndice contendo Cartas adicionais, um Índice e 31 Gravuras (segundo Vandyke, Sir P. Lely, Holbein, Kneller, etc.).

Memórias de Jesse sobre a Corte da Inglaterra sob os Stuarts, incluindo o Protetorado. vols. Com Índice e 42 Retratos (segundo Vandyke, Lely, etc.).

Memórias dos Pretendentes e seus Adeptos. Retratos.

Memoriais de Nugent (Lord) sobre Hampden, seu Partido e Épocas. Com Memória. Retratos (segundo Vandyke e outros). N. S.

Vidas das Rainhas da Inglaterra de Agnes Strickland desde a Conquista Normanda. A partir de Documentos autênticos, públicos e privados. Retratos. vols. N. S.

Vida de Maria Rainha dos Escoceses. Retratos. vols. N. S.

Vidas das Princesas Tudor e Stuart. [no prelo].

BIBLIOTECA FILOSÓFICA.

Vols. a s. cada, exceto aqueles marcados de outra forma. (3/. is. por conjunto.)

Novum Organum e Progresso do Conhecimento de Bacon. Com Notas de J. Devey, M.A.

BAX. Um Manual da História da Filosofia, para uso de Estudantes. Por E. Belfort Bax, Editor dos 'Prolegômenos' de Kant. 5s. N. S.

Filosofia das Ciências de Comte. Uma Exposição dos Princípios do Cours de Philosophie Positive. Por G. H. Lewes, Autor de 'A Vida de Goethe'.

DRAPER (Dr. J. W.) Uma História do Desenvolvimento Intelectual da Europa. vols. N. S.

Filosofia da História de Hegel. Por J. Sibree, M.A.

Crítica da Razão Pura de Kant. Por J. M. D. Meiklejohn. N. S. — Prolegômenos e Fundamentos Metafísicos da Ciência Natural, com Biografia; e Memória por E. Belfort Bax. Retrato. N. S.

LÓGICA, ou a Ciência da Inferência. Um Manual Popular. Por J. Devey.

MILLER (Professor). História Filosoficamente Ilustrada, desde a Queda do Império Romano até a Revolução Francesa. Com Memória. vols. 3s. 6d. cada.

Obras Principais de Spinoza. Traduzidas com Introdução por R. H. M. Elwes. vols. N.S. Vol. I. — Tractatus Theologico-Politicus — Tratado Político. Vol. II. — Melhoramento do Entendimento — Ética — Cartas.

Manual da História da Filosofia de Tennemann. Traduzido pelo Rev. A. Johnson, M.A.

BIBLIOTECAS DE BONN. BIBLIOTECA TEOLÓGICA. Vols. a 10s. 6d. cada, exceto aqueles marcados de outra forma. (3/. 13s. 6d. por conjunto.)

BLEEK. Introdução ao Antigo Testamento. Por Friedrich Bleek. Traduzido sob a supervisão do Rev. E. Venables, Cônego Residente de Lincoln. vols.

Religião dos Protestantes de Chillingworth. 3s. 6d.

EUSÉBIO. História Eclesiástica

de Eusébio Pamfílio, Bispo de Cesareia.

Traduzido pelo Rev. C. F. Cruse, M.A. Com Notas, Vida e Tabelas Cronológicas.

EVÁGRIO.

História da Igreja.

— Ver Teodoreto.

HARDWICK.

História dos Artigos

de Religião; à qual é adicionada uma Série de Documentos de 1536 d.C. a 1615 d.C. Editado pelo Rev. F. Proctor.

N. S.

HENRY (Matthew). Exposição do

Livro dos Salmos.

Numerosas Gravuras em Madeira.

PEARSON (John, D.D.). Exposição

do Credo.

Editado por K. Walford, M.A. Com Notas, Análise e Índices.

N. S.

FILÃO DE ALEXANDRIA. Obras de. O

Contemporâneo de Josefo.

Traduzido por C. D. Yonge.

Vols.

FILOSTÓRGIO.

História Eclesiástica

de. — Ver Sozômeno.

HISTÓRIA ECLESIÁSTICA DE SÓCRATES.

Compreendendo uma História da Igreja desde Constantino, 305 d.C.; até o 38º ano de Teodósio II. Com Breve Relato do Autor e Notas Selecionadas.

HISTÓRIA ECLESIÁSTICA DE SOZÔMENO.

324-440 d.C. Com Notas, Observações Prefaciais de Valesius e Breve Memória.

Juntamente com a História Eclesiástica de Filostórgio, como epitomizada por Fócio.

Traduzido pelo Rev. E. Walford, M.A. Com Notas e Breve Vida.

TEODORETO e EVÁGRIO.

Histórias da Igreja de 332 d.C. até a Morte de Teodoro de Mopsuéstia, 427 d.C.; e de 431 d.C. a 544 d.C. Com Memórias.

WIESELER (Karl). Sinopse

Cronológica dos Quatro Evangelhos.

Traduzido pelo Rev. Cônego Venables.

N. S.

BIBLIOTECA DE ANTIGUIDADES.

Vols. a 5s. cada.

(81. 1s. o conjunto.)

CRÔNICA ANGLO-SAXÔNICA.

— Ver Vida de Alfredo de Asser. Ver Seis Crônicas do Inglês Antigo.

HISTÓRIA ECLESIÁSTICA DA INGLATERRA DE BEDA (Venerável).

Juntamente com a Crônica Anglo-Saxônica.

Com Notas, Breve Vida, Análise e Mapa.

Editado por J. A. Giles, D.C.L.

CONSOLAÇÃO DA FILOSOFIA DE BOÉCIO.

Versão Anglo-Saxônica do Rei Alfredo. Com uma Tradução para o Inglês em páginas opostas, Notas, Introdução e Glossário, pelo Rev. S. Fox, M.A. À qual é adicionada a Versão Anglo-Saxônica dos Metros de Boécio, com uma Tradução livre por Martin F. Tupper, D.C.L.

ANTIGUIDADES POPULARES DE BRAND da

Inglaterra, Escócia e Irlanda.

Ilustrando a Origem de nossos Costumes, Cerimônias e Superstições Vulgares e Provinciais.

Por Sir Henry Ellis, K.H., F.R.S. Frontispício.

Vols.

CRÔNICAS DAS CRUZADAS.

Narrativas Contemporâneas de Ricardo Coração de Leão, por Ricardo de Devizes e Godofredo de Vinsauf; e da Cruzada de São Luís, por Lord John de Joinville, com Breves Notas.

Frontispício iluminado de um manuscrito antigo.

DYER (T. F. T.) Costumes Populares Britânicos, Presentes e Passados.

Um relato dos vários jogos e costumes associados a diferentes dias do ano nas Ilhas Britânicas, organizados de acordo com o Calendário.

Pelo Rev.

T. F. Thiselton Dyer, M.A.

VIAGENS ANTIGAS NA PALESTINA.

Compreendendo as Narrativas de Arculf, Willibald, Bernard, Saewulf, Sigurd, Benjamin de Tudela, Sir John Maundeville, De la Brocquière e Maundrell; todas não abreviadas.

Com Introdução e Notas de Thomas Wright.

Mapa de Jerusalém.

BIBLIOTECA ANTIQUÁRIA.

ELLIS (O.) Espécimes de Romances Métricos Ingleses Antigos, relativos a Arthur, Merlin, Guy de Warwick, Ricardo Coração de Leão, Carlos Magno, Rolando, etc. &c. Com Introdução Histórica de J. O. Halliwell, F.R.S. Frontispício iluminado de um manuscrito antigo.

ETHEL WERD.

Crônica de. — Ver

Six O. E. Chronicles.

FLORENCE DE WORCESTER'S

Crônica, com as Duas Continuações: compreendendo Anais da História Inglesa desde a Partida dos Romanos até o Reinado de Eduardo I. Traduzido, com Notas, por Thomas Forester, M.A.

GEOFFREY DE MONMOUTH.

Crônica de. — Ver Six O. E. Chronicles.

GESTA ROMANORUM, ou Histórias Morais Divertidas inventadas pelos Monges.

Traduzido, com Notas pelo Rev.

Charles Swan.

Editado por W. Hooper, M.A.

GILDAS. Crônica de. — Ver Six O. E. Chronicles.

GIRALDUS CAMBRENSIS' Obras Históricas.

Contendo Topografia da Irlanda e História da Conquista da Irlanda, por Th. Forester, M.A. Itinerário pelo País de Gales e Descrição do País de Gales, por Sir R. Colt Hoare.

HENRY DE HUNTINGDON'S História dos Ingleses, desde a Invasão Romana até a Ascensão de Henrique II; com os Atos do Rei Estêvão e a Carta a Walter.

Por T. Forester, M.A. Frontispício de um manuscrito antigo.

INGULPH'S Crônicas da Abadia de Croyland, com a Continuação por Pedro de Blois e outros.

Traduzido, com Notas por H. T. Riley, B.A.

KEIGHTLEY'S (Thomas) Mitologia das Fadas, ilustrativa do Romance e Superstição de Vários Países.

Frontispício de Cruikshank.

N. S.

LEPSIUS'S Cartas do Egito, Etiópia e da Península do Sinai; às quais são adicionados.

Extratos de sua Cronologia dos Egípcios, com referência ao Êxodo dos Israelitas.

Por L. e J. B. Horner.

Mapas e Vista Colorida do Monte Barkal.

MALLET'S Antiguidades do Norte, ou

Um Relato Histórico dos Costumes, Hábitos, Religiões e Literatura dos Antigos Escandinavos.

Traduzido pelo Bispo Percy.

Com Tradução da Edda em Prosa e Notas de J. A. Blackwell.

Também um Resumo da 'Eyrbyggia Saga' por Sir Walter Scott.

Com Glossário e Frontispício Colorido.

AS VIAGENS DE MARCO POLO; com Notas e Introdução.

Editado por T. Wright.

A HISTÓRIA INGLESA DE MATTHEW PARIS, de 1235 a 1273. Pelo Rev. J. A. Giles, D.C.L. Com Frontispício. vols.

— Veja também Roger de Wendover.

AS FLORES DA HISTÓRIA DE MATTHEW DE WESTMINSTER, especialmente as que se relacionam aos assuntos da Grã-Bretanha, desde o início do Mundo até 1307 d.C. Por C. D. Yonge. vols.

NÊNIO.

Crônica de.— Veja Seis Crônicas do Inglês Antigo.

A HISTÓRIA ECLESIÁSTICA DA INGLATERRA E NORMANDIA DE ORDERICO VITAL.

Com Notas, Introdução de Guizot e o Aviso Crítico de M. Delille, por T. Forester, M.A. Ao qual é adicionada a Crônica de St. Evroult.

Com Índices Gerais e Cronológicos. vols.

A VIDA DE ALFREDO, O GRANDE, DE R. PAULI.

Ao qual é anexada a Versão Anglo-Saxônica de Orosius de Alfredo.

Com Tradução literal intercalada. Notas e uma Gramática e Glossário Anglo-Saxônicos, por B. Thorpe, Esq. Frontispício.

RICARDO DE CIRENCESTER.

Crônica de.— Veja Seis Crônicas do Inglês Antigo.

OS ANAIS DE HISTÓRIA INGLESA DE ROGER DE HOVEDEN, compreendendo a História da Inglaterra e de outros Países da Europa de 732 d.C. a 1201 d.C. Com Notas de H. T. Riley, B.A. 2 vols.

AS FLORES DA HISTÓRIA DE ROGER DE WENDOVER, compreendendo a História da Inglaterra desde a Descida dos Saxões até 1235 d.C., anteriormente atribuída a Matthew Paris.

Com Notas e Índice de J. A. Giles, D.C.L. 2 vols.

SEIS CRÔNICAS DO INGLÊS ANTIGO: isto é, a Vida de Alfredo de Asser e as Crônicas de Ethelwerd, Gildas, Nênio, Geoffrey de Monmouth e Ricardo de Cirencester.

Editado, com Notas, por J. A. Giles, D.C.L. Retrato de Alfredo.

A CRÔNICA DOS REIS DA INGLATERRA DE GUILHERME DE MALMESBURY, desde o Período mais Antigo até o Rei Estêvão.

Pelo Rev. J. Sharpe.

Com Notas de J. A. Giles, D.C.L. Frontispício.

HISTÓRIAS DE NATAL.

Uma Coleção de Contos e Tradições Populares Escandinavos e do Norte da Alemanha, do Sueco, Dinamarquês e Alemão.

Editado por B. Thorpe.

BIBLIOTECAS DE BOHN.

BIBLIOTECA ILUSTRADA.

Vols. a 5. cada, exceto aqueles marcados de outra forma. (23/. s. por conjunto.)

AS BATALHAS DA MARINHA BRITÂNICA DE ALLEN (Joseph, R.N.).

Edição revisada, com Índices de Nomes e Eventos, e 57 Retratos e Plantas, a vols.

CONTOS DE FADAS DINAMARQUESES de Andersen.

Por Caroline Peachey.

Com Breve Vida e 120 Gravuras em Madeira.

ORLANDO FURIOSO de Ariosto.

Em

Verso Inglês por W. S. Rose.

Com Notas e Breve Memória.

Retrato segundo Ticiano, e 24 Gravuras em Aço.

vols.

PÁSSAROS DE GAIOLA E DE CÂMARA de Bechstein:

sua História Natural, Hábitos, &c. Juntamente com os Pássaros Canoros Britânicos de Sweet.

Pranchas e Gravuras em Madeira.

N. S.

ou com as Pranchas Coloridas, 7. td.

NÍNIVE E SEUS PALÁCIOS de Bonomi.

As Descobertas de Botta e Layard aplicadas à Elucidação da Sagrada Escritura.

Pranchas e 294 Gravuras em Madeira.

N. S.

HUDIBRAS de Butler, com Notas Variorum e Biografia.

Retrato e 28 Ilustrações.

NOITES EM HADDON HALL de Cattermole.

Contos Românticos dos Tempos Antigos.

Com 24 Gravuras em Aço segundo Cattermole.

CHINA, Pictórica, Descritiva e Histórica,

com algum relato de Ava e dos Birmaneses, Sião e Anam.

Mapa, e quase 100 Ilustrações.

A BUSCA DO CONHECIMENTO SOB DIFICULDADES de Craik (G. L.).

Ilustrado por Anedotas e Memórias.

Numerosos Retratos em Gravura em Madeira.

N. S.

TRÊS PRATOS E UMA SOBREMESA de Cruikshank;

compreendendo três Conjuntos de Contos, i do Oeste do País, Irlandeses e Jurídicos; e uma Mistura.

Com 50 Ilustrações de Cruikshank.

N. S.

PUNCH E JUDY.

O Diálogo do Espetáculo de Fantoches; um Relato de sua Origem, &c. 24 Ilustrações de Cruikshank.

N. S.

Com Pranchas Coloridas.

7. td.

ICONOGRAFIA CRISTÃ de Didron;

uma História da Arte Cristã na Idade Média.

Pelo falecido A. N. Didron.

Traduzido por E. J. Millington, e completado, com Adições e Apêndices, por Margaret Stokes.

vols.

Com numerosas Ilustrações.

Vol. I. A História do Nimbo, da Auréola e da Glória; Representações das Pessoas da Trindade.

Vol. II. A Trindade; Anjos; Demônios; A Alma; O Esquema Cristão, Apêndices.

DANTE, em Verso Inglês, por I. C. Wright, M.A. Com Introdução e Memória.

Retrato e 34 Gravuras em Aço segundo Flaxman.

N. S.

POMPEIA: SEUS EDIFÍCIOS E ANTIGUIDADES de Dyer (Dr. T. H.).

Um Relato da Cidade, com Descrição Completa das Ruínas e Escavações Recentes, e um Itinerário para Visitantes.

Por T. H. Dyer, LL.D. Quase 300 Gravuras em Madeira, Mapa e Planta.

s. 6d. N. S.

ROMA: História da Cidade, com

Introdução sobre Escavações Recentes.

Gravuras, Frontispício e 2 Mapas.

GIL BLAS.

As Aventuras de.

Do francês de Lesage por Smollett.

Gravuras segundo Smirke, e 10 Águas-  -fortes por Cruikshank.

páginas.

64-.

GRIMM'S Gammer Grethel; ou, Con-  tos de Fadas e Histórias Populares Alemãs,  contendo 42 Contos de Fadas.

Por Edgar  Taylor.

Numerosas Gravuras em Madeira segundo Cruik-  shank e Ludwig Grimm.

3s. 6d.

HOLBEIN'S Dança da Morte e

Gravuras Bíblicas.

Mais de 150 Assuntos, gra-  vados em fac-símile, com Introdução e  Descrições pelo falecido Francis Douce  e Dr. Dibdin.

7. 6d.

HOVSriTT'S (Mary) Calendário Pictó-  rico das Estações; incorporando o Calendário  da Natureza de Aikin.

Mais de 100  Gravuras em Madeira.

ÍNDIA, Pictórica, Descritiva e

Histórica, desde os Tempos Mais Antigos.

Gravuras em Madeira e Mapa.

JESSE'S Anedotas de Cães.

Com  40 Gravuras em Madeira segundo Harvey, Bewick e  outros.

N. S.

Com 34 Gravuras em Aço adicionais

segundo Cooper, Landseer, &c. 7J. 6d. N. S.

KING'S (C. W.) História Natural de

Gemas ou Pedras Decorativas.

Ilustra-  ções.

6s.  História Natural de Pedras

Preciosas e Metais.

Ilustrações.

(s.

KITTO'S Terras das Escrituras.

Descritas  em uma série de Esboços Históricos, Geográficos e  Topográficos.

Mapas.

Com os Mapas coloridos, 7. 6d.

KRUMMACHER'S Parábolas.

Ilus-  trações.

LINDSAY'S (Lord) Cartas sobre o Egito.

Edom e a Terra Santa.

Gravuras em  Madeira e 2 Mapas.

BIBLIOTECA ILUSTRADA.

n

LODGE'S Retratos de Personagens

Ilustres da Grã-Bretanha, com Memórias Bio-  gráficas e Históricas.

Retratos gravados em Aço, com as  respectivas Biografias sem abreviações.

Com-  pleto em 8 vols.

LONGFELLOVT'S Obras Poéticas,

incluindo suas Traduções e Notas.

Gravuras em Madeira de página inteira por Birket Foster e  outros, e um Retrato.

N. S.

Sem as Ilustrações, y. bd. N. S.

Obras em Prosa.

Com 16 Gravuras

em Madeira de página inteira por Birket Foster e outros.

LOUDON'S (Mrs.) Naturalista Entre-  tenente.

Descrições Populares, Contos e  Anedotas, de mais de 500 Animais.

Numerosas Gravuras em Madeira.

TV. .S.

MARRYAT'S (Capt., R.N.) Master-  man Ready; ou, o Naufrágio do Pacífico.

(Escrito para Jovens.) Com 93 Gravuras  em Madeira.

3j. dd. N. S.

- — Missão; ou, Cenas na África.

(Escrito para Jovens.) Ilustrado  por Gilbert e Dalziel.

3J. td. N. S.

Pirata e Três Cortadores.

(Escri-  to para Jovens.) Com uma Memória.

Gravuras em Aço segundo Clarkson Stan-  field, R.A. 3J. 6d. N. S.

Privateersman.

Aventuras por Mar e Terra

Há Cem Anos.

(Escrito para Jovens.) 8 Gravuras em  Aço.

3J. 6d. N. S.

Colonos no Canadá.

(Escrito para

Jovens.) 10 Gravuras de Gilbert e Dalziel.

3s. 6d. N. S.

Pobre Jack.

(Escrito para Jovens.) Com 16 Ilustrações segundo Clarkson Stanfield, R.A. 3s. 6d. N. S.

As Vitórias de Wellington e dos Exércitos Britânicos, de Maxwell.

Frontispício e 4 Retratos.

MICHAEL ANGELO e RAPHAEL,

Suas Vidas e Obras.

Por Duppa e Quatremere de Quincy.

Retratos e Gravuras, incluindo o Juízo Final e Cartões.

N. S.

História dos Anglo-Saxões, de Miller, desde o Período mais Antigo até a Conquista Normanda.

Retrato de Alfredo, Mapa da Britânia Saxônica e 12 Gravuras em Aço.

Obras Poéticas de Milton, com uma Memória e Notas de J. Montgomery, um Índice para o Paraíso Perdido, Índice Verbal de Todd para todos os Poemas e Notas.

Gravuras em Madeira.

volumes.

A''. 6'.

História das Aves Britânicas, de Mudie.

Revisada por W. C. L. Martin.

Figuras de Aves e 7 Pranchas de Ovos, 2 volumes.

N.ii.

Com as Pranchas coloridas, s. fid. por volume.

HERÓIS NAVAIS e MILITARES

da Grã-Bretanha; um Registro do Valor Britânico em cada Dia do ano, de Guilherme, o Conquistador, até a Batalha de Inkermann.

Por Major Johns, R.M., e Tenente P. H. Nicolas, R.M. Índices.

Retratos segundo Holbein, Reynolds, etc. 6s.

História dos Jesuítas, de Nicolini:

sua Origem, Progresso, Doutrinas e Desígnios.

Retratos.

Sonetos, Triunfos e outros Poemas de Petrarca, em Verso Inglês.

Com Biografia por Thomas Campbell.

Retrato e 15 Gravuras em Aço.

História das Raças Humanas, de Pickering, e sua Distribuição Geográfica; com uma Sinopse Analítica da História Natural do Homem.

Por Dr. Hall, Mapa do Mundo e 12 Pranchas.

Com as Pranchas coloridas, 7. 6d.

MANUAL PICTÓRICO DE

Geografia Moderna em um Plano Popular.

Compilado das melhores Autoridades, Inglesas e Estrangeiras, por H. G. Bohn.

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6s.

Com os Mapas coloridos, 7J. 6d.

Sem os Mapas, 3. 6d.

Obras Poéticas de Pope, incluindo Traduções.

Editado, com Notas, por R. Carruthers.

volumes.

A Ilíada de Homero, com Introdução

e Notas do Rev. J. S. Watson, M.A. Com os Desenhos de Flaxman.

N. S.

A Odisseia de Homero, com a Batalha

das Rãs e dos Camundongos, Hinos, etc., por outros tradutores, incluindo Chapman. Introdução e Notas de J. S. Watson, M.A. Com os Desenhos de Flaxman.

N. S.

Vida, incluindo muitas de suas Cartas.

Por R. Carruthers.

Numerosas Ilustrações.

CERÂMICA E PORCELANA, e

outros objetos de Vertu.

Compreendendo um Catálogo Ilustrado da Coleção Bernal, com os preços e nomes dos Possuidores.

Também uma Palestra Introdutória sobre Cerâmica e Porcelana, e uma Lista Gravada de todas as Marcas e Monogramas.

Por H. G. Bohn.

Numerosas Xilogravuras.

Com Ilustrações Coloridas, 10s. 6d.

RELIQUIAS de (Padre) PROUT.

Editado pelo Rev.

F. Mahony.

Edição de copyright, com as últimas correções e acréscimos do Autor.

Águas-fortes de D. Maclise, R.A. Quase 600 páginas, ss. N. S.

RECREAÇÕES NO TIRO.

Com algum Relato da Caça encontrada nas Ilhas Britânicas, e Instruções para o Manejo de Cão e Espingarda.

Por 'Craven.' 62 Xilogravuras e 9 Gravuras em Aço segundo .. Cooper, R.A.

BIBLIOTECAS DE BOHN

HISTÓRIA e Descrições de Vinhos, Antigos e Modernos, de REDDING.

Xilogravuras.

RENNIE. Arquitetura dos Insetos.

Revisado pelo Rev.

J. G. Wood, M.A. 186 Xilogravuras.

N. S.

ROBINSON CRUSOÉ.

Com Memória de Defoe, 12 Gravuras em Aço e 74 Xilogravuras segundo Stothard e Harvey.

— — Sem as Gravuras, v- fxi-

ROMA NO SÉCULO DEZENOVE.

Um Relato de 1817 das Ruínas da Cidade Antiga, e Monumentos dos Tempos Modernos.

Por C. A. Eaton.

Gravuras em Aço.

vols.

SHARPE (S.) A História do Egito,

desde os Tempos mais Antigos até a Conquista pelos Árabes, d.C. 640. 2 Mapas e mais de 400 Xilogravuras.

vols.

N. S.

A VIDA de NELSON, por SOUTHEY.

Com Notas Adicionais, Fac-símiles da Escrita de Nelson, Retratos, Plantas, e 50 Gravuras, segundo Birket Foster, &c. N. S.

FEITOS NOBRES de Mulheres, pela Srta. STARLING; ou, Exemplos de Coragem, Fortitude e Virtude Femininas.

Com 14 Retratos em Aço.

N. S.

ANTIGUIDADES de Atenas, e outros Monumentos da Grécia, por STUART e REVETT; com Glossário de Termos usados na Arquitetura Grega.

Pranchas em Aço e numerosas Xilogravuras.

OS PÁSSAROS CANTORES Britânicos, de SWEET.

— — Veja Bechstein.

CONTOS DO GÊNIO; ou, as Deliciosas Lições de Horam, o Filho de Asmar.

Trad. por Sir C. Morrell.

Numerosas Xilogravuras.

A JERUSALÉM LIBERTADA, de TASSO.

Em Verso Spenseriano Inglês, com Vida, por I. H. Wiffen.

Com 8 Gravuras e 24 Xilogravuras.

N. S.

EXERCÍCIOS MASCULINOS, de WALKER; contendo Patinação, Equitação, Condução, Caça, Tiro, Vela, Remo, Natação, &c. 44 Gravuras e numerosas Xilogravuras.

O PESCADOR COMPLETO, de WALTON, ou a Recreação do Homem Contemplativo, por Izaak Walton e Charles Cotton.

Com Memórias e Notas de E. Jesse.

Também um Relato de Estações de Pesca, Equipamento, &c., por H. G. Bohn.

Retrato e 203 Gravuras em Madeira.

N. S.

Com 26 Gravuras adicionais em Aço,

Vidas de Donne, Wotton, Hooker,

&c., com Notas.

Uma Nova Edição, revisada por A. H. Bullen, com uma Memória de Izaak Walton por William Dowling.

Retratos, 6 Assinaturas Autógrafas, &c. N.S.

WELLINGTON, Vida de. A partir dos Materiais de Maxwell.

18 Gravuras em Aço.

Vitórias de. — Ver Maxwell.

WESTROPP (H. M.) Um Manual de Arqueologia, Egípcia, Grega, Etrusca, Romana.

Por H. M. Westropp.

Numerosas Ilustrações.

7s. 6d. N. S.

WHITE'S História Natural de Selborne, com Observações sobre Várias Partes da Natureza, e o Calendário dos Naturalistas.

Sir W. Jardine.

Edição, com Notas e Memória, por E. Jesse.

Retratos.

N. S.

Com as Lâminas coloridas, 7s. 6d. N. S.

O LIVRO DA JOVEM SENHORA, O.

Um Manual de Recreações, Artes, Ciências e Habilidades.

Ilustrações em Gravura em Madeira, 5s. (6d.

tecido dourado, bordas douradas, 6s.

BIBLIOTECA CLÁSSICA.

Traduções do Grego e do Latim.

Volumes a 5s. cada, exceto aqueles marcados de outra forma.

(2,0,1. 0s. 6d. o conjunto.)

ÉSQUILO, Os Dramas de. Em Verso Inglês por Anna Swanwick. 4ª edição.

N. S.

As Tragédias de. Em Prosa, com Notas e Introdução, por T. A. Buckley, B.A. Retrato.

3s. 6d.

AMIANO MARCELINO.

História de Roma durante os Reinados de Constâncio, Juliano, Joviano, Valentiniano e Valente, por C. D. Yonge, B.A. Volume duplo.

7s. 6d.

ANTONINO (M. Aurélio), Os Pensamentos de. Traduzido literalmente, com Notas, Esboço Biográfico e Ensaio sobre a Filosofia, por George Long, M.A. 3s. 6d. N.S.

APULEIO, As Obras de. Compreendendo o Asno de Ouro, o Deus de Sócrates, Flórida e Discurso sobre a Magia.

Com uma Versão Métrica de Cupido e Psique, e a Psique da Sra.

Tighe.

Frontispício.

BIBLIOTECA CLÁSSICA.

15

AS COMÉDIAS DE ARISTÓFANES.

Trad., com Notas e Extratos das Versões Métricas de Frere e outras, por W. J. Hickie.

Retrato.

2 vols.

A ÉTICA NICOMAQUEIA DE ARISTÓTELES.

Trad., com Notas, Introdução Analítica e Perguntas para Estudantes, por Ven.

Arquidiácono Browne.

- Política e Economia.

Trad., com Notas, Análises e Índice, por E. Walford, M.A., e um Ensaio e Vida por Dr. Gillies.

- Metafísica.

Trad., com Notas, Análise e Perguntas de Exame, por Rev.

John H. M'Mahon, M.A.

História dos Animais.

Em Dez Livros.

Trad., com Notas e Índice, por R. Cresswell, M.A.

Organon; ou, Tratados Lógicos, e a Introdução de Porfírio.

Com Notas, Análise e Introdução, pelo Rev.

O. F. Owen, M.A. 2 vols.

3s. 6d. cada.

Retórica e Poética.

Trad., com

Análise de Hobbes, Perguntas de

Exame e Notas, por T. Buckley, B.A. Retrato.

ATENEU.

Os Deipnosofistas;

ou, o Banquete dos Eruditos.

Por C. D. Yonge, B.A. Com um Apêndice de Fragmentos Poéticos.

vols.

ATLAS de Geografia Clássica.

Grandes Mapas Coloridos.

Com um Índice Completo.

Imp.

8vo. 7s. 6d.

BÍON.

— Ver Teócrito.

CÉSAR.

Comentários sobre as

Guerras Gálicas e Civis, com os Livros Suplementares atribuídos a Hírcio, incluindo as completas Guerras Alexandrina, Africana e Espanhola.

Trad., com Notas.

Retrato.

CATULO, TÍBULO e a Vigília

de Vênus.

Trad., com Notas e Introdução Biográfica.

Aos quais são

adicionadas.

Versões Métricas por Lamb, Grainger e outros.

Frontispício.

DISCURSOS de CÍCERO.

Trad. por C. D.

Yonge, B.A. 4 vols.

Sobre a Oratória e os Oradores.

Com

Cartas a Quinto e Bruto.

Trad., com Notas, pelo Rev.

J. S. Watson, M.A.

Sobre a Natureza dos Deuses, Adivinhação, Destino, Leis, República, Consulado.

Trad., com Notas, por C. D. Yonge, B.A.

Acadêmicas, De Finibus e Questões Tusculanas.

Por C. D. Yonge, B.A. Com um Esboço dos Filósofos Gregos mencionados por Cícero.

DISCURSOS de CÍCERO — Continuação.

Deveres; ou, Deveres Morais.

Catão

Maior, um Ensaio sobre a Velhice; Lélio, um Ensaio sobre a Amizade; o Sonho de Cipião; Paradoxos; Carta a Quinto sobre Magistrados.

Trad., com Notas, por C. R. Edmonds.

Retrato.

1s. 6d.

DISCURSOS de DEMÓSTENES.

Trad., com Notas, Argumentos, um Resumo Cronológico e Apêndices, por C. Rann

Kennedy, 5 vols.

DICIONÁRIO de CITAÇÕES LATINAS e GREGAS;

incluindo Provérbios, Máximas, Lemas, Termos e Frases Jurídicas.

Com as Quantidades Marcadas e Traduções em Inglês.

Com Índice Verborum (622 páginas). 6s.

Índice Verborum do acima, com as

Quantidades e Acentos Marcados (56 páginas), tecido flexível.

1s.

DIÓGENES LAÉRCIO.

Vidas e

Opiniões dos Filósofos Antigos.

Trad., com Notas, por C. D. Yonge, B.A.

EPICTETO.

Os Discursos de.

Com o Encheirídio e Fragmentos.

Com Notas, Vida e Visão de sua Filosofia, por George Long, M.A. N. S.

EURÍPIDES.

Trad., com Notas e Introdução, por T. A. Buckley, B.A. Retrato.

vols.

ANTOLOGIA GREGA.

Em Prosa Inglesa por G. Burges, M.A. Com Versões Métricas por Bland, Merivale, Lord Denman, &c.

ROMANCES GREGOS de Heliodoro,

Longo e Aquiles Tácio: isto é, As Aventuras de Teágenes e Caricleia; Os Amores de Dáfnis e Cloé; e Os Amores de Clitofonte e Leucipa.

Trad., com Notas, pelo Rev. R. Smith, M.A.

HERÓDOTO.

Literalmente trad. pelo Rev.

Henry Cary, M.A. Retrato.

HESÍODO, CALÍMACO e

Teógnis.

Em Prosa, com Notas e Notícias Biográficas pelo Rev.

J. Banks, M.A. Juntamente com as Versões Métricas de Hesíodo, por Elton; Calímaco, por Tytler; e Teógnis, por Frere.

A ILÍADA DE HOMERO.

Em Prosa Inglesa, com Notas por T. A. Buckley, B.A. Retrato.

Odisseia, Hinos, Epigramas e

A Batalha das Rãs e dos Camundongos.

Em Prosa Inglesa, com Notas e Memória por T. A. Buckley, B.A.

HORÁCIO.

Em Prosa por Smart, com Notas selecionadas por T. A. Buckley, B.A. Retrato, v. 6d.

JULIANO O APÓSTATA.

Pelo Rev.

C. W. King, M.A. [No prelo.

i

BIBLIOTECAS DE BONN.

JUSTINO, CORNÉLIO NEPOS e

Eutrópio.

Trad., com Notas, pelo Rev.

J. S. Watson, M.A.

JUVENAL, PÉRSIO, SULPÍCIA,

e Lucílio.

Em Prosa, com Notas, Tabelas Cronológicas e Argumentos, por L. Evans.

M.A. Ao qual se acrescenta a Versão Métrica de Juvenal e Pérsio por Gifford.

Frontispício.

LIVIO.

A História de Roma.

Trad. pelo Dr. Spillan e outros.

vols. Retrato.

A FARSÁLIA DE LUCANO.

Em Prosa, com Notas por H. T. Riley.

DIÁLOGOS DE LUCIANO: Dos Deuses,

dos Deuses do Mar e dos Mortos.

Trad.

por Howard Williams, M.A. [No prelo.

LUCRÉCIO.

Em Prosa, com Notas e Introdução Biográfica pelo Rev.

J. S. Watson, M.A. Ao qual se acrescenta a Versão Métrica por J. M. Good.

EPIGRAMAS DE MARCIAL, completos.

Em Prosa, com Traduções em Verso selecionadas de Poetas Ingleses e outras fontes.

Vol. duplo.

(670 páginas). 7. td.

MOSCO.— Ver Teócrito.

AS OBRAS DE OVÍDIO, completas.

Em Prosa, com Notas e Introdução.

vols.

A DESCRIÇÃO DA GRÉCIA DE PAUSÂNIAS.

Traduzido para o Inglês, com Notas e Índice.

Por Arthur Richard Shilleto, M.A., outrora Bolsista do Trinity College, Cambridge.

vols.

FÁLARIS.

As Dissertações de Bentley

sobre as Epístolas de Fálaris, Temístocles, Sócrates, Eurípides e as Fábulas de Esopo.

Com Introdução e Notas pelo Prof.

W. Wagner, Ph.D.

PÍNDARO.

Em Prosa, com Introdução e Notas por Dawson W. Turner.

Juntamente com a Versão Métrica por Abraham Moore.

Retrato.

AS OBRAS DE PLATÃO.

Trad., com Introdução e Notas.

vols.

Diálogos.

Um Resumo e Análise

de. Com Índice Analítico do texto grego das edições modernas e das traduções acima, por A. Day, LL.D.

As Comédias de PLAUTO.

Em Prosa, com Notas e Índice por H. T. Riley, B.A. 2 vols.

História Natural de PLÍNIO.

Trad., com Notas, por J. Bostock, M.D., F.R.S., e H. T. Riley, B.A. 6 vols.

PLÍNIO.

As Cartas de Plínio, o Jovem.

Tradução de Melmoth, revisada, com Notas e breve Vida, pelo Rev. F. C. T. Bosanquet, M.A.

Moral de PLUTARCO.

Ensaios Teosóficos.

Trad. por C. W. King, M.A. N.S. Vidas. Ver página 7.

PROPÉRCIO, As Elegias de. Com Notas, traduzidas literalmente pelo Rev. P. J. F. Gantillon, M.A., com versões métricas de Elegias Selecionadas por Nott e Elton. 3. dd.

Instituições de Oratória de QUINTILIANO.

Trad., com Notas e Nota Biográfica, pelo Rev. J. S. Watson, M.A. 2 vols.

SALÚSTIO, FLORO e VELÉIO PATÉRCULO.

Trad., com Notas e Notas Biográficas, por J. S. Watson, M.A.

SÊNECA SOBRE OS BENEFÍCIOS.

Recentemente traduzido por Aubrey Stewart, M.A. 3-. M. N. S.

Obras Menores de SÊNECA.

Traduzidas por A. Stewart, M.A. [no prelo,

SÓFOCLES.

As Tragédias de. Em Prosa, com Notas, Argumentos e Introdução. Retrato.

Geografia de ESTRABÃO.

Trad., com Notas, por W. Falconer, M.A., e H. C. Hamilton. Índice copioso, fornecendo Nomes Antigos e Modernos. vols.

Vidas dos Doze Césares e Vidas dos Gramáticos de SUETÔNIO.

A Tradução de Thomson, revisada, com Notas, por T. Forester.

TÁCITO.

As Obras de. Trad., com Notas. vols.

TERÊNCIO e FEDRO.

Em Prosa Inglesa, com Notas e Argumentos, por H. T. Riley, B.A. Ao qual é adicionada a Versão Métrica de Fedro por Smart. Com Frontispício.

TEÓCRITO, BION, MOSCO e TIRTEU.

Em Prosa, com Notas e Argumentos, pelo Rev. J. Banks, M.A. Ao qual são anexadas as Versões Métricas de Chapman. Retrato de Teócrito.

TUCÍDIDES.

A Guerra do Peloponeso.

Trad., com Notas, pelo Rev. H. Dale. Retrato. vols. 3. (id. cada.

TIRTEU.— .SV Teócrito.

VIRGÍLIO.

As Obras de. Em Prosa, com Notas por Davidson. Revisado, com Notas adicionais e Nota Biográfica, por T. A. Buckley, B.A. Retrato. 3. td.

Obras de XENOFONTE.

Trad., com Notas, por J. S. Watson, M.A., e outros. Retrato. Em 3 vols.

SÉRIE COLEGIADA E BIBLIOTECA CIENTÍFICA.

SÉRIE COLEGIADA.

Vols. a s. cada. (2/. los. por conjunto.)

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O Inferno.

Tradução em Prosa, com o Texto Original na mesma página, e Notas Explicativas, por John A. Carlyle, M.D. Retrato.

N. S.

O Purgatório.

Tradução em Prosa, com o Original na mesma página, e Notas Explicativas, por W. S. Dugdale.

N. S.

NOVO TESTAMENTO (O) em Grego.

Texto de Griesbach, com as Leituras de Mill e Scholz no rodapé da página, e Referências Paralelas na margem.

Também uma Introdução Crítica e Tabelas Cronológicas.

Dois Fac-símiles de Manuscritos Gregos.

páginas.

3. 6ii.

ou encadernado com um Léxico Grego e Inglês para o Novo Testamento (250 páginas adicionais, totalizando 900/ 5.

O Léxico pode ser obtido separadamente, preço 2S.

ADVERSARIA de DOBREE.

(Notas sobre os Clássicos Gregos e Latinos.) Editado pelo falecido Prof. Wagner.

vols.

DONALDSON (Dr.) O Teatro dos Gregos.

Com Tratado Suplementar sobre a Língua, Métrica e Prosódia dos Dramaturgos Gregos.

Numerosas Ilustrações e 3 Plantas.

Por J. W. Donaldson, D.D. N. S.

MITOLOGIA de (Thomas) Keightley da Grécia e Itália Antigas.

Revisada por Leonhard Schmitz; Ph.D., LL.D. 12 Pranchas.

N. S.

HERÓDOTO, Notas sobre. Originais e Selecionadas dos melhores Comentaristas.

Por D. W. Turner, M.A. Mapa Colorido.

Análise e Resumo, com uma Tabela Sincronística de Eventos — Tabelas de Pesos, Medidas, Moeda e Distâncias — um Esboço da História e Geografia — e as Datas completadas de Gaisford, Baehr, &c. Por J. T. Wheeler.

TUCÍDIDES.

Uma Análise e Resumo. Com Tabela Cronológica de Eventos, &c., por J. T. Wheeler.

BIBLIOTECA CIENTÍFICA.

Vols. a 5. cada, exceto aqueles marcados de outra forma.

(15/. 6. 6(/. por conjunto.)

AGASSIZ e GOULD.

Esboço de Fisiologia Comparada relativa à Estrutura e Desenvolvimento das Raças de Animais vivos e extintos.

Para Escolas e Faculdades.

Ampliado pelo Dr. Wright.

Com Índice e 300 Xilogravuras Ilustrativas.

MANUAL de Análise Técnica de BOLLEY; um Guia para o Teste e Avaliação das várias Substâncias Naturais e Artificiais empregadas nas Artes e na Economia Doméstica, fundado no trabalho do Dr. Bolley.

Editado pelo Dr. Paul.

Xilogravuras.

TRATADOS DE BRIDGEWATER.

Bell (Sir Charles) sobre a Mão; seu Mecanismo e Dotes Vitais, como evidência de Design.

Precedido por um Relato das Descobertas do Autor no Sistema Nervoso por A. Shaw.

Numerosas Xilogravuras.

Kirby sobre a História, Hábitos e Instintos dos Animais.

Com Notas de T. Rymer Jones.

Xilogravuras.

vols.

Astronomia e Física Geral de Whewell, consideradas com referência à Teologia Natural.

Retrato do Conde de Bridgewater.

3, dd.

TRATADOS DE BRIDGEWATER

Continuação.

■ Chalmers sobre a Adaptação da Natureza Externa à Constituição Moral e Intelectual do Homem.

Com Memória pelo Rev. Dr. Cumming.

Retrato.

Tratado de Front sobre Química, Meteorologia e a Função da Digestão, com referência à Teologia Natural.

Editado pelo Dr. J. W. Griffith.

Mapas.

Geologia e Mineralogia de Buckland.

Com Adições do Prof. Owen, Prof. Phillips e R. Brown.

Memória de Buckland.

Retrato.

vols. 15s. Vol. I. Texto. Vol. II. 90 grandes pranchas com texto.

Fisiologia Animal e Vegetal de Roget.

Gravuras em madeira.

vols. 6s. cada.

Kidd sobre a Adaptação da Natureza Externa à Condição Física do Homem.

3. 6d.

ZOOLOGIA de CARPENTER (Dr. W. B.).

Uma Visão Sistemática da Estrutura, Hábitos, Instintos e Usos das principais Famílias do Reino Animal, e das principais Formas de Restos Fósseis.

Revisado por W. S. Dallas, F.L.S. Numerosas Gravuras em madeira.

vols. 6s. cada.

BIBLIOTECAS DE BONN.

OBRAS de CARPENTER.— Continuação.

Filosofia Mecânica, Astronomia e Horologia.

Uma Exposição Popular.

i8i Gravuras em madeira.

Fisiologia Vegetal e Botânica Sistemática.

Uma Introdução Completa ao Conhecimento das Plantas.

Revisado por E. Lankester, M.D., &c. Numerosas Gravuras em madeira.

6s.

Fisiologia Animal.

Edição Revisada.

Gravuras em madeira.

6s,

CHEVREUL sobre Cor.

Contendo os Princípios de Harmonia e Contraste das Cores, e sua Aplicação às Artes; incluindo Pintura, Decoração, Tapeçarias, Tapetes, Mosaicos, Vitrais, Tingimento, Estamparia de Algodão, Impressão Tipográfica, Colorização de Mapas, Vestuário, Jardinagem Paisagística e de Flores, &c. Traduzido por C. Martel.

Várias Pranchas.

Com uma série adicional de 16 Pranchas em Cores, 7. 6d.

HISTÓRIA da MAGIA de ENNEMOSER.

Traduzido por W. Howitt.

Com um Apêndice das mais notáveis e melhor autenticadas Histórias de Aparições, Sonhos, Segunda Vista, Mesas Girantes e Batidas de Espíritos, &c. 2 vols.

INTRODUÇÃO à ASTRONOMIA de HIND.

Com Vocabulário dos Termos em uso atual.

Numerosas Gravuras em madeira.

3. 6d. N.S.

ELEMENTOS de FILOSOFIA EXPERIMENTAL e NATURAL de HOGG (Jabez).

Sendo uma Introdução Fácil ao Estudo da Mecânica, Pneumática, Hidrostática, Hidráulica, Acústica, Óptica, Calórico, Eletricidade, Voltaísmo e Magnetismo.

Gravuras em madeira.

O **Cosmos** de Humboldt; ou, Esboço de uma Descrição Física do Universo. Tradução de E. C. Ottc, B. H. Paul e W. S. Dallas, F.L.S. Retrato. 3 vols. 3s. 6d. cada, exceto o vol. v., 5s.

**Narrativa Pessoal de suas Viagens** na América durante os anos de 1799-1804. Tradução, com Notas, por T. Ress. 3 vols.

**Views of Nature**; ou, Contemplações dos Sublimes Fenômenos da Criação, com Ilustrações Científicas. Tradução de E. C. Otte.

**A Poesia da Ciência** de HUNT (Robert); ou, Estudos dos Fenômenos Físicos da Natureza. Por Robert Hunt, Professor na Escola de Minas.

**Diálogos Científicos** de JOYCE. Uma Introdução Familiar às Artes e Ciências. Para Escolas e Jovens. Numerosas Gravuras em Madeira.

**Introdução às Artes e Ciências**, para Escolas e Jovens. Dividida em Lições com Questões de Exame. Gravuras em Madeira. 3s. 6d.

**Manual do Estudante de Geologia Física** de JUKES-BROWNE. Por A. J. Jukes-Browne, do Levantamento Geológico da Inglaterra. Com numerosos Diagramas e Ilustrações. 6s.

**Manual do Estudante de Geologia Histórica**. Por A. J. Jukes-Browne, B.A., F.G.S., do Levantamento Geológico da Inglaterra e do País de Gales. Com numerosos Diagramas e Ilustrações. 6s.

**O Conhecimento é Poder** de KNIGHT (Charles). Um Manual Popular de Economia Política.

**LIÇÕES SOBRE PINTURA** pelos Acadêmicos Reais, Barry, Opie, Fuseli. Com Ensaio Introdutório e Notas por R. Wornum. Retrato de Fuseli.

**LILLY. Introdução à Astrologia**. Com uma Gramática de Astrologia e Tabelas para calcular Natividades, por Zadkiel.

**Excursões Geológicas** de MANTELL (Dr.) através da Ilha de Wight e ao longo da Costa de Dorset. Numerosas Gravuras em Madeira e Mapa Geológico.

**Medalhas da Criação**; ou, Primeiras Lições em Geologia: incluindo Excursões Geológicas. Lâminas Coloridas e várias centenas de Gravuras em Madeira. 2 vols. 7s. 6d. cada.

**Petrificações e seus Ensinamentos**. Manual para os Restos Orgânicos no Museu Britânico. Numerosas Gravuras em Madeira. 6s.

**Maravilhas da Geologia**; ou, uma Exposição Familiar dos Fenômenos Geológicos. Um Mapa Geológico Colorido da Inglaterra, Lâminas e 200 Gravuras em Madeira. 2 vols. 7s. 6d. cada.

**Jogos de Xadrez** de MORPHY, sendo as Partidas e os Melhores Jogos disputados pelo Campeão Americano, com Notas Explicativas e Analíticas por J. Lowenthal. Com breve Memória e Retrato de Morphy.

**A Terra, as Plantas e o Homem** de SCHOUW. Quadros Populares da Natureza. E Esboços de KOBELL do Reino Mineral.

Trans, por A. Henfrey, F.R.S. Mapa Colorido da Geografia das Plantas.

SMITH'S (Pye) Geologia e Escritura; ou, a Relação entre as Escrituras e a Ciência Geológica.

Com Memória.

STANLEY'S Sinopse Classificada dos Principais Pintores das Escolas Holandesa e Flamenga, incluindo um Relato de alguns dos primeiros Mestres Alemães.

Por George Stanley.

STAUNTON'S Manual do Jogador de Xadrez.

Uma Introdução Popular e Científica ao Jogo, com numerosos Diagramas e Frontispício Colorido.

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Práxis do Xadrez.

Um Suplemento ao Manual do Jogador de Xadrez.

Contendo as mais importantes melhorias modernas nas Aberturas; Código de Leis do Xadrez; e uma Seleção de Partidas de Morphy.

Anotado.

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Compreendendo um Tratado sobre Vantagens, Coleção de Partidas de Match, incluindo o Match Francês com M. St. Amant, e uma Seleção de Problemas Originais.

Diagramas e Frontispício Colorido.

Torneio de Xadrez de 1851.

Uma Coleção de Partidas jogadas nesta célebre assembleia.

Com Introdução e Notas.

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STOCKHARDT'S Química Experimental.

Um Manual para o Estudo da Ciência por meio de Experimentos Simples.

Editado por C. W. Heaton, F.C.S. Numerosos Cortes em Madeira.

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URE'S (Dr. A.) Manufatura do Algodão da Grã-Bretanha, investigada sistematicamente; com uma Visão Introdutória de seu Estado Comparativo em Países Estrangeiros.

Revisado por P. L. Simmonds.

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Filosofia das Manufaturas,

ou uma Exposição da Economia Científica, Moral e Comercial do Sistema de Fábrica da Grã-Bretanha.

Revisado por P. L. Simmonds.

Numerosas Figuras.

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ECONOMIA E FINANÇAS.

GILBART'S História, Princípios e Prática da Banca.

Revisado até 1881 por A. S. Michie, do Banco Real da Escócia.

Retrato de Gilbart.

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BLAIR'S Tabelas Cronológicas.

Compreendendo a Cronologia e História do Mundo, desde os Tempos mais Antigos até o Tratado de Paz Russo, abril de 1856. Por J. W. Rosse.

Páginas, loi.

Índice de Datas.

Compreendendo os principais Fatos na Cronologia e História do Mundo, desde os mais Antigos até o Presente, organizados alfabeticamente; sendo um Índice completo para o anterior.

Por J. W. Rosse.

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J. cada.

BOHN'S Dicionário de Citações dos Poetas Ingleses.

4ª e edição mais barata.

6s.

BUCHANAN'S Dictionary of Science and Technical Terms used in Philosophy, Literature, Professions, Commerce, Arts, and Trades. Por W. H. Buchanan, com Suplemento. Editado por Jas. A. Smith, ds.

CHRONICLES OF THE TOMBS. Uma Seleção de Epitáfios, com Ensaio sobre Epitáfios e Observações sobre Antiguidades Sepulcrais. Por T. J. Pettigrew, F.R.S., F.S.A. 5.

CLARK'S (Hugh) Introduction to Heraldry. Revisado por J. R. Planch6. 5i. 950 Ilustrações.— Com as Ilustrações coloridas. 15s. N. S.

COINS, Manual of.—Ver Humphreys.

DATES, Index of.—Ver Blair.

DICTIONARY of Obsolete and Provincial English. Contendo Palavras de Escritores Ingleses anteriores ao Século XIX. Por Thomas Wright, M.A., F.S.A., &c. 2 vols. 5. cada.

EPIGRAMMATISTS (The). Uma Seleção da Literatura Epigramática dos Tempos Antigos, Medievais e Modernos. Com Introdução, Notas, Observações, Ilustrações, um Apêndice sobre Obras relacionadas à Literatura Epigramática, pelo Rev. H. Dodd, M.A. ts. N. S.

GAMES, Handbook of. Compreendendo Tratados sobre mais de 40 Jogos de Azar, Habilidade e Destreza Manual, incluindo Whist, Bilhar, &c. Editado por Henry G. Bohn. Numerosos Diagramas. 5i. N. S.

HENFREY'S Guide to English Coins. Edição Revisada, por C. F. Keary, M.A., F.S.A. Com uma Introdução Histórica, ds. A'. .?.

HUMPHREYS' Coin Collectors' Manual. Um Relato Histórico do Progresso da Cunhagem desde os Tempos mais Antigos, por H. N. Humphreys. Ilustrações. vols. 5. cada. A'. .S".

BOFFATS LIBRARIES.

LOWNDES' Bibliographer's Manual of English Literature. Contendo um Relato de Livros Raros e Curiosos publicados na ou relacionados à Grã-Bretanha e Irlanda, desde a Invenção da Impressão, com Notas Biográficas e Preços, por W. T. Lowndes. Partes I.-X. (A a Z), 3J. dd. cada. Parte XI. (Vol. de Apêndice), 5. Ou as ii partes em 4 vols., meio marroquim, 2/. is.

MEDICINE, Handbook of Domestic, Popularly Arranged. Por Dr. H. Davies. joa páginas. 5.

NOTED NAMES OF FICTION. Dicionário de. Incluindo também Pseudônimos Familiares, Sobrenomes dados a Homens Eminentes, &c. Por V. A. Wheeler, M.A.

POLITICAL CTCLOPiEDIA. Um Dicionário de Conhecimento Político, Constitucional, Estatístico e Forense; formando uma Obra de Referência sobre assuntos de Administração Civil, Economia Política, Finanças, Comércio, Leis e Relações Sociais. vols. 3. 6ii. cada.

PROVÉRBIOS, Manual de. Contendo uma republicação completa da Coleção de Ray, com acréscimos de línguas estrangeiras e ditados, sentenças, máximas e frases.

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SINÔNIMOS e ANTÔNIMOS; ou, Palavras Afins e seus Opostos, Coletadas e Contrastadas por Ven. C. J. Smith, M.A. 5. N.S.

FIELDING.— Continuado. História de Tom Jones, um Enjeitado. Edição de Roscoe. Ilustrações de Cruikshank. vols. N.S.

BIBLIOTECA DE ROMANCISTAS. 1 Volume a y. 6d. cada, exceto os marcados de outra forma. (2/. I.f. 6(i. por conjunto.)

EVELINA de BURNEY; ou, a Entrada de uma Jovem Senhora no Mundo. Por F. Burney (Mme. D'Arblay). Com Introdução e Notas de A. R. Ellis, Autor de 'Sylvestra,' &c. N.S.

Cecilia. Com Introdução e Notas de A. R. Ellis. vols. N.S.

A Princesa Egípcia de EBERS. Tradução de Emma Buchheim. N.S.

JOSEPH ANDREWS e seu Amigo Sr. Abraham Adams, de FIELDING. Com Biografia de Roscoe. Ilustrações de Cruikshank. N.S.

Amelia. Edição de Roscoe, revisada. Ilustrações de Cruikshank, si. N.S. Tradução.

MARCO VISCONTI de GROSSI. por A. F. D. N.S.

MANZONI. Os Noivos: sendo uma Tradução de 'I Promessi Sposi'. Numerosas xilogravuras, 1 vol. (732 páginas) 5. N.S.

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Parte I. Traduzido, com Introdução, por Anna Swanwick.

A Juventude de Goethe.

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Traduzido por J. Oxenford.

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Traduzidos por J. Mellish e Anna Swanwick.

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Universidade da Califórnia, San Diego

DATA DE DEVOLUÇÃO

SET

OUT 1 Q 198R

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